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19 de outubro de 2009

A VOLTA DO FANTASMA

Já havia dito, em crônicas anteriores, que, quando estivera em Portugal, trabalhando num projeto apresentado ao meu Departamento de Lingüística da Universidade do Estado do Rio de janeiro, conheci um simpático fantasma que morava na antessala de entrada do Palácio da Pena ou Castelo da Pena como é mais conhecido na região de Sintra. Estivemos juntos durante boa parte de minha estada pelas plagas lusitanas e nos identificamos tanto, que o trouxe em minha bagagem de mão, a bordo de um Boeing de longo curso da TAP. Pois bem, aqui no Brasil também estivemos juntos e minha preciosa e cultíssima aparição visitou comigo muitos lugares encantadores, principalmente da Região Sul, onde moro atualmente. Nosso último passeio tinha sido à festa da Marejada, em Itajaí, há uns dois ou três anos atrás. Divertimo-nos muito, principalmente com as encenações folclóricas da sua terra natal, a Serra da Lua ou Monte Sagrado. Depois disso sumiu. Pensei que o tivesse magoado com algumas observações sobre como deveria se comportar, para não assustar ninguém, quando estivéssemos nas residências de meus amigos, em reuniões de fim-de-semana ou em tertúlias literárias como acontecem em Florianópolis e Blumenau. Mas não, creio que ele sentiu saudade de seus parentes da corte de D. Dinis, fantasmas gentis e agradabilíssimos como ele e voltou para Sintra. Depois de algum tempo desaparecido eis que, bruscamente, ele se materializou valendo-se de uma branca fumaça que saia de uma churrasqueira repleta de grandes sardinhas, quando eu, novamente, visitava a 23ª Marejada, em Itajaí. Deu-me um baita susto naquela tarde cinzenta, pois há muito tempo nem pensava nele. Mas ele veio. Vestia um elegante ectoplasma e sentou-se comigo num banco de jardim, do lado de fora do novo e grande galpão que abriga os comes-e-bebes, de variadíssimas receitas portuguesas do pessoal de Itajaí. Percorremos o interior dos pavilhões, conversamos sobre as novidades e modernidades de Lisboa, bem pertinho de Sintra. Falamos, é verdade, um pouquinho da vida alheia e já estávamos para sair, quando meu hialino amigo me repreendeu, com toda a veemência de sua cavernosa voz, dizendo que era um absurdo, numa festa portuguesa por excelência, haver uma quantidade incontável de barraquinhas de cachorro-quente, pizzas de estranhos sabores e vinhos vagabundíssimos. Alem, é claro, de tudo estar armado em horrorosas barraquinhas toscas, num ambiente arquitetônico de infinito mau gosto. Não pude tirar sua razão, pois fiquei do mesmo modo muito decepcionado, não só pela péssima gastronomia exposta, como pela sujeira que imperava nos ambientes internos. Meu etéreo e exigente amigo é assim mesmo. É um fantasma europeu. Jamais esquecerá que Sintra, sua terra natal, exerceu considerável influência romântica na harmoniosa arquitetura européia. Isso é que é fantasma culto e refinado, o resto é assombração....

ATÉ A PRÓXIMA

18 de outubro de 2009

É OURO NO TIRO AO ALVO



Não adianta passeata, rezas, velas acesas, promessas, 40.000 homens das polícias civil e militar nas ruas, Força Nacional, helicóptero novo, comprado com os recursos do PRONASC (Programa Nacional de Segurança com Cidadania), nada disso resolve para trazer a paz ao Rio de Janeiro, se não for mudada a Lei de Execuções Penais, e muitas outras que tratam os bandidos muito mais brandamente do que o cidadão comum, honesto, trabalhador e ordeiro. Já tem matador do jornalista Tim Lopes na rua, em regime semi-aberto... Assim como está vamos ver ruírem todos os projetos para realizar na cidade do Rio de Janeiro as próximas festividades, a Copa do Mundo de Futebol, em 2014 e as Olimpíadas, em 2016. Se não se adotar a Tolerância Zero, a polícia revidando e atirando para matar esses bandidos sem nenhuma recuperação, não haverá nenhuma festa nesta cidade que já foi maravilhosa. O que existe é um estado de guerra mesmo, entre as facções de bandidos, ligados ao crime organizado, de um lado e a sociedade civil de outro. O que aconteceu no morro dos Macacos foi uma verdadeira incursão militar de facções criminosas, uma tentando eliminar a outra e a polícia revoando o teatro de operações, tentando intimidar, dando vôos rasantes com um helicóptero sem nenhuma blindagem, oferecendo-se como alvo aos facínoras. Estavam mesmo querendo ser derrubados. Sabemos, sim, que se houver um aberto tiroteio a população da comunidade acuada, morro acima e morro abaixo, será alvo certo de todos os tipos de balas: as achadas, as perdidas e as escondidas... Uma vergonha! O Governador e o Prefeito têm, sim, que se preocupar com a repercussão disso no exterior, pois o Rio está, há muito tempo, na mira dos noticiários da mídia estrangeira, por causa da violência que impera nessa cidade, que não merece o tratamento que teve de muitos dirigentes que fizeram vista grossa para toda espécie de crime, desde a contravenção da roleta, tida como inocente joguinho de bichinhos, até o tráfico de armas e drogas. Com uma legislação no mínimo esquisita, a bandidagem vai levar todas as medalhas de outro nessas Olimpíadas. Ou por mérito ou na marra.


ATÉ A PRÓXIMA

14 de outubro de 2009

DIA DO PROFESSOR



Amanhã, dia 15 de outubro, é o dia do Professor. Na comunidade há três funções sociais indispensáveis à coesão grupal: a função do médico, que trabalha com os mistérios da vida e da morte; a função do advogado, que é o detentor da chave da cadeia e a função do professor, que é o transmissor de todo o conhecimento acumulado pelo homem, tornando-se 0 desencadeador da aceleração de toda sociedade. Pois bem, amnhã é o seu dia. Dia dos representantes dessa profissão tão desprezada pelas políticas públicas, pelos governantes e até mesmo pela própria população, que não vê mais nos mestres das escolas, de todos os níveis, aquele único agente social capaz de alterar o comportamente dos mais jovens, direcionando suas vidas para a participação consciente e responsável, transmitindo-lhes os conhecimentos transformadores da realidade circundante. Hoje, a classe dos professores está entre as mais desprestigiadas, sem nenhuma perspectiva de voltar a ser respeitada por todos, para poder, através do processo ensino-aprendizagem, transformar o presente, formar e informar as futuras gerações, conseguindo atingir, assim, as metas necessárias para que todos possam alcançar a plena felicidade em suas vidas, com dignidade, decência, saber e honestidade. Esquecemos que a atuação docente está sustentada pelo tripé "conhecimento específico", "condições de trabalho" e, num contexto capitalista, "remuneração adequada". A educação está falhando no Brasil porque esse tripé, de alguma forma, não funciona. Por outro lado, sentimos que a profissão de professor, no atual contexto, privilegia o TER em detrimento do SER, e isso torna essa profissão perigosa, de alto risco e poucos querem dela participar. Mas os verdadeiros mestres, os verdadeiros professores por vocação, os abnegados trabalhadores da articulação do saber, na esfera do psicossocial, não hão de se render à barbárie política de um governo sem projetos educacionais e devem continuar sempre exercendo com motivação sua missão especialíssima, mesmo tendo consciência de que, quase sempre, desempenham um trabalho de Sísifo. Avante em sua luta, Professor Brasileiro, trabalhador do convencimento nos mais distantes rincões desse país desigual! Continuem em sua luta incruenta contra a ignorância, em prol do saber e da justiça social, atuando na culturalização das massas e na disseminação dos bons exemplos. Parabéns pelo seu dia, professor brasileiro, sofredor, herói anônimo de cada sala-de-aula desse imenso Brasil!
ATÉ A PRÓXIMA

2 de outubro de 2009

AS OLIMPÍADAS DE 2016 SERÃO AQUI




Parabéns Rio de Janeiro. A Cidade Maravilhosa vai sediar os Jogos Olímpicos em 2016. Foi um trabalho sério, realizado pelos nossos técnicos, especialistas de toda ordem, políticos e representantes dos mais variados segmentos esportivos brasileiros, que souberam convencer a comissão organizadora do Comitê Olímpico Internacional (COI), em Copenhague, mostrando que o Brasil pode realizar uma festa de tal envergadura. Hoje é um dia histórico para nós, pois será a primeira festa olímpica na América do Sul. O “loby” brasileiro foi muito bem executado e contou com inúmeras autoridades lá na Diamarca, inclusive o presidente Lula. O Rio de Janeiro será o maior beneficiário desses jogos, porque a cidade deverá ser completamente remodelada, com o surgimento de benfeitorias em seu sistema de transporte de massa e em vários outros setores, trazendo para a população um bem-estar há muito tempo esperado. O esporte deverá amadurecer e receber, além de incentivos oficiais para fazer bonito na competição olímpica, um forte contingente de jovens atletas, motivados pela escolha do Brasil para abrigar esse grande acontecimento, tudo por força do aumento inevitável da auto-estima de cada brasileiro, de cada carioca, o que é fundamental para uma participação competitiva, alavancada por essa motivação tão ansiosamente esperada por todos nós. O Rio de Janeiro vai arregaçar as mangas e começar a trabalhar duro e firme na realização do Projeto Olímpico que deverá ultrapassar as benesses do imediatismo e projetar no futuro a grandeza desse presente invejável. Mas nossos políticos e todos os demaisresponsáveis pelas transformações que a cidade do Rio de Janeiro sofrerá terão de sertão sérios no manuseio das bilionárias verbas que serão alocadas para a realização das obras, quanto foram para convencer os delegados do COI com direito a voto. Que seja essa uma nova era para a Cidade Maravilhosa. Era de prosperidade e remissão dos incontáveis crimes aqui perpetrados, em nome da ganância, da corrupção e do oba-ôba passageiro. Não devemos nos mirar nos desmandos ocorridos nas olimpíadas realizadas em 2004 na Grécia e sim nos valores olímpicos que o povo grego dispensava a esses jogos e que o coração de Pierre de Fredi, o Barão de Coubertin, enterrado em Olímpia, pulse honesto no peito de nossos dirigentes políticos, empresários e responsáveis pela preparação atlética de nossos futuros heróis olímpicos. Parabéns Cidade Maravilhosa, Rio-Cidade, Rio-Sonho, sonho de um Deus petrificado no alto do monte, que acordará feliz por ter realizado um sonho, sonhado por milhões de cariocas.


ESSA MESMA POSTAGEM ESTÁ NO MEU BLOG "LETRAS FUTEBOL CLUBE"


ATÉ A PRÓXIMA

1 de outubro de 2009

FURTO NO ENEM


São mais de quatro milhões de jovens frustrados com a notícia do cancelamento das provas do ENEM. O fato foi noticiado hoje de manhã pela mídia, em todo o Brasil. Não é preciso falar da decepção causada nos estudantes, postulantes a uma vaga na universidade. Os prejuízos foram incalculáveis. Prejuízos materiais e morais. Os materiais serão debitados aos próprios alunos e às suas famílias, além de atingirem toda a sociedade, pois os recursos alocados para a confecção das provas provêm do erário público. Os prejuízos morais são irreversíveis. O que estarão pensando esses jovens e seus familiares, últimas vítimas de mais uma fraude, de mais um furto, de mais uma maracutaia no setor público de nossa educação? Uma vergonha! Não se pode, realmente, confiar mais em ninguém nesse governo despreparado. O furto de algumas questões provocou o cancelamento da prova. O próprio Ministro da Educação anunciou o adiamento da prova, após denúncia do ESTADO DE SÃO PAULO sobre a quebra do sigilo e a tentativa de alguém querer vender as questões por R$ 500 mil. O homem que procurou o jornal afirmou: "Isto é muito sério, derruba o ministério". O fato é esse. Gravíssimo, pois coloca mais de quatro milhões de jovens numa situação aflitiva e retira desses adolescentes o sentido, que por certo ainda têm, de lisura e seriedade, nas coisas públicas. Furto na educação é a maior ignomínia criminal praticada contra os estudantes que acreditam na força do saber e na ação transformadora da educação, exclusivamente pelo mérito. Mas o que eles não sabem é que, hoje, no Brasil, há também, no setor educativo, forças do bem e do mal. O ocorrido com o ENEM foi a manifestação da força do mal, arraigada profundamente, como corrupção, na sociedade brasileira de um modo geral e, agora, aflorando neste setor vital de nossas vidas, a Educação. A força do bem, graças a Deus, ainda é pujante em muitas de nossas universidades públicas que lutam desesperadamente para transformar o educando, dando-lhe informações específicas, condições de aprendizagem e preparo para vencer na vida profissional, envolvendo a sociedade em suas tarefas e projetos, procurando, assim, desempenhar suas funções básicas de ensino, pesquisa e extensão.

ATÉ BREVE.

29 de setembro de 2009

A DIDÁTICA DO PALAVRÃO

Em Jaraguá do Sul, alguns professores do Colégio Evangélico Jaraguá, incomodados com o linguajar sujo dos estudantes resolveram adotar uma punição inusitada: multar em R$ 0,10 por palavrão emitido. Isso foi notícia há dois anos e saiu no G1, portal da Globo.com . Na ocasião, muitos alunos disseram que a medida teve efeito, mas a prática foi condenada por especialistas. Agora, o palavrão foi, praticamente, institucionalizado nos livros didáticos, distribuídos às escolas públicas.
Que se pronunciem, mais uma vez, os especialistas.

Vejam como anda a nossa sociedade. Agora até o palavrão se institucionalizou. Aparece nos livros didáticos, distribuídos pelo Mistério da Educação, em textos para estudo nas aulas de Português e nas páginas dedicadas aos estudos matemáticos. Depois de algumas reclamações, ouviu-se esta pérola oficial das autoridades governamentais: ESSES LIVROS SÓ PODEM SER MANUSEADOS POR CRIANÇAS MAIORES DE 15 ANOS. Realmente, não podemos mais tolerar um desgoverno desse tipo. A permissividade chegou ao sacrossanto templo do saber, a escola. Mas, sabemos todos que esta instituição não funciona, há muitos anos em todos os níveis. O ensino fundamental é uma vergonha, pois a grande maioria dos professores que lá atuam são leigos, isto é, não têm formação específica. No Ensino Médio o tripé que sustenta a educação – FORMAÇÃO ESPECÍFICA DO PROFESSOR, CONDIÇÕES DE TRABALHO, REMUNERAÇÃO ADEQUADA – falha redondamente em quase todas as escolas brasileiras, pois são, também, inexistentes as políticas públicas para o ensino e a educação. No terceiro grau, o Ministério da Educação está sempre desqualificando Faculdades e Universidades particulares (e isso é um dos poucos méritos dessa entidade) por apresentarem fraquíssimo rendimento em seus estabelecimentos. As escolas públicas de todos os níveis, quer sejam federais ou estaduais, estão sucatedas, pichadas, abandonadas, largadas, furtadas, sempre assaltadas, com seus alunos em lutas corporais, mães incitando as brigas, com ocorrência de crimes hediondos em suas dependências, mantendo seu corpo discente em constante tensão emocional. Daí
um baixíssimo rendimento em quase todas as disciplinas. A falta de professor é também fruto desses acontecimentos extra-sala-de-aula, além da ausência de um plano de carreira sério para o magistério. O professor também é vítima do ensino que o prepara. É uma metalinguagem pedagógica às avessas, pois é a pedagogia deixando de falar da pedagogia. Para o aluno ter acesso à Universidade, daqui a algum tempo, bastará saber praticamente nada ou melhor, ser negro, pardo ou ter decorado o CEP de sua residência. Estamos quase chegando lá! Um horror! Agora vem essa notícia de palavrões nos livros didáticos e sua liberação após os quinze anos de idade. Convenhamos, a linguagem chula existe e é até estudada linguísticamente, mas deve ser evitada na vida social culta, pois denota falta de civilidade, educação e um paupérrimo vocabulário. A escola é o espaço institucional básico, por excelência, para a transmissão da língua pátria, do saber oficial e de todos os demais códigos sociais, indispensáveis à aceleração do progresso material e espiritual de todos nós. A linguagem de baixo calão pode ser explicada nas aulas de português, mas não deve estar materializada na língua escrita dos compêndios didáticos, pois o que é ensinado na escola é reproduzido nas casas dos alunos, verdadeiros agentes multiplicadores de tudo que ouve, vê e pratica em seu ambiente escolar. O que está faltando em nossos jovens dirigentes políticos, conselheiros técnicos, coordenadores pedagógicos, dirigentes de classes operárias, presidentes de variadas associações, formadores de opinião, produtores culturais e quaisquer responsáveis por tudo que ocorre no conturbado universo do psicossocial é uma urgente reciclagem sobre os conceitos básicos do humanismo, entre tantos outros temas importantíssimos, tudo desaparecido de nosso convívio, há muitos e muitos anos, desde a retirada do Latim do currículo de nossas escolas de ensino médio, nos idos de 1960. Uma pena!


ATÉ A PRÓXIMA

16 de setembro de 2009

ETIMOLOGIA POPULAR REVISTA COM SEGURA ERUDIÇÃO LINGUÍSTICA

Cada povo tem uma lógica diferente no que diz respeito ao seu relacionamento com a realidade circundante. Os povos primitivos têm uma lógica diferente, sob este aspecto, muito distante da lógica exercida pelo pensamento do homem europeu, colonizador das Américas, por exemplo. Assim, o grupo étnico tupi se comportava de maneira diferente do europeu conquistador, dominador e de uma cultura, erroneamente dita superior. Superior só poderia ser entendido como acúmulo de experiências específicas. O resultado desse relacionamento histórico se expressou através das línguas em confronto, o tupi e o português. É sempre bom lembrar que o povo esquimó tem mais de uma centena de termos para expressar o conceito de neve, pois vive envolto em um mundo branco de gelo. O índio brasileiro vivia, do mesmo jeito, envolvido por um mundo verde de matas cobrindo vales e montanhas. Seu modo de interpretar essa realidade, isto é, a lógica lingüística que usava para nomear as coisas desse mundo era uma das características toponímicas que marcavam os nomes das paragens por onde vivia e por onde passava em sua trajetória nômade, atravessando os verdejantes vales e as densas matas das terras de Ibirapitanga. Os dois povos, colonizados e colonizadores, num determinado momento de co-existência, nem sempre pacífica, se comunicavam com os códigos lingüísticos das duas línguas, o que vale dizer que o Brasil foi, num dado período de sua história, bilíngüe. Pelo menos a classe dominante, que comercializava e se relacionava com os povos indígenas entendia e se expressava também em tupi. Isso significa que termos da língua ágrafa tupi passaram para o português, num processo lingüístico conhecido como substrato. Mas é sempre importante lembrar que muitos topônimos com raízes tupis formaram vocábulos locativos, dados pelo homem branco, sem aquele entendimento especial que o índio tinha do espaço geográfico circundante. Comentei um desses casos no Congresso Internacional Comemorativo dos 500 do Descobrimento do Brasil, em 2000, na Universidade do Estado do Rio de janeiro (UERJ), a respeito do topônimo Ibicuí, distrito do município fluminense de Mangaratiba, ao sul do Estado. Com essa compreensão etnolinguística, Lino João Dell’ Antonio apresenta seu livro NOMES INDÍGENAS DOS MUNICÍPIOS CATARINENSES – significado e origem – , editado pela Odorizzi Editora, Blumenau, 2009. O livro apresenta uma interessante abordagem sobre a etimologia de muitos nomes indígenas que entram na composição da nomenclatura de vários municípios catarinenses. A novidade é o enfoque antropolinguístico, reconstituindo origens, muitas dadas como definitivas. Aliás, em etimologia, nada é rigorosamente definitivo, principalmente tratando-se de étimos presos a línguas ágrafas, como é o caso do tupi. A cosmovisão do índio brasileiro é totalmente diferente da do homem branco, haja vista as inúmeras lendas sobre a criação do mundo e muitos mitos sobre incríveis seres que povoam o imaginário de nossos silvícolas. Partindo, portanto, de pesquisas de campo e com um abalizado foco antropológico, tudo aliado a uma segura abordagem lingüística do problema, Lino João Dell’ Antonio apresenta um trabalho sério, científico, com metodologia apropriada à sua pesquisa e mostra, inclusive, inúmeros casos de corruptelas linguísticas, casos interessantíssimos relacionados com uma ultra-correção antropo-etinológica com implicação direta na formação dos vocábulos toponímicos. Pode-se dizer, sem dúvida alguma, que se trata de importante hipótese, destruidora de inúmeras etimologias populares, mostrando que a ultra-correção pode ser, além de lingüística, também e sobretudo, nesses casos, antropológica. Desta forma, temos um exemplo nas mãos de como se trabalha seriamente com as ferramentas que a Lingüística oferece ao estudioso culto e preparado. Esse livro é uma significativa pesquisa aplicada às línguas de nossos habitantes pré-cabralinos, escrita e publicada fora do eixo cultural Rio-São Paulo. Vamos ler e conferir.
ATÉ A PRÓXIMA
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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.