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29 de outubro de 2007

HUMOR NOS TEMPOS DA DITADURA



Recebi uma correspondência na semana passada pedindo que eu publicasse novamente um antigo trabalho sobre o CHISTE. Publiquei esse trabalho, há muito tempo, na época da ditadura militar, quando dava aulas na Faculdade de Comunicação, no Instituto de Artes e Comunicação Social, da Universidade Federal Fluminense (UFF)



Creio que não faz mais sentido, pois os exemplos estão ultrapassados e muita gente nem se lembra mais das personagens que ocupavam a "telinha", principalmente da TV Globo. Mas acho que vale como texto histórico. E é assim que vejo, realmente, estes escritos de antanho. Lá vai.




O CHISTE NA CULTURA DE MASSA E O SEU CONSUMO
ou
O HUMOR NOS TEMPOS DA DITADURA



S U M Á R I O


1. INTRODUÇÃO

1.1. Pressão contextual: o humor como riso.


1.2. Pressão textual o humor como amor e dor.


2. O CHISTE COMO FORMA SIMPLES

2.1. Veículos para a atualização do chiste.

2.1.1. A linguagem

2.1.2. A mímica

2.1.3. A História em Quadrinhos

2.2. Disposições mentais que geram o chiste.

2.2.1. O cômico

2.2.2. A zombaria

3. CONCLUSÃO





1. INTRODUÇÃO

Se, como afirma André Jolles (Formas Simples, 1974, p. 205): “não existe época nem lugar, provavelmente, onde o chiste não se encontre na existência e na consciência, na vida e na literatura", abre-se um grande manancial de pesquisa em torno desse tipo de humor dentro da cultura de massa e, em especial, nas áreas de atuação dos mass-media.
Assim, o chiste como dito de espírito torna-se pan-crônico, ganhando, ora forma de nível elevado, ora forma eminentemente popular. Quando popular, caracterizará o povo e suas vivências coletivizadas, definindo grupos e marcando o tempo onde aparece. O chiste é a forma que melhor permite entender como, para uma determinada disposição mental, uma forma se atualiza de modos diferentes, segundo povos, épocas e estilos.
A predisposição mental para a irritação, para o aborrecimento, angústia, mal-humor, além de muitas outras, é causada nos indivíduos dos grandes centros urbanos pela complexa atividade social em que vivem, censurando-os a todo o momento, esmagando-os contra o paredão das sofisticadas regras impostas pelos aparelhos ideológicos. É neste quadro de neuroses que surge o chiste, desatando coisas e desfazendo nós.


1.1. Pressão contextual, o humor como riso.


O humor gera o chiste como forma simples dentro de uma atmosfera de pressão das regras sociais. Isto ocorre quando o contexto predomina sobre o texto e surgirá por descobrir a fenda ou o espaço vazio de qualquer identidade, onde o vazio não será encontrado sem o seu questionamento. Ao descobrir a fenda das individualidades, surge a correção, que, de certa forma, poderá ser interpretada como um mecanismo repressor, porque atuará eticamente, ajustando tudo ao modelo pré-concebido da visão ideológica do poder dominante.

Assim, mostrar-se-á a atuação do chiste dentro dos espetáculos dos mass-media em Chico City da TV Globo, RJ, na personagem Alberto Roberto, criada pelo conhecido ator comediante, Chico Anísio. Alberto Roberto é a caricatura do mau galã e do mau ator, que desde o nome próprio - combinação insólita de dois pré-nomes que rimam, aponta para o ridículo. A fenda caracterizada será a insuficiência artística, e, o que se questiona, de maneira restrita é o lugar do belo, e, de maneira ampla, o lugar da arte. A repressão está na correção ética das funções sociais mal executadas, e, assim, a função estética se estrutura sob a ótica do lado doutor da sociedade, que impõe o seu modelo, centrado na objetiva do receptor. Tenta-se dizer, portanto, que, tanto o mau ator, como o ator feio, isto é, eles não podem ocupar espaço num espetáculo de massas.
Surge daí uma indagação. Qual será, sob este prisma, a função do riso? Diremos que será a de delimitar o ridículo. Esta função é metacensora (*), pois justifica o perigoso e prepara o seu expurgo, logo, é um trabalho ético.

O cômico, portanto, será uma forma de humor como riso e, nos programas de rádio e televisão se apresenta sob a forma de sátiras.
Para André Jolles (1974), p. 211, “a sátira é uma zombaria dirigida ao objeto que se repreende ou se reprova e que nos é estranho. A sátira destrói, a ironia ensina". Apesar do ponto de vista deste autor, não vemos a sátira como uma forma destruidora e sim como uma forma que tenta explicitar ou dizer a fenda, zombando do que é reprovado, no contexto social, para uma posterior correção.
Por outro lado, a descoberta do espaço vazio, muitas vezes se dá em nível manifesto, enquanto a correção ética, pelo questionamento das insuficiências sociais, se dá em nível latente.

As sátiras, dentro do humor como cômico, podem ser de três tipos: a) Sátiras políticas; b) Sátiras cívicas; c) Sátiras sociais. Examinemos estes tipos:

a) Sátiras políticas. Estiveram por muito tempo ausentes do contexto dos mass-media, por força de um modelo político que as tirou de cena.

b) Sátiras cívicas. Estão presentes no contexto dos programas de rádio e televisão. São discursos que falam dos temas produzidos pelo Estado e pela política do Estado. Seu domínio abrangente é a propaganda. Seu modelo discursivo está presente nos “spots” publicitários e ideológicos das empresas estatais e para-estatais, como o Banco do Brasil, SUDEP, Programa PIS/PASEP e muitos mais. Estiveram presentes na programação da ARP (ex-AERP - Assessoria de Relações Públicas da Presidência da República -).
Imposto esse modelo pelos órgãos representativos dos diversos aparelhos ideológicos do Estado, a iniciativa privada dele se serve e dele se apropria como foi o caso, por exemplo, do filmete veiculado pela Rede Globo de Televisão: O PESSIMISTA É ANTES DE TUDO UM CHATO ou “VAMOS DAR UM JEITO NO JEITINHO BRASILEIRO” (A Lei de Gerson, certo!). Isto ocorreu durante o período da ditadura militar, quando proliferavam sátiras cívicas de teor ideológico, enaltecendo o cuidado com as massas: uma obrigação do Estado. Todas as campanhas de interesse público passaram a se basear, de uma forma ou de outra, neste modelo discursivo. Assim, depois de algum tempo, essas sátiras veiculadas na televisão, difundida a sua mensagem verbal e icônica, através de trilhas sonoras bem marcadas e imagens bem cuidadas, tudo depositado no repertório ativo do receptor, as sátiras cívicas transportam-se para o rádio e para a película cinematográfica de 35mm ou 70mm, em bitola comercial, numa redundância proposital, abrangendo e dominando todos os media eletrônicos. Muitos exemplos de discursos que propiciaram o aparecimento de sátiras cívicas poderiam ser citados, sem uma preocupação com a cronologia de seus surgimentos. Assim: Filmetes sobre o Ano Internacional da Criança e Ano I da Criança Brasileira; Ano Internacional do Deficiente Físico; Ano Internacional dos Idosos; Agricultura: Plante esta Idéia; Projeto Rondon; Mantenha a sua Cidade Limpa; A Segurança depende da Confiança que você tem em si e nos outros; etc.


c) Sátiras sociais. São as mais encontradas no repertório dos programas dos mass-media. Estão presentes em dois níveis, por oposição (um é o oposto do outro). Assim, as sátiras sociais se dividem em dois tipos:

1) Aquelas que criticam os representantes da cultura comunitária;

2) Aquelas que criam estereótipos de indivíduos que causam inconvenientes sociais ou comunitários.

Para exemplificação, colocaremos o programa Chico City dentro do primeiro tipo de sátira social, e o programa Os Trapalhões dentro do segundo tipo.

Para caracterizar o humor como riso, que emerge nos textos das sátiras sociais, passaremos à análise de alguns programas, quase todos em horários nobres das televisões brasileiras em rede.

Como representante da sátira que critica os representantes da cultura comunitária (Tipo 1) , comentaremos o programa Chico City.

Este programa humorístico teve duas fases distintas:

1ª Fase: Fase agrária, representativa da República velha. Lá, as personagens atuavam na marcação das insuficiências comunitárias, como, por exemplo, o prefeito Raimundo Canavieira, político corrupto, dotado de artimanhas maravilhosas para o trato com as coisas públicas em seu benefício. Era o prefeito da cidade. Outra personagem era o coronel Limoeiro, latifundiário, representante do poder econômico, homem que tudo comprava com o dinheiro, inclusive o amor da mulher, Maria Teresa. Neste ambiente, onde uma oligarquia detinha o poder, a oposição se fazia pela voz de um agitador da esquerda política, jornalista, cujo público, as galinhas, jamais se manifestava (era época da repressão política).

2ª Fase: Fase da metrópole, representativa da República nova, caracterizada pelas críticas às instituições sociais da grande metrópole, como exemplifica a personagem Zé da Silva, o detetive incompetente, que age à americana ou à inglesa. Fase que critica, ainda, as funções sociais, como serve de exemplo a personagem Coalhada, jogador de futebol, à mercê dos cartolas, despreparado para as funções, cheio de vícios e ávido de fama. Críticas às funções do galã e do ator (Alberto Roberto). Críticas também às funções dos assalariados (Quém-Quém, o garçom). O repertório cultural é criticado na figura da personagem Bozó. Roberval Taylor é crítica à cultura de massa. A situação econômica proporcionou o aparecimento da crítica ao ganho fácil, o que gerou o malandro vigarista picaresco, Azambuja. Os desmandos morais da sociedade geraram o aproveitador e o viciado, Tavares. A contestação social gera a hippy, que deslumbra um ingênuo, português culto, um “alfacinha, formado em Coimbra, maravilhado pelo insólito das instituições, trazidas à cena pelo modo de sua noiva encarar a realidade circundante. A crise econômica gerou a personagem avarenta, Gastão Franco. A personagem Painho, ainda neste plano, mostra a fragilidade do sagrado numa sociedade altamente dominada pela materialidade, pelo ter, pelo consumo e pelo modismo. Painho, duplamente travestido. Travestido de fêmea e de santo, assume um entre-lugar no social: um representante de minorias sociais com poderes sobrenaturais. É o divino protegendo o profano (aliás, a mesma figuração do Capitão Gay, de Jô Soares, só que lá, numa alusão clara ao mito dos super-heróis). Nessa segunda fase, o programa imprime quadros que trazem personagens pan-crônicos, como Pantaleão, o mentiroso, por exemplo. Aparecem, ainda, o italiano do Brás e Popó, personagens anacrônicas ou saudosistas. Ocorre também a crítica ao misticismo que graça nos grandes centros urbanos, tendo na figura do Velho Zuza, a perfeita união entre o sagrado e o profano, aliando credo e filosofia num discurso, praticamente, ecumênico. Com a personagem O Divino, Chico Anísio interpreta o charlatão libidinoso, que encontra, ou na inocência, ou na malícia da parceira, uma forma fantasiosa de mascarar o real, invocando referencialidades de outro sistema de codificação simbólica: o astral. Nos modelos de programas como Os Trapalhões, O Planeta dos Homens, A Praça da Alegria, Viva o Gordo, A Festa é Nossa, encontramos o desajeitado que cria embaraços sociais e o anti-herói. São personagens inconvenientes, que não sabem o que está errado na comunidade. Por outro lado, há determinado tipo de inconvenientes, que sabem que a comunidade não sabe o que está errado nela, mas estas personagens não são comuns nos programas de rádio ou de televisão, que trabalham com mensagens redundantes. É o caso da personagem McMurf do filme “Um Estranho no Ninho “de Millos Forman. A fase atual do programa Os Trapalhões utiliza o código cinematográfico, servindo-se de mensagens redundantes (nunca raras), como as que se encontram em filmes de fácil decodificação. O Tubarão e Swatt isto exemplificam. Musicais e entrevistas, do mesmo modo, compõem o repertório de Os Trapalhões. O Planeta dos Homens é uma redundância deformadora do código do filme “O Planeta dos Macacos”. A Praça da Alegria apresenta quadros que trazem à cena o discurso do inculto, do rude, do grosso social dentro de uma comunidade polida. Suas personagens dialogam com um cidadão sentado num banco de uma praça, criando esteriótipos de inconvenientes sociais ou comunitários. O programa Viva o Gordo, de Jô Soares, é aquele que mais utiliza a sátira política, seguido de A Festa é Nossa, de Agildo Ribeiro.


1.2. Pressão textual, o humor como amor e dor.


A segunda forma de humor (humor como amor e dor) identificar-se-á com o trágico, tendo o texto predominância sobre o contexto. Pela descoberta da diferença entre o real e a realidade, através da exclusão do lugar da verdade, atinge-se o nível da metonímia, onde a fantasia se passa por realidade, e as formas que geram este tipo de humor ganham lugar de destaque, distanciando-se das formas de nível popular. Estas formas são a paródia e a ironia.
Assim, as formas paródia e ironia trabalham com a ilusão de realidade do código (o real), com muitos discursos literários que explicitam o que ocorre fora do ponto de vista do código (a realidade) e com a estrutura do discurso do inconsciente, descobrindo o lugar que descerra a realidade (a verdade), através da releitura do simbólico pelo imaginário. Logo, neste segundo tipo de humor caracterizam-se formas literárias de nível elevado, não populares, portadoras de mensagens raras, que trabalham com as categorias definidas acima.
A paródia é a forma que explicita o real como fantasia e aparece pelo imprevisto.
A ironia é a forma que explicita a cegueira do real e aparece pelo cinismo.

Como exemplos de humor nas formas de paródia, apresentamos os textos de Oswald de Andrade Relicário e Senhor feudal.

Relicário

"No baile da Corte
Foi o Conde d'Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê bebê pitá e caí".

Senhor feudal

"Se Pedro Segundo
Vier aqui
Com história
Eu boto ele na cadeia".


Estas duas paródias são discursos de humor que estabelecem, ainda, a relação selva-escola, que por se darem bem, forjaram a nossa cultura. Logo, isto será uma relíquia, um relicário. O real é mostrado como fantasia: um banho de fantasia no real, pois a nossa relíquia é um entre-lugar: o comê, bebê, pitá e caí.

Já em senhor feudal, O dono do poder não pode ser trancafiado na cadeia, pois ele tem a chave da prisão. O real continua sendo mostrado como fantasia.

Vejamos, agora, este dístico de Oswald de Andrade:

"Amor

Humor" .


Por que o amor é humor? Oswald de Andrade responde:

“Acabei de jantar um excelente jantar / 116 francos / Quarto 120 francos com água encanada / Chauffage central / Vês que estou bem de finanças / Beijos e coices de amor”.


Logo, o amor é trágico e, portanto, ridículo. Como exemplos de humor nas formas de ironia, poderíamos citar o texto O Barbeiro de Machado de Assis, encontrado no livro Dom Casmurro. A forma da ironia é encontrada, ainda, nas seqüências do filme de Luis Buñel, “O Fantasma da Liberdade”.


2.1. Veículos para a atualização do chiste.


No dito de espírito, as formas de humor podem ser atualizados pela linguagem verbal, pela linguagem não-verbal (sistemas outros de signos) e por um interlugar, que é a História em Quadrinhos.

2.1.1. A linguagem

O jogo de palavras, o duplo sentido, o trocadilho, a ambigüidade, a polissemia etc invertem o sentido das coisas e trazem a inconveniência, que significa “o desenlace das regras prescritas pela moral prática, pelos bons costumes e pelas conveniências sociais” (Formas Simples, 1974, p. 208). Todos os esteriótipos criados pelo programa O Planeta dos Homens e, em especial, a personagem deste programa, Senhor Andorinha, exemplificam o chiste neste nível, atualizado através da linguagem verbal. Uma cena do filme “Um Estranho no Ninho”, mostra um jogo transmitido pela TV, que exemplifica um texto, onde a inconveniência se presentifica, porque o absurdo indica que a lógica foi desfeita. Já que o horário e as normas da clínica impedem de os internos verem o jogo pela televisão, McMurf imagina a transmissão com tanta vibração, como se verdadeiramente o jogo estivesse sendo transmitido e captado no aparelho desligado. Assim, a fantasia se passa como realidade. A linguagem verbal propicia este tipo de chiste metonímico.

1.2. A mímica

A mímica seria um tipo de linguagem não verbal, cujos gestos significantes corresponderiam a um simulacro de realidade, embora arbitrários, mas motivados. A mímica, ligada ou associada ao ato de interpretar atitudes ou comportamentos é um meio (um sistema de signos tradutor de uma intencionalidade, logo haverá comunicação) e confundir-se-á com a pantomima. Toda sua configuração cênica será passível de uma “tradução” para um outro código (logo, sistema simbólico substitutivo), principalmente para o código da língua. O chiste atualizado pela linguagem verbal será uma forma simples (popular) ou uma forma produzida, ligada às artes literárias. Já o chiste atualizado pela mímica será uma forma simples (popular) ou uma forma produzida, ligada às artes cênicas. Uma exemplificação nítida da mímica atualizando o chiste ocorre nos quadros publicitários, apresentados na televisão, de cunho comercial, apresentados pelo conhecido artista plástico, Juarez Machado, que, através do “non sense”, faz com que a fantasia se passe como realidade, num enquadramento metonímico do chiste, mais uma vez.


2.1.3. A História em Quadrinhos


A História em Quadrinhos é um interlugar, compreendendo a literatura, por sua narrativa; a pintura, por seus desenhos, e o cinema, pelo movimento das cenas e continuidade das imagens.
A História em Quadrinhos com todas as suas características formais, estática, por conseguinte, não é pertinente aos media eletrônicos. São quadrinhos projetados no espaço-tempo gráfico das revistas e jornais. Contudo, um seu parente próximo, o “cartoon” balõezinhos a onomatopéia e o ritmo visual. Os balõezinhos são largamente usados nos comerciais e nas chamadas das programações das estações de televisão. As onomatopéias, video-tape ou a câmara lenta valorizam.

Aliás, o congelamento da imagem da TV é, em última análise, uma apropriação, pela televisão, da morfologia característica dos Quadrinhos.
Finalmente, a TV, em seus diversos tipos de programas humorísticos ou de telejornalismo, apropriou-se do código cinematográfico, e veicula o desenho animado, que é o Quadrinho em plena animação, onde imperam a fantasia, o maravilhoso e o fantástico ao nível do real.


2.2. Disposições mentais que geram o chiste.


Nem toda disposição mental propicia o aparecimento do gracejo e do humor. Contudo, algumas que geram o inusitado, que foge dos padrões impostos pelas regras sociais; tudo que está fora de uma lógica aparentemente dominante; tudo que não corresponde a uma resultante delimitada por causas e efeitos, por relações precisas de contigüidade entre elementos determinantes e determinados, provoca um inevitável estado de espírito individual, caracterizado por um vazio, capaz de marcar qualquer identidade. Isso, sim, são disposições mentais que podem proporcionar o aparecimento do humor. Surge, daí, o estado de graça (sem trocadilho): o riso.



2.2.1. O cômico


O cômico será a disposição mental que irá gerar o chiste. O cômico, sempre tentando desfazer o repreensível. Estará, portanto, ligado ao humor como riso, pois surge quando é descoberto o espaço vazio, a fenda de qualquer identidade, ao questionarmos este espaço vazio, esta fenda.


2.2.2. A zombaria


A zombaria é uma forma concreta e, de certo modo, coletivizada ou individualizada do cômico, pois, também tenta “desfazer o repreensível a partir da insuficiência de uma identidade qualquer; ou tenta desfazer a insuficiência a partir dela mesma” (André Jolles (1974), p. 211).
Assim sendo, a paródia, a ironia e diversos tipos de sátiras são zombarias que se atualizam de inúmeras maneiras. Não seguimos totalmente a posição de André Jolles porque classificamos as formas de humor estudadas aqui, de acordo com dois tipos básicos de humor: humor como riso e humor como amor e dor.


3. CONCLUSÃO


Tentamos, neste trabalho, mostrar que o chiste, como forma simples é pan-crônico. Servimo-nos de programas humorísticos na televisão, para mostrar a atualização das duas formas distintas do chiste, que ora se apresentam como forma popular em mensagens redundantes, ora como forma não popular em mensagens raras. Apresentamos o humor como riso e como amor e dor. Caracterizamos, dentro de cada tipo de humor, as formas de chiste (populares e não populares), mostrando que elas se atualizam através da linguagem, da mímica e da História em Quadrinhos. Finalmente, o consumo do chiste, dentro da cultura de massa, foi apontado na televisão e no cinema, onde são ingeridos ingenuamente, pois a pílula fica dourada e a ideologia escamoteada pelas fontes geradoras das mensagens que todas estas formas de humor trazem consigo.


ATÉ A PRÓXIMA

12 de outubro de 2007

POÇOS DE CALDAS















Cidade de poços, cálidos, lindos,

Cidade de pó, pó de muitas flores,

Cidade meiga de muitos amores,

Êta sô, Cidade, sejam bem-vindos!



Estou em Poços de Caldas, desde o dia 10 de outubro. Não conhecia este encantador município das Minas Gerais. Povo encantador, amável, educado, simpático e inteligente. Encantador, porque está sempre pronto a ajudar o turista com informações corretas e disposto a conversar, contando seus "causos". Amável, porque parece que se alumbra com o viajante, colocando-se sempre como quem quer ser útil, mesmo não sendo solicitado a fazer isso. Educado, porque todos me chamam de senhor, não pelos meus cabelos brancos, mas por hábito, desde "pequininim"... Simpático, porque agrada, sempre sorrindo e Inteligente porque é mineiro, uai!

28 de setembro de 2007

O DRIBLE DA FOCA

Foi bem aplicada a penalidade ao jogador Coelho do Atlético Mineiro pela agressão ao jovem talentoso Kerlon do Cruzeiro. Merecia até pena maior. No futebol inventam-se muitas coisas. Tanto a administração geral (FIFA) como os jogadores. Por parte da FIFA houve algumas mudanças nas regras, como a de não se poder mais atrasar a bola com o pé para o goleiro, por exemplo. Por parte dos jogadores, a invenção da jogada de calcanhar, da trivela, do drible da vaca e, agora, do drible da foca. É assim mesmo que as coisas acontecem, mas qualquer tipo de agressão deve ser sempre punido com o maior rigor. Agora, vejam quem se irrita com essas invenções verdadeiramente espetaculares. São jogadores, quase sempre, de pouca ou nenhuma cultura, sem escolaridade, sem preparo social, de origem a mais humilde possível. Mas, o que é mais importante, sem nenhum caráter. É isso mesmo! O sujeito pode não ter quase nenhuma informação cultural, ser oriundo de famílias pobres, mas caráter é obrigação de qualquer um, principalmente desses jogadores que se dizem PROFISSIONAIS. É verdade que Leonardo, jogador com uma certa escolaridade, deu uma covarde cotovelada no americano, lá na Copa dos Estados Unidos, depois de já ter perdido irremediavelmente a jogada pela lateral esquerda, creio. É verdade! Mas, parece que a sua punição surtiu efeito, pois, penso que ele se emendou e nunca mais agrediu, dessa forma, nenhum outro jogador. Bem, vamos esperar para ver se os homens que dirigem nosso futebol e que têm força moral sobre os jogadores sejam mais esclarecidos e recomendem parcimônia, educação e esportividade a esses pobres coitados e despreparados jogadores. Mental e intelectualmente, esse tal de Coelho, não é só animal no nome, não! quando perde para a técnica e para a graça e beleza das jogadas do futebol, só sabe apelar para a ignorância, mãe de suas atitudes, as mais absurdas possíveis.

Com a colaboração de CAVINO (noreply-comment@blogger.com), fica o meu texto corrigido, muito tempo depois, com meus agradecimentos. CAVINO comentou: "Apenas lembrando, pois sei que a postagem é antiga, mas vale a pena saber: quem deu a cotovelada no jogo Brasil X Estados Unidos, na copa dos EUA foi o então lateral esquerdo Leonardo, que a partir dali foi substituído por Branco até o final da Copa, quando acabou fazendo um belo gol de falta contra a Holanda. Depois de 4 anos, Leonardo, perdoado por Zagalo, atuou brilhantemente como Meia, com a função do "1" (homem de ligação do meio campo com o ataque), no então novo esquema "4, 3, 1, 2" da era zagalo".


29 de agosto de 2007

AS VOZES DO FUTEBOL

O futebol nos é apresentado por várias vozes. Desde as vozes que falam de suas regras, passando pelas vozes que mantêm a disciplina em campo, até as vozes ensandecidas dos fanáticos torcedores. As primeiras são estruturadas, destinadas à perpetuação do jogo, portanto se expressam através da língua culta, onde predomina o referencial lingüístico, numa sintaxe bem definida: uma verdadeira bula, como a que acompanha todos os remédios. Tal comparação não é gratuita, pois lá o leigo vai encontrar, muitas vezes, termos e expressões que estão muito distante de seu vocabulário ativo. Já os que não são do ramo, pouco entenderão. Esta voz disciplinadora que dita as regras do jogo funciona como um sistema fixo, praticamente imutável, a exemplo do que ocorre na língua, que tem sua norma, adotada por uma sociedade, que se serve desse código para a comunicação entre seus indivíduos. Trata-se de uma voz padrão, sem meios termos, sem metáforas, denotativa, portanto. E deve ser assim mesmo, pois essa voz vai descrever um regulamento, base de tudo que acontecerá no decorrer da aplicação desse regulamento nas partidas de todos os jogos oficiais ou não. Vai interpretar os acontecimentos ocorridos e levados a julgamento em instâncias superiores. Será o registro culto da fala do futebol. Assim como a língua, que tem seu registro culto ou popular, de acordo com sua aplicabilidade social, a voz do futebol que estabelece as regras básicas desse jogo, que fala sobre ele nos tribunais, que regulamenta tudo que o envolve, também poderá ser deturpada, estropiada, desrespeitada, falada de maneira bem diferente de como sua gramática quer que seja. Utiliza-se também de outros códigos (língua inglesa) para falar de sua estrutura máxima, enquanto jogo. Muitas vezes essa voz oficial do futebol, sua estrutura definidora do comportamento do jogo, é desrespeitada por seus “usuários”, que muitas vezes, esquecem de algumas de suas regras básicas, pois não as interiorizaram bem, ou não se adaptaram aos seus mecanismos de regência e colocação. Talvez tenham dificuldade em interpretar semanticamente seus significantes e criam, inconscientemente, mecanismos de adaptação. Esses intérpretes, usuários-falantes dessa voz do futebol são aqueles que mantêm a disciplina em campo. São as vozes dos árbitros dos jogos. Se essa voz do futebol, um verdadeiro idioma dentro de outro idioma, portanto uma metalinguagem, se essa voz, insistimos, fosse tão fácil de ser falada, ouvida e entendida não haveria necessidade de constantes justificativas e explicações para as interpretações dos que arbitram as partidas disputadas. Quando tentamos interpretar essa voz, o fazemos, interpretando o resultado da “falação”, isto é, o comportamento do árbitro, enquanto tradutor daquilo que o sistema disse como se “fala”, como tem de ser jogado o jogo, em última análise. Assim, a interpretação da voz do futebol, enquanto regra do jogo, traz à tona comentários lingüísticos da estruturação vocabular que constitui o código de sua especificação.


A voz do futebol que regulamenta o jogo será a voz emanada da FIFA (Federation International de Football Association)


Board é um substantivo inglês, que significa um conselho, associação. Assim, “International board” será “Conselho, associação Internacional”. As regras oficiais do futebol são estabelecidas por um Conselho, por uma associação: o “Board”. Este “Conselho” ou esta Associação agrupa a Associação Internacional de Futebol. Portanto, a “Board” se constitui e é formada pela "The International Football Association Board", pela "Football Association" (Inglaterra), pela "Scotish Football Association", pela "Football Association of Wales", pela "Irish Football Association" e pela "Federation International de Football Association" (FIFA).Cada uma terá direito de fazer-se representar por quatro delegados. Somente na sessão anual geral da Board, poderão ser aportadas modificações nas regras de jogo, desde que as modificações sejam aprovadas por uma maioria de três quartas partes das pessoas presentes e autorizadas a votar. Pelo visto o código é rígido, praticamente imutável ou apresentando mudanças muitos tênues em grandes e longos períodos de tempo. São 17 as regras do jogo. Isso significa que o sistema é fechado. Queremos dizer que com poucos elementos definidos, ordenados e combinados será possível alcançarmos uma gama de combinações enorme, responsáveis pela configuração do jogo. Com o que pode e não pode acontecer em campo, o jogo se arma e sua prática se desenvolve. Já o jogo jogado, dentro destas 17 regras pré-estabelecidas, se apresenta como um sistema aberto, de infinitas combinações, que vão atingir o objetivo da disputa e trarão para esta prática esportiva o conceito de espetáculo, nunca repetido, e sempre diferente. Caso ocorram transgressões às normas estabelecidas elas poderão ficar em experiência até serem completamente absorvidas, tornando-se pertinentes, isto é, significativas para o jogo. Em outras palavras, elas passaram a integrar o “corpus” do jogo e seu uso será logo aplicado. Exemplificamos com a forma de o jogador atrasar a bola para o goleiro de seu time, o que nem sempre aconteceu como hoje.



As vozes dos oráculos eletrônicos são as vozes dos mediadores, locutores e comentaristas de rádio e televisão



Todos os acontecimentos gerados pelo espetáculo esportivo vão ser mostrados ao público em seus mínimos detalhes, tanto pelas narrações radiofônicas, como pelas imagens das câmaras de televisão. Assim, os mass media, como o rádio e a televisão, vão atuar no campo social, como verdadeiros oráculos eletrônicos, mostrando ao ouvinte e ao telespectador, distanciados do palco dos acontecimentos onde as cenas esportivas se desenrolam, todos os lances do jogo. Estes ouvintes e telespectadores serão sempre participantes dependentes, isto é, participantes orientados por um mediador (locutor, comentarista ou repórter) que estará sempre diante dos fatos mais abrangentes e genéricos à sua frente. O distanciamento, que ocorre, impõe ao receptor dois planos que se combinam. Pelas dimensões da tela da televisão ou pela natureza oral do rádio, o receptor estará sempre num segundo plano (no primeiro plano estão os locutores e comentaristas), onde ele não domina o ambiente descrito, mas desfruta de conforto e segurança, vendo e ouvindo. No primeiro plano está a voz da narração dos acontecimentos em campo, que satisfaz plenamente o receptor, porque completa as deficiências do plano em que se encontra.

É por esta combinação que os mediadores vão se transformar em significativos e poderosos senhores, detentores da verdade absoluta, desenrolada na arena dos acontecimentos esportivos. Então, a voz mediadora, tradutora de uma narrativa fantasiosa, hiperbólica, emotiva e, muitas vezes, poética, soa como um canto de sereia, enganadora, mas atraente, porque fala o que o receptor realmente gostaria de ouvir. Surge, assim, uma narrativa, portadora de significados lingüísticos expressivos, que o receptor ouve, guarda e reproduz a posteriori, reproduzindo-os no vocabulário ativo do seu grupo de equivalentes.

Assim, é comum se observar nos estádios de futebol muitos torcedores assistindo às partidas com o radinho de pilhas junto ao ouvido. Eles não se satisfazem somente com o que estão vendo (retorno ao espaço primitivo da humanidade, segundo McLhuhan). A ansiedade de ouvir supera a obrigatoriedade de ver, como se a voz do outro (a voz do mediador, narrador), vinda do oráculo eletrônico, fosse a expressão da suprema verdade, deixando-o à mercê de um entendimento impossível de ser alcançado por sua própria capacidade reflexiva. Isto o torna um súdito dependente, por tudo que o rádio e a televisão empregam, para atingirem seus objetivos, tornando os receptores repetidores passivos e agentes multiplicadores do que ouvem do oráculo, supra-sumo de toda a verdade.


As vozes populares, disseminadoras de um código lingüístico especial

Mas não é só pelo rádio que as partidas de futebol e demais atividades esportivas são transmitidas. A televisão também está presente nas transmissões de quase tudo. A televisão é um meio frio de comunicação de massa (25), fornecendo baixa quantidade de informação, pois, permite mais participação, porque propõe uma complementação informativa, além de incluir o receptor na própria mensagem como um reflexo das ocorrências de suas realidades e experiências cotidianas. Nestes casos específicos, o campo de jogo, mostrado por ela, visto pela minúscula tela (telinha) colorida é a própria realidade com todos os seus sinais arquivados no repertório do telespectador, como arquétipo daquilo que melhor e completamente existe, impossível de ser melhorado. Por estas características e muitas outras, as narrações das partidas de futebol, basquete, vôlei, tênis etc. são diferentes. A falação diminui de intensidade. É muito mais interpretativa do que narrativa. Diminui o ritmo da locução. A descrição dos lances não precisa ter continuidade, pois a imagem "fala" pelos hiatos ocorridos na transmissão, mesmo quando o esporte televisionado é disputado em grande velocidade. Nas corridas de cavalos, mostradas pela televisão, a rapidez impressa à fala dos locutores provém da tradicional linguagem radiofônica que, ainda, não se adaptou ao trabalho do novo veículo, provocando uma aceleração da informação, ao tentar passar para o telespectador a emoção do páreo acontecendo.
Mas pelo poder mágico da imagem da televisão, que atrai o olhar para si e, principalmente, pelos recursos eletrônicos de seus efeitos especiais, este veículo cativa o receptor, tornando-o um entusiasmado repetidor do que vê e do que ouve, para se identificar com a maravilha, tornando-se, também, maravilhoso. Assim, o código utilizado na linguagem da televisão cai no domínio público. É rapidamente assimilado; sai de seu legítimo espaço, invade outras searas e frutifica prodigamente.




As vozes dos fanáticos torcedores







Quem são esses fanáticos torcedores? Em primeiro lugar, vamos dizer que todo e qualquer torcedor de futebol possui uma pré-disposição para se emocionar intensamente com o seu time em confrontos de nenhum, de baixo ou alto risco. Nesses confrontos, muitos torcedores se desesperam e perdem a compostura com a maior facilidade. Se ele possuir um repertório cultural mediano, isto é, se pertencer a uma classe social mais privilegiada, suas manifestações nos estádios serão de pouco impacto. Sua atuação como torcedor não será ofensiva àqueles que os acompanha (Mas, às vezes, há exceções). Em outras palavras, não apresentará um comportamento social desviante. Não extrapolará os limites aceitáveis da sociabilidade. Mas se o torcedor for um indivíduo de repertório pobre, com poucas informações culturais, de baixa escolaridade, pouca cidadania, aí, ele exteriorizará sua emoção de maneira muito primitiva. Expressar-se-á com um vocabulário chulo; seus gestos serão agressivos; sua fúria se transferirá, facilmente, para todos os seus pares e agredirá qualquer um. A torcida adversária reagirá e, então, caso não haja medidas repressivas para intimidar esses atos, a selvageria estará instalada e o tumulto se alastrará nas arquibancadas e em outras partes do estádio, podendo atingir, inclusive, o campo de jogo. Mas não é nosso propósito trilhar os caminhos da sociologia aplicada ao comportamento social esportivo. Aludimos a este componente, porque, da reação dos torcedores, no campo e fora dele, vão surgir expressões lingüísticas impregnadas de exteriorizações psíquicas e apelos contundentes, tornando a linguagem expressiva, podendo, então, surgir termos lingüísticos, os mais significativos, para serem incorporados, muitas vezes, ao vocabulário efêmero do futebol. Sem nenhuma discriminação contra os menos favorecidos ou excluídos, à margem da educação formal, podemos afirmar que as grandes torcidas de massa são, basicamente, formadas por esses elementos, que se unem e, assim, se sentem protegidos pela quantidade e anonimato (muitos usam toucas ninjas), dando-nos a sensação de crêem na impunidade, caso extrapolem seu comportamento, desrespeitando ordens, avisos e até a própria Lei. Isso pode ser observado, pela televisão, vendo as imagens dos conflitos entre torcidas adversárias, nos estádios de todo Brasil, e até mesmo as manifestações de discordância entre membros da mesma torcida de um clube, quando, em campo, o time não rende o que ela, a torcida, quer que ele renda. Não estamos sendo levados só por aparências, pois não vemos corações, só rostos e expressões faciais, mas quando algum repórter entrevista um desses exaltados e fanáticos torcedores, consubstancia-se, por suas palavras, uma linguagem típica de gíria: a gíria do futebol. Esse tipo de linguagem, uma língua falada, estropiada, sincopada, com sintaxe cambaleante, com semântica estrúxula, repleta de figuras de toda ordem, faz com que seja denunciado um típico segmento sócio-cultural, localizado bem ali, nas arquibancadas dos campos de futebol, metamorfoseado em turba anônima, sem rosto, mas compulsivamente debruçada sobre uma paixão exacerbada.

15 de agosto de 2007

BANDEIRA A VIDA INTEIRA


Dois anos antes de sua morte, Manoel Bandeira (para mim o mais clássico dos poetas modernistas) escreveu este sonetilho (versos octossílabos), pressentindo sua partida desse mundo e pedindo a Deus a salvação de sua alma.
Bandeira morreu no Rio de Janeiro, no dia 13 de outubro de 1968, no Hospital Samaritano, em Botafogo e foi sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras.
Cheguei a visitá-lo, na Av. Beira-Mar, alí perto do Aeroporto Santos Dumont. Hoje, arrumando gavetas antigas, recolhi os originais de alguns versos, escritos em um caderno dos tempos de meus estudos para os vários concursos públicos a que me submeti, no então Estado da Guanabara. Faz muito tempo... Lá encontrei o soneto, que transcrevo aqui, escrito após a visita que fiz, com um amigo, ex-aluno de Bandeira, ao apartamento daquele que foi, como disse Carlos Drummond de Andrade, "Bandeira a Vida Inteira"...
A MANUEL BANDEIRA


Tu que fazes verso como quem morre
- Tua boca murmurou prece sentida -
Vai, no prazer de quem a ti recorre,
Vivendo sempre a tua longa lida.

Se a tua lira genial, que o mundo corre,
A ti não perdoou, pois redimida
está a humanidade, que a ouviu e jorre
De dentro de teu ser uma outra vida.

Tua mãe e Maria Cândida que rezem
Para que fiques mais à Terra fixo
E faças versos que solucem amor,

Que seja sempre a tua vida a flor
Que salva o mundo - e onde muitos gemem -
Salvo tu já estás com o CRUCIFIXO.

Rio, 1966.

2 de agosto de 2007

SOBRE O TERMO DEGRAVAÇÃO






“A degravação dos diálogos dos últimos momentos do vôo,

divulgada ontem pela CPI do Apagão Aéreo,

mostra indícios de ao menos duas dessas falhas”

(Karla Correia, in JB ONLINE, 2 de agosto de 2007)


Meu amigo Ivan, além de competentíssimo cirurgião, PhD em neurologia, com tese defendida na USP e com vários cursos de especialização na Alemanha, é um apaixonado pela língua portuguesa, expressão de nossa cultura e pátria de nós todos, brasileiros, portugueses, africanos, asiáticos e até norte-americanos do Havaí, para quem não sabia... (Se mais terra houvera, lá chegara, já dissera Camões) Pois bem! O rapaz ficou angustiado por não ter conseguido encontrar uma explicação para o que lia, num texto sobre o caos aéreo que nos aterroriza e que enlutou o país.

No texto da jornalista Karla Correia, que abre essas considerações, o termo DEGRAVAÇÃO pode causar espanto àqueles que não estão acostumados a encontrar, aqui e ali, e até, muitas vezes, na linguagem jornalística, neologismos os mais estranhos. Alguns até interessantes, outros completamente dispensáveis. Mas não é só na linguagem jornalística que vamos encontrar essa forma de aumentar o léxico da língua. Aliás, o léxico de uma língua se amplia por inúmeros processos de formação de palavras, e o neologismo é um deles. Mas, voltando aos comentários, tenho observado que as linguagens que mais apresentam esse tipo de criação vocabular são as dos discursos políticos, onde muitas coisas acontecem e surgem como expressividade. O problema é que, como já dissemos, há coisinhas e mais coisinhas que não são muito expressivas... Quando um candidato a um cargo público, não muito letrado, ou completamente ignorante de seu idioma pátrio, se dirige, do alto do palanque, ao seu público, pode criar termos inusitados, além, é claro, de estropiar a regência e a concordância verbais e nominais do pobre idioma. Isso é muito comum, hoje em dia. Um político com um microfone nas mãos, em ambiente aberto ou fechado, é um perigo incomensurável para a nossa sintaxe. Estão lembrados do famigerado IMEXÍVEL do ex-ministro Rogério Magri? Ele havia dito, um dia, que seu chefe era "imexível". Pois bem, com esse caso de criação vocabular o ministro passou para a história e o seu chefe sumiu nos subterrâneos do anonimato, mostrando que chefe, na política, é mais para receber D.A.S. do que para exercer comando, mando e controle sobre as coisas da “res publica”. IMEXÍVEL segue a deriva da língua, obedecendo ao processo de formação de palavras, por meio de prefixação, como "intocável", "inegociável", "ilegível" etc. Pronto, meu caro amigo Ivan, o “palavrão” foi resgatado e está fagueiro, freqüentado as listas dos regenerados... Agora vejamos o tal vocábulo DEGRAVAÇÃO. Pelo que se pode entender, no contexto em que foi empregado, o diálogo entre os pilotos e a Torre de Comando foi gravado (houve uma gravação) na Caixa Preta do Airbus da TAM, talvez numa codificação especial, diferente da de um simples gravador de uso comum. Codificação é o ato ou efeito de codificar, que significa construir mensagens segundo um código acessível ao destinatário, escolhendo os sinais ou signos correspondentes ao conteúdo da mensagem na ordem correta e introduzindo-os no canal. Estão, portanto, apresentados alguns elementos básicos do processo da comunicação: a mensagem; o código; o canal. Já o processo de tradução do que foi codificado será a decodificação, isto é, a conversão da mensagem codificada em linguagem inteligível. Isso só para ficarmos nessa introdução à Teoria da Comunicação, dentro do esquema de Shannon & Weaver. Mas que parte da palavra DECODIFICAÇÃO deu a idéia de TRADUÇÃO, de retirar a codificação realizada? Claro que foi o prefixo DE. O mesmo caso em: DECIFRAR (DE + CIFRAR). Muitas vezes o prefixo DES é usado em lugar de DE. Meu querido e saudoso Mestre, Sílvio Elia, grande filólogo da língua portuguesa, preferia DESCODIFICAÇÃO a DECODIFICAÇÃO. Quando usamos o verbo GRAVAR, indicando marcar, imprimir, empregamos como antônimo o verbo DESGRAVAR, isto é, desfazer a gravação. DEGRAVAÇÃO é isso, meu amigo, um neologismo formado dentro da deriva da língua, faltando somente o uso e o registro desse uso. Não se desespere, pois a nossa língua, a todo instante, está nos pregando cada susto! E não são só certos tipos de políticos apedeutas de Brasília que poluem nossa língua! O novo ministro da Defesa, homem culto, de voz impostada e doutor nas leis maiores, também tropeçou no SOB e tacou um baita e indisfarçável SOBRE, falando ao Jornal Nacional. Vocês perceberam? Mas o que eu queria mesmo era criar um neologismo gigantesco, daqueles que nunca mais deixasse de ser usado e ficasse eternamente ecoando nas nossas mentes... Sabem qual seria? DESLULARIZAR. Vamos, minha gente, vamos DESLULARIZAR o Brasil!

17 de julho de 2007

CULINÁRIA PORTUGUESA II

Já escrevi uma crônica sobre a Culinária Portuguesa, no jornal português O PROGRESSO DA FOZ e a republiquei aqui nesse BLOG. Hoje, reproduzo essa matéria recebida diretamente da “terrinha”. Depois vou fazer os comentários filológicos, mas, por enquanto, o mais importante é verificar, de maneira engraçada, que a mesma língua portuguesa, nos dois países irmãos, apresenta uma semântica bem diferente.
Acredite, as denominações estão corretas. Se você pedir qualquer destes pratos em qualquer restaurante em Portugal, vai ser atendido sem nenhuma risada do garçom.
O que vai almoçar hoje? Há muitos motivos para se visitar Portugal. Mas um deles é, com certeza, a culinária regional. E como os prazeres da mesa merecem ser compartilhados, faço a minha sugestão para um almoço à portuguesa aí na sua casa.
Lá vai:
1- AperitivoPunheta de Bacalhau. Enquanto faz o almoço, nada melhor do que reunir os amigos para uma punheta rápida. É um bacalhauzinho desfiado, temperado com cebola, azeite e vinagre. Simples e dá muito prazer. Fácil de fazer, é uma boa opção para os solitários.

2-Entrada Sopa de Grelos ou Sopa Seca que se Agarra às Costas. Por alguma razão, a sopa de grelos é a preferida dos marmanjos. Já os que não se importam de ter algo agarrado às costas preferem a segunda sopa, típica da Beira-Litoral e feita à base de feijão e pão.

3- Prato principal Arroz de Pica no Chão. É uma especialidade da região do Entre-Douro e Minho, no Extremo-norte do país. O Arroz de Pica no Chão é feito à base de frango e toucinho, levando os devidos condimentos. É um prato delicioso, mas um tanto pesado e por isso deve ser apreciado com moderação, em especial por quem gosta de um "rala-e-rola" depois do almoço. Com Pica no Chão a coisa fica mais difícil .

4- Acompanhamento Caralhotas ou Cacetes. Uma refeição portuguesa tem sempre pão à mesa. As caralhotas são pequenos pães típicos da região de Almeirim. Já os cacetes são comuns em todo o país. É fácil encontrar um português com o cacete na mão.

5- Bebida - Vinhos Portugueses. Os vinhos são classificados por regiões e há para todos os gostos. Como é sempre verão no Brasil, talvez seja bom optar por um vinho com aspecto mais leve e feminino. Pode escolher um Monte das Abertas, um Monte dos Cabaços (Alentejo), um Quinta da Pelada (Dão) ou, talvez, uma Garrafa de Rapadas (Ribatejo). Mas, se insiste em uma bebida mais encorpada e masculina, uma boa opção pode ser o Três Bagos (Douro). Ou, ainda mais intenso, um Terras do Demo (Beiras).

6- Sobremesa Mamadinhas da Pousadinha de Tentúgal ou Espera-Marido à Transmontana. A confeitaria portuguesa é muito rica e os doces conventuais são mesmo um objecto de culto. O Espera-Marido é um doce simples que se faz com açúcar, ovos e canela em pó. Já a mamadinha é uma das maiores delícias surgidas nos conventos.

7- Digestivo Licor de Merda. É uma bebida da região de Cantanhede, feita à base de leite, baunilha, cacau, canela e frutas cítricas. Quem experimentou diz que é uma merda, mas muito gostoso. É como diz o velho ditado: "Eu, por exemplo, gosto de comer sapateiras, madalenas e trouxas".

8-E tem também "água mineral PENACOVA, a eterna pureza da Serra do Buçaco" .

Ass. José António Baço, jornalista e publicitário.
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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.