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31 de janeiro de 2011

PORTUGAL, CAMÕES E O BRASIL



Num tributo à vida intelectual de LEODEGÁRIO A. DE AZEVEDO FILHO, falecido na madrugada do dia 30 de janeiro desse ano de 2011, publicarei textos inéditos ou não de seus amigos, que mostrem o valor de sua obra, diluída entre a crítica literária, a ecdótica, a filologia e a outras inúmeras formas de conhecimento linguístico, desde os primeiros momentos de sua atividade docente, até a distinção como Professor Emérito da Universidade do Estado do Rio de janeiro (UERJ) e Professor Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


O texto que segue é de Antônio Sérgio Mendonça, amigo fraterno.

(Luiz Cesar Feijó, Salvato Trigo e Antônio Sérgio Mendonça)



COMENDA DA ORDEM DO MÉRITO PARA MESTRE BRASILEIRO



Resumo:


Em jantar de despedida no Palácio São Clemente, realizado no dia 27 de junho de 2001, o Embaixador de Portugal, Doutor Francisco Knopfli, conferiu, em nome do Senhor Presidente Doutor Jorge Sampaio, as insígnias da Comenda da Ordem do Mérito a Leodegário A. de Azevedo Filho, professor emérito da UERJ, titular da UFRJ e presidente da Academia Brasileira de Filologia. Na mesma ocasião, em Lisboa, foi lançado o volume das Éclogas de Camões, que é o oitavo livro da edição crítica do mestre brasileiro, hoje universalmente considerado um dos maiores camonistas do mundo.





O fato é significativo, pois demonstra a importância dos estudos sobre a língua portuguesa no Brasil. No caso em foco, há mais de 30 anos o eminente filólogo brasileiro vem realizando a sua extraordinária pesquisa sobre os textos da obra lírica de Camões, que andavam dispersos em manuscritos apógrafos dos séculos XVI e XVII, para confrontá-los com o duplo testemunho da tradição impressa multissecular, numa edição crítica que vem sendo publicada pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda, de Lisboa. Consagrado como um dos maiores teóricos da crítica textual do mundo lusófono, Leodegário já havia recebido, antes mesmo da recente condecoração, a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. E, no Brasil, o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de obras, conferido pela Academia Brasileira de Letras. Com mais de 60 livros publicados, a sua extensa e intensa bibliografia, além de artigos e ensaios publicados em jornais e revistas especializadas brasileiras e estrangeiras, recebeu o seguinte aplauso do saudoso mestre Antônio Houaiss:


"Nos domínios da crítica textual, em cada século, surge uma obra filológica como a de Leodegário A. de Azevedo Filho".


Por isso mesmo, é considerado uma das maiores expressões da Escola Camoniana Brasileira, segundo os testemunhos de Barbara Spaggiari, na Itália; de Maurizio Perugi, na Suíça; de Nicolás Extremera Tapia e X. Manuel Dasilva Fernández, na Espanha; de Arthur Lee-Francis Askins, nos Estados Unidos da América; e do saudoso mestre Joseph M. Piel, na Alemanha.

A importância nacional e a penetração internacional da obra do filólogo brasileiro se evidencia com a publicação de livros na Itália (Luís de Camões - 13 imagens e uma poesia); na Espanha (As cantigas de Pero Meogo, já em terceira edição); em Portugal (Uma visão brasileira da literatura portuguesa, além da já citada edição crítica da Lírica de Camões); na França e na Alemanha com vários ensaios publicados em revistas especializadas, como a Romania e a G.R.M., entre várias outras. No Brasil, além de sua obra Anchieta, a Idade Média e o Barroco, várias vezes premiada, inclusive com o Prêmio José Veríssimo, de Ensaio e Erudição, da Academia Brasileira de Letras, deve-se mencionar a coleção Poetas do Modernismo, publicada pelo antigo Instituto Nacional do Livro, e a Obra em Prosa de Cecília Meireles, em vários volumes, pela Editora Nova Fronteira. Com tal currículo universitário (Professor emérito da UERJ, Titular da UFRJ e Presidente da Academia Brasileira de Filologia), não admira que tenha sido Professor-Visitante na Alemanha, na França, na Espanha e em Portugal, examinando teses de doutorado não apenas no Brasil, mas também no Exterior, aqui incluindo-se os Estados Unidos da América.

Como antigo Diretor do Instituto Estadual do Livro e como antigo Vice-Presidente do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (IBECC), na administração do ministro Eduardo Portella, publicou a Revista Brasileira de Língua e Literatura, dezenas de livros pelo INELIVRO e elaborou mais de 30 projetos de fundamental interesse para a política cultural do livro no Brasil, como Coordenador do PRODELIVRO, do Ministério da Educação. Pernambucano de nascimento e carioca de criação, a nossa Assembléia Legislativa lhe conferiu o Título de Cidadão do Estado do Rio de Janeiro. A influência do seu pensamento no mundo lusófono, de cuja unidade lingüística jamais duvidou, deve-se à consistência científica de sua obra universitária e aos Congressos Internacionais que, ao longo de mais de 30 anos, vem realizando no Rio de Janeiro, com a presença de grandes especialistas das nações européias e americanas. Por tudo isso, num volume de 665 páginas, publicado pela Editora Tempo Brasileiro, foi homenageado por colegas brasileiros e estrangeiros, como se pode ver na obra intitulada Estudos Universitários de Língua e Literatura (Homenagem ao Prof. Doutor Leodegário A. de Azevedo Filho), Rio de Janeiro, 1993. E a Comenda da Ordem do Mérito, que acaba de receber do Governo de Portugal, afinal consagra uma vida inteira de estudos universitários e de lutas pela cultura brasileira e pelo desenvolvimento da educação do povo a que pertence.


Assim, Antônio Sérgio Mendonça, Professor Doutor titular e pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Arte da Universidade Federal Fluminense (UFF), na área Psicanálise & Arte, Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente-Livre pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Diretor de Ensino do CEL - Instituição Psicanalítica (RS) se expressou, mostrando a atuação de Leodegário A. de Azevedo Filho no universo das Letras e da Cultura Humanística.

LEODEGÁRIO, IN MEMORIAM


Amigos sinceros, ex-alunos, colegas e admiradores do grande mestre começam a se manifestar pelo passamento do grande filólogo, Leodegário A. de Azevedo Filho. De Portugal, recebemos esse belo, verdadeiro e sentido texto, escrito pelo poeta Albano Martins (embaixo, à minha esquerda), amigo de muitos anos.



Éramos amigos desde que, no já remoto ano de 1984, nos encontrámos em Ourense. Realizava-se, então, sob o signo da AGAL (Associação Galega da Língua), o I Congresso Internacional de Língua Galego-Portuguesa na Galiza, para o qual ambos fôramos convidados. No primeiro dia, ao almoço, no decurso do diálogo que entre todos espontaneamente se estabelecera, veio a pergunta, dirigida a minha mulher e a mim, sentados à sua frente: “Já foram ao Brasil?” “Não” – respondi. “Então vou levá-los ao Brasil”. E levou. Não uma vez, logo no ano seguinte, mas muitas, nos anos vindouros. Devo-lhe isso, e muito mais do que isso: uma amizade impoluta, sem mácula, cimentada num respeito e numa admiração recíprocos, e uma cativante amabilidade, próxima da fraternidade e pontuada de ironia, que era um dos traços marcantes da sua personalidade.
Tinha três paixões, todas grandes, avassaladoras, que diuturna e devotadamente alimentava: Ilka (a quem terna e familiarmente tratava por cocota), Camões e os canários – os seus gentis “marfim-satiné” -, que, para incomodidade da Ilka, sua dilecta esposa e nossa querida Amiga, se acantonavam lá ao fundo, na cozinha (havia também alguns exemplares, de mais modesta plumagem e menos refinada coloração, na casa de Cabo Frio) e que constituíam a sua primeira e mais fervorosa preocupação matinal. Era a hora da limpeza e da cuidada alimentação servida ao pormenor aos implumes filhos dos “satiné” e quejandos, acomodados nos improvisados ninhos. Algumas vezes, em viagem para o Rio, levámos connosco, na bagagem, um ou dois (às vezes mais) exemplares que a sua nunca desmentida e nunca satisfeita paixão nos exigia ou reclamava. Só nos últimos anos, jubilado já da UERJ e da UFRJ, esta paixão esmoreceu. De Camões, paixão nunca esmorecida, que herdou de Emanuel Pereira Filho, a quem pediu emprestado, para o ampliar, o critério do duplo testemunho quinhentista para cunhar a autenticidade dos textos que, de forma cega e um tanto anárquica, a tradição acumulou, aumentando assim desmesurada e acriticamente a obra lírica do poeta (obra que, como lembra António Houaiss, chegou a atingir as setecentas unidades), da paixão por Camões, dizia, sobram os oito volumes editados pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda sob o título Lírica de Camões, que, sendo a obra (lamentavelmente interrompida) duma vida, são também a laboriosa tentativa de correcção de erros (fruto, muitas vezes, de exacerbadas paixões) acumulados ao longo dos anos. Fica a obra incompleta. Faltam aqui: o tomo II das “Éclogas”, que, em Julho passado (já visivelmente enfraquecido), me dizia estar entregue na IN-CM, e os volumes com os Tercetos, as Sextinas, as Oitavas e as Redondilhas. E falta o volume final (muitas vezes me falou dele), onde, depois do trabalho crítico desenvolvido ao longo dos diversos volumes, ficariam reunidos os textos de incontestada autenticidade, agora despidos do aparato crítico.
A obra de Leodegário de Azevedo Filho não se cinge, porém, à “epopeia” que foi o seu trabalho (a que assentaria bem o epíteto de ciclópico) de expurgação da obra lírica de Camões. Também Os Lusíadas e o problema da editio princeps do poema mereceram, em anos mais próximos, o seu cuidado e atenção. Mais recentemente, para o dito efeito, ocupava-se da primeira tradução, para o castelhano, do poema camoniano, encontrando nela os argumentos bastantes para a defesa do seu ponto de vista ( consulte-se, a este respeito, o nº 43 deste jornal ). Mas a obra de Leodegário – vasta e singular – vai muito além. Vários outros poetas, de um e outro lado do Atlântico, mereceram a sua atenção e desvelo. Veja-se o trabalho empreendido com a publicação das “Crónicas de viagem” e das “Crónicas de educação” de Cecília Meireles, poeta a quem já dedicara, aliás, em outras ocasiões, demorada atenção (atente-se, por exemplo, no volume Poesia e estilo de Cecília Meireles, de 1970). Atenção que também dedicou, entre outros, a Fernando Pessoa, a Bocage, Pêro Meogo e Anchieta. E importa lembrar os seus trabalhos de natureza didáctica, de promoção e defesa da língua, bem como os de teoria, crítica e estética literária, sem esquecer os consagrados à problemática do verso. Uma obra vasta e singular, dissemos, mas também diversificada.
Morreu às 3h 10m do dia 30 do passado mês de janeiro, com 84 anos (fizera-os dois dias antes), na cidade do Rio de Janeiro. Aqui o deixamos escrito, nesta hora de mágoa pela perda do Amigo, mas também em memória dum homem a quem Portugal deve, desde há muito, prestimosa homenagem e reconhecimento. Além de grande filólogo e camonista militante, de excepção, Leodegário de Azevedo Filho foi também grande amigo do nosso país, que frequentemente visitava e onde tinha numerosos amigos. Lembra-se, aos que o não sabem ou esqueceram, que Leodegário (o Leo, como era conhecido entre os amigos), foi, durante o ano de 1972, professor visitante da Universidade de Coimbra. Também esta, por isso, está de luto. Assim o cremos, ao menos. A exemplaridade e a excelência têm de ser reconhecidas e, mais do que isso, assinaladas e honradas.

Albano Martins

30 de janeiro de 2011

LUTO NA CULTURA BRASILEIRA




LUTO NA ACADEMIA BRASILEIRA DE FILOLOGIA

Faleceu nessa madrugada o nosso Presidente de Honra, Leodegário Amarante de Azevedo Filho, um dos maiores críticos literários do Brasil, filólogo e o maior camonista do mundo, especializado na lírica de Luís de Camões.


Está de luto a filologia do Brasil.

Está de luto a cultura brasileira.
Aguardem a dor passar.

Choro o compadre, o amigo, o professor, o mestre, o lutador democrata, o esposo correto, o pai amoroso, o grande intelectual, o maior especialista em Luís de Camões.

Tentarei mostrar, depois de a dor passar, quem foi o Professor, Doutor Leodegário A. de Azevedo Filho.

AGUARDEM

19 de janeiro de 2011

PEDRO E DOMITILA



Deixei o Sudeste para passar uns dias em Santa Catarina. Fiquei em Balneário Camboriú, onde as praias são calmas, sossegadas e muito bonitas. Bem, sossegadas fora da temporada de férias, pois nos meses de janeiro e fevereiro fervem de banhistas vindos de todos os municípios do interior do Estado e de muitos outros distantes lugares. Eu vim do Rio de Janeiro. Depois de alguns dias de sol e reuniões em bares e restaurantes ao logo do calçadão da orla marítima dessa encantadora cidade, senti falta de um bom cinema e, por que não dizer de um teatro? Em Itajaí, cidade contigua a Balneário Camboriú, existe um, construído e administrado pela prefeitura local. Telefonei e soube que estava em cartaz a peça em três atos, Pedro e Domitila. Tratei de me informar sobre o conteúdo do evento, mesmo vendo no título clara redundância, denunciadora de histórico acontecimento, então transformado em representação teatral. Assisti à peça e a recomendei a meus amigos.

Pedro e Domitila É é uma história alegre, romântica e bem elaborada, tanto no texto como na cenografia e na interpretação dos dois únicos atores. Também nos figurinos, na sonoplastia e na iluminação a produção do espetáculo flui com ritmo correto em seus três atos que se sucedem, mantendo a atenção do público, pois fundo e forma se ajustam a uma pantomima e a um jogo cenográfico, desde a primeira cena até o fim do último ato. Tal artifício figurativo prende o espectador à urdidura da trama, não o deixando esquecer os detalhes significativos que envolvem a escandalizante história de amor, com uma dose sensata de jocosidade, envolvendo momentos trágicos da vida de um príncipe, tentando ser honesto consigo mesmo, vencido por uma paixão proibida. Os padrões morais daquela época de repressões a vários tipos de conduta social, mais o comportamento de um homem envolvido pelo poder absoluto da realeza, deu o mote para ser glosado por Ricardo Bonfá e Gustavo Alexandre Gonçalves, que atuam também como produtores, cenógrafos, revelando-se também como excelentes profissionais da arte cênica, conseguindo atuar com maestria em todos os segmentos do bonito espetáculo, apresentado ao público de Itajaí e cidades vizinhas, que lotou o Teatro Municipal. Ricardo Bonfá se caracteriza como Domitila e Gustavo Gonçalves como Dom Pedro I. A execução está a cargo de Luciano Estevão. Pedro e Domitila é um espetáculo sério que diverte e trás à meditação um texto dramático, porque é teatro compacto, envolvido pela enunciação de um discurso de humor como amor e dor. Uma forma rara nos textos redundantes do bom teatro.
Se reprisarem, assistam a esse espetáculo. É bom conferir!

ATÉ BREVE.

14 de janeiro de 2011

TSUNÂMI AÉREO



As autoridades constituídas em todos os níveis de poder deveriam (e um dia isso vai acontecer, não se iludam) ser responsabilizadas, civil e criminalmente, pelas ocupações irregulares de encostas e margens de rios, córregos e lagoas. Muitos políticos chegam a incentivar essas ocupações, em busca de voto. Uma vergonha! Uma patifaria! Só aqui nesse Brasil infestado por essas pústulas profissionais... O risco de tragédia é sempre iminente nesses casos. Em todo verão acontecem deslizamentos de morros e enchentes catastróficas e o poder público fica sufocado, tentando socorrer as vítimas, lamentando os óbitos e tentando dar minguados alívios aos desabrigados. Imploram para a comiseração pública e pedem socorro ao altruísmo do cidadão sobrevivente e distante. Isso é muito pouco. O poder público deveria prevenir, pois para isso é que foi instalado, empossado e pago por nós. Prefeitos, vereadores, governadores e demais camarilha desavergonhada que nos pede votos, em época de eleição, sem nenhum comprometimento com o povo, a não ser somente consigo mesma, entra ano e sai ano, só sabe comparecer aos locais das tragédias para se solidarizar com os desgraçados que tudo perderam, inclusive toda sua família. Esse último desastre na região serrana do Rio de Janeiro pareceu uma verdadeira destruição causada por um ataque bélico. Uma guerra travada entre a incompetência administrativa e o descaso, contra a mãe-natureza. Foi o mais devastador fenômeno climático que se abateu sobre a região das serras fluminenses de Teresópolis, Nova Friburgo e o distrito petropolitano de Itaipava. Muita água e umidade vieram da Amazônia e a fúria de um verdadeiro “tsunâmi aéreo” pegou o povo do Estado do Rio de Janeiro desprevenido, com muita gente pendurada nas encostas da Serra do Mar, em plena Mata Atlântica invadida. Mas casas bem construídas e em regiões neutras também foram atingidas. Calamidade pública geral. Uma pena! A linda região das montanhas fluminenses não merecia isso! Ao povo sofrido, nossa solidariedade. Esse desastroso acontecimento ficou registrado num verdadeiro teatro de operações, com uma incompreensível estatística mórbida, apontando para a dor dos que perderam seus entes mais queridos nessa guerra suja entre a permissividade e o prazer de gozar as delícias do poder em mordomias, nos palácios e nas articulações de tomada do poder. Tomara que não tarde o dia em que político bom seja político levado pelas fúrias das águas dos morros e das favelas desse triste Brasil, mas que antes tenha passado pelos tribunais legais e democraticamente constituídos.
(Fonte foto: Blog TRRA)

ATÉ BREVE

8 de novembro de 2010

V E L H A C O


VELHACO é um adjetivo da língua portuguesa que se prende ao espanhol bellaco, de radical ignorado, segundo um dos maiores filólogos de todos os tempos, o alemão W. Meyer-Lübke, apud Nascentes, in Dicionário Etimológico da língua portuguesa, Volume I. Outros insignes filólogos, como Cortesão, Figueiredo, Diez, Adolfo Coelho e Franco de Sá dão como origem de VELHACO o latim VILIS, significando vil, mais sufixo ACA. João Ribeiro, in FRASES FEITAS, já ensinava que VELHACO nada tem a ver com VELHO, não é derivado, pois, desse adjetivo. Cita como exemplo o Canto XVI, Estrofe 75 de Viriato trágico:

Repara em que aos mais retos julgadores/ Chama de sanguinários e velhacos”.


E acrescenta: “O verdadeiro étimo de VELHACO é viliacus, de vilis, significando VIL”.

Assim, não deu para entender por que André Rizek bom e lúcido comentarista esportivo do programa “TROCA DE PASSES”, do SPORTV, da Rede Globo de Televisão, Canal 39 da SKY, que eu assino, e a ele assisto, principalmente quando o Fluminense vence seus jogos, utilizou esse adjetivo nos comentários da noite do dia 7 de novembro de 2010, para caracterizar o time do Corinthians, chamando-o de time VELHACO. Disse que não se tratava de nenhuma ofensa, nem que o time paulista era composto por jogadores velhos. Bem, não entendi o epíteto dado ao sério concorrente ao título desse ano de 2010. Se o ilustre comentarista quis dizer que VELHACO poderia significar uma boa qualidade enganou-se completamente. Se consultasse o dicionário de Antônio Houaiss veria que em todas as acepções desse adjetivo há um SEMA ligado ao campo semântico daquilo que é ordinário, que não presta. Fiquei sem entender e com a impressão de que foi uma precipitação do rapaz, tentando criar uma novidade linguística, talvez! Bem, se os meus leitores quiserem anotar, creio que expliquei o étimo de VELHACO. Muitos comentaristas do futebol adoram acrescentar UM ALGO MAIS aos comentários que fazem nos programas esportivos de rádio e de televisão, contudo, às vezes, ou quase sempre, metem os pés pelas mãos. Creio que o cesteiro não deve ir além do cesto.


ATÉ A PROXIMA.

28 de outubro de 2010

COMPETÊNCIA E DESEMPENHO NA LINGUAGEM DO FUTEBOL


“Mas tem a qualidade do passe muito ruim”.


(Caio, ex-jogador e comentarista da TV Globo.


Jogo Fla X Corinthians, dia 27/10/2010, Engenhão, Rio)





Quando um comentarista de futebol se expressa, tentando analisar um momento da partida, tem ele poucos segundos para transformar seu pensamento numa frase, dentro dos padrões da língua culta. É exigir muito desse profissional. Ele recebe uma pressão psicológica muito grande, pois a rapidez das jogadas exige sua total atenção para não perder os mínimos detalhes. Ele não pode se distrair, pois os acontecimentos se modificam em segundos. E o que dizer das construções frasais que é obrigado a formular! As suas construções frasais deverão estar de acordo com o uso que fazemos de nossa língua (de qualquer língua), isto é, como o Desempenho ou o uso que fazemos dela, resultado de complexos fatores lingüísticos e extralinguísticos, quando efetivamente falamos, ouvimos, escrevemos e lemos, por exemplo. Essas mesmas construções deverão estar também de acordo com a realização dos enunciados frasais do nosso cotidiano, portanto, de acordo com o que se chama de Competência, que é o conjunto de normas ou regras internalizadas pelo indivíduo falante, que permite a ele emitir e receber mensagens da língua que utiliza para se comunicar. Pode-se dizer que essa Competência é o conhecimento que os indivíduos falantes têm de sua própria língua. Todos nós temos conhecimento de nossa língua e com ela nos expressamos. Assim, passamos a entender o outro, mas ambos, emissor falante e receptor ouvinte não têm consciência das regras que lhes permitem usar sua língua. O lingüista tem por tarefa investigar e explicar esse fenômeno. Vamos tentar. Para tanto, precisamos completar o raciocínio. Há frases que são aceitas por todos, tanto pelo falante, como pelo ouvinte. São consideradas normais. Numa narração de futebol o narrador diz: “O jogo está apresentando muitos passes errados por parte dos jogadores dos dois times”. Todos entendem. Por outro lado, é fácil concluir que pode haver frases que não se entendem imediatamente ou se apresentam sem sentido. Logo, umas são aceitáveis e outras não são aceitáveis. Essa aceitabilidade é um fenômeno intuitivo. Agora, existe uma sutileza, relacionada com à aceitabilidade, conhecida como gramaticidade, que se relaciona com aquela aceitabilidade vista há pouco, mas não se identifica com ela. Essa gramaticidade se refere a uma ordenação, organização, norma, gramática mesmo, internalizada no indivíduo falante/ouvinte, que gera certas sequências e exclui outras. Isso está ligado à competência. Já a aceitabilidade é uma noção ligada ao estudo do desempenho. Quando os locutores e comentaristas dos jogos de futebol transmitidos pela televisão e pelo rádio, ficam empolgados com o jogo, passam essa empolgação para suas análises e quase sempre ocorre o que didaticamente chamamos de incompetência da competência de falar. Isso é comum, mesmo sendo esses profissionais constantemente testados pelas empresas jornalísticas onde trabalham, pois eles possuem, por obrigação de ofício, estudo formal, o que lhes proporciona alguma facilidade de expressão e isso facilita muito seus comentários. Muitos desses profissionais, entretanto, ficaram conhecidos por desrespeitarem quase sempre a norma culta da língua e, principalmente, por se expressarem, construindo uma fraseologia própria, como era o caso do saudoso e vibrante Mário Vianna (com dois enes, como gostava de ser chamado), comentarista de arbitragem dos anos 70, no rádio e na televisão. Os comentaristas de hoje, descobriram outras formas de encenação e se apresentam principalmente na televisão. Apresentam-se quase sempre com um visual bem produzido, numa tentativa semiológica, talvez, de amenizar, com os elegantes fatos com que se vestem o fato de maltratar a norma culta da língua. Mas nos comentários de futebol, transgredir a norma culta não é lá um grande pecado. O grande pecado é pousar de autoridade e escorregar nas construções lingüísticas. A linguagem que se deve utilizar nessas ocasiões, nos comentários relacionados aos acontecimentos no campo de jogo não deve ser o registro culto da língua e sim seu registro menos rígido, menos formal, mais descontraído, digamos: seu registro familiar. Isto porque a emoção é muito significativa e está intensamente presente nos comentários desses profissionais. Deixemos a gramaticidade reger esses comentários e aceitemos os registros menos cultos da fala, sem crucificar a metalinguagem desses profissionais esportivos. Hoje mesmo, no jogo entre Flamengo e Corinthians, no "Engenhão", o ex-jogador, Caio, agora comentarista da Rede Globo de Televisão me saiu com essa: “Mas ele tem a qualidade do passe muito ruim”. Caramba! Está aí o exemplo em que se mostra a aceitabilidade como uma noção ligada ao desempenho. Se o passe é ruim, onde está a qualidade? A norma culta aceita? Não, mas a frase possui gramaticidade e a aceitabilidade intuitivamente se relacionou diretamente ao desempenho lingüístico do comentarista, que por fatores extralingüísticos, desta forma estranha se manifestou. Deu para entender? Deu. Mas, agora, o difícil de entender é o figurino de toda equipe de radialistas, locutores, comentaristas, repórteres e alguns figurantes, que se apresentam impecavelmente uniformizados, com um comportamento visivelmente integrado, para trabalhar num show eminentemente apocalíptico, como é o espetáculo do jogo de futebol. Que o diga Umberto Eco!
ATÉ A PRÓXIMA
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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.