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22 de julho de 2014

Um Passeio Linguístico





SANGÃO é um município catarinense a 18 km de Tubarão, na costa central do Estado, cortado pela BR 101. Também é um bairro do município de Criciúma.  Parece ser aumentativo de SANGA, subst. fem., que significa rio pequeno, com pouca água; riacho. Mas pode ser voçoroca (termo que provém do tupi). Então, SANGÃO seria um grande rio pequeno ou um grande pequeno rio. E mais, nesse município catarinense existe um bairro chamado SANGÃOZINHO. Seria assim: um pequeno grande rio pequeno. Que coisa! Pensam que acabou? Tem mais. Lá, nesse bairro, existe o SANGÃOZINHO FUTEBOL CLUBE. Tentem pronunciar esse nome: parece que é SÃO GÃOZINHO. Um nome de santo. Esse fenômeno fonético ocorre porque o ditongo nasal se evidencia no sintagma que possui extenso corpo fonético. Já isso não ocorre em SANGÃO, de reduzido grupo de fonemas.

Outra coisa interessante, além da produtividade desse substantivo, é que a possível etimologia de SANGA estaria no Quicongo, uma língua banta, de Angola, África. Os escravos traficados trouxeram esse nome para o Brasil. E mais. No sul, onde a influência africana no vocabulário de nossa língua é menor do que no Sudeste, o vocábulo SANGA é de uso corriqueiro e até de uso poético. Água de Sanga é um bem construído livro de poesia de Colmar Duarte, lá de Uruguaiana, quase um poeta argentino... Abro um parêntese aqui para dizer que nos pampas junto às fronteiras, é comum se ouvir dizer que o povo rio-grandense é um povo miscigenado. É verdade, mas lá, se diz que essa miscigenação foi entre o europeu (português e espanhol) e o índio. Não falam do negro. E SANGA é nome de origem africana, muito usado e produtivo, como vimos. Já o termo correspondente, VOÇOROCA, que vem do tupi, é pouco usado ou quase nunca empregado. Já no Paraná, esse termo é mais ouvido. Há até uma grande represa que fornece água potável para Curitiba que se chama Represa Voçoroca. E por falar em termos de origem tupi, é sempre bom lembrar que esses termos tupis ocupam grande parte da onomástica catarinense e foram muito bem estudados por Lino João Dell’Antonio, em seu livro Nomes Indígenas dos Municípios Catarinenses: significado e origem. Vale dizer que a tese desse autor é interessante, pois afirma que, sendo o índio nômade, ele marcava os lugares especiais com termos realmente significativos. Explico melhor. Em Santa Catarina qualquer rio é cheio de capivaras. Então, um lugar ou um rio se chamar Capivari não acrescenta absolutamente nada à orientação de ninguém. É muito bem fundamentada, ainda, a análise – hipótese linguística - que o autor faz da origem de LAGES, por exemplo, cidade importante, no centro do planalto catarinense, quando aplica sua teoria, afirmando ser LAGES uma corrupção linguística de “hayé” que significa atalho, uma referência ao atalho das Tijucas, feito por Cristóvão Pereira de Abreu, em 1733. Finalmente, é verdadeira sua argumentação final, quando diz que muitos nomes de lugares foram dados pelo homem branco, utilizando termos da língua tupi.          

Tudo isso que escrevo e comento é fruto de anotações que faço durante minhas viagens, quando tento observar as construções linguísticas de nosso povo e o modo de viver dessa gente feliz do sul do Brasil. Tento juntar essas observações em uma espécie de diário de viagem ou em crônicas pseudoliterárias, misturando curiosidades linguísticas com as mais diversas práticas esportivas, e entre elas o futebol, pois ele sempre está presente na vida simples, que corre junto às estradas por onde passo.

Mas voltemos ao tal clube de futebol do bairro SANGÃOZINHO. Conversando na frente do SANGÃOZINHO FUTEBOL CLUBE com a rapaziada de plantão, nesses tempos de Copa do Mundo, resolvi saber alguma coisa desse time de várzea. Tinha poucos anos. Três ou quatro, mas já possuía um terreiro para seus treinos e jogos: SANGÃOZINHO  X  VISITANTES estava escrito na entrada do campo. Quis perguntar o nome do craque do time, mas minha atenção recaiu na escalação do próximo jogo, dita por um piá. Era, mais ou menos, pronunciado, como em priscas eras, quando se declinavam os nomes dos jogadores. Havia um ritmo, que tentava visualizar, através da sequência dos nomes dos jogadores, as suas verdadeiras posições em campo. Havia pontas e “center four”, estão lembrados? Assim: Goleiro; 2 beques; 3 na linha média e 5 na linha de frente. Eu sei de cor o meu time tricampeão carioca pela primeira vez: ROBERTINHO, GUALTER e HAROLDO; PACOAL, TELESCA e BIGODE. PEDRO AMORIM, ADEMIR, SIMÕES, ORLANDO e RODRIGUES. Foi há muito tempo... Muita gente ainda sabe de cor os seus times campeões lá do passado, nesse mesmo ritmo... Mas o que mais me chamava atenção nesse modo de falar era o meio de campo. Aliterações, coliterações e principalmente o ritmo, quase sempre em redondilhas, tudo sempre soava muito bem! Observem esses trios:

FLUMINENSE: Pascoal, Telesca e Bigode;
VASCO: Eli, Danilo e Jorge;
AMÉRICA: Oscar, Dino e Álvaro;
FLAMENGO: Biguá, Bria e Jaime.

É, minha gente, antigamente não havia muito diminutivo...Os jogadores eram durões e a afetividade andava afastada dos campos de jogo.

Mas o mais famoso trio de meio-de-campo foi o DDD piauiense: Demóstenes, Deusdedit e Dirran. Demóstenes, nome de origem grega que denota a força do povo, com suas raízes dêmos e sthénos.  Deusdedit, nome de origem latina que mostra a religiosidade do povo nordestino, ao agradecer a vida dada por Deus. Já Dirran, quando todos pensavam se tratar do nome francês, Düren, da Ville de Westphalie, onde teria vivido a família do craque, grande lateral esquerdo piauiense, ouvimos do próprio jogador a explicação do seu nome, com todo o seu sotaque nordestino, (vice), aos microfones de uma grande e famosa emissora da região:  


-Não é nome não, vice! É apelido. Como eu sou muito feio me chamam de CU DE RÃ . Não se pode falar no rádio, então eles só falam a metade, “Dirrã”. 

ATÉ A PRÓXIMA

18 de janeiro de 2014

Sinais alarmantes

Sinais alarmantes - Fernando Henrique Cardoso
Finalmente FHC falou. Vale a pena ler. Mas ler sem paixão partidária, e entendam que é um texto de eminente Professor de Sociologia (inclusive da Sourbone), e não texto terceirizado, assinado por Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do ABC.
 Sinais alarmantes - ESTADÃO DE DOMINGO

Por Fernando Henrique Cardoso - Sociólogo

Finalmente fez-se justiça no caso do mensalão. Escrevo sem júbilo: é triste ver na cadeia gente que em outras épocas lutou com desprendimento. Estão presos ao lado de outros que se dedicaram a encher os bolsos ou a pagar suas campanhas à custa do dinheiro público.

Mais melancólico ainda é ver pessoas que outrora se jogavam por ideais — mesmo que controversos — erguerem os punhos como se vivessem uma situação revolucionária, no mesmo instante em que juram fidelidade à Constituição. Onde está a Revolução?

Gesticulam como se fossem Lenines que receberam dinheiro sujo, mas usaram-no para construir a “nova sociedade”. Nada disso: apenas ajudaram a cimentar um bloco de forças que vive da mercantilização da política e do uso do Estado para perpetuar-se no poder. De pouco serve a encenação farsesca, a não ser para confortar quem a faz e enganar a seus seguidores mais crédulos.

Basta de tanto engodo. A condenação pelos crimes do mensalão se deu em plena vigência do Estado de Direito, em um momento no qual o Executivo é exercido pelo Partido dos Trabalhadores, cujo governo indicou a maioria dos ministros do Supremo.

Não houve desrespeito às garantias legais dos réus e ao devido processo legal. Então por que a encenação? O significado é claro: eleições à vista. É preciso mentir, enganar-se e repetir o mantra. Não por acaso a direção do PT amplifica a encenação, e Lula diz que a melhor resposta à condenação dos mensaleiros é reeleger Dilma Rousseff...

Tem sido sempre assim, desde a apropriação das políticas de proteção social até a ideia esdrúxula de que a estabilização da economia se deveu ao governo do PT. Esqueceram as palavras iradas que disseram contra o que hoje gabam e as múltiplas ações que moveram no Supremo para derrubar as medidas saneadoras. O que conta é a manutenção do poder.

Em toada semelhante, o mago do ilusionismo fez coro. Aliás, neste caso, quem sabe, um lapso verbal expressou sinceridade: estamos juntos, disse Lula. Assumiu meio de raspão sua fatia de responsabilidade, ao menos em relação a companheiros a quem deve muito. E ao país, o que dizer?

Reitero, escrevo tudo isso com melancolia, não só porque não me apraz ver gente na cadeia, embora reconheça a legalidade e a necessidade da decisão, mas principalmente porque tanto as ações que levaram a tão infeliz desfecho como a cortina de mentiras que alimenta a aura de heroicidade fazem parte de amplo processo de alienação que envolve a sociedade brasileira.

São muitos os responsáveis por ela, não só os petistas. Poucos têm tido a compreensão do alcance destruidor dos procedimentos que permitem reproduzir o bloco de poder hegemônico; são menos numerosos ainda os que têm tido a coragem de gritar contra essas práticas.

É enorme o arco de alianças políticas no Congresso cujos membros se beneficiam por pertencer à “base aliada” do governo. Calam-se diante do mensalão e demais transgressões, como se o "hegemonismo petista” que os mantém seja compatível com a democracia.

Que dizer então da parte da elite empresarial que se ceva dos empréstimos públicos e emudece diante dos malfeitos do petismo e de seus acólitos? Ou da outrora combativa liderança sindical, hoje acomodada nas benesses do poder?

Nada há de novo no que escrevo. Muitos sabem que o rei está nu, e poucos bradam. Dai a descrença sobre a elite política reinante na opinião pública mais esclarecida. Quando alguém dá o nome aos bois, como, no caso, o ministro Joaquim Barbosa, que estruturou o processo e desnudou a corrupção, teme-se que, ao deixar a presidência do STF, a onda moralizante dê marcha a ré. É evidente a descrença nas instituições, e a tal ponto que se crê mais nas pessoas, sem perceber que por esse caminho voltaremos aos salvadores da pátria. São sinais alarmantes.

Os seguidores do lulo-petismo, por serem crédulos, talvez sejam menos responsáveis pela situação a que chegamos do que os cínicos, os medrosos, os oportunistas, as elites interesseiras que fingem não ver o que está à vista de todos. Que dizer então das práticas políticas? Não dá mais!

Estamos a ver as manobras preparatórias para mais uma campanha eleitoral sob o signo do embuste. A candidata oficial, pela posição que ocupa, tem cada ato multiplicado pelos meios de comunicação. Como o exercício do poder se confundiu, na prática, com a campanha eleitoral, entramos já em período de disputa. Disputa desigual, na qual só um lado fala, e as oposições, mesmo que berrem, não encontram eco. E sejamos francos: estamos berrando pouco.

É preciso dizer com coragem, simplicidade e de modo direto, como fizeram alguns ministros do Supremo, que a democracia não se compagina com a corrupção nem com as distorções que levam ao favorecimento dos amigos. Não estamos diante de um quadro eleitoral normal.

A hegemonia de um partido que não consegue se deslindar de crenças salvacionistas e autoritárias, o acovardamento de outros e a impotência das oposições estão permitindo a montagem de um sistema de poder que, se duradouro, acarretará riscos de regressão irreversível.

Escudado nos cofres públicos, o governo do PT abusa do crédito fácil que agrada não só aos consumidores, mas, em volume muito maior, aos audaciosos que montam suas estratégias empresariais nas facilidades dadas aos amigos do rei. A infiltração dos órgãos de Estado pela militância ávida e por oportunistas que querem se beneficiar do Estado distorce as práticas republicanas.

Tudo isso é arquissabido. Falta dar um basta aos desmandos, processo que, numa democracia, só tem um caminho: as urnas. É preciso desfazer na consciência popular, com sinceridade e clareza, o manto de ilusões com que o lulo-petismo vendeu seu peixe. Com a palavra as oposições e quem mais tenha consciência dos perigos que corremos. 
Não é a política que faz o candidato virar ladrão, é o seu voto que faz o ladrão virar político.

 Agora, o SINAL ALARMANTE: 

11 de janeiro de 2014

QUINCAS BERRO D’ÁGUA


Assisti, ontem, na TV Globo, ao filme de Sérgio Machado (2010), QUINCAS BERRO D’ÁGUA, baseado na novela  Morte e a Morte de Quincas Berro D’água, de Jorge Amado. Fiquei sem sono e fui para a minha mesa de trabalho reler essa obra do grande escritor baiano. Em cima de minha mesa de trabalho vi, jogado e adormecido um livro de poesia, que parecia ter sido atirado ali, desde as telas da tevê, por um dos doidivanas, talvez pelo “poeta da cara pintada”, o palhaço, um dos que carregavam o corpo de Quincas Berro D’água pelas ladeiras do Pelourinho, depois de sua primeira morte... Não me contive. Compus inspirado no imortal escritor baiano os versinhos abaixo, que podem, muito bem, servir de carapuça a muitos vates ordinários...

Esse livro é um desserviço
à estética, sim, senhor! 
“Podem enfiar tudo isso
no cu do comendador”.


ATÉ A PRÓXIMA.

21 de junho de 2013

BANDIDOS TRAFICANTES INFILTRADOS NA PASSEATA DO RIO DE JANEIRO

Eu já desconfiava e meu filho, ontem, depois de participar da esplendorosa passeata, em manifestação pacífica, me confirmou. Esses baderneiros são bandidos do tráfico que desceram os morros pacificados pelas UPPs e se infiltraram, com a cara tampada, entre a população, para roubar, assaltar, sequestrar, danificar o patrimônio público e destruir tudo, obtendo dinheiro de caixas eletrônicas, furtando, ainda, lojas e mais lojas. Destruíram tudo sem nenhum propósito. Destruíram até as reivindicações, expostas em cartazes estendidos na rua, incendiando-os propositadamente. Junto com esses bandidos do tráfico estavam os delinqüentes e desqualificados, pobres diabos, que sobrevivem como párias dessa mesma sociedade criticada na passeata, representadas por políticos, que nunca os compreenderam e por eles nada fizeram em seus mandatos. Esses miseráveis não entenderem que era justamente para dar fim a tudo isso e contra esses mesmos homens públicos, que o povo conscientemente, pacificamente e com propósitos definidos, se manifestava, de forma ordeira, pedindo o afastamento definitivo dessa corja da vida pública, entre muitas outras reivindicações. Era gente do BEM, envolvida pelas agitações do MAL. A ficha caiu. Meu filho viu. Meu filho presenciou a bandidagem agir. Foram eles, os bandidos traficantes que desceram das favelas, expulsos por essa mesma polícia que parece ter se confundido, mais orientada – creio - por propósitos escusos, do que por iniciativa de seus homens, que, de acordo com o bom senso, deveriam ser preparados para esses enfrentamentos. A organização do Estado não é tão ingênua assim. É claro que a cúpula do Governo do Estado do Rio de Janeiro sabia disso. Agora? Tem de haver severa repressão a esses bandidos do tráfico, pois esse movimento não pode esmorecer e morrer nas lindas praias do Rio de Janeiro, nem em todo o território nacional..

ATÉ A PRÓXIMA

18 de junho de 2013

PARABÉNS AO PROGRAMA LINHA DE PASSE - ESPN -



Parabéns à ESPN, canal 30, da Sky! O programa Linha de Passe, nessa segunda-feira, dia 17 de junho, teve um comportamento digno de aplausos por parte de todos os aficionados pelo futebol, que assistiram a esse bate-papo noturno. Quero deixar registrado que todos os seus participantes, sem nenhuma exceção, tiveram um discurso claro, inteligente, honesto e, principalmente, correto em abordar as recentes manifestações do povo brasileiro, nas ruas das grandes e pequenas cidades, indignado pelos desmandos dos maus políticos, que, infelizmente, são a grande maioria, a desrespeitar o cidadão brasileiro em geral e, em particular, todos os seus eleitores. O futebol foi o pano de fundo de uma indignação popular que surgiu no bojo de contestações e mais contestações sobre o transporte público nas principais cidades do país, extensivos aos desmandos administrativos e à nefasta corrupção que assola o Brasil, em todos os níveis, tanto na esfera pública, como na esfera privada. Das construções bilionárias e sem nenhuma transparência de estádios projetados e financiados com dinheiros públicos em detrimento a aplicações em Educação, Saúde, Saneamento e Segurança. O Programa da ESPN dessecou com rara felicidade esse pano de fundo transformado em pretexto futebolístico mostrando, inclusive a petulância de seus arrogantes pretensos donos, os poderosos senhores da FIFA, que para aqui vieram, mandando e desmandando em nossas autoridades, chegando mesmo a criticar manifestações lídimas e democráticas do povo brasileiro, quando vaiou estridentemente, na abertura da Copa das Confederações, não só a representante maior de nosso Governo, como toda essa esdrúxula gastança de dinheiros públicos, sobre a qual muitos ainda terão de dar explicações. Parabéns, ESPN !

ATÉ A PRÓXIMA

15 de junho de 2013

ARENA PARA MIM ERA A DO COLISEU



Hoje virou moda chamar os estádios de futebol de arena. O futebol, esporte das multidões, é praticado em um campo gramado, desde sua idealização, nos longínquos anos de uma antiga Inglaterra, há mais de cem anos. Mas nada mudou até hoje, no que se refere ao espaço aberto, onde este esporte é praticado oficialmente. Joga-se futebol em um verdejante gramado. Já o termo estádio vem do grego FJV*4@<, @<, subst. neutro, medida de comprimento, equivalente a 600 pés gregos, 626 pés romanos ou 180 metros. Era a oitava parte da milha; era o local de corridas; anfiteatro. Esse termo chegou até nós, através do latim stadium, ii. Por um cultismo renascentista, já houve a forma plural estadia. Então, o futebol é jogado oficialmente em estádios com verdejante relva, tanto que os nossos irmãos portugueses chamam o campo de jogo de relvado. Agora vem essa idéia de chamar os estádios de arena. O termo arena vem do latim arena (areia), uma forma erudita, isto é, que não sofreu nenhuma alteração fonética em sua evolução, até o português moderno. Já o termo areia é chamado popular, porque foi afetado pelas leis fonéticas da evolução do latim ao português, assim: latim, arena > area (nasalização e desnasalização) > areia (ditongação). Arena é, portanto, a parte central dos anfiteatros romanos, coberta de areia, onde se realizavam espetáculos de combate entre gladiadores ou entre feras; é o picadeiro do circo, que também é coberto de areia e onde o espetáculo se desenrola. Está aí o liame que fará surgir a metáfora moderna, pois o futebol é “show” e combate. Mas o uso da língua parece ter escolhido o termo estádio para designar o local do jogo da bola. Esse novo termo, arena, agora muito usado, contém o sema “modernidade”, paradoxalmente, introduzindo um moderno conceito de polidez, na maneira de se assistir aos espetáculos futebolísticos. Vai depender do comportamento do sujeito, usuário desses anfiteatros e de sua língua, aceitar e usar esse significante com novo significado. Se houver uma acomodação apolínea do espectador, pode ser que ARENA substitua ESTÁDIO, mas se Dionísio prevalecer e entrar em campo, apoteoticamente ovacionado pela “galera”, no velho/novo ESTÁDIO DO MARACANÃ, por exemplo, jamais estas casas de espetáculos futebolísticos serão chamadas de arena, pois arena é um termo erudito, que tem outro significado na cultura lingüística do humilde torcedor suburbano, que já foi penalizado, sem nenhum motivo, quando lhe surrupiaram a GERAL dos principais estádios de futebol do Brasil. Uma pena!



ATÉ A PRÓXIMA

13 de junho de 2013

PÉ DE MOLEQUE




  




Estamos pertinho do mês das festas que comemoram os santos mais populares de nosso povo. São Pedro, o santo pescador; Santo Antônio, o santo casamenteiro; e São João, o profeta que previu o nascimento de Jesus Cristo, santo de indelével carisma. São as chamadas festas juninas, as realizadas no mês de junho. As celebrações não ocorrem nessa ordem, pois Santo Antônio é celebrado no dia 13, São João, no dia 24, dia de seu nascimento e São Pedro, no dia 29. Parece que a ordem de se enumerar os santos festejados no mês de junho, em dias misturados, se deve à harmonização dos três nomes, que formam um verso decassílabo heroico perfeito.  Assim: “São Pedro, Santo Antônio e São João” (acentuação tônica na 6ª e na 10ª sílabas). Encontramos, ainda, essa harmonização presente nas tradicionais músicas de nosso cancioneiro junino, nas letras de canções inesquecíveis como: “Capelinha de melão”, de João de Barros e Adalberto Ribeiro; “Pedro, Antônio e João”, de Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago (a famosa ... Com a filha de João,/ Antônio ia se casar,/ mas Pedro fugiu com a noiva, / na hora de ir pro altar...); Balãozinho; Sonho de papel, de Carlos Braga e Alberto Ribeiro; Pula a fogueira, de João B. Filho; Cai, cai, balão; Isso é lá com Santo Antônio, de Lamartine Babo; Noites de junho, de João de Barro e Alberto Ribeiro; Olha pro céu, meu amor, de José Fernandes e Luiz Gonzaga e muitas outras. Mas nessas festas açucaradas que acontecem em todo território nacional é servido um tradicional doce conhecido por pé de moleque. Essa expressão sintagmática foi registrada pela primeira vez em 1889, pois, até então, o doce era conhecido como “quebra-queixo” ou “quebra-dentes”. Hoje, pela norma ortográfica vigente, sua grafia é registrada sem hifens. Esse doce é, ainda, descrito por muitos folcloristas como, por exemplo, Cornélio Pires e Câmara Cascudo. Este último, inclusive, afirma que o tradicional pé de moleque é conhecido em todo o Brasil e tem receitas específicas em muitos lugares, e os Estados do Nordeste e do Sudeste exportam essa delícia, com suas marcas registradas, para o resto do país e para o exterior. Já a origem do nome pé de moleque possui três hipóteses: (1ª) - Por etimologia popular, trata-se de um caso de metanálise, pois está ligado às repreensões das quituteiras de rua, que, no passado, vendiam essas gostosuras e eram alvos fáceis de furtos, por parte da molecada. Para tentarem amenizar a desagradável situação, diziam: “pede, moleque”! Um imperativo seguido de um vocativo. (2ª) - Por origem metafórica, o nome pé de moleque parece fazer referência ao calçamento com pedras irregulares, que existem em cidades históricas brasileiras como em Paraty, no sul do Rio de Janeiro ou em Ouro Preto, Minas Gerais. Os escravos colocavam pedras de diversos tamanhos e feitios para calçarem as ruas e os filhos desses escravos iam acertando as pedras com os pés. Daí o nome desse tipo de calçamento, conhecido até hoje por pé de moleque. (3ª) - Também por origem metafórica, diz respeito à semelhança do doce, rapadura com amendoim, na forma de uma planta de pé descalço, muito semelhante às marcas deixadas no chão molhado pelos moleques infantes dos tempos de antanho.
Agora, veja como a Norma Culta da língua portuguesa exigiu, em outras épocas, a grafia desse doce. Escrevia-se com hífen a palavra “pé-de-moleque”, desde 1889, quando apareceu pela primeira vez. Mas, a partir do Acordo Ortográfico de 1990, deve ser grafada sem hífen, assim: pé de moleque. Em 2009, o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras também ratifica as bases do Acordo Ortográfico de 1990, estabelecendo que a palavra seja grafada sem hífen. E qual é o plural de pé de moleque? Resposta: Pés de moleque. Para finalizar. Este termo já teve hífen e agora não tem mais. Mas como é o plural de hífen? Estão lembrados? O plural de hífen, não tem acento agudo. É assim: hifens, porque só as palavras paroxítonas terminadas em NS (entre outras terminações) é que recebem acento agudo na vogal tônica. Mas também é aceito o plural, hífenes, aí com acento agudo. Vocês sabiam? Santo Antônio! Meu Deus

ATÉ A PRÓXIMA


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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.