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13 de março de 2008

ANACOLUTO

De 18 a 22 de fevereiro de 2008, realizou-se na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), patrocinada pela ACADEMIA BRASILEIRA DE FILOLOGIA, a VIII Semana Nacional de Língua Portuguesa, quando foi homenageado o Professor Evanildo Bechara, pela passagem de seus 80 anos. As atividades culturais foram significativas e todos os acadêmicos tiveram a oportunidade de levar ao público presente, nesses cinco dias, sua palavra amiga de saudação a um dos mais significativos nomes da filologia brasileira, o Dr. Prof. Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Filologia. Na ocasião, precisamente no dia 21, participei de uma Mesa-Redonda sobre o tema “ORALIDADE E ESCRITA”, cuja expositora foi a Profa. Dra. Terezinha Maria da Fonseca Passos Bittencourt (UFF e LLP), tendo como comentadores os Professores Doutores Francisco Venceslau dos Santos (UERJ), Nilda dos Santos Cabral (UFF e LLP), Ceila Ferreira Martins (LABEC-GCL-UFF) e eu. Meus comentários giraram em torno das pesquisas que realizo sobre a linguagem especial do futebol. Reproduzo agora, minha participação, como forma, ainda, de cultuar academicamente o ilustre mestre Evanildo Bechara, amigo e colega de muitos anos, na luta diária das salas de aulas de inúmeros colégios e faculdades, no Rio de Janeiro.



Em minhas pesquisas sobre a linguagem especial do futebol confirma-se aquela máxima lingüística que diz que ninguém escreve como fala. Em nenhum comentário sobre qualquer partida de futebol, que aparece posteriormente nos jornais, o analista deixa de apresentar seus comentários, retratados na escrita, numa forma gramatical correta, deixando de lado muitas pontuações da oralidade, como, por exemplo, os anacolutos. Mas a fala dos locutores e comentaristas, descrevendo e analisando os acontecimentos em campo, está repleta dos mais clássicos vícios de linguagem e impropriedades gramaticais, muitas até irrelevantes. Dou como exemplo o uso do verbo assistir, no sentido de ver, presenciar, principalmente usado na voz passiva, como em “O jogo foi assistido por dez mil expectadores”. Mas voltando aos anacolutos. Eles podem ser considerados como verdadeiras marcas da oralidade, pelo menos nesses casos que pesquiso. Sabemos que o anacoluto ou FRASE QUEBRADA foi muito usado no grego antigo e na nossa literatura clássica, sendo hoje combatido pela disciplina gramatical, como, aliás, afirma Mattoso Câmara Jr. Mas a língua literária ainda está repleta de anacolutos e, na língua escrita, funcionam muito mais como marca estética do que como sobreposição de pensamentos que surgem, uns após outros, como, por exemplo, no decorrer de uma transmissão esportiva ou no auge de um comentário emocionante, feito por jornalista especializado nessa área. O conhecido anacoluto do clássico soneto de Machado de Assis, À Carolina, no último terceto “Que eu, se tenho nos olhos mal feridos/Pensamentos de vida formulados,/São pensamentos idos e vividos”, é um recurso estilístico de intensa pujança, sugerindo mesmo um soluço de dor. Mas a elaboração e o refinamento ao se escrever, tudo bem pensado, bem refletido, ou até mesmo intuitivo, é que vão diferenciar o anacoluto da língua escrita do anacoluto da língua oral. Podemos procurar nas resenhas esportivas escritas nos jornais, sobre os resultados dos jogos do dia anterior e não vamos encontrar nenhum vestígio dessa filigrana, representada por essa figura da língua literária. Na linguagem esportiva, lembro-me dos comentários sobre as arbitragens de futebol feitas pelo comentarista Mário Vianna (com dois ENES, como ele insistia em dizer em alto e bom som), ex-árbitro de futebol e que fazia a linha “bateu-levou”, dentro e fora de campo. Quando era chamado, no decorrer do jogo, pelo narrador da partida, para comentar uma decisão tomada pelo juiz, podíamos encontrar na sua falação inúmeros anacolutos. Mário Vianna falava por anacoluto. Quem não se lembra da expressão que ele gritava ao microfone: LA MANO, LA MANO.... E com essa expressão da língua castelhana ele punha em relevo a idéia primordial que tinha em mente (a falta, a mão na bola), destacando-a como a grande mensagem sobre a qual iria falar. Outra passagem célebre de Mário Viana ocorreu quando ele disse que o porco e o peru eram duas aves que sempre compareciam ao campo de futebol: o peru, referindo-se a um “enorme frango” do goleiro e o porco.... Bem, o porco foi a imagem encontrada para o juiz que faz muita bobagem. É claro que por mais desinformado que Mário Vianna fosse sobre os assuntos mais elaborados, da ciência, inclusive, ele não iria escrever isso. Mas falando, no auge de um comentário, querendo agradar seu público, querendo mostrar que entendia do seu ofício, ele colocou como pertencentes à mesma espécie um ovíparo e um mamífero. Haja coração!

7 de março de 2008

ACROGRAFIA



Existe uma sigla em Portugal que sintetiza, por meio de uma abreviatura, uma locução relacionada à ajuda econômica da União Européia aos países membros. Essa forma de grafia se chama acrografia. Mattoso Câmara Jr. assim se refere a essa particularidade da língua escrita:

“Acrografia é uma grafia em abreviatura, de uma locução por meio das letras iniciais dos vocábulos componentes, que formam em conjunto um nome próprio; ex. REW (Romanisches Etymologisches Wörterbuch) para o “Dicionário Etimológico das Línguas Românicas” de Meyer-Lübke; em português, como nas demais línguas modernas, lança-se mão da acrografia para – títulos de obras, revistas e jornais em citação (ex.: REW), partidos (ex.: ARENA para “Aliança Renovadora Nacional” e MDB para “Movimento Democrático Brasileiro”, departamentos, organizações e até nomes de países (ex.: MEC, para o “Ministério da Educação e Cultura”, no Brasil; ONU para a “Organizaçãodas Nações Unidas”, USA para os “Estados Unidos da América” em sua forma inglesa de United States of América; URSS para a “União das Repúblicas Socialistas Soviéticas”), mais recentementenomes de autores, figuras políticas (MA, para “Machado de Assis”); etc." (Cf. Dicionário de Lingüística e Gramática, Petrópolis, Vozes, 1977, p.40)

Como se vê, a acrografia ou sigla é um recurso muito usado na língua escrita e que serve para economizar letras, abreviando palavras ou expressões extensas. Mas, se observarmos bem, vamos ver que a sigla forma uma nova pequena palavra que entra no vocabulário ativo do falante, podendo confundir o falante-ouvinte. Parece que é o caso da leitura equivocada da abreviatura grega do nome de Cristo, Xpto, que pode significar, entre outras coisas, excelente qualidade, primoroso, magnífico e, também, ungido e Jesus. Sabe-se, também, que das siglas podem derivar palavras, como de PT (Partido dos Trabalhadores) surge petista, o militante, ativista ou adepto do PT.

Pois bem, em Portugal, fixados em lugares públicos de grande circulação de pedestre e veículos, há enormes out-doors com letras garrafais, apresentando a sigla FEDER. Trata-se do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional que se destina a reforçar a coesão econômica e social na União Europeia, através da correção dos desequilíbrios regionais. Esse Fundo financia e promove ajudas diretas aos investimentos realizados nas empresas, a fim de criar emprego duradouro, além de fomentar infra-estruturas ligadas à investigação, à inovação, às telecomunicações, ao ambiente, à energia e aos transportes. Promove ajuda, através de instrumentos financeiros, fundos de capital-de-risco, fundos de desenvolvimento local, etc, apoiando o desenvolvimento local e regional, favorecendo, assim, a cooperação entre as cidades e as regiões. Por tudo isso, percebe-se que esse Fundo é muito importante para o desenvolvimento nacional.
Mas, pergunto:
Precisavam abreviar esse importante Fundo de Desenvolvimento Regional assim? F E D E R coincide com o verbo homógrafo que exala mau cheiro ou causa aborrecimento.
Por outro lado, não podemos nem pensar que nessa sigla FEDER, propositadamente, está embutido o sentido da forma latina foedus, eris “tratado”, “convenção”, “aliança”, sempre muito usado, dando origem a vocábulos como federação, federar-se, federal, federalismo, confederado, confederativo e sentidos amplos como fazer aliados e união.
Cremos que foi mesmo coisa de português, isto é, da língua portuguesa, para não sermos indelicados...
O mais curioso é que, passando-se por um pequeno, mas próspero município de Santa Catarina, entre Guaramirim e Blumenau, justamente na entrada de Massaranduba, encontra-se um enorme cartaz, com grandes letras maiúsculas em vermelho, que traz a mesma forma lingüística FEDER, anunciando uma empresa de construção. Lá, não consegui perceber a acrografia. Será que, por ser uma região colonizada por alemães, esse FEDER não corresponderia a algum sobrenome de família? Tudo é possível!
Tentem decifrar.
Fotografei para não deixar dúvidas sobre o mau gosto do empresário.

9 de janeiro de 2008

A POESIA DE IRENÊU VOIGTLAENDER











Há muito tempo que não estou com o professor Irenêu Voigtlaender, amigo de Pomerode e catarinense curtido no vale do rio Testo de sua infância transfigurada em versos memorialistas de alta qualidade. Irenêu já foi Secretário de Cultura e de Educação de Pomerode e tem uma atividade literária interessante.
A sua produção poética é significativa, considerando-se o distanciamento das editoras que publicaram seus livros, Pássaros em revoada e Céu de cristal, dos maiores centros editoriais do país, isto é, Rio de Janeiro e São Paulo. Este fato é um significativo indicador do valor de sua obra.
Pássaros em revoada é um conjunto de poemas que temperam os temas regionais com os universais, os grafemas góticos com a terra pomerana. O lirismo de seus versos passa pelo concretismo estruturador das formas poéticas e também pela nostalgia velada, sensual e intimista de quatro "Tempoemas". Em sete poemas (Poemáticas), o olhar criativo do poeta, por metavisão, recria a história nunca antes contada de ícones, gravuras, desenhos, paisagens, detalhes de fotos, esculturas e xilogravuras. O olhar vê a alma da coisa e dos seres e a transfigura em “poemáticas”. O trabalho gráfico de inversões de negativo e positivo nos fotolitos de algumas páginas, como em “espetáculo de uma noite virgem” e “Pomeríade”, são recursos visuais que mostram fundo e forma integrados no fazer lírico e na construção e desconstrução poéticas. Finalmente, o Leitmotiv, condutor da lírica de seus versos está impregnado com quela simbiose germano-brasileira de que falou Sílvio Elia, quando estudou as línguas faladas em Pomerode, e é isso que prende o leitor ao prazer que o texto exala e faz refletir. Aliás, Irenêu Voigtlaender teoriza o poético, numa espécie de posfácio, quando apresenta “As Variantes do Poema e seus Propósitos” e nos diz que “para cultivarmos uma flor não precisamos de um jardim e sim de um solo fértil” ...
Céu de cristal (poesia em quatro tempos) tem um tom nostálgico-memorialista. Parece conter a metáfora da terra que o rio Testo significou na vida do poeta, iniciando a linha memorialista, condutora de sua temática convertida em poesia. Os termos neológicos que marcam algumas formas de poemas, na obra poética de Irenêu Voigtlaender, são de três tipos: Tempoemas, Poemáticas e, no livro em questão, Poemografias, que são textos interpretativos e recriativos de realidades idealizadas por um figurativismo artístico, sempre com desdobramento do tipo tema-puxa-tema. O estilo poético de Irenêu alterna o ritmo aliterativo clássico com uma fonopoética expressiva, cujo formalismo gráfico ajuda interiorizar os temas propostos. Um exemplo claro está na repetição enfática do fonema linguodental /d/, iniciando vocábulos isolados, que, em colunas, estruturam o poema Exercício 1. E o ritmo aliterativo responsabiliza-se pelo tom de musicalidade que envolve a maioria dos poemas de Céu de cristal, que se apresenta mais intensamente nos poemas "Linhas convergentes", "Exercício 3", "Opus 1", "Estrutura 2", "Janela surpresa", "Promessa" e "Lavra feminina". A poesia de Irenêu Voigtlaender consubstancia-se em versos e sonetos modernos de esquemas rítmicos diversos. Assim: versos longos; reflexões filosóficas que vão, aos poucos, tomando o lugar do memorialismo sentido; alguns noturnos; sensualismo lírico; jogos lúdico-semânticos; a busca constante das origens; incursão à temática de inspiração social e histórico-social, surgindo aí o intertexto de que nos fala Roland Barthes. O ecológico e a prosa poética presentificam-se em alguns pares de poemas. Por fim, o poeta passa seu olhar crítico sobre a sociedade de consumo e mostra o dia-a-dia da vida moderna, em "Luxo lixo". O consumismo invadiu também a sua sossegada e mimosa Pomerode. A prosa poética de Irenêu Voigtlaender, contida nos três livros já publicados, exprime gritos distantes do homem que sente suas origens e também a alma de seu povo, deixando a sensibilidade brotar de dentro de seu ser, para transfigurar o fazer poético.
É importante conhecer esse poeta.
Até a próxima

8 de janeiro de 2008

DE VOLTA A BALNEÁRIO



Cheguei a Balneário Camboriú. Desci das serras Catarinense e Gaúcha para o litoral, suando em bicas. Ufa! O calor está mesmo para nenhum banhista botar defeito. A cidade está lotada e os argentinos chegaram, mas estão gastando pouco. Uma observação: estão mais bem educados. Parece que "los hermanos" abaixaram a crista e calçaram as sandálias da humildade, pois não andam mais pelas ruas com aquela empáfia de sul-americanos que pensam que são europeus e falam um dialeto da Langue d’Oc. Invadiram Florianópolis e deram preferência às águas turmalinas com areia branca de Canasvieiras. Agora, se você pensa em transitar por Floripa à vontade, está completamente engarrafado, quer dizer, enganado! O trânsito está um horror. Bem, pelas bandas de Balneário Camboriú a coisa está um pouquinho melhor. É claro que o trânsito não flui como gostaríamos, mas o departamento de engenharia da prefeitura até que deu uma ajeitada, abrindo novas vias de acesso ao centro e a diversos bairros, desafogando as críticas avenidas Brasil e do Estado. Nesse ano haverá mudanças políticas por aqui, pois os postulantes à Prefeitura já estão confabulando nos bares, nas esquinas, nos escritórios, nas empresas, nos corredores, nos ouvidos da gente e, principalmente, procurando uma fórmula segura para chegarem à chefia do Executivo. São muitos políticos: daqui e de fora; com nomes estranhos e com apelidos; com preparo e sem preparo; com razoáveis e até boas intenções, mas todos com o bolso cheio de muito dinheiro, pois uma campanha para a Prefeitura de Balneário Camboriú não sai por menos de uns seis ou sete milhões de reais.
O importante é que já estou de novo por aqui, observando as coisas do Sul, da Bola e das Letras. Opinem, dando seu voto, expressando a sua preferência pelos assuntos que trato nesse SITE.
Até breve.

3 de janeiro de 2008

DE NOVO EM GRAMADO



Minha gente!Estou de novo em Gramado. Depois do Réveillon em Lages, vim passar uma semana aqui em Gramado. Rever os amigos e estar nesta terra belíssima é um regalo para a vista e um refrigério para a alma. Creio que estou ficando sentimental demais! Mas é isso mesmo. Esta terra é muito bonita. E onde fico por aqui? Claro, no Hotel do SESC. A todos que acessarem meu BLOG, desejo um feliz Ano Novo. E ao pessoal lá do Hotel do SESC, ao Natalino, ao Osório, agora papai rindo à toa, aquele abraço fraterno. Em breve estarei novamente em Balmeário Camboriú, comentando as coisas do Sul, da Bola e das Letras.

Até breve!

21 de dezembro de 2007

LUDOPEDURSOFILIA



Essas máquinas de aparência inocente, instaladas em todos os centros de entretenimento infantil nos shoppings das cidades, são, na realidade, máquinas caça-níqueis. Máquinas de jogar, programadas para nunca perder: um jogo desleal (LUDOS). Deveria o seu uso ser motivo de um estudo detalhado por parte das autoridades responsáveis pela liberação do alvará de funcionamento desses estabelecimentos que alegram os minutos de vida de muitas crianças (PEDOS) e entristecem o bolso dos papais, mamães, vovós, vovôs, titios e titias... Nesses locais onde estão instaladas, crianças de pouca idade, o que vale dizer de pouca ou quase nenhuma coordenação motora, tentam apanhar o tão sonhado e ilusório objeto de seu desejo: o ursinho (URSO) de pelúcia. O funcionamento daquela parafernália, com ganchos, botões, manivelas, sons e engrenagens dura somente alguns segundos. A criança ainda sem coordenação motora perde seguidamente a oportunidade de pegar o brinde e o bolso do papai perde seguidamente dois reais a cada dez segundos. Então, parece-nos que estamos diante de um jogo de azar, onde as chances são mínimas e o lucro é certo, numa programação extorsiva. As crianças adoram e se relacionam com aquela magia colorida, identificando-se como amiguinhas (FILIA) dos fofos bonequinhos. Que adultos tentem fisgar o ursinho, testando a sua habilidade em coordenar seus movimentos, sua motricidade muscular, tudo bem. Mas crianças, de pouca idade, não poderiam tentar esses movimentos, pois estão, a priori, destinadas ao fracasso. E a frustração deixada numa cabecinha inocente, a nosso juízo, deixa seqüelas psicológicas ainda não estudadas pela psicologia infantil e nada consta ainda na literatura específica, a respeito dessa forma mascarada de contravenção. Isso é um absurdo que deve ser reprimido por quem de direito. Minha neta de oito anos gastou, em menos de trinta segundos, seis reais, tentando agarrar os bichinhos de pelúcia vestidos de papai-noel, num shopping da cidade onde passa férias comigo. Chamei a responsável pelo setor, disse-lhe tudo isso que coloco aqui neste desabafo e me dirigi à Ouvidoria do Ministério Público da cidade, para formalizar minha indignação e pedir providências a respeito. Pelo menos, depois disso, sinto-me mais aliviado, pois fiz a minha parte, como cidadão, alertando as autoridades para um tipo mafioso de ganho fácil, explorando a inocência infantil. Que nome teria isso? Digamos, num desabafo lingüístico, um baita neologismo já, de certa forma anunciado acima: LUDOPEDURSOFILIA

17 de dezembro de 2007

LISBOA, 31 DE DEZEMBRO


O fim do ano está chegando. Lembro-me da primeira vez que estive em Portugal. Foi em dezembro de 88. Fazia muito frio em Lisboa, pelo menos para um carioca que deixara o Rio de Janeiro com 40 graus, à sombra. Eu agasalhava a idéia de passar a virada do ano numa típica casa portuguesa, gozando da hospitalidade lusitana e das delícias das comidas típicas. Talvez, quem sabe, numa grande praça ou num iluminado sítio, como via pela televisão os cenários de rua em Paris, Nova Iorque, Londres ou Copacabana. Não era querer muito, creio, mas onde iria cear, se não tinha nenhum parente ou casa de amigo em Lisboa?


Estávamos hospedados em uma pensão, com todos os apartamentos ocupados. Casa cheia, minha gente! O Sr. Manoel tratava-me com toda gentileza, não fôramos eu e minha esposa indicados por Sílvio Elia, um dos mais ilustres professores de lingüística do Brasil e freqüentador assíduo da boa pensão da rua Castilho.

Lá pelas quinze horas fomos, ansiosos e felizes, para o Rossio, na tentativa de encontrarmos algum recanto gastronômico, à espera da contagem regressiva para a chegada de mais um ano, que bem poderia ser, pelo menos, tão bom quanto o que estava preste a acabar. Mas essa coisa de ver o futuro é com os magos que sempre dizem as maiores bobagens... e muita gente acredita.

Não encontramos nada de especial. Nada, mesmo. As casas do comércio estavam a fechar e todos queriam ir embora para casa. Consegui comprar um champanhe francês, a muito custo, explicando-me com o vendedor, muito mal humorado. Bem, à meia-noite faremos nossa festa particular, pensei. Não havia outro jeito.

Mas eis que avistei um aglomerado à porta de um restaurante, parecendo a entrada de uma festa. Aproximamo-nos, observamos bem, analisamos os prós e os contras, bati no bolso para constatar se tinha mesmo dinheiro e entramos.

Sentamos numa pequena mesa quadrada e pedimos duas sopas de santola.
- O senhor não pode abri o champanhe. São ordens da casa, a não ser que pague três mil escudos.

Escutei estarrecido e seco de raiva, mas como já estava no clima, aceitei a prática, que no Brasil se chama PAGAR ROLHA. Ao lado, um grupo de dinamarqueses festejava tola e ruidosamente o fim de mais um ano. Alemãs, italianos, polacos, todos com bandeirinhas de seus países numa das mãos e na outra antipáticos reco-recos. Conseguiam, ainda, soprar estúpidos apitos, numa barulheira ensurdecedora, achando aquilo tudo muito agradável. Eu estava, obviamente, aborrecidíssimo. Só pensava na cascata de fogos da Avenida Atlântica, os orixás marcando os pontos, todos de branco nas areias de Copacabana. Pensava na contagem regressiva para a inebriante iluminação da maçã de Nova Iorque. Pensava nos baile de máscara, nas avenidas iluminadas e repletas de Paris... E nós ali, naquele cubículo caríssimo, comendo pouco, porque a “grana” era curta, lamentando a infeliz idéia de sairmos para o Rossio.

Apertei, com educado cumprimento, as mãos de muita gente loira, falando línguas completamente diferentes, disse algumas besteiras, paguei a conta e fui.


Na porta da pensão Castilho recebi um efusivo abraço de felicitações pela passagem de ano, dado pelo Sr. Manoel, que estava preocupado com a nossa ausência ao jantar servido a todos os hóspedes, que já tinham se recolhido. Tudo por conta da casa.


O velho Sr. Manoel, percebendo em nosso olhar a grande decepção, pois os restos do banquete ainda faziam água na boca, fez questão de nos levar para a copa, onde nos serviu uma das melhores ceias dos últimos tempos. Com bate-papo, conversa fiada, piadas e tudo que tínhamos direito. Não se fazem mais hoteleiros como antigamente... Soube, há pouco tempo, que a pensão Castilho não existe mais.
Até a próxima!
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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.