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29 de agosto de 2007

AS VOZES DO FUTEBOL

O futebol nos é apresentado por várias vozes. Desde as vozes que falam de suas regras, passando pelas vozes que mantêm a disciplina em campo, até as vozes ensandecidas dos fanáticos torcedores. As primeiras são estruturadas, destinadas à perpetuação do jogo, portanto se expressam através da língua culta, onde predomina o referencial lingüístico, numa sintaxe bem definida: uma verdadeira bula, como a que acompanha todos os remédios. Tal comparação não é gratuita, pois lá o leigo vai encontrar, muitas vezes, termos e expressões que estão muito distante de seu vocabulário ativo. Já os que não são do ramo, pouco entenderão. Esta voz disciplinadora que dita as regras do jogo funciona como um sistema fixo, praticamente imutável, a exemplo do que ocorre na língua, que tem sua norma, adotada por uma sociedade, que se serve desse código para a comunicação entre seus indivíduos. Trata-se de uma voz padrão, sem meios termos, sem metáforas, denotativa, portanto. E deve ser assim mesmo, pois essa voz vai descrever um regulamento, base de tudo que acontecerá no decorrer da aplicação desse regulamento nas partidas de todos os jogos oficiais ou não. Vai interpretar os acontecimentos ocorridos e levados a julgamento em instâncias superiores. Será o registro culto da fala do futebol. Assim como a língua, que tem seu registro culto ou popular, de acordo com sua aplicabilidade social, a voz do futebol que estabelece as regras básicas desse jogo, que fala sobre ele nos tribunais, que regulamenta tudo que o envolve, também poderá ser deturpada, estropiada, desrespeitada, falada de maneira bem diferente de como sua gramática quer que seja. Utiliza-se também de outros códigos (língua inglesa) para falar de sua estrutura máxima, enquanto jogo. Muitas vezes essa voz oficial do futebol, sua estrutura definidora do comportamento do jogo, é desrespeitada por seus “usuários”, que muitas vezes, esquecem de algumas de suas regras básicas, pois não as interiorizaram bem, ou não se adaptaram aos seus mecanismos de regência e colocação. Talvez tenham dificuldade em interpretar semanticamente seus significantes e criam, inconscientemente, mecanismos de adaptação. Esses intérpretes, usuários-falantes dessa voz do futebol são aqueles que mantêm a disciplina em campo. São as vozes dos árbitros dos jogos. Se essa voz do futebol, um verdadeiro idioma dentro de outro idioma, portanto uma metalinguagem, se essa voz, insistimos, fosse tão fácil de ser falada, ouvida e entendida não haveria necessidade de constantes justificativas e explicações para as interpretações dos que arbitram as partidas disputadas. Quando tentamos interpretar essa voz, o fazemos, interpretando o resultado da “falação”, isto é, o comportamento do árbitro, enquanto tradutor daquilo que o sistema disse como se “fala”, como tem de ser jogado o jogo, em última análise. Assim, a interpretação da voz do futebol, enquanto regra do jogo, traz à tona comentários lingüísticos da estruturação vocabular que constitui o código de sua especificação.


A voz do futebol que regulamenta o jogo será a voz emanada da FIFA (Federation International de Football Association)


Board é um substantivo inglês, que significa um conselho, associação. Assim, “International board” será “Conselho, associação Internacional”. As regras oficiais do futebol são estabelecidas por um Conselho, por uma associação: o “Board”. Este “Conselho” ou esta Associação agrupa a Associação Internacional de Futebol. Portanto, a “Board” se constitui e é formada pela "The International Football Association Board", pela "Football Association" (Inglaterra), pela "Scotish Football Association", pela "Football Association of Wales", pela "Irish Football Association" e pela "Federation International de Football Association" (FIFA).Cada uma terá direito de fazer-se representar por quatro delegados. Somente na sessão anual geral da Board, poderão ser aportadas modificações nas regras de jogo, desde que as modificações sejam aprovadas por uma maioria de três quartas partes das pessoas presentes e autorizadas a votar. Pelo visto o código é rígido, praticamente imutável ou apresentando mudanças muitos tênues em grandes e longos períodos de tempo. São 17 as regras do jogo. Isso significa que o sistema é fechado. Queremos dizer que com poucos elementos definidos, ordenados e combinados será possível alcançarmos uma gama de combinações enorme, responsáveis pela configuração do jogo. Com o que pode e não pode acontecer em campo, o jogo se arma e sua prática se desenvolve. Já o jogo jogado, dentro destas 17 regras pré-estabelecidas, se apresenta como um sistema aberto, de infinitas combinações, que vão atingir o objetivo da disputa e trarão para esta prática esportiva o conceito de espetáculo, nunca repetido, e sempre diferente. Caso ocorram transgressões às normas estabelecidas elas poderão ficar em experiência até serem completamente absorvidas, tornando-se pertinentes, isto é, significativas para o jogo. Em outras palavras, elas passaram a integrar o “corpus” do jogo e seu uso será logo aplicado. Exemplificamos com a forma de o jogador atrasar a bola para o goleiro de seu time, o que nem sempre aconteceu como hoje.



As vozes dos oráculos eletrônicos são as vozes dos mediadores, locutores e comentaristas de rádio e televisão



Todos os acontecimentos gerados pelo espetáculo esportivo vão ser mostrados ao público em seus mínimos detalhes, tanto pelas narrações radiofônicas, como pelas imagens das câmaras de televisão. Assim, os mass media, como o rádio e a televisão, vão atuar no campo social, como verdadeiros oráculos eletrônicos, mostrando ao ouvinte e ao telespectador, distanciados do palco dos acontecimentos onde as cenas esportivas se desenrolam, todos os lances do jogo. Estes ouvintes e telespectadores serão sempre participantes dependentes, isto é, participantes orientados por um mediador (locutor, comentarista ou repórter) que estará sempre diante dos fatos mais abrangentes e genéricos à sua frente. O distanciamento, que ocorre, impõe ao receptor dois planos que se combinam. Pelas dimensões da tela da televisão ou pela natureza oral do rádio, o receptor estará sempre num segundo plano (no primeiro plano estão os locutores e comentaristas), onde ele não domina o ambiente descrito, mas desfruta de conforto e segurança, vendo e ouvindo. No primeiro plano está a voz da narração dos acontecimentos em campo, que satisfaz plenamente o receptor, porque completa as deficiências do plano em que se encontra.

É por esta combinação que os mediadores vão se transformar em significativos e poderosos senhores, detentores da verdade absoluta, desenrolada na arena dos acontecimentos esportivos. Então, a voz mediadora, tradutora de uma narrativa fantasiosa, hiperbólica, emotiva e, muitas vezes, poética, soa como um canto de sereia, enganadora, mas atraente, porque fala o que o receptor realmente gostaria de ouvir. Surge, assim, uma narrativa, portadora de significados lingüísticos expressivos, que o receptor ouve, guarda e reproduz a posteriori, reproduzindo-os no vocabulário ativo do seu grupo de equivalentes.

Assim, é comum se observar nos estádios de futebol muitos torcedores assistindo às partidas com o radinho de pilhas junto ao ouvido. Eles não se satisfazem somente com o que estão vendo (retorno ao espaço primitivo da humanidade, segundo McLhuhan). A ansiedade de ouvir supera a obrigatoriedade de ver, como se a voz do outro (a voz do mediador, narrador), vinda do oráculo eletrônico, fosse a expressão da suprema verdade, deixando-o à mercê de um entendimento impossível de ser alcançado por sua própria capacidade reflexiva. Isto o torna um súdito dependente, por tudo que o rádio e a televisão empregam, para atingirem seus objetivos, tornando os receptores repetidores passivos e agentes multiplicadores do que ouvem do oráculo, supra-sumo de toda a verdade.


As vozes populares, disseminadoras de um código lingüístico especial

Mas não é só pelo rádio que as partidas de futebol e demais atividades esportivas são transmitidas. A televisão também está presente nas transmissões de quase tudo. A televisão é um meio frio de comunicação de massa (25), fornecendo baixa quantidade de informação, pois, permite mais participação, porque propõe uma complementação informativa, além de incluir o receptor na própria mensagem como um reflexo das ocorrências de suas realidades e experiências cotidianas. Nestes casos específicos, o campo de jogo, mostrado por ela, visto pela minúscula tela (telinha) colorida é a própria realidade com todos os seus sinais arquivados no repertório do telespectador, como arquétipo daquilo que melhor e completamente existe, impossível de ser melhorado. Por estas características e muitas outras, as narrações das partidas de futebol, basquete, vôlei, tênis etc. são diferentes. A falação diminui de intensidade. É muito mais interpretativa do que narrativa. Diminui o ritmo da locução. A descrição dos lances não precisa ter continuidade, pois a imagem "fala" pelos hiatos ocorridos na transmissão, mesmo quando o esporte televisionado é disputado em grande velocidade. Nas corridas de cavalos, mostradas pela televisão, a rapidez impressa à fala dos locutores provém da tradicional linguagem radiofônica que, ainda, não se adaptou ao trabalho do novo veículo, provocando uma aceleração da informação, ao tentar passar para o telespectador a emoção do páreo acontecendo.
Mas pelo poder mágico da imagem da televisão, que atrai o olhar para si e, principalmente, pelos recursos eletrônicos de seus efeitos especiais, este veículo cativa o receptor, tornando-o um entusiasmado repetidor do que vê e do que ouve, para se identificar com a maravilha, tornando-se, também, maravilhoso. Assim, o código utilizado na linguagem da televisão cai no domínio público. É rapidamente assimilado; sai de seu legítimo espaço, invade outras searas e frutifica prodigamente.




As vozes dos fanáticos torcedores







Quem são esses fanáticos torcedores? Em primeiro lugar, vamos dizer que todo e qualquer torcedor de futebol possui uma pré-disposição para se emocionar intensamente com o seu time em confrontos de nenhum, de baixo ou alto risco. Nesses confrontos, muitos torcedores se desesperam e perdem a compostura com a maior facilidade. Se ele possuir um repertório cultural mediano, isto é, se pertencer a uma classe social mais privilegiada, suas manifestações nos estádios serão de pouco impacto. Sua atuação como torcedor não será ofensiva àqueles que os acompanha (Mas, às vezes, há exceções). Em outras palavras, não apresentará um comportamento social desviante. Não extrapolará os limites aceitáveis da sociabilidade. Mas se o torcedor for um indivíduo de repertório pobre, com poucas informações culturais, de baixa escolaridade, pouca cidadania, aí, ele exteriorizará sua emoção de maneira muito primitiva. Expressar-se-á com um vocabulário chulo; seus gestos serão agressivos; sua fúria se transferirá, facilmente, para todos os seus pares e agredirá qualquer um. A torcida adversária reagirá e, então, caso não haja medidas repressivas para intimidar esses atos, a selvageria estará instalada e o tumulto se alastrará nas arquibancadas e em outras partes do estádio, podendo atingir, inclusive, o campo de jogo. Mas não é nosso propósito trilhar os caminhos da sociologia aplicada ao comportamento social esportivo. Aludimos a este componente, porque, da reação dos torcedores, no campo e fora dele, vão surgir expressões lingüísticas impregnadas de exteriorizações psíquicas e apelos contundentes, tornando a linguagem expressiva, podendo, então, surgir termos lingüísticos, os mais significativos, para serem incorporados, muitas vezes, ao vocabulário efêmero do futebol. Sem nenhuma discriminação contra os menos favorecidos ou excluídos, à margem da educação formal, podemos afirmar que as grandes torcidas de massa são, basicamente, formadas por esses elementos, que se unem e, assim, se sentem protegidos pela quantidade e anonimato (muitos usam toucas ninjas), dando-nos a sensação de crêem na impunidade, caso extrapolem seu comportamento, desrespeitando ordens, avisos e até a própria Lei. Isso pode ser observado, pela televisão, vendo as imagens dos conflitos entre torcidas adversárias, nos estádios de todo Brasil, e até mesmo as manifestações de discordância entre membros da mesma torcida de um clube, quando, em campo, o time não rende o que ela, a torcida, quer que ele renda. Não estamos sendo levados só por aparências, pois não vemos corações, só rostos e expressões faciais, mas quando algum repórter entrevista um desses exaltados e fanáticos torcedores, consubstancia-se, por suas palavras, uma linguagem típica de gíria: a gíria do futebol. Esse tipo de linguagem, uma língua falada, estropiada, sincopada, com sintaxe cambaleante, com semântica estrúxula, repleta de figuras de toda ordem, faz com que seja denunciado um típico segmento sócio-cultural, localizado bem ali, nas arquibancadas dos campos de futebol, metamorfoseado em turba anônima, sem rosto, mas compulsivamente debruçada sobre uma paixão exacerbada.

15 de agosto de 2007

BANDEIRA A VIDA INTEIRA


Dois anos antes de sua morte, Manoel Bandeira (para mim o mais clássico dos poetas modernistas) escreveu este sonetilho (versos octossílabos), pressentindo sua partida desse mundo e pedindo a Deus a salvação de sua alma.
Bandeira morreu no Rio de Janeiro, no dia 13 de outubro de 1968, no Hospital Samaritano, em Botafogo e foi sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras.
Cheguei a visitá-lo, na Av. Beira-Mar, alí perto do Aeroporto Santos Dumont. Hoje, arrumando gavetas antigas, recolhi os originais de alguns versos, escritos em um caderno dos tempos de meus estudos para os vários concursos públicos a que me submeti, no então Estado da Guanabara. Faz muito tempo... Lá encontrei o soneto, que transcrevo aqui, escrito após a visita que fiz, com um amigo, ex-aluno de Bandeira, ao apartamento daquele que foi, como disse Carlos Drummond de Andrade, "Bandeira a Vida Inteira"...
A MANUEL BANDEIRA


Tu que fazes verso como quem morre
- Tua boca murmurou prece sentida -
Vai, no prazer de quem a ti recorre,
Vivendo sempre a tua longa lida.

Se a tua lira genial, que o mundo corre,
A ti não perdoou, pois redimida
está a humanidade, que a ouviu e jorre
De dentro de teu ser uma outra vida.

Tua mãe e Maria Cândida que rezem
Para que fiques mais à Terra fixo
E faças versos que solucem amor,

Que seja sempre a tua vida a flor
Que salva o mundo - e onde muitos gemem -
Salvo tu já estás com o CRUCIFIXO.

Rio, 1966.

2 de agosto de 2007

SOBRE O TERMO DEGRAVAÇÃO






“A degravação dos diálogos dos últimos momentos do vôo,

divulgada ontem pela CPI do Apagão Aéreo,

mostra indícios de ao menos duas dessas falhas”

(Karla Correia, in JB ONLINE, 2 de agosto de 2007)


Meu amigo Ivan, além de competentíssimo cirurgião, PhD em neurologia, com tese defendida na USP e com vários cursos de especialização na Alemanha, é um apaixonado pela língua portuguesa, expressão de nossa cultura e pátria de nós todos, brasileiros, portugueses, africanos, asiáticos e até norte-americanos do Havaí, para quem não sabia... (Se mais terra houvera, lá chegara, já dissera Camões) Pois bem! O rapaz ficou angustiado por não ter conseguido encontrar uma explicação para o que lia, num texto sobre o caos aéreo que nos aterroriza e que enlutou o país.

No texto da jornalista Karla Correia, que abre essas considerações, o termo DEGRAVAÇÃO pode causar espanto àqueles que não estão acostumados a encontrar, aqui e ali, e até, muitas vezes, na linguagem jornalística, neologismos os mais estranhos. Alguns até interessantes, outros completamente dispensáveis. Mas não é só na linguagem jornalística que vamos encontrar essa forma de aumentar o léxico da língua. Aliás, o léxico de uma língua se amplia por inúmeros processos de formação de palavras, e o neologismo é um deles. Mas, voltando aos comentários, tenho observado que as linguagens que mais apresentam esse tipo de criação vocabular são as dos discursos políticos, onde muitas coisas acontecem e surgem como expressividade. O problema é que, como já dissemos, há coisinhas e mais coisinhas que não são muito expressivas... Quando um candidato a um cargo público, não muito letrado, ou completamente ignorante de seu idioma pátrio, se dirige, do alto do palanque, ao seu público, pode criar termos inusitados, além, é claro, de estropiar a regência e a concordância verbais e nominais do pobre idioma. Isso é muito comum, hoje em dia. Um político com um microfone nas mãos, em ambiente aberto ou fechado, é um perigo incomensurável para a nossa sintaxe. Estão lembrados do famigerado IMEXÍVEL do ex-ministro Rogério Magri? Ele havia dito, um dia, que seu chefe era "imexível". Pois bem, com esse caso de criação vocabular o ministro passou para a história e o seu chefe sumiu nos subterrâneos do anonimato, mostrando que chefe, na política, é mais para receber D.A.S. do que para exercer comando, mando e controle sobre as coisas da “res publica”. IMEXÍVEL segue a deriva da língua, obedecendo ao processo de formação de palavras, por meio de prefixação, como "intocável", "inegociável", "ilegível" etc. Pronto, meu caro amigo Ivan, o “palavrão” foi resgatado e está fagueiro, freqüentado as listas dos regenerados... Agora vejamos o tal vocábulo DEGRAVAÇÃO. Pelo que se pode entender, no contexto em que foi empregado, o diálogo entre os pilotos e a Torre de Comando foi gravado (houve uma gravação) na Caixa Preta do Airbus da TAM, talvez numa codificação especial, diferente da de um simples gravador de uso comum. Codificação é o ato ou efeito de codificar, que significa construir mensagens segundo um código acessível ao destinatário, escolhendo os sinais ou signos correspondentes ao conteúdo da mensagem na ordem correta e introduzindo-os no canal. Estão, portanto, apresentados alguns elementos básicos do processo da comunicação: a mensagem; o código; o canal. Já o processo de tradução do que foi codificado será a decodificação, isto é, a conversão da mensagem codificada em linguagem inteligível. Isso só para ficarmos nessa introdução à Teoria da Comunicação, dentro do esquema de Shannon & Weaver. Mas que parte da palavra DECODIFICAÇÃO deu a idéia de TRADUÇÃO, de retirar a codificação realizada? Claro que foi o prefixo DE. O mesmo caso em: DECIFRAR (DE + CIFRAR). Muitas vezes o prefixo DES é usado em lugar de DE. Meu querido e saudoso Mestre, Sílvio Elia, grande filólogo da língua portuguesa, preferia DESCODIFICAÇÃO a DECODIFICAÇÃO. Quando usamos o verbo GRAVAR, indicando marcar, imprimir, empregamos como antônimo o verbo DESGRAVAR, isto é, desfazer a gravação. DEGRAVAÇÃO é isso, meu amigo, um neologismo formado dentro da deriva da língua, faltando somente o uso e o registro desse uso. Não se desespere, pois a nossa língua, a todo instante, está nos pregando cada susto! E não são só certos tipos de políticos apedeutas de Brasília que poluem nossa língua! O novo ministro da Defesa, homem culto, de voz impostada e doutor nas leis maiores, também tropeçou no SOB e tacou um baita e indisfarçável SOBRE, falando ao Jornal Nacional. Vocês perceberam? Mas o que eu queria mesmo era criar um neologismo gigantesco, daqueles que nunca mais deixasse de ser usado e ficasse eternamente ecoando nas nossas mentes... Sabem qual seria? DESLULARIZAR. Vamos, minha gente, vamos DESLULARIZAR o Brasil!

17 de julho de 2007

CULINÁRIA PORTUGUESA II

Já escrevi uma crônica sobre a Culinária Portuguesa, no jornal português O PROGRESSO DA FOZ e a republiquei aqui nesse BLOG. Hoje, reproduzo essa matéria recebida diretamente da “terrinha”. Depois vou fazer os comentários filológicos, mas, por enquanto, o mais importante é verificar, de maneira engraçada, que a mesma língua portuguesa, nos dois países irmãos, apresenta uma semântica bem diferente.
Acredite, as denominações estão corretas. Se você pedir qualquer destes pratos em qualquer restaurante em Portugal, vai ser atendido sem nenhuma risada do garçom.
O que vai almoçar hoje? Há muitos motivos para se visitar Portugal. Mas um deles é, com certeza, a culinária regional. E como os prazeres da mesa merecem ser compartilhados, faço a minha sugestão para um almoço à portuguesa aí na sua casa.
Lá vai:
1- AperitivoPunheta de Bacalhau. Enquanto faz o almoço, nada melhor do que reunir os amigos para uma punheta rápida. É um bacalhauzinho desfiado, temperado com cebola, azeite e vinagre. Simples e dá muito prazer. Fácil de fazer, é uma boa opção para os solitários.

2-Entrada Sopa de Grelos ou Sopa Seca que se Agarra às Costas. Por alguma razão, a sopa de grelos é a preferida dos marmanjos. Já os que não se importam de ter algo agarrado às costas preferem a segunda sopa, típica da Beira-Litoral e feita à base de feijão e pão.

3- Prato principal Arroz de Pica no Chão. É uma especialidade da região do Entre-Douro e Minho, no Extremo-norte do país. O Arroz de Pica no Chão é feito à base de frango e toucinho, levando os devidos condimentos. É um prato delicioso, mas um tanto pesado e por isso deve ser apreciado com moderação, em especial por quem gosta de um "rala-e-rola" depois do almoço. Com Pica no Chão a coisa fica mais difícil .

4- Acompanhamento Caralhotas ou Cacetes. Uma refeição portuguesa tem sempre pão à mesa. As caralhotas são pequenos pães típicos da região de Almeirim. Já os cacetes são comuns em todo o país. É fácil encontrar um português com o cacete na mão.

5- Bebida - Vinhos Portugueses. Os vinhos são classificados por regiões e há para todos os gostos. Como é sempre verão no Brasil, talvez seja bom optar por um vinho com aspecto mais leve e feminino. Pode escolher um Monte das Abertas, um Monte dos Cabaços (Alentejo), um Quinta da Pelada (Dão) ou, talvez, uma Garrafa de Rapadas (Ribatejo). Mas, se insiste em uma bebida mais encorpada e masculina, uma boa opção pode ser o Três Bagos (Douro). Ou, ainda mais intenso, um Terras do Demo (Beiras).

6- Sobremesa Mamadinhas da Pousadinha de Tentúgal ou Espera-Marido à Transmontana. A confeitaria portuguesa é muito rica e os doces conventuais são mesmo um objecto de culto. O Espera-Marido é um doce simples que se faz com açúcar, ovos e canela em pó. Já a mamadinha é uma das maiores delícias surgidas nos conventos.

7- Digestivo Licor de Merda. É uma bebida da região de Cantanhede, feita à base de leite, baunilha, cacau, canela e frutas cítricas. Quem experimentou diz que é uma merda, mas muito gostoso. É como diz o velho ditado: "Eu, por exemplo, gosto de comer sapateiras, madalenas e trouxas".

8-E tem também "água mineral PENACOVA, a eterna pureza da Serra do Buçaco" .

Ass. José António Baço, jornalista e publicitário.

6 de julho de 2007

UM NOME DE MULHER



Num dia frio de chuva irritante, arrumando umas caixas e tirando a poeira de umas fotografias antigas, comecei a sentir saudade. É isso mesmo! Gosto do pretérito. Sempre tive uma profunda vontade de viajar no tempo, principalmente para o passado. Aquelas fotos - agora quase todas são digitais - ainda estavam em bom estado, pois o papel fotográfico era de primeira qualidade. Que emoção! Estava em Lisboa e passeava todos os dias por seus arredores, procurando tudo que pudesse me extasiar. Verdadeiramente consegui! Naquele papel brilhoso, de tamanho 10 x 15, identifiquei um mosteiro santo de doces lembranças. Eram quitutes para ninguém botar defeito. Uma delícia! Estava em Odivelas, envolvido por sua história e por seu rei-poeta, o impulsionador do progresso, que erguendo mosteiros e igrejas, atraiu muitos monarcas, príncipes e artistas para a região. Andava pelos dolmens das Pedras Grandes e por terrenos das fabulosas batalhas ali travadas entre fortes e nobres combatentes. Pisava em pedras de templos romanos, onde um dia o povo que ali viveu respirou a beleza do mármore, cantou ao som da lira e a brisa temperada do verão amenizou, como de costume, os trabalhos do campo. Recordando esse passado de feitos petrificados nos livros escolares, lembrei-me de que foi no Paço de Odivelas, em 1415, que Dona Filipa de Lancastre, no leito de morte, abençoou seus filhos D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, que partiram com Deus e a cavalo, em direção ao Restelo, onde embarcaram para Ceuta. Então, percebi outra coisa interessantíssima. Uma espécie de superstição, vinculada ao nome Isabel, que me acompanha, há alguns anos, envolvendo-me numa atmosfera de relaxamento e alegria. Esse nome de mulher chegou à língua portuguesa, lá pelo século XIII, do espanhol, Isabel, vindo pelo francês Isabelle, sendo as formas mais antigas Ysabel e Isabeau. Posso até dizer que esse nome me perseguiu e me deu sorte. No Rio de Janeiro, morei, por mais de vinte e oito anos, no bairro boêmio de Vila Isabel. Lá, vivi muito feliz e fiz inúmeras amizades. Tenho uma neta que se chama Maria Isabel, linda e muito inteligente. Ela sempre vem passar conosco as férias escolares, por estas bandas do sul do país, onde vivo agora, alegrando nossa casa com sua ativa presença, reconfortando-nos de quaisquer aborrecimentos ocorridos nessas plagas de cultura estranha e interiorana. Sua presença faz cessar esses incômodos, que passam logo e desaparecem completamente com a tagarelice de sua vozinha fina e sorridente. O nome próprio Isabel ocorre em minha família, atualmente, em mais de cinco pessoas e deixou seu registro em muitos parentes próximos, lá nas folhas amareladas dos cartórios de algumas cidades do interior longínquo. Esse nome da princesa brasileira, a Redentora, filha de D. Pedro II, é, também, o nome de uma santa, rainha de Portugal, de origem aragonesa, nascida em Saragoça, no século XIII, em 1271, filha do rei Pedro II de Aragão e Constança da Sicília. Santa Isabel casou-se aos 17 anos, por procuração, com Dom Dinis, rei de Portugal, homem de muita cultura e um dos maiores representantes da poesia trovadoresca, de visão ampla, mas de vida um tanto quanto desregrada. A bondade e a piedade de Isabel contrastavam com a avidez por prazeres e com as inúmeras incursões extraconjugais do rei. Segundo a lenda, conta-se que sabendo a Rainha que o marido ia constantemente visitar as damas de um determinado sítio, em vez de recriminá-lo, dizia, angelicalmente: “Ide vê-las, senhor.” Daí, por corruptela popular, teria nascido o nome da cidade de Odivelas. Essa etimologia é muito mais bela do que dizem os filólogos. Eles só estão interessados em vogais átonas, consoantes mudas, mutações vocálicas no árabe e muitas outras coisas sem nenhuma graça e poesia. Então, Odivelas e Isabel, dois nomes próprios de instigantes significados para mim, me vêm à mente, trazendo lembranças de doces e mimos familiares. Os famosos doces, produzidos nos mosteiros e conventos dessa cidade portuguesa, sempre foram mantidos em segredo durante muito tempo, mas não resistiram aos cochichos das cozinheiras e as receitas vazaram, chegando ao conhecimento do grande público. Assim, esses segredos se transformaram em clássicos da doçaria sazonal, como o arroz-doce, o pão-de-ló, a aletria e tantos outros. Seguindo a tradição deixada, por exemplo, pelo Mosteiro de S. Dinis, ocupado pelas monjas até ao século XIX, Odivelas orgulha-se da sua doçaria conventual e do fabrico de especialidades, como a marmelada e o doce de abóbora. Já o nome de mulher Isabel ficou ainda mais vibrante em meu coração, depois da sessão de nostalgia e história, motivada pelas fotos que eu tirei, há muito tempo, em Odivelas, situada na área da Grande Lisboa e que está, indelevelmente ligada ao nome Isabel, de que minha família tanto gosta, e, também, relacionado à vida da santa portuguesa de Aragão, a rainha da paz, morta no dia 4 de julho de 1336.

9 de junho de 2007

PARABÉNS, LÍNGUA PORTUGUESA. HOJE É O SEU DIA - 10 DE JUNHO



A história da língua portuguesa se funde com a própria história de Portugal e remonta a mais de mil anos, no tempo em que os árabes dominavam a península ibérica. Nas lutas pela reconquista dos territórios ocupados pelos árabes, Dom Henrique, conde de Borgonha, se destacou como bravo guerreiro e recebeu, como prêmio aos serviços prestados à coroa e à causa peninsular, a mão da filha bastarda de Dom Afonso VI, rei de Leão e Castela, Dona Tareja. Como dote foi dado a Dom Henrique parte de um território da região da Galiza, o Condado Portucalense, situado entre o Minho e o Vouga. Do casamento nasceu um menino que recebeu o nome do avô, Afonso e o nome do pai, Henrique. Chamou-se Afonso Henriques. A forma Henriques com ES no final do nome próprio significava FILHO DE. Portanto, Afonso Henriques, neto de Afonso VI e filho de Dom Henrique, conde de Borgonha. Afonso Henriques, mais tarde, rompeu com Castela, lutou contra os exércitos da própria mãe e se fez proclamar rei do condado Portocalense, surgindo, assim, Portugal.

Afonso Henriques foi, portanto, o fundador da nacionalidade portuguesa. Habitou o Castelo de Guimarães, onde nasceu Portugal, hoje, ícone emblemático da nacionalidade portuguesa. Com o desabrochar da nova nação, compreendida na faixa ocidental da grande Hispânia, surgia também o desejo de uma identidade própria. Não foi difícil, visto que naquela região já havia um falar diferente de todos os outros: o galego-português. São do século XII os primeiros textos do novo idioma que nascia, dando identidade lingüística ao povo de Portugal.

Vocês já ouviram falar na Canção da Ribeirinha? Pois bem, trata-se do primeiro documento poético escrito em língua portuguesa. O português vai se cultivar na poesia, na boca dos poetas palacianos, os trovadores. Os reis seguirão o exemplo e se entregarão também às canções de amor e de amigo, de escárnio e de mal-dizer. Mais tarde surgem as novelas de cavalaria e nasce o teatro das ruas, com uma linguagem híbrida e viva, vinda do povo, para o povo, tendo em Gil Vicente o nome de maior expressão. Mas será Luís de Camões quem dará brilho e fulgor ao idioma lusitano. Não por menos, será considerado para sempre o maior gênio da nacionalidade. Unificada, estruturada, servindo de exemplo para a norma culta, a língua de Camões embarcou nas caravelas para África, Ásia e chegou ao Novo Mundo, com Pedro Álvares Cabral. Levou a todo o mundo os hábitos e costumes do grande povo português... “Se mais terra houvera, lá chegara” disse Camões em sua imortal obra, Os Lusíadas.
Os povos que receberam a língua de Camões por herança, conheceram a doçura de suas palavras, os encantos melódicos de sua sintaxe e deram-lhe as nuanças das terras ultramarinas. Hoje é a terceira língua mais falada no planeta e os que a amam sabem que, apesar de ter sido considerada poeticamente por Olavo Bilac como a “última flor do Lácio”, não é inculta, mas vigorosamente bela.

Hoje é o seu dia, língua de nossos irmãos de aquém e além mar. Língua de minha pátria, língua de minha mãe, língua de meus filhos e netos... Língua da igualdade, que uniu povos e continentes, e forjou o significado enigmático da SAUDADE.
Até a próxima.

PIRATARIA x CIDADANIA



Não sei se o que eu ouvi ontem, no jornal da TV local, creio que na Record, em Balneário Camboriú, é fruto de um despreparo total da população para o exercício da cidadania, ou se foi um caso isolado, pontual, como agora é moda se falar na mídia, quando o tema é política. O fato me chamou a atenção por dois motivos. O primeiro foi a notícia em si, quando o apresentador, o âncora do noticiário daquela emissora, disse que a partir desse próximo sábado, dia 9 de junho de 2007, todos os produtos piratas seriam apreendidos por turmas de fiscais da Fazenda. Até aí, tudo bem! Mas acrescentou o nosso locutor: “os moradores de Balneário Camboriú têm todo o dia de hoje para comprar seus CDs, DVDs, e componentes eletrônicos de toda ordem por preços baratíssimos”. Disse isso porque a Prefeitura alertou, com antecedência, todas as barraquinhas dos camelôs que a venda de produtos sem Nota Fiscal estaria proibida e quem não atendesse a essa ordem seria multado e seu estabelecimento comercial fechado. Pensei imediatamente por que só a partir do dia seguinte? Ou isso é crime ou não é, independentemente da época, dia, mês e ano! Percebi também que a Prefeitura tinha pleno conhecimento dessa prática, fato totalmente lamentável, sob todos os sentidos. Mas a matéria continuou com um repórter entrevistando, no local, o Camelódromo Central da Praça da Igreja, vários comerciantes e fregueses, que chegavam até a fazer filas para comprar toda sorte de pirataria eletrônica. O segundo fato que me indignou foi quando começaram as entrevistas. O repórter entrevistou uma lojista que se expressou, num português bem estropiado, sem muita concatenação de idéias, sua indignação pela tal medida moralizadora das autoridades fazendárias do Município. Disse que os CDs originais são muito caros e a população não tem dinheiro para adquiri-los. Defendeu a pirataria e o contrabando de produtos eletro-eletrônicos, vindos do Paraguai, tudo para poder facilitar a vida sofrida do consumidor brasileiro de baixa renda e explorado pelas casas comerciais convencionais, que vendem tudo muito caro, voltando a insistir. Foi mais ou menos essa a tradução que fiz de seu caçanje estropiado. E mais, propôs ali mesmo que se fizesse um abaixo-assinado, pedindo ao governo a liberação da pirataria e da prática do contrabando... Um horror! Mas, pasmem! Uma senhora que se identificou como professora, pegou do microfone do repórter e improvisou um libelo à repressão a todas as práticas de pirataria e contrabando. Disse que assinaria a tal lista e repetiu que esses produtos falsificados eram baratos e os originais muito caros. Tive pena de nossa sociedade e de nossos estudantes, que recebem, certamente, essa e muitas outras informações destorcidas de cidadania. Ninguém, nem mesmo os repórteres e o âncora da Tv deixaram no ar um resquício de repúdio a essa total desinformação.
Se estivesse lá, tentaria convencer os comerciantes do camelódromo a fazerem um abaixo-assinado, isso sim, pedindo às autoridades a redução nos impostos que incidem sobre todos os nossos produtos industrializados e comercializados. Impostos esses os mais caros do mundo. Mas, para isso o povo tem, em primeiro lugar, de se instruir, de preferência em escolas, onde professoras, com aquela mentalidade, não serviriam nem para distribuir a merenda...
Até a próxima!


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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.