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5 de setembro de 2008








O Novo Acordo Ortográfico

da Língua Portuguesa


1) O alfabeto agora é formado por 26 letras.


O "k", "w" e "y" não eram consideradas letras do nosso alfabeto.


Essas letras serão usadas em siglas, símbolos, nomes próprios, palavras estrangeiras e seus derivados. Exemplos: km, watt, Byron, byroniano


2)
O Trema


Não existe mais o trema em língua portuguesa. Apenas em casos de nomes próprios e seus derivados, por exemplo: Müller, mülleriano.


As palavras abaixo não serão mais escritas com trema:


agüentar, conseqüência, cinqüenta, qüinqüênio, frqüência, freqüente, eloqüência, eloqüente, argüição, delinqüir, pingüim, tranqüilo, lingüiça

Serão escritas sem trema:


aguentar, consequência, cinquenta, quinquênio, frequência, frequente, eloquência, eloquente, arguição, delinquir, pinguim, tranquilo, linguiça.


3)
A Acentuação Gráfica


A) Os ditongos abertos (ei, oi) não são mais acentuados em palavras paroxítonas como anteriormente eram, como assembléia, platéia, idéia, colméia, boléia, panacéia, Coréia, hebréia, bóia, paranóia, jibóia, apóio, heróico, paranóico


Passarão a ser grafados sem o assento agudo, assim: assembleia, plateia, ideia, colmeia, boleia, panaceia, Coreia, hebreia, boia, paranoia, jiboia, apoio, heroico, paranoico


Mas, prestem atenção. Os ditongos abertos de palavras oxítonas e monossílabas o acento continua. Assim: herói, constrói, dói, anéis, papéis.


Também continua o acento agudo no ditongo aberto "eu". Assim: chapéu, véu, céu, ilhéu.

B) O hiato "o-o" não é mais acentuado, como antigamente era: enjôo, vôo, corôo, perdôo, côo, môo, abençôo, povôo. Essas palavras passam a ser grafadas assim: enjoo, voo, coroo, perdoo, coo, moo, abençoo, povoo.


D) O hiato "e-e" não é mais acentuado, como antigamente era: crêem, dêem, lêem, vêem, descrêem, relêem, revêem. Essas formas verbais dos verbo CRER, DAR, LER e VER passam a ser grafadas assim: creem, deem, leem, veem, descreem, releem, reveem.

E) Não existe mais o acento diferencial de intensidade nas palavras homógrafas
pára (verbo), péla (substantivo e verbo), pêlo (substantivo), pêra (substantivo), péra (substantivo), pólo (substantivo), como antigamente existia. Essas palavras passam a ser escritas assim: para (verbo), para (preposição); pela (substantivo e verbo), pelo (substantivo), pera (substantivo), pera (substantivo), polo (substantivo).
Observação: o acento diferencial de timbre ainda permanece no verbo "poder" (3ª pessoa do Pretérito Perfeito do Indicativo - "pôde") e o diferencial de intensidade, no verbo "pôr", para diferenciar da preposição "por".

F) Não se acentua mais a letra "u" nas formas verbais rizotônicas (o acento tônico cai no radical), quando precedido de "g" ou "q" e antes de "e" ou "i" (gue, que, gui, qui), como antigamente era: argúi, apazigúe, averigúe, enxagúe, enxagúemos, obliqúe. Essas palavras passam a ser grafadas assim: argui, apazigue,averigue, enxague, enxaguemos, oblique.


G) Não se acentua mais "i" e "u" tônicos em palavras paroxítonas quando precedidos de ditongo, como antigamente era: baiúca, boiúna, cheiínho, saiínha, feiúra, feiúme. Essas palavras passam a ser grafadas assim: baiuca, boiuna, cheiinho, saiinha, feiura, feiume.


4)
O Hífen


A) O hífen não é mais utilizado em palavras formadas de prefixos (ou falsos prefixos) terminados em vogal + palavras iniciadas por "r" ou "s", como acontecia, por exemplo, em ante-sala, ante-sacristia, auto-retrato, anti-social, anti-rugas, arqui-romântico, arqui-rivalidae, auto-regulamentação, auto-sugestão, contra-senso, contra-regra, contra-senha, extra-regimento, extra-sístole, extra-seco, infra-som, ultra-sonografia, semi-real, semi-sintético, supra-renal, supra-sensível. Essas palavras passam a ser grafadas com 2 -s- e com 2 -r-, assim: antessala, antessacristia, autorretrato, antissocial, antirrugas, arquirromântico, arquirrivalidade, autorregulamentação, contrassenha, extrarregimento, extrassístole, extrasseco, infrassom, inrarrenal, ultrarromântico, ultrassonografia, suprarrenal, suprassensível.


Observação: em prefixos terminados por "r", permanece o hífen se a palavra seguinte for iniciada pela mesma letra: hiper-realista, hiper-requintado, hiper-requisitado, inter-racial, inter-regional, inter-relação, super-racional, super-realista, super-resistente etc.

B) O hífen não é mais utilizado em palavras formadas de prefixos (ou falsos prefixos) terminados em vogal + palavras iniciadas por outra vogal, como antigamente ocorria, por exemplo em auto-afirmação, auto-ajuda, auto-aprendizagem, auto-escola, auto-estrada, auto-instrução, contra-exemplo, contra-indicação, contra-ordem, extra-escolar, extra-oficial, infra-estrutura, intra-ocular, intra-uterino, neo-expressionista, neo-imperialista, semi-aberto, semi-árido, semi-automático, semi-embriagado, semi-obscuridade, supra-ocular, ultra-elevado. Essas palavras passam a ser grafadas assim: autoafirmação, autoajuda, autoaprendizabem, autoescola, autoestrada, autoinstrução, contraexemplo, contraindicação, contraordem, extraescolar, extraoficial, infraestrutura, intraocular, intrauterino, neoexpressionista, neoimperialista, semiaberto, semiautomático, semiárido, semiembriagado, semiobscuridade, supraocular, ultraelevado.


Observação 1: esta nova regra vai uniformizar algumas exceções já existentes antes: antiaéreo, antiamericano, socioeconômico etc.


Observação 2: esta regra não se encaixa quando a palavra seguinte iniciar por "h": anti-herói, anti-higiênico, extra-humano, semi-herbáceo etc.

C) Agora utiliza-se hífen quando a palavra é formada por um prefixo (ou falso prefixo) terminado em vogal + palavra iniciada pela mesma vogal. Assim: anti-ibérico, anti-inflamatório, anti-inflacionário, anti-imperialista, arqui-inimigo, arqui-irmandade, micro-ondas, micro-ônibus, micro-orgânico. Antigamente, essas palavras não possuiam hífen, era tudo junto.


Observação 1: esta regra foi alterada por conta da regra anterior: prefixo termina com vogal + palavra inicia com vogal diferente = não tem hífen; prefixo termina com vogal + palavra inicia com mesma vogal = com hífen.


Observação 2: uma exceção é o prefixo "co". Mesmo se a outra palavra iniciar com a vogal "o", NÃO se utliza o hífen. Ex. Coautoria, coopositor.

D) Não se usa mais hífen em compostos que, pelo uso, perdeu-se a noção de composição, como, por exemplo em manda-chuva, pára-quedas, pára-quedista, pára-lama, pára-brisa, pára-choque, pára-vento. Agora, essas palavras serão grafadas assim: mandachuva, paraquedas, paraquedista, paralama, parabrisa, parachoque, paravento.


Observação: o uso do hífen permanece em palavras compostas que não contêm elemento de ligação e constiui unidade sintagmática e semântica, mantendo o acento próprio, bem como naquelas que designam espécies botânicas e zoológicas: ano-luz, azul-escuro, médico-cirurgião, conta-gotas, guarda-chuva, segunda-feira, tenente-coronel, beija-flor, couve-flor, erva-doce, mal-me-quer, bem-te-vi etc.

Observações Gerais

O uso do hífen permanece:


A) Em palavras formadas por prefixos "ex", "vice", "soto". Ex. ex-marido, vice-presidente, soto-mestre.


B) Em palavras formadas por prefixos "circum" e "pan" + palavras iniciadas em vogal, M ou N. Ex. pan-americano, circum-navegação.


C) Em palavras formadas com prefixos "pré", "pró" e "pós" + palavras que tem significado próprio. Ex. pré-natal, pró-desarmamento, pós-graduação.


D) Em palavras formadas pelas palavras "além", "aquém", "recém", "sem". Ex. além-mar, além-fronteiras, aquém-oceano, recém-nascidos, recém-casados, sem-número, sem-teto.

Finalizando. Não existe mais hífen:


Em locuções de qualquer tipo (substantivas, adjetivas, pronominais, verbais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais). Ex. cão de guarda, fim de semana, café com leite, pão de mel, sala de jantar, cartão de visita, cor de vinho, à vontade, abaixo de, acerca de etc.


EXCEÇÕES


Água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao-deus-dará, à queima-roupa.

22 de agosto de 2008

FILÓLOGO LANÇA NOVO LIVRO


Carlos Eduardo Falcão Uchôa, Professor Emérito da Universidade Federal Fluminense e da Academia Brasileira de Filologia, acaba de lançar, pela Editora Nova Fronteira/Lucerna, o livro
A linguagem: teoria, ensino e historiografia.

A obra reúne doze ensaios publicados pelo autor, nos últimos anos, em periódicos, miscelâneas e em capítulos de livros. A maioria deles traduz preocupação com o ensino da língua.

O Professor Carlos Eduardo Falcão Uchôa foi, na década de 1980, o criador da linha de pesquisa A Lingüística e o ensino de Português, no Programa de Pós-graduação da Universidade Federal Fluminense.

Assim, a variação lingüística, a produção textual, leituras sobre a gramática, inúmeros conteúdos programáticos da disciplina Língua Portuguesa nos níveis fundamental e médio são objeto de reflexão, tanto sobre práticas pedagógicas correntes, quanto sobre novos caminhos a serem adotados nas salas de aula, com vista a uma orientação lingüístico-pedagógica segura e eficiente.

Dois ensaios focalizam a institucionalização da Lingüística como disciplina dos nossos Cursos de Letras e a sua fixação como o estudo científico da língua.

Tece, também, considerações sobre a relação entre Filologia e Lingüística no campo do estudo da linguagem em nosso país, mostrando, ainda, o relevante papel desempenhado por Mattoso Câmara, para que a Lingüística viesse a ter, enfim, um lugar de destaque, no cenário acadêmico brasileiro.
Trata-se de uma obra para o professor que atua na área de Letras adquirir, ler, refletir e recomendar.
Até a próxina
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8 de julho de 2008

A VIDA E O LUGAR DO AMOR NO TEMPO



Uma recensão do livro FUGIR

Por: Luiz Cesar Saraiva Feijó


O romance de Jean-Philippe Toussaint, FUGIR (FUIR), prêmio europeu Medici de 2005, foi publicado por Les Éditions de Minuit, Paris, em 2005. É uma ação passada num verão qualquer da atualidade, em três momentos, com curtos blocos distintos dentro de cada uma das três partes da obra. Isso tem um significado interessante, pois dá ao leitor a sensação de estar recebendo informações significativas a todo instante sem a angústia de esperar um desfecho, mas excitando-se sempre, pois a forma de tratar o tema é a de um vai-e-vem enunciativo que cria imagens impactantes, fortes e poéticas. O crítico Jacques-Pierre Amette já dissera, aliás na quarta-de-capa da primeira edição (Lés Éditions de Minuit,7,rue Bernard-Palissy, 75006, Paris), que “o romance apresenta um verdadeiro estilo toussaint, na forma, no rigor, na pontuação, na psicologia: tudo perfeito”.
O autor, com esse estilo vibrante, com suas frases fracionadas entre o discurso indireto e indireto-livre, predominando a justaposição e a coordenação sobre a subordinação, apresenta uma narrativa diferente, uma forma atraente e inovadora de se dizer algo, de se contar algo, de se transmitir uma informação. Inicia-se, aí, portanto, o predomínio da conotação sobre a denotação, dando ao texto um caráter literário, sem, contudo, deixar de estabelecer com a realidade um vínculo de verossimilhança. Junta-se a isso tudo um ritmo exótico, marcado por uma pontuação sui-generis. Nesse romance, Jean-Philippe Toussaint desenvolve o tema do amor, da angústia e da paixão com um texto misto de referencialidade e prosa poética, especialmente caracterizada por um impressionismo lingüístico, repleto de languidez nos sintagmas que estruturam os períodos, muitas vezes envolvido pela linguagem difusa das metáforas e hipálages, em tempos e lugares diferentes. Em muitos momentos, o enunciado se apresenta colorido com as luzes verdes e azuis das lanternas chinesas e das composições ferroviárias, com as luminárias dos vagões e dos sinalizadores da linha férrea, faiscando de sentimentos. A enunciação prepara o texto, que fala da referencialidade factual. Uma inovadora forma de se referir aos objetos envolve as personagens e, psicologicamente, prepara o leitor para ficar sempre preocupado com o desfecho da trama. O tempo do romance também contribui para isso. Esse tempo distribuído em espaços diferentes dá ao leitor a sensação de estar próximo de um texto épico, não faltando para isso o ambiente grego da ilha de Elba. Construído por formas verbais oscilantes, o romance flui entre a hipótese e a realidade, iniciando a Parte I com a onisciência da primeira pessoa, que narra, no pretérito e no presente, os acontecimentos do verão, tempo em que vive Maria, numa Paris moderna, contrastando com uma Xangai quase caricata, de onde o personagem-narrador fala com ela, por telefone celular. A chegada do narrador a Xangai, mostra-nos a realidade de uma Chima, captada mais pela sensibilidade poética do autor (sem preconceitos), do que pelas reflexões sobre a realidade oriental, sempre postas em confronto com a européia. Aliás, estão nesses casos a descrição das estações chinesas de trem, hotéis, bares, mercado e comércio do entorno das grandes avenidas de Xangai, numa narrativa de sugestões e impressões, tudo impregnado por uma antítese penumbrista, tudo tão luminoso quanto opaco, levando-nos ao suspense, que é outra forma utilizada, para prender a atenção do leitor. Mas a sensibilidade do autor também capta a deterioração das partes da cidade menos favorecidas, numa linguagem característica do mais significativo estilo realista (“para entrarmos num velho edifício de tijolo aparente, onde, numa penumbra macilenta, vagueavam cheiros peçonhentos de couve rançosa e de mijo”). A minúcia e o detalhismo também são comuns e aparecem, principalmente, nas Partes I e II, em inúmeras passagens exemplificativas. Parece, ainda, que o suspense, como se observa no início da Parte I (“o meu passaporte vendo-o passar de mão em mão temendo vê-lo subitamente desaparecer como num conto do vigário entre as mãos de um dos inúmeros funcionários atarefados por detrás do balcão”), se alimenta de uma série de descrições minuciosas de figuras humanas e de ambientes, onde a luminiscência continua a impressionar o autor e as cores dos neóns chamam, amiúde, sua atenção para manter o leitor na linha do encontro da solução do emaranhado construído pela enunciação.
Na composição da textura da linguagem de Jean-Philippe Toussaint , observa-se a utilização de um estilo elíptico, caracterizado por cancelamentos sintáticos, o que imprime rapidez na leitura, ao mesmo tempo que proporciona reflexão, pois o leitor não acostumado a essa técnica de escrituração, medita instintivamente sobre os acontecimentos para se dar conta do que lhe é narrado. Esse estilo e o discurso indireto livre são, como já dissemos, mais uma criação estilística da forma toussaintliana de narrar. (“A confusão era completa (começava a me sentir mal). Maria?” ).
No menor bloco do romance, localizado na Parte I do romance, autor como narrador, traz o suspense à cena, pois o que importa é saber o que vai acontecer com Maria ou com o relacionamento dele com ela. Depois, não há mais nenhum pequeno bloco com esse objetivo.
Uma outra técnica narrativa é a modo de afirmar, interrogando, como que num diálogo com o leitor. O narrador, pergunta ao leitor alguma coisa e diz o que o leitor precisa saber para entender a seqüência dos acontecimentos, sem nenhum diálogo com qualquer outra personagem: (“...não tinha nada de particular para fazer em Xangai. Não é verdade?”).
O romance FUGIR, de Jean-Philippe, em suas três partes, apresenta bem focadamente, em cada uma delas, respectivamente, a precipitação do erotismo, a fuga explícita e a explosão do amor no mar. O erotismo surge de forma pretendida, camuflada algumas vezes, outras mais acentuada, mas nunca explicitamente acontecida, sempre em lugares e tempo diversos. O erotismo está diluído na forma mais simples de um terno sentimento de desejo: “e percebi que alguma coisa de terno estava nascendo”. Ou, ainda, em: “aproximei-me dela e desajeitadamente no meio da multidão dei-lhe um beijo, com uma timidez confusa, que me perturbou e por causa disso nossos olhares se cruzaram um instante e os nossos lábios não tão por acaso se roçaram”. Mas esse desejo vai crescendo até tomar outros caminhos, numa linguagem que sustenta muitas emoções, até ser interrompido pela presença de Maria, contraponto direto e significante, impeditivo da plena consumação amorosa entre o narrador e Li Qi, porque ela, Maria, é o ponto de partida e a chegada dessa fuga proposta por Toussaint.
O suspense é anterior ao erotismo. Prepara o prazer, pois causa a ansiedade que precipita a expectativa do relacionamento carnal. Contudo, se esse preparo existe, o desfecho da relação sexual se interrompe, justamente pelos acontecimentos misteriosos e paira sobre a ação uma sensação de que, a qualquer momento, uma tragédia se abaterá sobre os dois envolvidos no jogo de amor, num vagão do trem, por exemplo, onde “uma das portas de passagem entre os vagões tinha sido partida, há pouco sem dúvida, estilhaços de vidro cobriam o chão do corredor e vestígios de sangue seco estrelavam a parede, uma mancha maior, central, e milhares de gotinhas secas à volta, minúsculas, mineralizadas, duma cor vermelho acastanhada”.
A fuga na moto indiabrada que se movimenta pelas ruas fervilhantes e perigosas de Pequim, na Parte II do romance, antecedida por um preâmbulo de minuciosas descrições de locais e situações, prende o leitor e desencadeia enorme tensão. É um momento muito significativo, onde a fuga se consubstancia denotativamente. Esse momento significativo do romance se precipitará, na terceira e última Parte, a explosão do amor no mar, formando um bloco de significações distintas, dando ao texto de Toussaint uma linguagem especial, isto é, uma relevância significativa na literatura da modernidade européia. Nessa terceira e última parte do romance o autor envolve o texto poético num suspense amargurante, sem dar pistas do desenlace, deixando-nos uma dúvida angustiosa, sempre entre um final feliz ou uma tragédia no mar. A opção vem em favor do amor e da vida... “et Marie pleurait dans mes bras, dans mes baisers, elle pleurait dans la mer”... e Maria chorava nos meus braços, nos meus beijos, chorava no mar.
Portanto, nesse livro, a vida como tragédia, sempre por acontecer, quer no toque de um celular, quer nas braçadas de Maria, ao entardecer, desaparecendo por trás das rochas, nadando no mar, traz uma reflexão sobre a vida e o lugar do amor no tempo. Estilo e formas especiais da narrativa que Jean-Philippe Toussaint nos mostra nesse romance publicado agora, em junho de 2008, pela Bertrand-Brasil, tradução de Joaquim Pinto da Silva.

26 de maio de 2008

UMA FOTO EM GRAMADO

Mais uma vez cheguei a Gramado, desta vez para curtir o feriadão de Corpus Christi. Como sempre faço, fiquei lá no SESC da Av. das Hortênsias, onde já fiz muitos amigos e sempre me recebem bem, com aquela recepção gaúcha regada a chimarrão, cuia, bomba e calça de punho, chê! É verdade, o pessoal do hotel do Sesc da linda e simpática cidade da Serra Gaúcha é muito competente, amável e sabe como poucos receber o turista. Mas minha ida àquelas bandas do sul estava relacionada também à vontade que tinha de registrar com minha câmara, que acabara de comprar, as imagens do outono, materializadas nos reflexos de luz e cores das folhas dos plátamos e dos pinheiros ao longo das estradas principais, dos caminhos dos vales, das estradas vicinais, das pequenas vilas do interior e das Linhas, que são caminhos abertos desde os tempos da colonização alemã. A noite de lua cheia, logo no primeiro dia de minha chegada arredondava o céu de Gramado, num tom aveludado de fazer arrepiar todos os corações românticos. Mas quando estava preparado para a primeira incursão noturna, o meu amigo Natalino, responsável pelos melhores coquetéis de toda a rede hoteleira da região, me disse que estava com um baita problema para resolver e, naquela hora, não via outra solução a não ser me pedir o favor de ir com ele rebocar o seu "cheiroso”, enguiçado numa rua de Canela, à mercê dos amigos do alheio. Não podia deixar de atender o pedido dele e saímos em direção ao velho e batalhador Santana dos idos de muito antigamente. A rua escura, na penumbra do luar de um artro tão encantador e ansiosa para despertar todas as mais escondidas emoções dobradas nos corações dos casais que visitavam a cidade, logo, logo se apresentou como o cenário ideal para algumas fotos de efeito. Antes dos preparos para o reboque do valente Volkswagen, saí escolhendo os melhores contrates entre sombras em meia-luz, entre a maciez do azul escuro da noite na branda e perfumada claridade, infiltrada nos galhos das araucárias e rapidamente preparei a máquina com os filtros próprios. Regulei o diafragma, acertei o foco, interpretei a distância exata entre o fundo, a forma e o grande vulto leitoso, arredondado, que surgia entre as árvores da floresta que se dividia pela passagem de uma ruela e pronto. Cliquei o obturador na certeza de estar imprimindo uma obra-prima, com direito a todos os prêmios fotográficos a serem divulgados no ano em curso... Estava tudo perfeito e fotograficamente correto. Quando cheguei a casa no domingo, ao revelar um dos filmes, muito tempo depois, é claro, de ter deixado o veículo de estimação de meu amigo em total segurança numa garagem, depois de muita coisa ter acontecido; de ter recebido os agradecimentos do Natalino por aquele "galho quebrado" num fim de noite; de ter tomado um "cabernet sauvignon" com ele e o Osório num barzinho no centro de Canela, percebi que havia na película acetinada a imagem de um casal que se amava escancaradamente na escuridão daquela enfeitiçada noite de lua cheia, indiferente aos flashes e ao barulho que fizemos amarrando as correntes para rebocar o carro enguiçado. Realmente, na ansiedade da captação da imagem não havia percebido os amantes enluarados. Pensei em me consagrar como o az das penumbras serranas, obtendo uma das mais significativas fotos de uma noite de outono na serra gaúcha e nem percebi que havia me consagrado como fotógrafo lambe-lambe... E como registrei lambidas... Aprendi naquela noite - e o que aprendi mesmo, foi que o amor está acima dos preconceitos e das vis pretensões humanas de se pensar certas atitudes como impróprias ao convívio social. Isso aconteceu em Gramado, verdadeiramente uma cidade incrível!


ATÉ A PRÓXIMA

20 de maio de 2008

O CIRCO E O POETA




























Na última segunda-feira, dia 19 de maio deste ano, Alckimar Santos lançou na UFSC seu livro CIRCENSES, com ilustração de Rodrigo de Haro, pela Editora 7
Letras. O livro custa R$ 20,00.
Um coquetel foi oferecido a alunos, professores e a muitos convidados que prestigiaram o concorrido evento.























A poesia que Alckimar Santos nos apresenta em seu último livro CIRCENSES é uma poesia requintada, onde a palavra, tratada por ele com esmero, cuidado e perfeição, nos traz o devaneio da beleza, impondo-nos uma constante atenção ao texto. Poderíamos citar aqui inúmeros autores, para justificarmos uma análise, baseada nas mais recentes teorias da crítica literária, mas não é o caso, pois nesse BLOG, estamos sempre preocupados em orientar nossos leitores para uma boa leitura, para os bons textos. Nossas palavras, portanto, não são direcionadas exclusivamente ao público acadêmico e terão o propósito – pensamos assim - de divulgar os trabalhos construídos esteticamente, para um público sensível ao belo. A poesia de Alckmar Santos, em CIRCENSES, se apresenta como forma (ó) sem forma (ô), isto é, sem a redundância do tema como, aliás, já dissera Paulo Henriques Brito na apresentação da obra: “sem resvalar para o óbvio”. Bráulio Tavares, autor de ABC de Ariano Suassuna, diz que a poesia “exige do poeta uma consciência muito aguda do que escreve, e exige o mesmo do leitor que lê”. Concordando com isso, diremos que Alckimar Santos é aquele poeta que tem plena e total consciência da palavra que tece em seus versos, com o mistério da arte envolvendo sempre o leitor, que deverá ficar atento à escritura que tem em mãos, pois, assim, terá a oportunidade de ser também, pelo menos, co-responsável pelo êxtase, ao interpretar a escrituração do poeta.

ALCKIMAR é natural de Silveiras, SP. Cursou ciências exatas, com formação em engenharia eletrônica, fez mestrado em teoria literária na Unicamp e doutorado em Paris, com orientação de Julia Kristeva. Publicou: a) Poesias: Rios imprestáveis; Retrato e percurso; Meu tipo inesquecível; Dos desconcertos da vida, filosoficamente considerada (poema digital). b) Romance: São Lourenço. c) Ensaios: Leituras de nós; Ciberespaço e literatura.
Até a próxima.

11 de maio de 2008

ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA



Não fique sem saber o que está acontecendo com a Língua Portuguesa, quanto à sua ortografia. Saiba mais sobre o ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA, acessando o texto completo em PDF, em






MUDANÇAS

Trema:


Deixará de existir, a não ser em nomes próprios. Ex. Linguiça (sem trema).


Hífen 1:


Não será mais usado quando o segundo elemento começar com R ou S. Essas letras deverão ser duplicadas. Exemplos: antissemita e contrarregra.


Hífen 2:


Não será mais usado quando o primeiro elemento termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: extraescolar e autoestrada.


Acento circunflexo 1:


Não será mais usado nas terceiras pessoas do plural dopresente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos crer, dar, ler e ver. Exemplos: creem, leem, deem.


Acento circunflexo 2:


Não será mais usado em palavras terminadas com hiato OO, como em enjoo e em voo.


Acento agudo:


Não será mais usado em palavra terminada em EIA e OIA. Exemplos: ideia, jiboia.
ATÉ A PRÓXIMA

25 de abril de 2008

CALDO DE CANA MOVIDO A BOI

A frase que serve para anunciar, em um restaurante de beira de estrada (Rodovia Jorge Lacerda, Santa Catarina), a delícia de um caldo de cana bem gelado, principalmente nos dias de grande calor, chama a atenção do estudioso da língua e, até mesmo, talvez, de simples curiosos, a respeito dos mistérios da linguagem, pelo inusitado da composição frasal, pois um caldo de cana não pode ser movido por boi. Mas, temos a certeza de que, passada a surpresa da leitura inicial, todos entendem o recado e vão se refrescar com o suco verde da mais doce cana de açúcar caiana. Ali você vai encontrar caldo de cana, produzido numa engenhoca antiga, onde a força motriz para moer a cana é o trabalho de um boi, que faz girar um mini-engenho como aqueles de nossos tempos coloniais.
Mas o que aconteceu, lingüisticamente falando, nessa frase? Aconteceu um CANCELAMENTO. Esse fenômeno pode ser estudado pela Neuro-lingüística, pela Lingüística e/ou pela Teoria da Comunicação.
Borer e Wexler (1987), por exemplo, observam "que numa determinada etapa do processo de aquisição de linguagem as crianças não possuem a capacidade de formar cadeias argumentais, como as envolvidas na formação de sentenças passivas", por exemplo. Mas a frase em questão poderia ter sido dita por uma criança! Quem sabe?

Mariléia Silva dos Reis, na revista Linguagem em (Dis)Curso, volume 1, número 1, jul./dez., 2001, diz, citando Stalnake, que "para compreendermos a extensão abrangente de um contexto, alguns pressupostos teóricos devem ser considerados". Simplificando esses pressupostos, podemos resumir que toda asserção tem um determinado conteúdo, assim como, um ato de asserção é, entre outras coisas, a expressão de uma proposição - algo que represente o mundo de um modo ou de outro. Assim, as asserções são produzidas num contexto, ou seja, são produzidas numa situação que inclui um falante com certas crenças, história de vida e intenções, além de uma história lingüística e sedimentação de vivências, tendo essas pessoas suas próprias crenças, mitos e intenções para quem as asserções são dirigidas. Muitas vezes, por exemplo, o conteúdo da asserção depende do contexto em que é produzida e de quem está falando ou de quando o ato da asserção acontece. Finalmente, os atos de asserção afetam o contexto, pois a pretensão é afetá-lo intencionalmente mesmo, pois isso é a proposta básica da comunicação, como é o caso de nossa frase à beira da rodovia catarinense, no município de Ilhota. Nesses termos, o contexto pode ir muito além das informações semânticas: podem fazer parte de informações pragmáticas que levem em conta situações de fala, incluindo falantes com suas histórias de vida específicas, e ouvintes também com suas próprias crenças, histórias e intenções, que são as pessoas para quem as asserções são dirigidas, como receptores publicitários, entre tantos outros e quaisquer receptores, como dentro de um modelo comunicacional, por exemplo.
Quanto à Teoria da Comunicação, devemos lembrar que Grice, em seu artigo "Logic and Conversation", apresentado na Universidade de Harvard em 1967, em homenagem a William James e, posteriormente publicado em 1975, estruturou novo sistema conceitual para o tratamento das complexas questões que envolvem o problema do significado e da significação na linguagem. A preocupação de Grice, já demonstrada em "Meaning"(1957), “era encontrar uma forma de descrever e explicar os efeitos de sentido que vão além do que é dito”. Em última análise, como é possível que um enunciado signifique mais do que literalmente expressa. Deve haver algum tipo de regra que permita a um falante (A) transmitir alguma coisa a um ouvinte (B), além de uma frase, e esse ouvinte (B) entender esta informação extra. E então, torna-se conhecida sua teoria da comunicação através dos conceitos de significação natural e não-natural (meaning-nn) tão decisivos na origem dos trabalhos sobre pragmática.
Em nossa frase "CALDO DE CANA MOVIDO A BOI" houve o CANCELAMENTO de toda uma estrutura lingüística perfeitamente dispensável (significação natural), constituída por uma base de signos lingüísticos (Caldo de cana {produzido por engenho} movido a boi). A significação não-natural repousa na história atávica de cada brasileiro que lê a mensagem, decodifica e aceita o apelo.
Mas as coisas não param por aí, não. Os mistérios da linguagem continuam. Além do CANCELAMENTO e, talvez, por causa dele, ocorre um outro fenômeno lingüístico que é a HIPÁLAGE. O que é isso? Hipálage é, segundo Matoso Câmara Jr., a “figura de linguagem em que se dá realce a um determinante, associando-o a um termo que não é, logicamente, o seu correspondente determinado, assim se criando um sintagma inesperado. Ex.: o mistério hebreu das vozes dos profetas (Guimarães, Poesias, 316), em vez de o mistério das vozes dos profetas hebreus”. No caso da nossa frase CALDO DE CANA MOVIDO A BOI, o que é movido a boi não é o caldo de cana, mas a moenda que produz o caldo da cana. Então, pasmem! Há nessa frase uma HIPÁLAGE e um CANCELAMENTO ou seja, um HIPAGELAMENTO. Fica, portanto, registrado aqui, o meu neologismo lingüístico.


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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.