
Mais uma crônica do cotidiano de Luiz César Saraiva Feijó



(Algumas extraídas do livro de Rubim Santos Leão de Aquino, Futebol, uma paixão nacional. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 2002 e do livro de Luiz Cesar Saraiva Feijó, A linguagem dos esportes de massa e a gíria no futebol , Rio de Janeiro, EU
RJ/Tempo Brasileiro, 1994)








A maioria das questões das provas com respostas do tipo de múltiplas escolhas a que os candidatos a cargos públicos se submetem são, verdadeiramente, incríveis “pegadinhas lingüísticas”.
Na área jurídica, então, é muito comum isso acontecer. Esse procedimento não leva a nada. Só causa uma enorme irritação em todos aqueles que estão envolvidos com o preparo dos candidatos. Não podemos concordar com essa prática de charadas lingüísticas. Sabemos que há necessidade de se apurar o nível intelectual dos candidatos, mas não é assim que se deve proceder. Além de questões ambíguas, muitas estão formuladas erradamente. As Fundações Educacionais contratadas para a feitura das provas, especialmente de Língua Portuguesa, que procuram especialistas na matéria, deveriam exigir deles, no mínimo, inteligência pedagógica, o que, a nosso juízo, está faltando.
Sabemos que, atualmente, o estudo da Língua Portuguesa está muito comprometido com a mediocridade, em todas as esferas, desde o Ensino Fundamental até o Universitário.
E isso é muito grave. Também, grave e lamentável é vermos, estarrecidos, o próprio Presidente da República estropiando o idioma, desrespeitando a Norma Culta de sua língua ao se pronunciar, oficial e publicamente, constrangendo os poucos letrados que ainda existem em nossa pátria. Isso tudo deprime e afeta a auto-estima de quem estudou e se preparou com afinco sem praticar nenhuma “maracutaia”, de qualquer tipo, inclusive intelectual, em suas vidas.
Vou ser objetivo.
Analisando a Questão 10, da Prova de Língua Portuguesa, realizada pela Fundação Carlos Chagas, para Auditor Fiscal do Tribunal de Contas do Estado do Ceará, Cargo A01, Tipo 001, observamos um incrível ERRO na resposta oficial, motivado pela péssima formulação (ou tentativa de “pegadinha”) da referida questão.
A questão:
10. Considere as seguintes frases:
I. O autor admira os cavalos, que lhe parecem tão fortes quanto leves.
II. Ele chorou abraçado ao cavalo, espancado pelo fazendeiro.
III. De repente, um potrinho dá um salto, esperto, e vai junto à cerca.
A supressão da(s) vírgula(s) alterará o sentido ou eliminará a ambigüidade do que se lê em
(A) I, II e III.
(B) I e II, apenas.
(C) I e III, apenas.
(D) II e III, apenas.
(E) III, apenas.
A resposta oficial é a letra (A).
Agora, prestem atenção aos nossos comentários.
A proposta é: A supressão da(s) vírgula(s) alterará o sentido ou eliminará a ambigüidade do que se lê em:
1- O termo SENTIDO diz respeito ao aspecto SEMÂNTICO, isto é, ...alterará a semântica das frases ou eliminará a ambigüidade...
2- Quanto às frases II e III, não há dúvida de que a supressão da(s) vírgula(s) alterará a AMBIGÜIDADE.
3- SEMÂNTICA e AMBIGÜIDADE são noções que não pertencem à estrutura gramatical de uma língua. SEMÂNTICA é o estudo do sentido das palavras, segundo Pierre Guiraud. AMBIGÜIDADE, que na antiga retórica grega chamava-se ANFIBOLOGIA, é a circunstância de uma comunicação lingüística se prestar a mais de uma interpretação, segundo Mattoso Câmara Jr. Logo, SEMÂNTICA e AMBIGÜIDADE estão ligadas à estilística da língua.
4- Já na frase I ocorre, isto sim, um erro quanto à Norma Culta da Língua, porque a vírgula depois de cavalos está mal colocada, pois a oração iniciada pelo pronome relativo QUE será uma oração subordinada adjetiva restritiva e não explicativa. A Norma Culta da Língua Portuguesa diz que só as orações subordinadas adjetivas explicativas, que têm valor de aposto e que acrescentam apenas um pormenor a um nome antecedente, devem vir entre vírgulas. Portanto, a supressão dessa vírgula não altera nenhum sentido nem elimina ambigüidade alguma. Trata-se de ERRO, quanto à NCL (Norma Culta da Língua).
5- Assim, a resposta oficial está errada. Deveria ser a letra (D).
6- A referida questão deveria ser ANULADA.
ATÉ BREVE.
Voltaremos com mais comentários, pois o nosso BLOG é da Bola, do Sul e das Letras.
. O livro é a mais importante obra sobre a linguagem do futebol publicada no Brasil. Agora, serão apresentadas crônicas escritas em jornais e revistas do Brasil e Portugal sobre o vasto tema deste que é o mais popular esporte do mundo. Assim, o autor discute, desde as razões por que a maioria dos aficionados pelas práticas esportivas preferem o futebol, até futebol e racismo, passando por discussões sobre uma polêmica colocação de Armando Nogueira, que previu a disputa do campeonato mundial de futebol realizado por clubes e não mais por países. A capa já é objeto de estudo pela equipe de produção visual da editora que lançara mais um livro sobre futebol do Prof. Feijó. Podem aguardar. Não haverá arrependimento, nem arrependidos. O trabalho artístico da projeção da capa para a 2ª Edição de BALANÇANDO O VÉU DA NOIVA foi de Rafael Amâncio.



