ATÉ A PRÓXIMA
Quantos me visitaram ?
31 de outubro de 2018
COMO UMA PESQUISA ARQUEOLÓGICA, MAS LITERÁRIA TAMBÉM
17 de outubro de 2018
A SOLIDÃO
Somos
todos indivíduos que só existimos porque nossas vidas dependem de companhias.
Não se pode entender o homem isolado em sua amedrontadora solidão. Somos
sociais. Dependemos do outro. Só por ficção e na ficção, o homem vive isolado.
Reflexões
sociológicas, antropológicas, psicológicas, psicanalíticas à parte,
contrariando todos os textos teóricos de Marx, Durkheim, Weber, Claude
Lévi-Strauss, Freud e Lacan, por mais que o meio em que vivo esteja repleto das
mais instigantes e significativas figuras, que pretensamente interagem comigo,
sinto-me, muitas vezes solitário.
A
solidão é amedrontadora, mas sei conviver com ela. Ela, muitas vezes me inspira
e me faz pensar que sou mais forte do que realmente o outro pensa que não sou.
Ficar livre da mesquinhez do meu vizinho não é uma boa? Não ser prejulgado por
cabecinhas ridículas e presunçosas não é uma dádiva? Para me aliviar das
confusões mentais que embaralham as muitas reflexões que faço, quando pretendo
criar um texto mais requintado, escrever um poema, ou simplesmente fazer um rol
das necessidades comezinhas para as compras do supermercado, refugio-me sempre
no minúsculo e ridículo quartinho de leitura de meu reflexivo apartamento. Lá
produzo com satisfação, sozinho, boca calada e pensamento falante. É a solidão
produtiva e benfazeja.
Mas a
vida exige multiplicidades de atitudes e clama por muitos outros tipos de
alegria e êxtase. Realmente não somos uma ilha. Temos um compromisso atávico
com a multiplicidade de acontecimentos que nos fazem pessoas sociais. Pessoas
comprometidas com, também, todos os sentimentos, os mais variados possíveis,
inerentes ao ser humano, que interage para ser, e reage à solidão. Então também
aprendi a afastar esse tormento que nos isola e que nos aprisiona. Aprendi a
viver nessa dualidade barroca, gostosa, que projeta a alegria de viver em grupo
e recrimina o pluralismo, restringindo a aglomeração, tudo, muitas vezes,
talvez, por pura incompreensão dos fatos ou por se estar limitado a adquirir
repertórios mais sofisticados.
Mas a
vida é assim mesmo, misteriosa e incrivelmente criadora de situações
dicotômicas. Saber conviver com esse burburinho especial que alucina, porque
encanta (a alegria encanta, mesmo), mas que, também, deprime e mata (a solidão
é um terrível assassino), é para poucos. Esses mistérios não foram explicados
nas escolas regulares por onde todos nós passamos, quando estudamos os
mercantilismos; os socialismos; os positivismos; os estruturalismos; os
revisionismos e todos os demais ISMOS possíveis e imaginários de nossa
alucinada cultura clássica, enquanto ciência. Esses mistérios pertencem à
escola da vida. Pertencem a outro sistema simbólico.
Um
dia, visitando a românica ou muito mais antiga Catedral da Sé, em Braga,
perguntei ao solitário guia como os corpos de dois bispos do século XVII, lá
enterrados, estavam ainda intactos. Aquele estranho funcionário, de aparência
frágil, com rugas profundas em seu rosto macilento e triste, que morava sem
família num pequeno cômodo, anexo à catedral, depois de duas horas rodopiando
por púlpitos e pedras, repetindo mecanicamente todas aquelas estórias escritas
nas etiquetas coladas às vitrines dos suntuosos monumentos do interior do
sagrado templo bracarense, respondeu-me que aqueles corpos intactos por mais de
duzentos anos representavam um mistério de Deus. E transformando-se, alegre e feliz,
quase que gritava: “Mistérios de Deus. Mistérios de Deus! ”
ATÉ A PRÓXIMA
4 de outubro de 2018
UMA FORMA GENÉRICA DE VERBO
A 35ª Oktoberfest começou ontem, mas
a chuva impediu a realização do desfile que abre as festividades dessa que é a
maior festa da cerveja fora da Alemanha. Ela é realizada, aqui, em Blumenau, no
início do mês de outubro, do dia 3 ao dia 21.
O plano B dos organizadores foi
executado dentro dos vastos salões do Parque Vila Germânica. Lá estavam os
principais meios de comunicação do Vale do Itajaí e uma repórter da NST,
afiliada da Rede Globo, em Santa Catarina, depois do desfile interno terminar, mas
ainda durante a festança animada, que iria varar a madrugada, perguntou a um
jovem como ele estava se sentindo. O rapaz entrevistado, de boa aparência,
fantasiado de “Fritz”, muito alegre e sorridente, respondeu:
- A gente foi “surpreso” pela chuva.
Realmente, no horário do desfile de
abertura, lá pelas 17 horas, caiu um aguaceiro danado na cidade de Blumenau. Ninguém
esperava por isso, mesmo com algumas nuvens negras ainda no céu, depois mesmo
de alguns pinguinhos sem nenhuma pretensão.... Até um solzinho pálido havia
saído lá pelo meio da tarde, dando muita confiança aos patrocinadores de que
mais um belo desfile alegórico, tradicional na abertura dessa festividade, iria
acontecer. O povo esperava assistir a ele com muita sede e disposição para
entornar cerveja de graça, goela abaixo. Mas não foi isso o que aconteceu. Caiu
chuva para desanimar. Mas o plano B solucionou o problema e o desfile foi
transferido para dentro daqueles enormes salões. Lá, com a festa bombando, a
repórter fez a redundante pergunta ao nosso “Fritz” e obteve a tal esquisitíssima
resposta. É claro que todos os telespectadores entenderam o que foi dito pelo
rapaz, que não falou em alemão, não. Respondeu em nossa língua, mesmo. Ele quis
dizer que todos que estavam esperando pelo desfile foram surpreendidos pela
chuva intensa, que desabou naquela hora. Mas por que o rapaz disse “surpreso”,
em vez de surpreendido?
Bem, ainda tem uma coisinha antes de tentar
explicar isso. Ele usou o termo A GENTE, uma expressão composta por duas palavras
(a – gente), uma espécie de pronome pessoal, correspondente a “nós”, mas que se
refere à 3ª pessoa do discurso. Então, esse pronome pessoal A GENTE leva o
verbo para a 3ª pessoa, no caso, singular. Assim: A gente foi “surpreso”.......
E ainda se incluiu na concordância, pois disse “foi surpreso”, usando a forma no
masculino, utilizando-se, ainda, da voz passiva... Agora vamos para o
“surpreso”.
Nós pensamos rápido. As palavras que
vão vestir nossos pensamentos, materializando-os com bonitas letras e seus sutis
acentos, já estão prontinhas para entrar em cena. O Rapaz, ao responder à
repórter da Globo regional, já tinha pensado na chuvarada que atrapalhou o
desfile e nada foi mostrado ao público, como as formidáveis máquinas de servir Chopp, muito
criativas e engraçadas, que a cada ano aparecem modificadas e mais engraçadas.... Mas o rapaz tinha de colocar, também, as famigeradas palavras,
para dizer que ninguém esperava pelo temporal que desabou. Aí é que a porca
torceu o rabo. O cara sabia que a chuva
pegou todo mundo de surpresa. Sabia que todo mundo ficou triste com o fato de a
chuva ter prejudicado o desfile. Sabia, também, que foi uma surpresa geral para
todos.... Mas cadê as palavras? As danadas não saiam.... Onde elas estariam? A
surpresa é que dominava o pensamento do rapaz. O negócio foi a surpresa! Foi
uma grande surpresa essa chuva danada! Eu fiquei surpreso, pensou lá no fundo de sua cabeça, já
encharcada com as mais saborosas cervejas artesanais! É isso mesmo! Todos
ficaram surpresos. Mas eu sei que existe o verbo SURPREENDER, pensava o rapaz
vestido de alemão Fritz, já meio bêbado! Eu sei que o verbo é esse. Mas minha cabeça
não está funcionando bem! Como eu coloco esse verbo aí nessa minha frase? Meu
Deus! Socooooorrro! No entanto, naquela confusão mental, a palavra mais
significativa que representou tudo aquilo foi SURPRESA, sem dúvida alguma.
Então, simplesmente, ela se adaptou à forma verbal do verbo SURPREENDER. Não
saiu o FUI SURPREENDIDO, mas saiu o seu genérico: “fui surpreso”. Afinal, não
existem as formas PRESO ou PRENDIDO, de PRENDER e também SUSPENSO ou
SUSPENDIDO, de SUSPENDER? Por que não pode existir e ser usada a forma “surpreso”,
que me veio claramente à cabeça? Claro! Vou emprega-la. É ela mesma! E o rapaz,
vestido de “Fritz”, meio bêbado e bem-apessoado, soltou essa “pérola linguística“,
com um sorriso repleto do melhor lúpulo e da mais recatada e distinta cevada: -
A gente foi “surpreso” pela chuva.
30 de agosto de 2018
O LIVRO SÓLIDO DE WENTH FILHO
A poesia de Ernesto Wenth Filho enquadra-se no que se
convencionou chamar de produção poética contemporânea, que são os textos em
verso ou prosa poética, surgidos a partir de 1945. Seu último livro, lançado
recentemente em 2017, pela MJ Editorial, Balneário Camboriú, em 2017, traz no
título da “capa” e da “quarta de capa” o título do livro, é claro, mas
trata-se, também, de um poema. O poema-título SÓLIDO. Do que se trata? Trata-se do nome do livro que se consubstancia
como poema, cuja produção denuncia a manipulação da linguagem. Isso se dá pela
captação da sensibilidade poética que vai buscar na realidade do referencial
linguístico o significado cultural do termo SÓLIDO, assim: “Que dificilmente se deixa destruir por uma força
externa; que tem fundamento real, seguro; digno de confiança, incontestável;
firme, sério, duradouro; resistente”. E acrescentamos nós: todas as
constelações semânticas advindas desses significados primitivos, que vão se
multiplicar no “receptor-leitor” e em seu repertório.
A visão espelhada do esboço original da capa e a capa acabada
é uma viagem que o leitor faz, antes mesmo de folhear as primeiras páginas
desse último livro de Ernesto Wenth Filho. Essa forma original de produzir um
texto poético é, na verdade, uma forma de linguagem, pois seus significantes,
que adquirem significados motivados no real, fazem com que surja uma comparação
inconsciente, no entendimento do receptor dessas novas mensagens codificadas, incorporando-as
a seu repertório, a fim de ver nesse conjunto de signos, que é o texto
produzido, uma forma expressiva, com novos significados, portanto, uma forma
poética, com nova linguagem. Assim, passamos a caracterizar como poema, uma
forma de linguagem, e o texto em questão, o é, por tudo que foi considerado e
porque, acima de tudo, recria a linguagem articulada, recriando, com ela, uma
nova maneira de se ver um mundo transfigurado.
A linguagem poética de Ernesto Wenth Filho está projetada
para ser cantada em ritmos alucinantes da musicalidade muito próxima do ritmo
do rock (p. 38), pois a referencialidade soprepuja a conotatividade de seus
enunciados. Isso, contudo, não tira de cena a poesia contida em seus textos,
como exemplificam os versos dos pequenos poema de seus textos, visualmente
destacados entre sinais gráficos de grandes aspas. Aliás, funcionando dentro do
contexto de SÓLIDO como verdadeiros grafemas, pois colocam significativamente
em destaque uma outra forma de dizer o poético.
Sua linguagem mais referencial, portanto, convive, dividindo
espaço com a suavidade das formas adjetivadas, que são, realmente, em menor
número do que as substantivas, mas não desmerecendo o conjunto, que se sustenta
por vários outros predicados, inerentes ao processo de criação poética.
Assim, a poesia de Ernesto Wenth Filho, neste seu livro
SÓLIDO está relacionada com a descrição da realidade circundante e trabalha com
diversos tipos de textos, incluindo a prosa poética narrativa-reflexiva (p. 8,
58).
Sua estrofação apresenta os seguintes segmentos: dísticos: (p. 65); tercetos (p. 29, 74); quadras
(p. 14, 16, 38, 62, 72, 75); quintilha:
(p. 70); estrofação mista de quadras e sextilhas (p. 6); estrofação mista de tercetos, quadras e
dísticos (p.10); poemas de
estrofação mista bem variada (p. 12, 18, 20, 22, 24, 26, 28, 30, 32, 34,
36, 40, 41, 43, 46, 48, 50, 52, 56, 64, 66, 68, 69, 71). Todos os seus poemas
se compõem de versos modernos, com e sem rimas, sem métrica, mas com certo
ritmo, nessas estruturas bem diversificadas de estrofes.
Finalmente, temos certeza que, futuramente, as obras poéticas
de Wenth Filho, nos brindarão, plenamente, com poemas sequenciais, seguindo aquela
linha inicial, quando inovou, desconstruindo o figurativo tradicional, em Só –
LIDO, para construir uma nova forma de se ver o mundo, transfigurado pelo
dialogismo da linguagem, com suas inúmeras possibilidades de leitura.
ATÉ A PRÓXIMA
23 de agosto de 2018
UMA VIAGEM A UM JARDIM DE QUASE 100 ANOS
Há, praticamente cem anos, Ribeiro Couto
escreveu alguns dos mais significativos poemas de sua lírica intimista,
nevoenta e com prenúncios modernistas. A publicação se
deu alguns anos depois. Refiro-me ao livro O
Jardim das Confidências, publicado por Monteiro Lobato & Cia., São
Paulo, em 1921 e que teve uma tiragem de mil exemplares. Foi sua estreia como
poeta. Foram versos escritos entre a adolescência e a idade em que o rapaz está
pronto para amar, sem saber que todo o amor inclui o sofrimento, parodiando, romanticamente
o poeta português, Guerra Junqueiro.
A cena se estende pela cidade de São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Uma cidade cheia de glamour e de barões do café. Palacetes e jardins, dentro e fora das casas. A elegância dos transeuntes e o charme dos primeiros automóveis importados pela Ford dão um toque de aristocracia à pacata e quase bucólica capital do histórico Estado brasileiro.
São Paulo, nessa época, era um espaço
repleto de novidades culturais e começava a despontar para o progresso: non ducor, duco.
Em 1955, morei, durante um ano, na capital paulista e ainda tive a oportunidade de ver uma cidade de raros encantos em suas ruas, praças, avenidas e bairros residenciais com seus floridos jardins. Encantei-me, muito antes de Caetano Veloso, com o cruzamento das avenidas Ipiranga e São João, repleto de restaurantes - lembro-me do Restaurante Leão – espargindo o guloso perfume de seus sanduíches e pizzas, misturado a um cheiro diferente da gasolina, queimada pelos automóveis que passavam por aquelas esquinas de deselegâncias, que tocariam, anos depois (1978), o coração do poeta cantor. Sofri com a garoa fina e fria, quando caía nas imensas chácaras por onde passava a pé e também de bonde, querendo ir para Santo Amaro. Meu coração sentia - eu bem sei- a explosão de uma invisível emoção inconsciente de um EU adolescente que se viu envolvido pela penumbra da serra, num contraste com o mar do Rio de Janeiro, minha terra natal. Era a diferença entre o sol do Rio e a chuvinha fina paulistana. Com Ribeiro Couto deve ter acontecido o mesmo. De Santos do sol e do mar, do calor do Rio, onde se formou em Direito (1919), para um retorno à sombra dos dias cinzentos de São Paulo, deve ter sido um contraste imenso e significativo e que o marcaria, sem dúvida alguma, despertando no artista o EU melancólico, encontrado nos Jardins das Confidências.
Em 1921 saiu seu primeiro livro de poesias e Manuel Bandeira não economizou palavras de elogio ao poeta, praticamente um jovem adolescente e tímido. “Este livro é, em todos os sentidos, uma obra-prima: no seu feitio, como na sua essência espiritual”, dizia Bandeira, que viria a ser o mais clássico dos poetas modernista, em sua crônica “Apologia de um Poeta”, escrita no jornal carioca O DIA, de 9 de outubro de 1921.
Quando eu morava em Jacarepaguá frequentava, nas férias escolares, um grêmio cultural, fundado por um ex-aluno do Colégio Militar/RJ, que não seguiu a carreira das armas. Optou pelas letras, pela poesia e pela filosofia. Lembro-me que foi numa das primeiras reuniões do “GCMA” (Grêmio Cultural Machado de Assis) que eu conheci um professor de Língua Portuguesa no início de sua carreira. Esse professor fora convidado para presidir uma reunião festiva, num sábado à tarde, quando seria lido e aprovado o Estatuto daquela agremiação, idealizada por jovens estudantes e que deveria divulgar e estimular a prosa e a poesia na região oeste da cidade do Rio de Janeiro. Belíssima pretensão! Esse professor era Evanildo Bechara, meu mestre, hoje meu amigo, meu filólogo preferido, como digo na intimidade. Evanildo Bechara pertence, atualmente, à Academia Brasileira de Letras e é Presidente de Honra da Academia Brasileira de Filologia, de cujos quadros, com muito orgulho, faço parte. Lá, naquele humilde e incipiente refúgio cultural, frequentado por jovens deslumbrados pelas letras em prosa e verso, homenageava-se também, em ocasiões festivas, poetas de nossa literatura, recitando-se seus poemas e falando-se de sua história de vida. Então, o presidente daquele humilde e longínquo grêmio, talvez, e, com certeza, hoje desaparecido, ofuscado pela fantasmagórica névoa do esquecimento, homenageou naquele sábado de minha distante juventude o poeta Ribeiro Couto, lendo o poema O Desconhecido, de O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS.
“Quem é esse que está, sob a lâmpada morta, / Infantil a chorar debruçado na mesa? ”
Foi o meu primeiro contato com o poeta. O “penumbrismo” em sua poesia me instigava, da mesma forma como mexia com minha imaginação a morbidez impressionista muito presente em sua poesia, envolta numa melancolia explícita e num erotismo velado. Eu vinha de um ambiente familiar muito comprometido com o parnasianismo, tanto na tentativa estética de compreender o belo, quanto nas atitudes apolíneas de comportamento social, cobrando, sempre, minha família de mim a busca pela perfeição.... Meu avô materno, tios e um tio-avô foram amigos de Olavo Bilac e admiravam sua poesia, do mesmo modo a de Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, Théophile Gautier, Leconte de Lisle e Théodore de Banvi. Minha tia, Leopoldina Saraiva, era professora de francês e poetisa premiada. Moravam todos numa bonita quinta, uma construção no estilo neoclássico, repleta de arabescos externos, predominando em seu interior quadros e estatuetas com motivos e figuras, representando passagens da mitologia grega. Não aderi a esse estilo de vida, portanto não abracei a estética parnasiana. Já o simbolismo e o impressionismo, trazendo, quase sempre, embutidos em si os mistérios do mórbido penumbrismo, mexeu com o meu EU adolescente e eu poderia, agora, envolvido pelo espírito poético de Ribeiro Couto, dizer que aquele simbolismo impressionista muito me marcou, ficando tudo isso, para sempre, impregnado em minhas ilusões e pretensões literárias.
Ribeiro Couto estreou na poesia (1921) um ano antes da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo. Sua mensagem poética se apresenta envolvida em uma atmosfera simbolista, reagindo flagrantemente ao ambiente parnasiano, que no dizer de Ronald de Carvalho “estava saturado de girândolas, de fumaradas espessas, de fogos e labaredas alterosas”. Mas a poesia de Ribeiro Couto, nesse seu livro de estreia é, basicamente, uma poesia de transição, no início do século XX. Iria, contudo, pouco se modificar. Em O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS há uma poesia de sombra, silêncio, mansuetude e noturnismo. O mesmo ocorreu com a poesia de Ronald de Carvalho, que apontaria um novo movimento intimista que surgia, ao analisar esse primeiro livro de Ribeiro Couto. Deu a esse movimento intimista o nome de “penumbrismo”, no artigo intitulado Poesia da Penumbra. Esse sentimento intimista e penumbrista, percebido por Ronald de Carvalho, já se sentira também na obra de Mário Pederneiras. A esse período da história de nossa literatura, quando autores se lançam na direção de uma vanguarda e novos estilos esperam o combate e cantam e agonizam, às vezes, em campo aberto, dá-se o nome de “sincretismo”. Vejamos o que diz Afrânio Coutinho:
“Fenômeno facilmente observado na evolução da história literária, é o que se verifica nos períodos de transição ou zonas intermediárias: o aparecimento de escritores e poetas de valor incontestado, em cujas obras se infiltram tendências de escolas antagônicas, chocam-se princípios que se contradizem, sentimentos e emoções que se contrariam. E isso porque são atingidos pelas influências e reflexos do fim e do princípio de escolas que se sucedem. Sofrem tais escritores e poetas de uma inconsciência literária, tão compreensível e perdoável, que em nada lhes desmerece o valor global da obra”. (In, A Literatura no Brasil, Vol. III, Tomo 1, p. 311).
Está, portanto, localizada a obra de Ribeiro Couto, O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, dentro desse período sincretista que atravessou a poesia brasileira, antes de se afirmar nas novas estéticas, que não tardariam a surgir.
Então, a poesia de Ribeiro Couto, tão entusiasticamente apresentada por Bandeira, como vimos no início, só iria ser inserida no Modernismo, depois de uma insistente crítica embasada nas modernas teorias literárias, por parte de estudiosos, que perceberam que não se tratava de um poeta menor dentro do movimento que aflorou em 1922. Seus companheiros, poetas naquele momento de transição estética dos anos 20, principalmente Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade vão com ele manter uma viva troca de ideias, através de uma profícua correspondência, mostrando visões estéticas muito diferentes, mas sem deixarem de reconhecer o valor significativo da poesia de Ribeiro Couto. Sobre o livro que hoje tem quase 100 anos, diz Vera Lins, doutora em Letras pela UFRJ e professora de Teoria da Literatura:
“O olhar é forma de conhecimento, contemplação produtiva que faz o sujeito perambular como vagabundo, andarilho que vê e ouve a cidade. Assim aparece o EU lírico nos primeiros livros de Ribeiro Couto, revelando um imaginário próximo a Baudelaire e aos simbolistas. É com vagos olhos de passante que percorre as ruas do Rio e de São Paulo, fixando luz, cores, objetos e pessoas em O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, POEMETOS DE TERNURA E MELANCOLIA E UM HOMEM NA MULTIDÃO”. (In, Ribeiro Couto, uma questão de olhar. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa.)
O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS é dedicado
à cidade de São Paulo, “às suas manhãs nevoentas de sol frouxo”. Poemas de
adolescente ferido pela volúpia de amores, que são recriados e transfigurados
em uma atmosfera de meios tons, de penumbra, de sombras, de névoas, de
disfarçado erotismo em um ambiente que retrata motivos simples do dia-a-dia,
temáticas que desenvolvem um motivo central, que é o sentimento de paz, embora
a alma sofra como sofre a alma de todos os poetas...
Um ano depois do lançamento de O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, em 1922, realiza-se, no Teatro Municipal da cidade de São Paulo, a Semana de Arte Moderna. Foram três noites de apresentações de recitais, conferências, declamações, grupos de artista e intelectuais tentando mostrar as novas concepções e tendências estéticas de arte. Abaixo a “ars gratia artis” dos parnasianos! O objetivo era a destruição das velhas formas artísticas na literatura, na música e nas artes plásticas. Os organizadores procuravam apresentar e discutir os princípios da chamada arte moderna. Pairavam, também, sobre os participantes muitas dúvidas a respeito do que se estava querendo contestar. Um dos mais representativos intelectuais do movimento, Oswald de Andrade, num esforço de síntese, afirma: "Não sabemos o que queremos. Mas sabemos o que não queremos." A cidade se dividiu entre os futuristas (renovadores) e os passadistas (conservadores).
Em 1922, o escritor Graça Aranha (1868-1931), que pretendia romper com o passado, aderiu abertamente à Semana da Arte Moderna, criando uma cisão na fechada e reacionária Academia Brasileira de Letras, defendida por seu líder, o escritor Coelho Neto (1866-1934). Essa contenda entre opiniões estéticas diferentes criou uma das maiores polêmicas acadêmicas, como há muito tempo não se via.
O público aplaudia as manifestações contestatórias por uma nova estética, tanto vindas de um primeiro equivocado discurso de Graça Aranha como das leituras de textos vanguardistas de Mário de Andrade, Menotti del Picchia e Oswald de Andrade. Mas a grande sensação do evento foi Ronald de Carvalho, na segunda noite, quando ele leu o poema “Os Sapos” de Manuel Bandeira que, por motivo de saúde, não pode comparecer. O poema fora uma irônica crítica endereçada aos ideais parnasianos e ao seu grande e principal representante, Olavo Bilac, que ainda era cultivado pela maioria do público, uns poucos privilegiados com o conhecimento teórico da estética dominante na época. A reação foi estrondosa. Vaias, gritos, batidas de guarda-chuva nas cadeiras e poltronas, um alvoroço total, até a sessão ser interrompida. E a gritaria no interior do Teatro Municipal não parava: FOI! NÃO FOI! FOI! NÃO FOI! Citando Sergius Gonzaga, pode-se dizer que “metaforicamente, com sua iconoclastia pesada, o poema delimita o fim de uma época cultural”.
Mário de Andrade, um dos principais teóricos do movimento modernista, sintetiza os propósitos dessa nova articulação cultural, como uma forma de legar às gerações futuras os frutos que colherão, a partir das sementes agora lançadas nos palcos da Semana de 1922, isto é, a estabilização de uma consciência criadora nacional, preocupada em expressar a realidade brasileira; a atualização intelectual com as vanguardas europeias e o direito permanente de pesquisa e criação estética.
Ribeiro Couto participou da Semana de 22 e sua contribuição para a vida literária de então seria este seu O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, muito distante, é verdade, do rompimento total com o passado estético, mas com uma forma envolvente de montar um novo ritmo, lento, é verdade, mas suave como toda sua poesia. Revalorizou, então, o verso alexandrino, desgastado pelo soar sistemático das cesuras parnasianas. Seus versos possuem o doce ritmo da chuva fina que molha sem encharcar:
“A chuva fina molha a
paisagem lá fora. / O dia está cinzento e longo.... Um longo! ”
É a poesia da impressão e da intensificação, do momento diáfano que não se repete nunca:
“Tem-se a vaga impressão de que o dia demora”.
“Parece que morreu a vida. / Parece que morreu a vida / Na velha praça adormecida”.
Uma visão impressionista do mundo que o cerca e o motiva:
“Tenho uma sensação tonta e maravilhosa / De estar vagando no ar, leve como uma pluma”.
Dando preferência ao verso
alexandrino, em seu primeiro livro de poesia, Ribeiro Couto, em compasso
quaternário, no poema “No Cais”,
repete as estruturas métricas, proporcionando a continuidade e a duração da
ação:
“Olhando o mar, olhando o mar, olhando o mar...”
Segundo Manuel Bandeira, analisando esse mesmo poema, “No Cais”, diz que “os pobres de poesia, aqueles que só conseguem perceber as realidades objetivas não conseguirão compreender as imaginações férteis, pois elas ganham sentido mais alto, alongam-se em perspectivas mais fundas, quando não se transmudam a realidades astrais”. No poema “No Cais, a realidade subjetiva do abraço dado à mulher, foi o pequenino Suave Milagre da poesia”, continua Bandeira, após ouvir de um crítico e poeta que tal abraço é um absurdo num mundo de duras realidades. Bandeira continua analisando os versos de O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, mostrando que a forma de emoção e sugestão provém muito da musicalidade neles contida.
Esse recurso formal de repetição das estruturas métricas, aliado a sucessivas tentativas rítmicas de polifonia, em versos alexandrinos de compasso ternário, dão evidentemente, à poesia de Ribeiro Couto uma imensa musicalidade, já percebida pela análise de Rodrigo Melo Franco, logo após a publicação de O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, quando assinala que “todas as poesias de Ribeiro Couto são canções”.
Manoel Bandeira, em sua Apologia de um poeta, aqui citada, no início desse trabalho, disse, em 1921, o que a Vera Lins percebeu, ao analisar a obra de Ribeiro Couto, em seu trabalho, já citado também, datado de 1997. Lá está, no poema “Mascarada” o subjetivismo elaborado, responsável por refazer todas as realidades objetivas do poeta. Assim, a poesia de Ribeiro Couto, poeta intimista, quase “flâneur” nesses versos, se caracteriza por uma forma subjetiva de mostrar a realidade através de seu olhar, que também é uma forma de conhecimento para a contemplação produtiva, pois é perambulando e observando que, segundo Bandeira, consegue Ribeiro Couto ser arguto e cínico. É necessário conferir:
Mascarada
“Passastes a sorrir,
frívolas Colombinas,
A sorrir.... Para mim?
Eu entre a multidão,
Eu também vos lancei
confete e serpentinas...
Em torno a multidão
agitava pandeiros.
A berrar, toda a praça
era uma aclamação.
“Bravos! ” E eu via
rir vossos olhos brejeiros.
Fostes passando....
Tive uma fina tristeza.
Perdido, o meu olhar
errava sobre vós...
Seria Momo o deus do
amor? Ah! Que incerteza!
E ao desaparecer da
linda mascarada,
Entre ruflos e o
guizalhar dos dominós,
Levei ao rosto a minha
mão: voltou molhada...
Seria Momo o deus do
amor? Pobre de nós!
Ribeiro Couto em seu livro de estreia,
como nos seguintes, tem preferência pelo verso alexandrino, expressando-se
ainda em versos curtos de oito sílabas e seu quebrado de quatro. Em O JARDIM
DAS CONFIDÊNCIAS adota versos alexandrino, decassílabo e octossílabo. Sua
poesia é espontânea e suave, realizada sob uma atmosfera de sonho e devaneio,
de sombras e umidade. Constrói com o simbolismo da lâmpada o seu campo
semântico, ligado à imagem do brilho nas trevas, imagens antitéticas que
envolvem grande número dos poemas de seu primeiro livro, desenvolvendo com
essas temáticas o seu Leitmotiv. Sua
mensagem poética se realiza nessa simbologia através de metáforas animistas,
numa visão impressionista da realidade fugitiva:
“Sobre a mesa de estudo, a lâmpada adormece”.
“A lâmpada é a melhor companheira que existe / Para as horas do desespero que esmorece.../ Tua recordação é uma lâmpada triste...”
“A luz da vela, amarelada e meio morta”
“A lâmpada vermelha esfuminha o teto”
“Lá na sala uma lâmpada sozinha”
“Quem é esse que está, sob a lâmpada morta”
“Ao centro a lâmpada cochila”
“A lâmpada evoca em vigília...”
“E o mortiço clarão da lâmpada quieta”.
A sedução pela luz mortiça da
lamparina atinge seu auge no poema:
O Desconhecido
Quem é esse
que está, sob a lâmpada morta,
Infantil, a
chorar debruçado na mesa?
Olá, rapaz,
que tens? Conta.... Contar conforta.
E em tua
boca eu sinto estrangulada, presa,
A confissão
que assim, sob a lâmpada morta,
Entre
livros, terá mais tristeza, tristeza...
Pões os
olhos em mim: pobres olhos molhados
Em que o
pranto desceu como um véu vermelho.
Conta o que
tens.... Enxuga os olhos desgraçados...
E ele
chorava para mim, dentro do espelho.
O poeta cria um cenário simples. Tudo
é simples. A mesa é simples. A lâmpada é simples. Simples é também a atitude
infantil da personagem. Mas o engenhoso “set”, onde o poema se realiza é
complexo. Estamos diante de uma variação cenográfica da tela de Velásquez, As Meninas, onde os retratados (em
Velásquez são dois, os reis de Espanha) só são conhecidos pelo reflexo do
espelho. Todos os olhares são para os retratados, mesmo o olhar do autor, tanto
no poema quanto na pintura e lá, por motivos óbvios. A realidade se
consubstancia pela imagem especular, que é destorcida e invertida e, enquanto
linguagem, tenta reprimir o real. O diálogo se estabelece no poema entre o EU
lírico e a castração do sujeito. A fala é interditada no sujeito e a melancolia
aflora. Lá, em As Meninas, Velásquez
desponta radiante como criador e como criatura, pois se retrata também. No
poema O Desconhecido, Ribeiro Couto
se ressente de identidade e não se encontra. A pergunta do criador fica sem
resposta, pois a fala da criatura foi interditada pela castração do desejo. A
resposta foi o pranto. Poderia ser o riso?
O primeiro livro de Ribeiro Couto nos traz uma poesia sensorial repleta de imagens plásticas, ressaltadas por um vocabulário táctil que demonstra a ansiedade adolescente de tocar, de ver com as mãos, precipitando uma temática sensualista, que o acompanhará até seu último livro de poemas, LONGE (1961). Tudo, neste primeiro livro, está envolvido por um erotismo disfarçado, levando a seu espírito uma sensação de paz e de êxtase amoroso. Pode-se isso observar com muita nitidez no poema “O Desejo da Mão” e nos dois versos que seguem: “Esse perfume espalha mãos cheias de afago” e “Vozes quentes de lavadeiras”, onde as sinestesias envolvendo o tato atestam a percepção da realidade através dos sentidos que se interpenetram. A temática sensualista ainda é desenvolvida em versos como: “Sentindo as mãos geladas de abandono”; “Apertando-lhes as mãos murmuro intimamente”; “O teu olhar amigo, as tuas mãos amantes...” e em muitos outros.
Não poderíamos deixar de assinalar em O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS a presença da temática da morte, que surge motivada pela enfermidade que se abateu sobre o poeta. Esta temática, embora apresente aspecto destoante e até mesmo antitético, em relação ao Leitmotiv, é por isso mesmo, elemento de contraste que ressalta o motivo central e que pertence a uma estrutura condutora de todo o EU lírico da poesia de Ribeiro Couto. Assim, encontramos no poema “Noite Monótona de um Poeta Enfermo” esta temática desenvolvida, juntamente com a evocação dos cuidados maternos, onde a presença da mãe do poeta aparece aureolada como doce anjo-da-guarda. Mais tarde, a figura de sua mãe se precipitará em uma profunda nostalgia. “Todo o rumor que, lá fora / Chega a meu quarto de doente”.
Ribeiro Couto em toda a sua obra poética utiliza-se de recursos formais que serão explorados, mais tarde, pelo romancista e contista. O principal recurso formal, a nosso ver, é a técnica do monólogo e do diálogo. Neste seu primeiro livro de poesia essa técnica já se faz notar. Pensamos que já estão ali os primeiros diálogos e monólogos poéticos que aparecerão no seu romance “Cabocla”.
Sobre os versos de O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, é interessante assinalar a observação de Carlos Drummond de Andrade, que vê na obra a presença dos temas do cotidiano, envolvidos por um lirismo muito pessoal, além da tristeza e da melancolia. Drummond, em carta, iria dizer que o amigo é o Casimiro de Abreu do Romantismo: “Você, Ribeiro Couto, ficará em nossa poesia com uma nota muito pessoal de lirismo, como ficou o Casimiro de Abreu (peço que não se zangue), como ficará o Manuel (Bandeira), poetas dissidentes, como dizem os profissionais da alegria, mas que encontram sempre repercussão”. Ribeiro Couto lhe responde, concordando.
A poesia de Ribeiro Couto, em toda a sua obra e principalmente em seu livro de estreia foi toda mansa, sem gestos, sem exaltações. Com tormentos, é verdade, mas com o dom de falar alto.
Muito mais tarde, quarenta anos depois, com versos maduros, Ribeiro Couto irá exprimir a saudade de seu povo e de sua terra, no livro LONGE, publicado em 1961, pela Editora Civilização Brasileira, no Rio de Janeiro. Lá estão os versos que soluçam tristeza, amor, paixão, à semelhança de um Catulo da Paixão Cearense e de um João Cabral de Melo Neto. Mas isso fica para outra oportunidade.
ATÉ A PRÓXIMA
21 de agosto de 2018
CRUZ E SOUSA E SUAS ALITERAÇÕES
Falar
sobre Cruz e Sousa é falar sobre o maior poeta do Simbolismo Brasileiro. Serei breve e simples,
mais para manter vivo os registros de crítica literária, que nessas minhas páginas
da rede social faço, com certa periodicidade, do que para dar à poesia simbolista do autor de Broquéis, um trabalho crítico de grande valor, pois para tanto, faltam-me engenho e arte. De qualquer forma, peço a paciência do leitor, porque o tema é novo. Tentarei,
então, apresentar uma pequena análise crítica de sua poesia, focando um determinado viés de sua construção poética, entre inúmeros
outros possíveis. Aqui, uma análise fônica.
Todo
texto ou escritura denuncia algo. É só procurar com as lentes da microanálise.
Com o artifício da análise estilística pode-se mostrar por dentro a alma de um poeta.
Vamos, então, procurar as combinações dos fonemas que estruturam os versos,
proporcionando as mais significativas formas expressivas de um texto poético.
Mas tudo isso na estrutura da investigação latente do texto. E como atingimos o
latente? Através de análises especiais. Analisar é separar as partes do todo, é
um processo de deslocamentos de inúmeras partes do discurso, pois há muitos
conteúdos que se prendem ao texto, à sua estrutura fônica, à sua estrutura
mórfica, à sua estrutura sintática e tudo isso pode denunciar, ou melhor, pode
explicar um estilo ou um sentido estilístico, algo que se localiza muito além
do literário. Traumas de vida podem ou não aparecer nos textos de um autor.
Vicissitudes de uma existência inteira, carregada de infortúnios e desgraças,
além de características de uma etnia, impregnadas na ”langue”, por exemplo,
podem marcar a “parole” poética de um poeta, e seu discurso evoluirá
esteticamente, consubstanciando-se, assim, o artístico. Já a arte, contudo,
será o resultado da observação dessa materialização pelo receptor, uma vez que
é nele que está centrada a mensagem transfiguradora da realidade. Com esse
espírito investigativo, fomos encontrar em Joaquim Ribeiro, no seu livro Estética da Língua Portuguesa, uma
hipótese sobre a possibilidade de ter sido a poesia de Cruz e Sousa
influenciada linguisticamente por suas origens, isto é, por uma herança étnica:
a língua Banto, africana. Para tal, no Capítulo V dessa preciosa obra, o autor
nos brinda com um artigo intitulado Vestígio da Concordância Banto no Estilo
de Cruz e Souza, onde o ilustre filólogo, que ocupou a Cadeira 33 da
Academia Brasileira de Filologia, da qual muito me orgulho de também pertencer,
afirma que “não será desarrazoado
modificar, em certos casos, a velha definição buffoniana. O estilo muitas vezes
é mais do que o homem. O estilo é a raça, com o equipamento cultural”.
Acredito
que Joaquim Ribeiro esteja correto, pois é impossível separar Cruz e Sousa de
sua herança étnica. Se assim aceitarmos essa colocação, podemos dizer que há
elementos bem significativamente raciais na poesia e na prosa de nosso maior
poeta simbolista.
O
autor da Estética da Língua Portuguesa
procurou na linguagem poética de Cruz e Sousa alguma coisa a mais em seu estilo
que traísse sua ascendência racial. O que mais chamou a atenção do insigne
pesquisador foi a abundância das aliterações, recurso que Cruz e Sousa usa e
delas abusa. As aliterações são formas
de se construir as frases, os versos, os parágrafos, enfim, um texto com a
repetição da mesma consoante inicial, no sentido de tentar quebrar a
arbitrariedade do signo linguístico, quando teremos uma forma imitativa ideal e
nunca real, ou quando se tem a proposta de obtermos formas lúdicas, onde os
sons repetidos nos diversos vocábulos proporcionam uma enorme sonoridade e
musicalidade ao texto, sempre evocando, sempre sugerindo. Quando a repetição
dos fonemas iniciais dos vocábulos se dá por variação cognata, ou quando os fonemas
repetidos são homorgânicos, ocorre o fenômeno conhecido na estilística fonética
como coliteração. Aliás, as variações consonânticas de fonemas, que dão ao
verso um ritmo significativo e ímpar, foram estudadas no verso moderno, muito
tempo depois de Cruz e Sousa, por dois grandes autores, um norte-americano,
Kenneth Burke, e outro brasileiro, Oswaldino Marques.
Joaquim
Ribeiro vê nas aliterações dos textos de Cruz e Sousa “uma sobrevivência de cunho racial, vestígio de uma concordância
aliterativa, própria das línguas bantos”. O linguista e filólogo pesquisador se vale
dos estudos sobre a língua Banto, realizados por Bentley, conceituado
africanólogo, para mostrar que os bantos da África possuíam uma primitiva
gramática, cuja concordância aliterativa é um fato significativo de sua
estrutura fraseológica, portanto um traço linguístico pertinente, pois
estabelece uma oposição significativa.
Observemos o exemplo
apresentado por Bentley:
“O matadi mama mampembe mampewa i mam mama twamwene”.
O prefixo -ma-
que aparece no substantivo -matadi- aparece obrigatoriamente nos
adjetivos, verbos e pronomes que ao substantivo se referem: mama, mampembe, mama etc.
João
Ribeiro, o grande historiador, folclorista, filólogo e erudito homem dos temas humanísticos, da Academia Brasileira
de Letras e pai de Joaquim Ribeiro, aponta reminiscências dessa sintaxe também
no linguajar dos antigos escravos aqui no Brasil, em situações como:
“Z’ êre z’mandou z’dizê” = Ele mandou dizer.
Acrescentamos nós que,
igualmente, encontramos essa forma de falar, com idêntica sintaxe, nos
terreiros de candomblé. Assim:
“Z’ êre é mi z’fio” = Ele
é meu filho, no linguajar de muitos pais-de-santo, que ainda hoje existem na
Bahia e em diversos outros Estados brasileiros.
Em Santa Catarina, mais precisamente no vale
do rio Camboriú, de acordo com o historiador e folclorista Isaque de Borba
Corrêa, em seu livro Poranduba Papa-Siri,
ano 2000, apresenta-nos os seguintes falares de negros da região, em suas
festivas cantigas:
“Já jivou, jinêga, jinão tenho jibatêra” = Já vou, nega,
não tenho batera.
“Jiondistá meu jifacão,
ondistá meu facão ? / Caiu lá na jabobêra, caiu lá na jabobêra!”
= Onde está o meu facão, onde está o meu facão? / Caiu lá na aboboreira, caiu
lá na aboboreira!
“Jecaldo de cana, jefrutas,
jebananas” = Caldo de cana, frutas e
bananas.
Lembramos
ainda, que línguas em formação, historicamente apresentam fenômeno parecido, na
mesma linha fonética e até fonológica, como é o caso do Latim, que na antiquíssima inscrição da “fíbula prenestina”, deixou gravada a
inscrição: MANIOS FEFACIT NUMOSIOI =
Manios fez para Numósio. O fenômeno fonético e, neste caso, também fonológico,
pois aponta para uma marca morfológica, diferenciadora de tempo verbal se chama
reduplicação, uma repetição da sílaba inicial do verbo, com variação vocálica,
marcando o pretérito perfeito (FEFACIT),
o que não deixa de ser uma forma de aliteração interna.
Observa-se,
outrossim, que a linguagem tautológica infantil, primitiva por excelência, em
relação à história do sujeito falante, é, em muitos casos, reduplicativa e
aliterativa.
Mas
voltando aos versos de Cruz e Sousa, podemos neles ver essa tendência
aliterativa da língua dos bantos, sendo que na poesia do vate catarinense, isso
ocorre exclusivamente em forma de um recurso estilístico.
Vejamos
algumas concordâncias aliterativas em Cruz e Sousa:
“Vozes veladas, veludosas vozes,
volúpias de violões, vozes veladas,
vagam nos velhos, vórtices velozes
dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas... “
(In, “Poesias”, 189);
“ricos
e raros resplandesceram”
(In, “Poesias”, 43);
“a cor
cantava-me nos olhos”
(In, “Prosa”, 426);
ALITERAÇÃO DE SUBSTANTIVOS E ADJETIVOS
EM SUBORDINAÇÃO
“mole e morna melopéia” (In
“Poesia”, 195);
“tantálica tentação de seus
braços tentaculosos” (In, Poesia”, 194);
“verde, viva e viçosa
vegetação dos vergeis virgens” (In, Poesia”, 145);
“pomos pomposos de pasmo
sensibilizantes” (In, Poesia”, 391);
“finos frascos facetados” (In,
Poesia”, 125);
“força fina e fria” (In, Poesia”, 26);
“brusco e bronco biombo” (In,
Poesia”, 94);
“soberbos e solenes soberanos”
(In, Poesia”, 28);
“raras rosas” (In, Poesia”,
157).
Joaquim
Ribeiro sustenta, portanto, de maneira inédita, que se o vate catarinense “não tivesse “background” racial para
explicar essas sobrevivências, naturalmente interpretaríamos a predominância de
aliterações em seu estilo como puro virtuosismo expressional” (a
expressão foi por nós sublinhada).
A
aliteração ocorre em inúmeros outros poetas simbolistas e neles, sem a presença
do sangue africano em suas veias, não podemos seguir por esse mesmo caminho. É
o caso, por exemplo, de Alphonsus de Guimaraens e todos os demais simbolistas.
Ninguém antes de Joaquim Ribeiro abordou tal hipótese numa análise estilística,
nem mesmo Antônio de Pádua, que escreveu o melhor ensaio até hoje publicado, a
nosso juízo, sobre o estilo de Cruz e Sousa. Muitos repetem seus versos
aliterados sem imaginar o poder que uma análise desse tipo tem, para tentar esclarecer
os mistérios literários da poesia e, mais ainda, os mistérios quase
impenetráveis do belo.
Ficam,
então, registrados aqui estes comentários, em forma de crítica literária, sobre
um fenômeno fonético, a aliteração, na poesia lírica de Cruz e Sousa, alçado à
majestosa galeria dos poetas simbolistas do século XIX, ocupando, sem dúvida
alguma, lugar de destaque muito especial junto à plêiade dos maiores
simbolistas de todos os tempos, ao lado de Mallarmé, Baudelaire, Valéry,
Verlaine e do alemão Stefan George.
(Esse tema foi motivo de uma palestra proferida pelo autor, na Prefeitura da cidade catarinense de Camboriú, em homenagem ao sesquicentenário de nascimento do poeta Cruz e Sousa, novembro de 2011)
ATÉ A PRÓXIMA
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Arquivo do blog
Quem sou eu
- Professor Feijó
- Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
- Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.







