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8 de julho de 2008

A VIDA E O LUGAR DO AMOR NO TEMPO



Uma recensão do livro FUGIR

Por: Luiz Cesar Saraiva Feijó


O romance de Jean-Philippe Toussaint, FUGIR (FUIR), prêmio europeu Medici de 2005, foi publicado por Les Éditions de Minuit, Paris, em 2005. É uma ação passada num verão qualquer da atualidade, em três momentos, com curtos blocos distintos dentro de cada uma das três partes da obra. Isso tem um significado interessante, pois dá ao leitor a sensação de estar recebendo informações significativas a todo instante sem a angústia de esperar um desfecho, mas excitando-se sempre, pois a forma de tratar o tema é a de um vai-e-vem enunciativo que cria imagens impactantes, fortes e poéticas. O crítico Jacques-Pierre Amette já dissera, aliás na quarta-de-capa da primeira edição (Lés Éditions de Minuit,7,rue Bernard-Palissy, 75006, Paris), que “o romance apresenta um verdadeiro estilo toussaint, na forma, no rigor, na pontuação, na psicologia: tudo perfeito”.
O autor, com esse estilo vibrante, com suas frases fracionadas entre o discurso indireto e indireto-livre, predominando a justaposição e a coordenação sobre a subordinação, apresenta uma narrativa diferente, uma forma atraente e inovadora de se dizer algo, de se contar algo, de se transmitir uma informação. Inicia-se, aí, portanto, o predomínio da conotação sobre a denotação, dando ao texto um caráter literário, sem, contudo, deixar de estabelecer com a realidade um vínculo de verossimilhança. Junta-se a isso tudo um ritmo exótico, marcado por uma pontuação sui-generis. Nesse romance, Jean-Philippe Toussaint desenvolve o tema do amor, da angústia e da paixão com um texto misto de referencialidade e prosa poética, especialmente caracterizada por um impressionismo lingüístico, repleto de languidez nos sintagmas que estruturam os períodos, muitas vezes envolvido pela linguagem difusa das metáforas e hipálages, em tempos e lugares diferentes. Em muitos momentos, o enunciado se apresenta colorido com as luzes verdes e azuis das lanternas chinesas e das composições ferroviárias, com as luminárias dos vagões e dos sinalizadores da linha férrea, faiscando de sentimentos. A enunciação prepara o texto, que fala da referencialidade factual. Uma inovadora forma de se referir aos objetos envolve as personagens e, psicologicamente, prepara o leitor para ficar sempre preocupado com o desfecho da trama. O tempo do romance também contribui para isso. Esse tempo distribuído em espaços diferentes dá ao leitor a sensação de estar próximo de um texto épico, não faltando para isso o ambiente grego da ilha de Elba. Construído por formas verbais oscilantes, o romance flui entre a hipótese e a realidade, iniciando a Parte I com a onisciência da primeira pessoa, que narra, no pretérito e no presente, os acontecimentos do verão, tempo em que vive Maria, numa Paris moderna, contrastando com uma Xangai quase caricata, de onde o personagem-narrador fala com ela, por telefone celular. A chegada do narrador a Xangai, mostra-nos a realidade de uma Chima, captada mais pela sensibilidade poética do autor (sem preconceitos), do que pelas reflexões sobre a realidade oriental, sempre postas em confronto com a européia. Aliás, estão nesses casos a descrição das estações chinesas de trem, hotéis, bares, mercado e comércio do entorno das grandes avenidas de Xangai, numa narrativa de sugestões e impressões, tudo impregnado por uma antítese penumbrista, tudo tão luminoso quanto opaco, levando-nos ao suspense, que é outra forma utilizada, para prender a atenção do leitor. Mas a sensibilidade do autor também capta a deterioração das partes da cidade menos favorecidas, numa linguagem característica do mais significativo estilo realista (“para entrarmos num velho edifício de tijolo aparente, onde, numa penumbra macilenta, vagueavam cheiros peçonhentos de couve rançosa e de mijo”). A minúcia e o detalhismo também são comuns e aparecem, principalmente, nas Partes I e II, em inúmeras passagens exemplificativas. Parece, ainda, que o suspense, como se observa no início da Parte I (“o meu passaporte vendo-o passar de mão em mão temendo vê-lo subitamente desaparecer como num conto do vigário entre as mãos de um dos inúmeros funcionários atarefados por detrás do balcão”), se alimenta de uma série de descrições minuciosas de figuras humanas e de ambientes, onde a luminiscência continua a impressionar o autor e as cores dos neóns chamam, amiúde, sua atenção para manter o leitor na linha do encontro da solução do emaranhado construído pela enunciação.
Na composição da textura da linguagem de Jean-Philippe Toussaint , observa-se a utilização de um estilo elíptico, caracterizado por cancelamentos sintáticos, o que imprime rapidez na leitura, ao mesmo tempo que proporciona reflexão, pois o leitor não acostumado a essa técnica de escrituração, medita instintivamente sobre os acontecimentos para se dar conta do que lhe é narrado. Esse estilo e o discurso indireto livre são, como já dissemos, mais uma criação estilística da forma toussaintliana de narrar. (“A confusão era completa (começava a me sentir mal). Maria?” ).
No menor bloco do romance, localizado na Parte I do romance, autor como narrador, traz o suspense à cena, pois o que importa é saber o que vai acontecer com Maria ou com o relacionamento dele com ela. Depois, não há mais nenhum pequeno bloco com esse objetivo.
Uma outra técnica narrativa é a modo de afirmar, interrogando, como que num diálogo com o leitor. O narrador, pergunta ao leitor alguma coisa e diz o que o leitor precisa saber para entender a seqüência dos acontecimentos, sem nenhum diálogo com qualquer outra personagem: (“...não tinha nada de particular para fazer em Xangai. Não é verdade?”).
O romance FUGIR, de Jean-Philippe, em suas três partes, apresenta bem focadamente, em cada uma delas, respectivamente, a precipitação do erotismo, a fuga explícita e a explosão do amor no mar. O erotismo surge de forma pretendida, camuflada algumas vezes, outras mais acentuada, mas nunca explicitamente acontecida, sempre em lugares e tempo diversos. O erotismo está diluído na forma mais simples de um terno sentimento de desejo: “e percebi que alguma coisa de terno estava nascendo”. Ou, ainda, em: “aproximei-me dela e desajeitadamente no meio da multidão dei-lhe um beijo, com uma timidez confusa, que me perturbou e por causa disso nossos olhares se cruzaram um instante e os nossos lábios não tão por acaso se roçaram”. Mas esse desejo vai crescendo até tomar outros caminhos, numa linguagem que sustenta muitas emoções, até ser interrompido pela presença de Maria, contraponto direto e significante, impeditivo da plena consumação amorosa entre o narrador e Li Qi, porque ela, Maria, é o ponto de partida e a chegada dessa fuga proposta por Toussaint.
O suspense é anterior ao erotismo. Prepara o prazer, pois causa a ansiedade que precipita a expectativa do relacionamento carnal. Contudo, se esse preparo existe, o desfecho da relação sexual se interrompe, justamente pelos acontecimentos misteriosos e paira sobre a ação uma sensação de que, a qualquer momento, uma tragédia se abaterá sobre os dois envolvidos no jogo de amor, num vagão do trem, por exemplo, onde “uma das portas de passagem entre os vagões tinha sido partida, há pouco sem dúvida, estilhaços de vidro cobriam o chão do corredor e vestígios de sangue seco estrelavam a parede, uma mancha maior, central, e milhares de gotinhas secas à volta, minúsculas, mineralizadas, duma cor vermelho acastanhada”.
A fuga na moto indiabrada que se movimenta pelas ruas fervilhantes e perigosas de Pequim, na Parte II do romance, antecedida por um preâmbulo de minuciosas descrições de locais e situações, prende o leitor e desencadeia enorme tensão. É um momento muito significativo, onde a fuga se consubstancia denotativamente. Esse momento significativo do romance se precipitará, na terceira e última Parte, a explosão do amor no mar, formando um bloco de significações distintas, dando ao texto de Toussaint uma linguagem especial, isto é, uma relevância significativa na literatura da modernidade européia. Nessa terceira e última parte do romance o autor envolve o texto poético num suspense amargurante, sem dar pistas do desenlace, deixando-nos uma dúvida angustiosa, sempre entre um final feliz ou uma tragédia no mar. A opção vem em favor do amor e da vida... “et Marie pleurait dans mes bras, dans mes baisers, elle pleurait dans la mer”... e Maria chorava nos meus braços, nos meus beijos, chorava no mar.
Portanto, nesse livro, a vida como tragédia, sempre por acontecer, quer no toque de um celular, quer nas braçadas de Maria, ao entardecer, desaparecendo por trás das rochas, nadando no mar, traz uma reflexão sobre a vida e o lugar do amor no tempo. Estilo e formas especiais da narrativa que Jean-Philippe Toussaint nos mostra nesse romance publicado agora, em junho de 2008, pela Bertrand-Brasil, tradução de Joaquim Pinto da Silva.

26 de maio de 2008

UMA FOTO EM GRAMADO

Mais uma vez cheguei a Gramado, desta vez para curtir o feriadão de Corpus Christi. Como sempre faço, fiquei lá no SESC da Av. das Hortênsias, onde já fiz muitos amigos e sempre me recebem bem, com aquela recepção gaúcha regada a chimarrão, cuia, bomba e calça de punho, chê! É verdade, o pessoal do hotel do Sesc da linda e simpática cidade da Serra Gaúcha é muito competente, amável e sabe como poucos receber o turista. Mas minha ida àquelas bandas do sul estava relacionada também à vontade que tinha de registrar com minha câmara, que acabara de comprar, as imagens do outono, materializadas nos reflexos de luz e cores das folhas dos plátamos e dos pinheiros ao longo das estradas principais, dos caminhos dos vales, das estradas vicinais, das pequenas vilas do interior e das Linhas, que são caminhos abertos desde os tempos da colonização alemã. A noite de lua cheia, logo no primeiro dia de minha chegada arredondava o céu de Gramado, num tom aveludado de fazer arrepiar todos os corações românticos. Mas quando estava preparado para a primeira incursão noturna, o meu amigo Natalino, responsável pelos melhores coquetéis de toda a rede hoteleira da região, me disse que estava com um baita problema para resolver e, naquela hora, não via outra solução a não ser me pedir o favor de ir com ele rebocar o seu "cheiroso”, enguiçado numa rua de Canela, à mercê dos amigos do alheio. Não podia deixar de atender o pedido dele e saímos em direção ao velho e batalhador Santana dos idos de muito antigamente. A rua escura, na penumbra do luar de um artro tão encantador e ansiosa para despertar todas as mais escondidas emoções dobradas nos corações dos casais que visitavam a cidade, logo, logo se apresentou como o cenário ideal para algumas fotos de efeito. Antes dos preparos para o reboque do valente Volkswagen, saí escolhendo os melhores contrates entre sombras em meia-luz, entre a maciez do azul escuro da noite na branda e perfumada claridade, infiltrada nos galhos das araucárias e rapidamente preparei a máquina com os filtros próprios. Regulei o diafragma, acertei o foco, interpretei a distância exata entre o fundo, a forma e o grande vulto leitoso, arredondado, que surgia entre as árvores da floresta que se dividia pela passagem de uma ruela e pronto. Cliquei o obturador na certeza de estar imprimindo uma obra-prima, com direito a todos os prêmios fotográficos a serem divulgados no ano em curso... Estava tudo perfeito e fotograficamente correto. Quando cheguei a casa no domingo, ao revelar um dos filmes, muito tempo depois, é claro, de ter deixado o veículo de estimação de meu amigo em total segurança numa garagem, depois de muita coisa ter acontecido; de ter recebido os agradecimentos do Natalino por aquele "galho quebrado" num fim de noite; de ter tomado um "cabernet sauvignon" com ele e o Osório num barzinho no centro de Canela, percebi que havia na película acetinada a imagem de um casal que se amava escancaradamente na escuridão daquela enfeitiçada noite de lua cheia, indiferente aos flashes e ao barulho que fizemos amarrando as correntes para rebocar o carro enguiçado. Realmente, na ansiedade da captação da imagem não havia percebido os amantes enluarados. Pensei em me consagrar como o az das penumbras serranas, obtendo uma das mais significativas fotos de uma noite de outono na serra gaúcha e nem percebi que havia me consagrado como fotógrafo lambe-lambe... E como registrei lambidas... Aprendi naquela noite - e o que aprendi mesmo, foi que o amor está acima dos preconceitos e das vis pretensões humanas de se pensar certas atitudes como impróprias ao convívio social. Isso aconteceu em Gramado, verdadeiramente uma cidade incrível!


ATÉ A PRÓXIMA

20 de maio de 2008

O CIRCO E O POETA




























Na última segunda-feira, dia 19 de maio deste ano, Alckimar Santos lançou na UFSC seu livro CIRCENSES, com ilustração de Rodrigo de Haro, pela Editora 7
Letras. O livro custa R$ 20,00.
Um coquetel foi oferecido a alunos, professores e a muitos convidados que prestigiaram o concorrido evento.























A poesia que Alckimar Santos nos apresenta em seu último livro CIRCENSES é uma poesia requintada, onde a palavra, tratada por ele com esmero, cuidado e perfeição, nos traz o devaneio da beleza, impondo-nos uma constante atenção ao texto. Poderíamos citar aqui inúmeros autores, para justificarmos uma análise, baseada nas mais recentes teorias da crítica literária, mas não é o caso, pois nesse BLOG, estamos sempre preocupados em orientar nossos leitores para uma boa leitura, para os bons textos. Nossas palavras, portanto, não são direcionadas exclusivamente ao público acadêmico e terão o propósito – pensamos assim - de divulgar os trabalhos construídos esteticamente, para um público sensível ao belo. A poesia de Alckmar Santos, em CIRCENSES, se apresenta como forma (ó) sem forma (ô), isto é, sem a redundância do tema como, aliás, já dissera Paulo Henriques Brito na apresentação da obra: “sem resvalar para o óbvio”. Bráulio Tavares, autor de ABC de Ariano Suassuna, diz que a poesia “exige do poeta uma consciência muito aguda do que escreve, e exige o mesmo do leitor que lê”. Concordando com isso, diremos que Alckimar Santos é aquele poeta que tem plena e total consciência da palavra que tece em seus versos, com o mistério da arte envolvendo sempre o leitor, que deverá ficar atento à escritura que tem em mãos, pois, assim, terá a oportunidade de ser também, pelo menos, co-responsável pelo êxtase, ao interpretar a escrituração do poeta.

ALCKIMAR é natural de Silveiras, SP. Cursou ciências exatas, com formação em engenharia eletrônica, fez mestrado em teoria literária na Unicamp e doutorado em Paris, com orientação de Julia Kristeva. Publicou: a) Poesias: Rios imprestáveis; Retrato e percurso; Meu tipo inesquecível; Dos desconcertos da vida, filosoficamente considerada (poema digital). b) Romance: São Lourenço. c) Ensaios: Leituras de nós; Ciberespaço e literatura.
Até a próxima.

11 de maio de 2008

ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA



Não fique sem saber o que está acontecendo com a Língua Portuguesa, quanto à sua ortografia. Saiba mais sobre o ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA, acessando o texto completo em PDF, em






MUDANÇAS

Trema:


Deixará de existir, a não ser em nomes próprios. Ex. Linguiça (sem trema).


Hífen 1:


Não será mais usado quando o segundo elemento começar com R ou S. Essas letras deverão ser duplicadas. Exemplos: antissemita e contrarregra.


Hífen 2:


Não será mais usado quando o primeiro elemento termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: extraescolar e autoestrada.


Acento circunflexo 1:


Não será mais usado nas terceiras pessoas do plural dopresente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos crer, dar, ler e ver. Exemplos: creem, leem, deem.


Acento circunflexo 2:


Não será mais usado em palavras terminadas com hiato OO, como em enjoo e em voo.


Acento agudo:


Não será mais usado em palavra terminada em EIA e OIA. Exemplos: ideia, jiboia.
ATÉ A PRÓXIMA

25 de abril de 2008

CALDO DE CANA MOVIDO A BOI

A frase que serve para anunciar, em um restaurante de beira de estrada (Rodovia Jorge Lacerda, Santa Catarina), a delícia de um caldo de cana bem gelado, principalmente nos dias de grande calor, chama a atenção do estudioso da língua e, até mesmo, talvez, de simples curiosos, a respeito dos mistérios da linguagem, pelo inusitado da composição frasal, pois um caldo de cana não pode ser movido por boi. Mas, temos a certeza de que, passada a surpresa da leitura inicial, todos entendem o recado e vão se refrescar com o suco verde da mais doce cana de açúcar caiana. Ali você vai encontrar caldo de cana, produzido numa engenhoca antiga, onde a força motriz para moer a cana é o trabalho de um boi, que faz girar um mini-engenho como aqueles de nossos tempos coloniais.
Mas o que aconteceu, lingüisticamente falando, nessa frase? Aconteceu um CANCELAMENTO. Esse fenômeno pode ser estudado pela Neuro-lingüística, pela Lingüística e/ou pela Teoria da Comunicação.
Borer e Wexler (1987), por exemplo, observam "que numa determinada etapa do processo de aquisição de linguagem as crianças não possuem a capacidade de formar cadeias argumentais, como as envolvidas na formação de sentenças passivas", por exemplo. Mas a frase em questão poderia ter sido dita por uma criança! Quem sabe?

Mariléia Silva dos Reis, na revista Linguagem em (Dis)Curso, volume 1, número 1, jul./dez., 2001, diz, citando Stalnake, que "para compreendermos a extensão abrangente de um contexto, alguns pressupostos teóricos devem ser considerados". Simplificando esses pressupostos, podemos resumir que toda asserção tem um determinado conteúdo, assim como, um ato de asserção é, entre outras coisas, a expressão de uma proposição - algo que represente o mundo de um modo ou de outro. Assim, as asserções são produzidas num contexto, ou seja, são produzidas numa situação que inclui um falante com certas crenças, história de vida e intenções, além de uma história lingüística e sedimentação de vivências, tendo essas pessoas suas próprias crenças, mitos e intenções para quem as asserções são dirigidas. Muitas vezes, por exemplo, o conteúdo da asserção depende do contexto em que é produzida e de quem está falando ou de quando o ato da asserção acontece. Finalmente, os atos de asserção afetam o contexto, pois a pretensão é afetá-lo intencionalmente mesmo, pois isso é a proposta básica da comunicação, como é o caso de nossa frase à beira da rodovia catarinense, no município de Ilhota. Nesses termos, o contexto pode ir muito além das informações semânticas: podem fazer parte de informações pragmáticas que levem em conta situações de fala, incluindo falantes com suas histórias de vida específicas, e ouvintes também com suas próprias crenças, histórias e intenções, que são as pessoas para quem as asserções são dirigidas, como receptores publicitários, entre tantos outros e quaisquer receptores, como dentro de um modelo comunicacional, por exemplo.
Quanto à Teoria da Comunicação, devemos lembrar que Grice, em seu artigo "Logic and Conversation", apresentado na Universidade de Harvard em 1967, em homenagem a William James e, posteriormente publicado em 1975, estruturou novo sistema conceitual para o tratamento das complexas questões que envolvem o problema do significado e da significação na linguagem. A preocupação de Grice, já demonstrada em "Meaning"(1957), “era encontrar uma forma de descrever e explicar os efeitos de sentido que vão além do que é dito”. Em última análise, como é possível que um enunciado signifique mais do que literalmente expressa. Deve haver algum tipo de regra que permita a um falante (A) transmitir alguma coisa a um ouvinte (B), além de uma frase, e esse ouvinte (B) entender esta informação extra. E então, torna-se conhecida sua teoria da comunicação através dos conceitos de significação natural e não-natural (meaning-nn) tão decisivos na origem dos trabalhos sobre pragmática.
Em nossa frase "CALDO DE CANA MOVIDO A BOI" houve o CANCELAMENTO de toda uma estrutura lingüística perfeitamente dispensável (significação natural), constituída por uma base de signos lingüísticos (Caldo de cana {produzido por engenho} movido a boi). A significação não-natural repousa na história atávica de cada brasileiro que lê a mensagem, decodifica e aceita o apelo.
Mas as coisas não param por aí, não. Os mistérios da linguagem continuam. Além do CANCELAMENTO e, talvez, por causa dele, ocorre um outro fenômeno lingüístico que é a HIPÁLAGE. O que é isso? Hipálage é, segundo Matoso Câmara Jr., a “figura de linguagem em que se dá realce a um determinante, associando-o a um termo que não é, logicamente, o seu correspondente determinado, assim se criando um sintagma inesperado. Ex.: o mistério hebreu das vozes dos profetas (Guimarães, Poesias, 316), em vez de o mistério das vozes dos profetas hebreus”. No caso da nossa frase CALDO DE CANA MOVIDO A BOI, o que é movido a boi não é o caldo de cana, mas a moenda que produz o caldo da cana. Então, pasmem! Há nessa frase uma HIPÁLAGE e um CANCELAMENTO ou seja, um HIPAGELAMENTO. Fica, portanto, registrado aqui, o meu neologismo lingüístico.


13 de março de 2008

ANACOLUTO

De 18 a 22 de fevereiro de 2008, realizou-se na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), patrocinada pela ACADEMIA BRASILEIRA DE FILOLOGIA, a VIII Semana Nacional de Língua Portuguesa, quando foi homenageado o Professor Evanildo Bechara, pela passagem de seus 80 anos. As atividades culturais foram significativas e todos os acadêmicos tiveram a oportunidade de levar ao público presente, nesses cinco dias, sua palavra amiga de saudação a um dos mais significativos nomes da filologia brasileira, o Dr. Prof. Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Filologia. Na ocasião, precisamente no dia 21, participei de uma Mesa-Redonda sobre o tema “ORALIDADE E ESCRITA”, cuja expositora foi a Profa. Dra. Terezinha Maria da Fonseca Passos Bittencourt (UFF e LLP), tendo como comentadores os Professores Doutores Francisco Venceslau dos Santos (UERJ), Nilda dos Santos Cabral (UFF e LLP), Ceila Ferreira Martins (LABEC-GCL-UFF) e eu. Meus comentários giraram em torno das pesquisas que realizo sobre a linguagem especial do futebol. Reproduzo agora, minha participação, como forma, ainda, de cultuar academicamente o ilustre mestre Evanildo Bechara, amigo e colega de muitos anos, na luta diária das salas de aulas de inúmeros colégios e faculdades, no Rio de Janeiro.



Em minhas pesquisas sobre a linguagem especial do futebol confirma-se aquela máxima lingüística que diz que ninguém escreve como fala. Em nenhum comentário sobre qualquer partida de futebol, que aparece posteriormente nos jornais, o analista deixa de apresentar seus comentários, retratados na escrita, numa forma gramatical correta, deixando de lado muitas pontuações da oralidade, como, por exemplo, os anacolutos. Mas a fala dos locutores e comentaristas, descrevendo e analisando os acontecimentos em campo, está repleta dos mais clássicos vícios de linguagem e impropriedades gramaticais, muitas até irrelevantes. Dou como exemplo o uso do verbo assistir, no sentido de ver, presenciar, principalmente usado na voz passiva, como em “O jogo foi assistido por dez mil expectadores”. Mas voltando aos anacolutos. Eles podem ser considerados como verdadeiras marcas da oralidade, pelo menos nesses casos que pesquiso. Sabemos que o anacoluto ou FRASE QUEBRADA foi muito usado no grego antigo e na nossa literatura clássica, sendo hoje combatido pela disciplina gramatical, como, aliás, afirma Mattoso Câmara Jr. Mas a língua literária ainda está repleta de anacolutos e, na língua escrita, funcionam muito mais como marca estética do que como sobreposição de pensamentos que surgem, uns após outros, como, por exemplo, no decorrer de uma transmissão esportiva ou no auge de um comentário emocionante, feito por jornalista especializado nessa área. O conhecido anacoluto do clássico soneto de Machado de Assis, À Carolina, no último terceto “Que eu, se tenho nos olhos mal feridos/Pensamentos de vida formulados,/São pensamentos idos e vividos”, é um recurso estilístico de intensa pujança, sugerindo mesmo um soluço de dor. Mas a elaboração e o refinamento ao se escrever, tudo bem pensado, bem refletido, ou até mesmo intuitivo, é que vão diferenciar o anacoluto da língua escrita do anacoluto da língua oral. Podemos procurar nas resenhas esportivas escritas nos jornais, sobre os resultados dos jogos do dia anterior e não vamos encontrar nenhum vestígio dessa filigrana, representada por essa figura da língua literária. Na linguagem esportiva, lembro-me dos comentários sobre as arbitragens de futebol feitas pelo comentarista Mário Vianna (com dois ENES, como ele insistia em dizer em alto e bom som), ex-árbitro de futebol e que fazia a linha “bateu-levou”, dentro e fora de campo. Quando era chamado, no decorrer do jogo, pelo narrador da partida, para comentar uma decisão tomada pelo juiz, podíamos encontrar na sua falação inúmeros anacolutos. Mário Vianna falava por anacoluto. Quem não se lembra da expressão que ele gritava ao microfone: LA MANO, LA MANO.... E com essa expressão da língua castelhana ele punha em relevo a idéia primordial que tinha em mente (a falta, a mão na bola), destacando-a como a grande mensagem sobre a qual iria falar. Outra passagem célebre de Mário Viana ocorreu quando ele disse que o porco e o peru eram duas aves que sempre compareciam ao campo de futebol: o peru, referindo-se a um “enorme frango” do goleiro e o porco.... Bem, o porco foi a imagem encontrada para o juiz que faz muita bobagem. É claro que por mais desinformado que Mário Vianna fosse sobre os assuntos mais elaborados, da ciência, inclusive, ele não iria escrever isso. Mas falando, no auge de um comentário, querendo agradar seu público, querendo mostrar que entendia do seu ofício, ele colocou como pertencentes à mesma espécie um ovíparo e um mamífero. Haja coração!

7 de março de 2008

ACROGRAFIA



Existe uma sigla em Portugal que sintetiza, por meio de uma abreviatura, uma locução relacionada à ajuda econômica da União Européia aos países membros. Essa forma de grafia se chama acrografia. Mattoso Câmara Jr. assim se refere a essa particularidade da língua escrita:

“Acrografia é uma grafia em abreviatura, de uma locução por meio das letras iniciais dos vocábulos componentes, que formam em conjunto um nome próprio; ex. REW (Romanisches Etymologisches Wörterbuch) para o “Dicionário Etimológico das Línguas Românicas” de Meyer-Lübke; em português, como nas demais línguas modernas, lança-se mão da acrografia para – títulos de obras, revistas e jornais em citação (ex.: REW), partidos (ex.: ARENA para “Aliança Renovadora Nacional” e MDB para “Movimento Democrático Brasileiro”, departamentos, organizações e até nomes de países (ex.: MEC, para o “Ministério da Educação e Cultura”, no Brasil; ONU para a “Organizaçãodas Nações Unidas”, USA para os “Estados Unidos da América” em sua forma inglesa de United States of América; URSS para a “União das Repúblicas Socialistas Soviéticas”), mais recentementenomes de autores, figuras políticas (MA, para “Machado de Assis”); etc." (Cf. Dicionário de Lingüística e Gramática, Petrópolis, Vozes, 1977, p.40)

Como se vê, a acrografia ou sigla é um recurso muito usado na língua escrita e que serve para economizar letras, abreviando palavras ou expressões extensas. Mas, se observarmos bem, vamos ver que a sigla forma uma nova pequena palavra que entra no vocabulário ativo do falante, podendo confundir o falante-ouvinte. Parece que é o caso da leitura equivocada da abreviatura grega do nome de Cristo, Xpto, que pode significar, entre outras coisas, excelente qualidade, primoroso, magnífico e, também, ungido e Jesus. Sabe-se, também, que das siglas podem derivar palavras, como de PT (Partido dos Trabalhadores) surge petista, o militante, ativista ou adepto do PT.

Pois bem, em Portugal, fixados em lugares públicos de grande circulação de pedestre e veículos, há enormes out-doors com letras garrafais, apresentando a sigla FEDER. Trata-se do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional que se destina a reforçar a coesão econômica e social na União Europeia, através da correção dos desequilíbrios regionais. Esse Fundo financia e promove ajudas diretas aos investimentos realizados nas empresas, a fim de criar emprego duradouro, além de fomentar infra-estruturas ligadas à investigação, à inovação, às telecomunicações, ao ambiente, à energia e aos transportes. Promove ajuda, através de instrumentos financeiros, fundos de capital-de-risco, fundos de desenvolvimento local, etc, apoiando o desenvolvimento local e regional, favorecendo, assim, a cooperação entre as cidades e as regiões. Por tudo isso, percebe-se que esse Fundo é muito importante para o desenvolvimento nacional.
Mas, pergunto:
Precisavam abreviar esse importante Fundo de Desenvolvimento Regional assim? F E D E R coincide com o verbo homógrafo que exala mau cheiro ou causa aborrecimento.
Por outro lado, não podemos nem pensar que nessa sigla FEDER, propositadamente, está embutido o sentido da forma latina foedus, eris “tratado”, “convenção”, “aliança”, sempre muito usado, dando origem a vocábulos como federação, federar-se, federal, federalismo, confederado, confederativo e sentidos amplos como fazer aliados e união.
Cremos que foi mesmo coisa de português, isto é, da língua portuguesa, para não sermos indelicados...
O mais curioso é que, passando-se por um pequeno, mas próspero município de Santa Catarina, entre Guaramirim e Blumenau, justamente na entrada de Massaranduba, encontra-se um enorme cartaz, com grandes letras maiúsculas em vermelho, que traz a mesma forma lingüística FEDER, anunciando uma empresa de construção. Lá, não consegui perceber a acrografia. Será que, por ser uma região colonizada por alemães, esse FEDER não corresponderia a algum sobrenome de família? Tudo é possível!
Tentem decifrar.
Fotografei para não deixar dúvidas sobre o mau gosto do empresário.
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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.