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29 de setembro de 2009

A DIDÁTICA DO PALAVRÃO

Em Jaraguá do Sul, alguns professores do Colégio Evangélico Jaraguá, incomodados com o linguajar sujo dos estudantes resolveram adotar uma punição inusitada: multar em R$ 0,10 por palavrão emitido. Isso foi notícia há dois anos e saiu no G1, portal da Globo.com . Na ocasião, muitos alunos disseram que a medida teve efeito, mas a prática foi condenada por especialistas. Agora, o palavrão foi, praticamente, institucionalizado nos livros didáticos, distribuídos às escolas públicas.
Que se pronunciem, mais uma vez, os especialistas.

Vejam como anda a nossa sociedade. Agora até o palavrão se institucionalizou. Aparece nos livros didáticos, distribuídos pelo Mistério da Educação, em textos para estudo nas aulas de Português e nas páginas dedicadas aos estudos matemáticos. Depois de algumas reclamações, ouviu-se esta pérola oficial das autoridades governamentais: ESSES LIVROS SÓ PODEM SER MANUSEADOS POR CRIANÇAS MAIORES DE 15 ANOS. Realmente, não podemos mais tolerar um desgoverno desse tipo. A permissividade chegou ao sacrossanto templo do saber, a escola. Mas, sabemos todos que esta instituição não funciona, há muitos anos em todos os níveis. O ensino fundamental é uma vergonha, pois a grande maioria dos professores que lá atuam são leigos, isto é, não têm formação específica. No Ensino Médio o tripé que sustenta a educação – FORMAÇÃO ESPECÍFICA DO PROFESSOR, CONDIÇÕES DE TRABALHO, REMUNERAÇÃO ADEQUADA – falha redondamente em quase todas as escolas brasileiras, pois são, também, inexistentes as políticas públicas para o ensino e a educação. No terceiro grau, o Ministério da Educação está sempre desqualificando Faculdades e Universidades particulares (e isso é um dos poucos méritos dessa entidade) por apresentarem fraquíssimo rendimento em seus estabelecimentos. As escolas públicas de todos os níveis, quer sejam federais ou estaduais, estão sucatedas, pichadas, abandonadas, largadas, furtadas, sempre assaltadas, com seus alunos em lutas corporais, mães incitando as brigas, com ocorrência de crimes hediondos em suas dependências, mantendo seu corpo discente em constante tensão emocional. Daí
um baixíssimo rendimento em quase todas as disciplinas. A falta de professor é também fruto desses acontecimentos extra-sala-de-aula, além da ausência de um plano de carreira sério para o magistério. O professor também é vítima do ensino que o prepara. É uma metalinguagem pedagógica às avessas, pois é a pedagogia deixando de falar da pedagogia. Para o aluno ter acesso à Universidade, daqui a algum tempo, bastará saber praticamente nada ou melhor, ser negro, pardo ou ter decorado o CEP de sua residência. Estamos quase chegando lá! Um horror! Agora vem essa notícia de palavrões nos livros didáticos e sua liberação após os quinze anos de idade. Convenhamos, a linguagem chula existe e é até estudada linguísticamente, mas deve ser evitada na vida social culta, pois denota falta de civilidade, educação e um paupérrimo vocabulário. A escola é o espaço institucional básico, por excelência, para a transmissão da língua pátria, do saber oficial e de todos os demais códigos sociais, indispensáveis à aceleração do progresso material e espiritual de todos nós. A linguagem de baixo calão pode ser explicada nas aulas de português, mas não deve estar materializada na língua escrita dos compêndios didáticos, pois o que é ensinado na escola é reproduzido nas casas dos alunos, verdadeiros agentes multiplicadores de tudo que ouve, vê e pratica em seu ambiente escolar. O que está faltando em nossos jovens dirigentes políticos, conselheiros técnicos, coordenadores pedagógicos, dirigentes de classes operárias, presidentes de variadas associações, formadores de opinião, produtores culturais e quaisquer responsáveis por tudo que ocorre no conturbado universo do psicossocial é uma urgente reciclagem sobre os conceitos básicos do humanismo, entre tantos outros temas importantíssimos, tudo desaparecido de nosso convívio, há muitos e muitos anos, desde a retirada do Latim do currículo de nossas escolas de ensino médio, nos idos de 1960. Uma pena!


ATÉ A PRÓXIMA

16 de setembro de 2009

ETIMOLOGIA POPULAR REVISTA COM SEGURA ERUDIÇÃO LINGUÍSTICA

Cada povo tem uma lógica diferente no que diz respeito ao seu relacionamento com a realidade circundante. Os povos primitivos têm uma lógica diferente, sob este aspecto, muito distante da lógica exercida pelo pensamento do homem europeu, colonizador das Américas, por exemplo. Assim, o grupo étnico tupi se comportava de maneira diferente do europeu conquistador, dominador e de uma cultura, erroneamente dita superior. Superior só poderia ser entendido como acúmulo de experiências específicas. O resultado desse relacionamento histórico se expressou através das línguas em confronto, o tupi e o português. É sempre bom lembrar que o povo esquimó tem mais de uma centena de termos para expressar o conceito de neve, pois vive envolto em um mundo branco de gelo. O índio brasileiro vivia, do mesmo jeito, envolvido por um mundo verde de matas cobrindo vales e montanhas. Seu modo de interpretar essa realidade, isto é, a lógica lingüística que usava para nomear as coisas desse mundo era uma das características toponímicas que marcavam os nomes das paragens por onde vivia e por onde passava em sua trajetória nômade, atravessando os verdejantes vales e as densas matas das terras de Ibirapitanga. Os dois povos, colonizados e colonizadores, num determinado momento de co-existência, nem sempre pacífica, se comunicavam com os códigos lingüísticos das duas línguas, o que vale dizer que o Brasil foi, num dado período de sua história, bilíngüe. Pelo menos a classe dominante, que comercializava e se relacionava com os povos indígenas entendia e se expressava também em tupi. Isso significa que termos da língua ágrafa tupi passaram para o português, num processo lingüístico conhecido como substrato. Mas é sempre importante lembrar que muitos topônimos com raízes tupis formaram vocábulos locativos, dados pelo homem branco, sem aquele entendimento especial que o índio tinha do espaço geográfico circundante. Comentei um desses casos no Congresso Internacional Comemorativo dos 500 do Descobrimento do Brasil, em 2000, na Universidade do Estado do Rio de janeiro (UERJ), a respeito do topônimo Ibicuí, distrito do município fluminense de Mangaratiba, ao sul do Estado. Com essa compreensão etnolinguística, Lino João Dell’ Antonio apresenta seu livro NOMES INDÍGENAS DOS MUNICÍPIOS CATARINENSES – significado e origem – , editado pela Odorizzi Editora, Blumenau, 2009. O livro apresenta uma interessante abordagem sobre a etimologia de muitos nomes indígenas que entram na composição da nomenclatura de vários municípios catarinenses. A novidade é o enfoque antropolinguístico, reconstituindo origens, muitas dadas como definitivas. Aliás, em etimologia, nada é rigorosamente definitivo, principalmente tratando-se de étimos presos a línguas ágrafas, como é o caso do tupi. A cosmovisão do índio brasileiro é totalmente diferente da do homem branco, haja vista as inúmeras lendas sobre a criação do mundo e muitos mitos sobre incríveis seres que povoam o imaginário de nossos silvícolas. Partindo, portanto, de pesquisas de campo e com um abalizado foco antropológico, tudo aliado a uma segura abordagem lingüística do problema, Lino João Dell’ Antonio apresenta um trabalho sério, científico, com metodologia apropriada à sua pesquisa e mostra, inclusive, inúmeros casos de corruptelas linguísticas, casos interessantíssimos relacionados com uma ultra-correção antropo-etinológica com implicação direta na formação dos vocábulos toponímicos. Pode-se dizer, sem dúvida alguma, que se trata de importante hipótese, destruidora de inúmeras etimologias populares, mostrando que a ultra-correção pode ser, além de lingüística, também e sobretudo, nesses casos, antropológica. Desta forma, temos um exemplo nas mãos de como se trabalha seriamente com as ferramentas que a Lingüística oferece ao estudioso culto e preparado. Esse livro é uma significativa pesquisa aplicada às línguas de nossos habitantes pré-cabralinos, escrita e publicada fora do eixo cultural Rio-São Paulo. Vamos ler e conferir.
ATÉ A PRÓXIMA

21 de agosto de 2009

PROFESSOR ? PROFESSOR DE QUÊ ?

O Brasil tão cedo não atingirá a excelência de vida no campo psicossocial, pois negligencia, há muitos anos, com a educação. Hoje, com mais de 16 milhões de analfabetos em todas as idades, não cuida das escolas, das bibliotecas, da cultura, do patrimônio histórico, da merenda escolar e dos professores. A profissão de professor é, atualmente, considerada de alto risco. As escolas públicas estão quase todas elas depedradas, pixadas, deterioradas, arrombadas, furtadas e sem direção. O pânico instalou-se no sacrossanto ambiente do saber, totalmente esquecido e abandonado pelas autoridades, em todos os níveis. Não me venham dizer que esse quadro só é encontrado nas periferias das grandes e violentas cidades, nos bairros menos favorecidos pela situação econômica de seus habitantes, porque isso não é verdade. Estou, há alguns anos morando no sul do Brasil, onde o padrão de vida do povo é bem razoável, e observo nas pequenas e bem estruturadas cidades como, por exemplo, as do Vale do Rio Itajaí-Açu, em Santa Catarina, a mesma deteriorização do ensino. Lá, o que vemos é o total abandono do sistema educacional público de Primeiro e Segundo graus, responsabilidade municipal e estadual, evidentemente. As universidades federais também vêm sofrendo a sucatização de seu patrimônio e, identicamente, se apresentam em péssimo estado de conservação, desprezando seus professores, deixando-os sem condições de progredirem, por falta de programas bem executados de capacitação do docente. O abandono do ensino fundamental público se reflete nos prédios parcialmente destruídos e, principalmente, no quadro do magistério sem chances de crescer intelectualmente e, quase sempre, despreparado. Os professores de todas as matérias falam errado o português, contam nos dedos para fazer contas, não sabem se localizar geograficamente, não escrevem corretamente, desconhecem a história de suas cidades, de seu Estado e de seu país. Um horror! O alunado domina seus mestres, intimida os que tentam impor disciplina, a direção das escolas não encontra no poder público respostas às suas reivindicações para minimizar, pelo menos, a terrível situação material e moral por que passa essa importantíssima instituição, a ESCOLA. Em síntese, estabeleceu-se o caos no ensino. Não há saída a curto e médio prazo para se reverter esse quadro atual. Vamos a casos concretos. Hoje, no noticiário da tarde da Rede Globo de Televisão apareceu uma reportagem sobre a triste situação das salas de aula de Santarém, oeste do Estado do Pará. Alunos assistindo às aulas embaixo e no alto das árvores. Novo método de ensino? Método grego peripatético de Aristóteles? Quem dera! E por aí vai! Os prédios escolares são assaltados e rolbados a toda hora. A informática ainda teima em não aparecer nessas tristes escolas. No "Jornal De Santa Catarina", também de hoje, dia 21 de agosto de 2009, aparece a seguinte manchete: PRESSÃO E ESTRESSE TIRAM PROFESSORES DAS ESCOLAS. São 94 professores de 19 municípios do Vale do Itajaí que estão de licença para tratamento de saúde. Basicamente estresse, por motivo de tensão em sala de aula, sofrendo todos eles com a violência que assola o ambiente escolar dessa linda região catarinense, sem tradição nenhuma, até hoje, no rol do noticiário de violência explícita, que graça em toda a nossa sociedade. A total falta de incentivo ao magistério e ao auxílio pedagógico levaram os professores do Vale a adoecerem. Como a saúde mental não é considerada doença pelos gestores da educação, esta situação é interpretada como falta de vontade de trabalhar, para não dizer que os professores são, na verdade, um bando de vagabundos. É triste, mas é a pura verdade. Em Balneário Camboriú, uma professora do Primeiro Segmento do Primeiro Grau, depois de abandonar a sala de aula, sem dar nenhuma satisfação (abandono de emprego mesmo) à Prefeitura, para acompanhar o marido em outro Estado da Federação, voltou um ano e seis meses depois, e teve, a pedido, seu ingresso aceito imediatamente, para trabalhar, porque não havia um único mestre na atividade para a primeira série, pois quase ninguém quer mais nada com o magistério por aqui. Processo administrativo pelo ocorrido? Nem pensar! Aliás, em frente ao meu prédio presenciei uma briga feia entre estudantes adolescentes de uma escola municipal. Meu visinho notificou a Direção do estabelecimento e recebeu a informação que nem dentro e nem fora da Escola nada poderia ser feito, pois os alunos são mesmo brigões e briga é assunto da polícia e não da escola. Ficou por isso mesmo. É o fim. Triste país esse que não investiu nem investe em Educação. Não temos uma política definida sobre isso. Uma pena! Enquanto a mentira graça nos três poderes da Nação e a verdade, na boca dos homens sérios, não vale nada, vamos aturando essa situação vergonhosa de falta total de competência das autoridades educacionais. O pior é que a mídia já se acostumou a achar que política é assim mesmo, tudo cheio de manobras regulamentares, recursos, mentiras e questões de ordem pra todo o lado. Acham isso tudo muito natural... O Brasil é mesmo reflexo dessa nossa atual sociedade. E viva os patifes eleitos pelo povo, que perguntam o que devem fazer para não serem constantemente denunciados à opinião pública como vilões de fraudes de todos os tipos. Resposta: não roubem, não mintam, não sejam dissimulados, trabalhem, cumpram seus deveres, sejam justos... Não é, Senador José Sarney? Não é, Senador Renan Calheiros? Não é, Senador Fernando Collor de Melo? Não é, senhores políticos de meia tigela? Pobre Brasil!

*Foto de O GLOBO


ATÉ A PRÓXIMA







27 de julho de 2009

VIVA O ENSINO BRASILEIRO DE TODOS OS GRAUS



Nesse fim de mês recebi um e-mail de uma colega da Academia Brasileira de Filologia no qual a ilustre acadêmica me mostrava um relato de uma professora de matemática. Cito os dizeres do que recebi:

“Semana passada comprei um produto que custou R$ 1,58. Dei à balconista R$ 2,00 e peguei na minha bolsa 8 centavos, para evitar receber ainda mais moedas. A balconista pegou o dinheiro e ficou olhando para a máquina registradora, aparentemente sem saber o que fazer. Tentei explicar que ela tinha que me dar 50 centavos de troco, mas ela não se convenceu e chamou o gerente para ajudá-la. Ficou com lágrimas nos olhos enquanto o gerente tentava explicar e ela aparentemente continuava sem entender. Por que estou contando isso?Porque me dei conta da evolução do ensino de matemática desde 1950, que foi assim:
1. Ensino de matemática em 1950.
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda. Qual é o lucro?
2. Ensino de matemática em 1970.
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda ou R$ 80,00. Qual é o lucro?
3. Ensino de matemática em 1980.
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é R$ 80,00. Qual é o lucro?
4. Ensino de matemática em 1990.
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é R$ 80,00.
Escolha a resposta certa, que indica o lucro:
( )R$ 20,00 ( )R$40,00 ( )R$60,00 ( )R$80,00 ( )R$100,00.
5. Ensino de matemática em 2000.
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é R$ 80,00. O lucro é de R$ 20,00. Está certo?
( )SIM ( ) NÃO.
6. Ensino de matemática em 2007.
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$100,00. O custo de produção é R$ 80,00. Se você souber ler, coloque um X no R$ 20,00.
( ) R$ 20,00 ( ) R$40,00 ( ) R$60,00 ( ) R$80,00 ( ) R$100,00
".

Parece uma piada de mau gosto, mas é a pura realidade. Eu também sou testemunha dessa degradação do ensino na minha área, a Língua Portuguesa. Não testemunhei desde os anos 50, mas em 1970 publiquei com mais quatro amigos professores uma livro didático para o Segundo Grau, intitulado PORTUGUÊS NO SEGUNDO GRAU, pela Cia Editora Nacional, São Paulo. Em 1972, por força da reforma do ensino, Lei 5.692/71, houve a segunda edição dessa obra. O livro foi adotado nos principais colégios do país, inclusive no Colégio Naval de Angra dos Reis. Na segunda edição, a pedido de muitos coordenadores de diversos colégios, resolvemos publicar um livrinho à parte, com as respostas dos inúmeros exercícios. Alguns diretores nos confessaram que muitos professores tinham dificuldade em resolvê-los, em sala de aula, com seus alunos. O sucesso foi maior ainda! Como vendemos! Muito bem, anos mais tarde, em 1980, vi nosso livro ser adotado no terceiro ano de inúmeros Cursos, no Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pois é, poderia armar, agora, uma perguntinha, da mesma forma, com a seguinte proposição: Quem souber o número do CEP de sua residência, coloque-o no espaço abaixo e terá garantida a sua aprovação para a próxima série. Assim, as duas disciplinas básicas do Ensino de todos os Graus, Português e Matemática, estariam contempladas em nome do futuro de nossos jovens-varonis-viva-o-Brasil-salve-salve!

ATÉ A PRÓXIMA

8 de julho de 2009

UM NEOLOGISMO PARA CONTESTAR

Voltou a mania dos diminutivos e, principalmente, aumentativos na fala dos técnicos e jogadores de futebol que dão entrevistas às televisões e às rádios, após os jogos. Agora foi a vez de Cuca, técnico do Flamengo, que disse à equipe do UOL ESPORTE o seguinte:

“No segundo tempo, quando a gente conseguiu entender um pouco mais o jogo, aí nós fomos bem melhores. Então, eu acho que o MELHORZINHO do Fluminense no primeiro tempo, não compara o MELHORZÃO que o Flamengo foi no segundo tempo, se bem que isso não vale nada em termos de resultado, apenas fazendo uma análise, até as chances claras de gols que perdemos. O Ricardo Berna esteve bem, o Fluminense jogou bem também, mas num clássico, um resultado de empate mão é ruim. Fica um gostinho ruim porque a gente poderia ter vencido”.

É claro que estamos diante da língua falada, transcrita aqui, só para efeito didático. Sabemos que o registro oral de uma língua qualquer é totalmente diferente do registro escrito, pois lá impera a expressividade súbita e a emoção do falante aflora, a todo o momento, com a fantástica força pujante do idioma, que põe na boca do indivíduo falante as diversas possibilidades de realizações existentes no sistema lingüístico, isto é, na “Langue”, como nos ensina Ferdinand Saussure. Assim, o linguajar de Cuca, no momento da entrevista, expressa a “Parole” do sistema lingüístico português, com todas as características diafásicas, materializando as diferenças entre língua falada e língua escrita, entre o falar solene e o familiar, entre a linguagem corrente e a linguagem burocrática ou oficial, tudo de acordo com a visão e a denominação criada por Eugenio Coseriu.

Mas, voltando àquela mania do brasileiro de colocar tudo que pode no diminutivo ou no aumentativo, principalmente nos esportes de massa, observamos que a forma MELHORZINHO é comum no linguajar familiar e não chama nenhuma atenção. Já não é o caso de MELHORZÃO, que vai surgir por um processo lingüístico inconsciente, chamado “comutação”, criando, por oposição, o termo que a língua, enquanto sistema, enquanto Langue, permite concretizar. Se existe MELHORZINHO, por que não pode existir MELHORZÃO? Se existe JOGADORZINHO, por que não pode existir JOGADORZÃO? Essas construções, aparentemente esdrúxulas, estão na deriva da língua e apresentam forte dose de gramaticalidade. Logo, podem surgir, como surgiu, na criatividade lingüística de Cuca, se bem que muito motivado por entrevistas anteriores de alguns jogadores do Fluminense que disseram que o time das Laranjeiras foi bem MELHORZINHO no primeiro tempo. O neologismo teve sabor de contestação...
ATÉ A PRÓXIMA

3 de julho de 2009

UVAS, VINHO, LATIM E SÁBIOS

Meu amigo Yohan é um médico erudito, com doutoramento na USP e diversos cursos na Alemanha. É verdade também que tenho o privilégio de ter muitos outros amigos doutores, graduados em universidades da Europa, muitos de áreas diferentes da minha, sendo algumas conexas, mas todos muito envolvidos com o humanismo histórico e as ciências humanas. A Lingüística e a Filologia são as que mais aguçam a inteligência deles. Estão sempre me perguntando algo sobre formas estranhas de palavras da língua portuguesa, suas origens e seus sentidos dentro de contextos inusitados e muito mais. Tento fazer da curiosidade deles um incentivo aos meus estudos assistemáticos, cuja prática, às vezes, a preguiça de aposentado força a deixar de lado, em favor da contemplação do mar azul que deslumbro da varanda de minha casa... Como pensam que sou um cara culto, pedem-me, também, para traduzir uma ou outra expressão latina que escutaram ou que leram em revistas, artigos ou simplesmente em folhetos publicitários de vinhos, por exemplo. Assim, Yohan me perguntou, há pouco tempo, como poderia interpretar uma frase latina, relacionada às suas investidas, à procura das melhores uvas que irão imprimir sabores etéreos aos vinhos brancos de sua preferência. Creio que meu amigo esculápio já chegou a degustar comigo algumas garrafas do clássico Chablis, produzido na região francesa da Borgonha, acompanhado na ocasião, por uma suculenta bandeja de ostras geladas. Mas voltando às citações latinas que vez por outra sou solicitado a traduzir, como foi o caso recente aqui mencionado, veio-me à lembrança uma interessante passagem, já perdida nas lendas do Mar Egeu da sábia Grécia, envolvendo Platão e Diógenes. Corria a informação, nas terras helênicas, que Platão teria definido o homem assim: HOMO EST ANIMAL BIPES SINE PENNIS. Um dia, Diógenes, deixando seu tonel, entrou na sala onde Platão estava dando suas aulas a vários alunos, trazendo um galo depenado debaixo do braço e exclamou alto e em bom tom: HIC PLATONIS HOMO EST.

ATÉ A PRÓXIMA
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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.