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8 de abril de 2011

PEQUENA LEITURA SOBRE UMA GRANDE MESA


No miniconto, “Questão de Mesa”, publicado horas atrás, neste BLOG, Leo Yang envolve sua narrativa numa linguagem fluente, fácil de ser entendida, oscilando entre o prosaico e poético, o que logo coloca o leitor na expectativa de encontrar uma boa trama relacionada a uma aventura de um jovem andarilho, quem sabe? Sua descrição do ambiente circundante, antes e depois do início do conto prepara o leitor para conhecer um excelente texto, repleto de prazer, aquele mesmo prazer de que nos falou Roland Barthes. É, precisamente, no início do segundo parágrafo que a narrativa toma o caminho do memorialismo literário, pois, enquanto suposta realidade, recria o real, com formas expressivas, como atesta o antitético quiasma “não sei se te odeio saudosamente ou te amo odiosamente”, passando a criar novas significações, para o isolamento em que o autor se encontra, ou imagina se encontrar. As construções que usa para mensuração são inéditas e muito criativas. Assim: “E leio tudo, tudinho, só para ficar com a cabeça aqui, e não lá distante dois ou três ônibus, três ou quatro oceanos “ (o grifo é nosso). A mesa, questão ou proposta, está sempre acompanhando a narrativa: “quando todos se retirarem vou usar a faca para escrever na mesa um refrão, algo como: -Você sempre chega e já some, se é por mal ou por bem eu não sei, só sei que me consome”. Sabemos que todo texto denuncia. Denuncia através do manifesto ou do latente, e quase sempre nos dois estados da literariedade da escritura. Então, o texto denunciou o jovem adolescente apaixonado. Mas se não for isso? Não importa, vale o que está escrito! Já ouvi essa frase em outro contexto. Creio que sim, mas aqui ela tem o peso da seriedade literária que envolve esse miniconto de Leo Yang. A narrativa é suave, pois se forma com o discursos direto e indireto livre. Assim: “-Não tem cigarro?” “Você nem respondia, sabia que era só fitinha de escritor. E ria enquanto eu dizia que o escritor precisa fumar para poder ter uma caixinha de ferro da Marlboro, toda amassada, para quando uma garota pedir um cigarro poder inventar uma história de como a lata se amassou, num deserto em que ele fez mochilão no dia em que pulou de um avião para encontrar e pedir a mão da garota da sua vida, sempre a garota da sua vida”. A grande mesa do início da narrativa deixa de impressionar para ceder lugar à “pequena mesa dobrável”, que irá desencadear o desfecho do miniconto. Os dois mundo do universo poético de Leo Yang, discutidos filosoficamente já no fim da sua escritura se resumem a uma questão de mesa . O autor prepara com passagens poéticas, envolvidas em vocábulos simples, mas especialmente escolhidos (“de paisagem de fundo”, “pensamento um pouco mais baixo”, “ ...o mapa de uma nova vida”) uma declaração manifesta de amor, envolvida em metáforas e enálages, como em “um cigarro rabiscado de poesias”. Já a escrita na própria pele revela, e todo texto revela, não esqueçamos disso, a autoflagelação poética, a que o autor se submete, exigindo, acima de tudo, um sentido em sua vida para se entregar ao amor verdadeiro, uma vez que sua solidão gigante, numa espécie de desterro procurado, se identifica com a imensa mesa, geradora do motivo condutor de seu texto lírico, em prosa poética, numa linguagem simples, culta e escorreita. Sua felicidade cabe na pequinês de uma mesa dobrável, que se faz “gigante para dois mundos se reconstruírem”.


ATÉ A PRÓXIMA

ESTÁ SURGINDO UM BOM ESCRITOR



Conheci o Leo Yang na PUC-Campinas, no final de 2010, num curso sobre Jornalismo Literário, ministrado competentemente por outro jovem talento, o jornalista Fabiano Ormaneze. Durante os sábados em que estivemos reunidos na sala de aula, no bonito Campus da Pontifícia Universidade Católica das mesmas Campinas do Mato Grosso de alguns séculos atrás, conversamos muito e interessadamente sobre poesia e arte em geral. Percebi logo que o Leo estava despontando para a literatura, embora cursasse filosofia na UNICAMP. Hoje ele está em viagem de aprimoramento do seu inglês, lá na gélida, distante e inigmática Irlanda. Mas o Leo, longe desse Brasil ensolarado, continua a se exercitar e me mandou essa preciosidade de texto. Reproduzo em meu BLOG por encontrar ali um bom motivo para incentivar a produção literária dos jovens talentos que despontam para essa arte.


QUESTÃO DE MESA

Leo Yang


Estou sentado na cabeceira de uma grande mesa. Ela só é grande, não tem nada de luxuosa. É inacreditável que em alguma vez a estampa dessa toalha possa ter sido considerada bonita. Bebo café solúvel imaginando que estou bebendo café expresso. Pessoas entram no cômodo e saem do cômodo, me dão bom dia e me dão bom dia novamente, mas fica a impressão de que em geral nada aconteceu. Essas pequenas coisas, que dão a real estrutura da vida, nunca conseguiram me convencer de que são importantes. O boneco de neve da caneca me diz ‘’feliz natal’’, e eu respondo ‘’para você também’’. Ganhou a vida, esse sim ganhou a vida. Se não fossemos tão hiperativos, seria tudo mais fácil, um só objetivo, uma conclusão e um certificado de ganhou a vida. Felizes os bonecos de neve, são deles o reino da vida fácil.

Lembro a primeira vez que nos vimos, estávamos caminhando numa calçada e nossos olhares quase se encontraram, mais um pouco e se encontravam, até casavam. O meu mirava seus olhos, de um castanho raro por aqui, entrincheirado numa olheira. O seu tentava mirar meu livro, mas tinha de se desviar de dedos, tinha de se adequar a todo o movimento de quem caminha com pressa. Que eu posso fazer se você é e sempre foi apaixonante? Agora só consigo conhecer pessoas imaginando que estou lhe conhecendo melhor.

Não sei se estou aqui na mesa, digo, realmente. Estou mesmo é enveredado nesses sem fim de livros de mundos fantásticos e amores que parecem doer até mais do que o nosso. E leio tudo, tudinho, só pra ficar com a cabeça aqui, e não lá, distante dois ou três ônibus, três ou quatro oceanos. Não sei se o que sinto é ciúmes, e se for, é inofensivo. Eu só queria compartilhar as tantas coisas que você faz enquanto não dorme, e se possível, também as que faz enquanto dorme. Se for ciúme, não te prejudica em nada. Pra mim, embaralha os pensamentos. Preciso me distrair, preciso de um chão, uma realidade que seja realmente a minha. Quando todos se retirarem vou usar a faca para escrever na mesa um refrão, algo como: “Você sempre chega e já some, se e é por mal ou por bem eu não sei, só sei que me consome.” Cê sabe que não precisa se preocupar em se encontrar nessas coisas todas que escrevo. Deve ser difícil, claro, pois trata-se de você. Tente não se preocupar, essas coisas são confusas, confusas até pra mim. Não sei nem se te odeio saudosamente ou te amo odiosamente. Preciso de outra garota para lhe esquecer, esquecer esse seu cheiro. Mas como é que podem todas as garotas da cidade estarem ocupadas? É impossível que nenhuma delas esteja sozinha, morrendo de vontade de ter um cara como eu. Um cara que sabe diferenciar cafe latte de cappuccino e Leibniz de Descartes. É impossível que nenhuma dessas garotas não seja nem um pouco orgulhosa e não se importe que eu a faça esquecer o próprio nome, para que eu possa chamá-la pelo seu, e a ensine a caminhar daquele exato jeito leve que você caminha.

Hora ou outra passo na rua onde quase trocamos olhares. Lá era nosso covil, onde tudo ficava bem, nada podia tirar nossa paz. Caminhar sempre era suficiente. Mesmo assim eu perguntava:

_Não tem cigarro?

Você nem respondia, sabia que era só fitinha de escritor. E ria enquanto eu dizia que escritor precisa fumar para poder ter uma caixinha de ferro da Marlboro, toda amassada, para quando uma garota pedir um cigarro poder inventar uma história de como a lata se amassou, num deserto em que ele fez mochilão no dia em que pulou de um avião para encontrar e pedir a mão da garota da sua vida, sempre a garota da vida.

Você ria, sabia que qualquer uma, além de rir das minhas rimas, não ia querer nada com um imbecil apaixonado. Ignorei e acelerei para chegar na parte em que o escritor sacando o cigarro olha lá na porta do fundo dos olhos da garota e mostra que é um apaixonado sim, só que neste momento por ela. Você me cortava com um beijo. No fim das contas, sabíamos que eu nunca seria um desses escritores, nem ninguém me pediria nada. Deveríamos ter ido para aquela rua, ao invés de termos sentado e discutido nossa vida na cozinha numa pequena mesa dobrável. Era muito estreita para acomodar nossos mundos. Dois mundos inteiros, repletos de problemas. Ambos no limite entre o orgulho e o desabar em águas. Ah se tivessem sido as águas, talvez as coisas se fossem ralo abaixo e pronto. Mas as lágrimas não venciam as expressões fechadas. Você falava muito e fumava um cigarro mais forte do que o usual, eu sabia que era, te conhecia tão bem que sabia o cheiro da sua fumaça. E quando cê me viu com a caneta, escrevendo nos braços, não perguntou o que eram aqueles símbolos, só recriminou:

_Parece criança, escreve em tudo o que vê pela frente.

Pensei repetidas vezes que o corpo era meu, o corpo era meu, meu e meu. E na minha cabeça, de paisagem de fundo, outro pensamento um pouco mais baixo dizia que de agora em diante você não iria mais interferir na minha vida. Escrevi mais forte. Estava escrevendo na minha pele o mapa de uma nova vida, sem você. Você tossia forte.

_Compra veneno de uma vez, já que vai comprar cigarro tão ruim.

_O corpo é meu.

Tossiu, tossiu e tossiu. Um bater de olhos no cigarro foi o bastante para ver. Tossiu, porque tinha um cigarro rabiscado de poesias. Tossiu. Essa mania minha de escrever em tudo que é lugar, sei que você ama. Você foi ao banheiro vomitar poesia e eu saí de casa. Não fui capaz de entender o que uma terceira voz dizia na minha cabeça.

Nada disso importa agora, preciso aceitar que o que era uma vez agora não é mais. E não é culpa sua, nem minha, nem daquele outro ou daquela uma. Não dá pra culpar alguém por ter um olho claro, um cabelo castanho ou uma doença genética. Tem coisas que não nos dão escolha, parece que só nos encaminham e nosso corpo vai que vai sozinho. Não se culpe por ter pulado algumas páginas de todas aquelas cartas, nem por ter chorado quando recebeu aquelas tantas rosas que joguei na sua varanda. Faltava sentido mesmo, tanto que nem percebemos quando tudo já tinha acabado. Você tem que prometer que não vai se culpar. Só assim posso dormir tranquilo, sem tanta culpa por estar esperando uma mensagem de celular que nunca vai chegar. Poderei dormir nesse hotel barato com essa mesa gigante, nesse universo barato com essa solidão gigante. É só que, bem, eu não preciso dela, não dessa mesa imensa. Aquela de canto de cozinha, dobrável, me parece perfeita agora. Gigante para dois mundos se reconstruírem.


ATÉ A PRÓXIMA

18 de fevereiro de 2011

TABU OU ESCRITA ?


Ao Prof. Leodegário A. de Azevedo Filho, in memoriam.


O vocábulo ESCRITA, em linguagem figurada informal, está dicionarizado e é assim que Antônio Houaiss registra: “o que constitui uma rotina ou aparenta constituir uma rotina” . Esse termo tem sua origem nos cadernos de anotações que existiam nas antigas vendas, empórios ou armazéns de antigamente, onde o dono do estabelecimento dava crédito aos seus melhores fregueses, anotando, escrevendo no seu caderno os valores devidos, referentes a gastos no estabelecimento, geralmente de secos e molhados. Está no caderno ou ficar na escrita do português da venda eram expressões que se ouviam e se presentificavam como formas lingüísticas vivas, ativas, portanto, num determinado tempo, e perduraram enquanto esse comércio de bairro pode resistir às investidas dos supermercados, que hoje dominam esse segmento do comércio de atacado e varejo, utilidades e gêneros alimentícios de primeira necessidade. Essas expressões marcaram significativamente a vida de todos os cidadãos modernos e hoje estão recuperadas e se resumem no termo ESCRITA, que, portanto se prende ao campo semântico de rotina, de costume, de repetição. Em rotina está presente a idéia do hábito de caminhar. Aliás, rotina vem do francês “routine”, que significa propriamente hábito do caminho (route), como nos ensina A. Nascentes. Então, ESCRITA, sob este aspecto, surgiu como metáfora, uma forma de um crédito numa operação comercial. A metáfora se estendeu para a linguagem especial do futebol, como no exemplo acima, citado pelo filólogo Antônio Houaiss, em seu Dicionário da Língua Portuguesa. No Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, vamos encontrar o mesmo registro, com um exemplo bem mais significativo, pois cita a fonte do emprego da linguagem figurada que envolve o termo ESCRITA, situado no campo semântico de ROTINA: “O América conseguiu sua primeira vitória na Taça de Ouro ao derrotar o Bahia por 2 a 0, ontem à noite, na Fonte Nova, confirmando a escrita de que dificilmente perde seus jogos na Bahia” (Jornal do Brasil, 14.2.1985).

Ultimamente estamos observando que muitos comentaristas de futebol, como também locutores, repórteres e demais profissionais ligados aos esportes de massa, estão relacionando o termo ESCRITA com o termo TABU, atribuindo a este os significados daquele, numa espécie de expansão de conceitos, aliás, fenômeno lingüístico comum e que acontece com alguns termos da linguagem especial do futebol. Seve como exemplo o verbo PENDURAR, que passa a significar APOSENTAR-SE, na expressão PENDURAR AS CHUTEIRAS. Isso ocorre por similitude das ações, pois quem PENDURA a sua ferramenta de trabalho (as chuteiras) num prego em uma parede, deixa o trabalho, no caso a profissão de jogador, APOSENTA-SE , para viver de outras fontes de renda. Mas entre ESCRITA e TABU essa similitude não é tão evidente, a não ser que o conceito de TABU esteja coletivamente, tomando outro significado, num determinado segmento sócio-cultural, de forma equivocada. Isso também pode acontecer e é um fenômeno lingüístico possível de ser explicado, como acontece, por exemplo, com o termo PINGUE, onde seus constituintes fônicos parecem quebrar a arbitrariedade do signo lingüístico, dando a falsa impressão de se tratar de alguma coisa que significa POUCA, quando, na realidade etimológica (Lat. Pingue, is), PINGUE significa MUITO, ABUNDANTE, GORDO, NUTRIDO.

O termo TABU vem do polinésio tabu, que significa sagrado, invulnerável. "TA" significa marcado e talvez esteja aí a ligação semântica, através do processo conhecido como etimologia popular, pois é forte o SEMA contido em ESCRITA, relacionado a ANOTADO, ROTINEIRAMENTE ANOTADO, ROTINEIRAMENTE ESCRITO. Mas isso é uma especulação etimológica, uma hipótese diacrônica, num estudo superficial que pode até estar correto, mas é duvidoso. Contudo, a nosso juízo crítico e aprofundado, não existe essa ilação e o que ocorre mesmo é que está se dando um novo significado ao significante antigo TABU. Ou por desconhecimento dos sentidos primeiros do termo polinésio ou por se querer encontrar no invulnerável, no sagrado de TABU uma relação qualquer com ROTINA. Não vejo como conciliar isso. A não ser que, através de um tremendo esforço semântico, se imprimisse ao sintagma QUEBRAR UM TABU, o sentido de QUEBRAR UMA ESCRITA e, nesse caso, o termo TABU perderia totalmente o seu significado primeiro. Isso pode ocorrer e não é nenhuma surpresa, pois é muito difícil, já dizia Freud, encontrar uma tradução final para o TABU polinésio, pois não se possui mais o primitivo conceito que conotava.

Nos exemplos abaixo isso assim funciona.

O Brasil nunca foi campeão olímpico. Vamos quebrar esse TABU (ESSA ESCRITA), em 2014.

Veja esse TABU (ESSA ESCRITA) futebolístico(a). O Brasil sempre perde nas Olimpíadas.

O Brasil não possui o título de campeão olímpico. Isso é um TABU (UMA ESCRITA) a ser quebrado(a).

Portanto, não pretendemos criar novos significados para TABU, deixando essa palavra que era conhecida entre os antigos romanos como “sacer”, entre os gregos como “äyos”e entre os hebreus como “kadesh”, todas com o sentido aproximado do termo polinésio. TABU será tanto sagrado, consagrado, como misterioso, perigoso, proibido, impuro. Mas nunca ROTINA, e muito menos ESCRITA.

ATÉ A PRÓXIMA

AS FOGOSAS AVENTURAS DE J. FERREIRA




Estou postando nesse BLOG DO PROFESSOR textos dedicados à memória do Professor Leodegário A. de Azevedo Filho, meu amigo e compadre, falecido no dia 30 de janeiro de 2011, no Rio de Janeiro e também os que escrevo normalmente sobre as coisas do Sul, da Bola e das Letras. Crônicas do dia-a-dia que há quatro anos venho postando nesse espaço aberto aos que apreciam esse estilo que reflete a vida social, os costumes e o cotidiano de nossa gente.


EDITORA 7 LETRAS, RIO DE JANEIRO, 2008, 128 PÁGINAS.

AS FOGOSAS AVENTURAS DE J. FERREIRA é um romance de Maurício Murad que pretende ser uma fábula, com resquícios literários machadianos e que fala da vida, do amor e dos percalços por que passa um casal da classe média de nossos dias. Uma doença degenerativa, o Mal de Alzheimer, ceifa a vida do personagem central. A narrativa se torna densa. Ceifa a vida, mas não o prazer do texto, como diria Roland Barthes. O Autor mistura suas experiências de vida com um imaginário relacionamento familiar. Nos seus dez capítulos, o livro nos apresenta a progressão de um envolvimento bem articulado do narrador com o personagem central, João Ferreira, tratado referencialmente como J. Ferreira. Cada capítulo recebe um nome, significativamente retirado da história do texto desenvolvido.
O livro apresenta uma DEDICATÓRIA poética, referindo-se a três personagens chaves, onde a poesia já contracena com as duras vicissitudes da vida, prenúncio da morte, suavizada por uma narrativa eminentemente conotativa, escamoteando o triste desfecho da história. Assim, a partir desse primeiro contato com o romance, a metáfora do riso surgirá principalmente no primeiro capítulo, contrastando sempre, por antítese, com a tristeza da morte. E o primeiro capítulo funciona como uma introdução, apresentando o personagem Jota, através do discurso indireto livre e uma fala direta propositadamente dirigida ao leitor, que se excita e por isso se seduz com um discurso que lembra a técnica machadiana, fazendo do leitor seu cúmplice e parceiro.Os recursos estilísticos utilizados por Maurício Murad são inúmeros e variam da metáfora ao estranhamento. Das sinestesias às hipálages, as mais variadas.

“Olhei, meio porque não estava fazendo nada mesmo, e porque fui induzido a olhar para a frase que insistente serpenteava o tempo e ondulava o espaço”.

Com erudição, trabalha com maestria a grande característica do protagonista Jota, a sua simpatia e o seu riso, para quem, talvez, a vida poderia ser vista como uma grande comédia, rindo com todo o corpo, “menos com a boca”, região do corpo humano em que se especializou profissionalmente, como dentista. E no bloco praticamente da apresentação do personagem central, com uma sutil e bem colocada ironia, percorre inúmeras veredas do conhecimento, como na apresentação do bordão criado por J.Ferreira, o calor de bode. E as citações latinas surgem sem agredir o leitor, como a clássica sentença romana, “asinus ad liram”. De Santeui recolhe a máxima latina "ridendo mores castigat". E continua como crítico do cotidiano a colocar o dedo sobre as mazelas da vida social:
“Crime pior do que assaltar um banco é fundar um banco”.

A leitura da vida se faz pelas palavras e seus significados primeiros.

“Apesar da idade avançada e o jeito lento, tinha um aperto de mão cheio de personalidade e presença, dava pra sentir e eu senti o seu vigor. Fogoso, claro, fogoso! Tudo nele era fogoso. Todas as aventuras dele eram fogosas e fogosas não no sentido comum do termo. Marketing apelativo de um erotismo barato e diário, não, mas fogosas como fogo e fogo como energia, como vida, com alma, desse jeito mesmo como entendiam os gregos e sua mitológica mitologia”.

Serve-se de termos e frases latinas demonstrando erudição sem a pompa discursiva do academicismo, privilegiando a diacronia sobre a sincronia vocabular. E isso ocorre sempre que pretende teorizar.
Maurício Murad trabalha com o intertexto e sabe dosá-lo, sem ser ostensivo, colocando o saber no lugar certo, onde ele deve ser colocado, compondo o enredo, com exatidão, sem pernosticidade.

“Ai, que saudades eu tenho, da aurora de minha vida, da minha infância querida, dos tempos que não voltam mais”.

O poético e a poesia em As fogosas aventuras de J. Ferreira surgem, muitas vezes, pela tentativa de uma teorização crítico-literária (“a poesia não é de quem a faz, mas de quem dela necessita”) e por alternância sintagmática em quiasma (“...e simultaneamente chorou e sorriu, sorriu e chorou”). Essa combinação de artifícios estéticos e lingüísticos imprime ao texto de Maurício Murad um estilo próprio, colocando seu discurso numa posição de significativo destaque na literatura brasileira atual. E com essa técnica narrativa apurada, o romance flui através do discurso indireto livre, o que posiciona o leitor no tempo subjetivo da narrativa. Nesse tempo proposto pelo autor, quase sempre, os diálogos surgem sem possibilidade de um feed-back, mas têm poder de captar a nossa atenção, evitando a dispersão. Diálogo proposto, monólogo exposto.

“Ao retornar já tinha um plano completo para mim, que nunca revelou... para mim. Soube tempos depois, certa feita, num desses encontros em que caminhávamos pelo calçadão, soube por Jota que estava bravo com Analu, porque ela agora deu para inventar que eu estou esquecendo as mínimas coisas e não é verdade, eu lembro de muitas e muitas coisas, mesmo quando antigas”.

A narrativa do romance oscila sempre entre o autor onisciente e seu contraponto, J. Ferreira. É uma conversa com o leitor, para tentar chegar à degeneração física da personagem, praticamente biografada, no último capítulo, mas sempre com atenuantes minimizadoras da terrível realidade, o Mal de Alzheimer. Os textos se aproximam de um relatório amenizados por passagens poéticas (“Assim aspiro, assim espero”).
“O caminho que se avizinhava era tortuoso e imprescritível. Nesse tipo de morada, as ruínas humanas eram vistas a olho nu. O nosso Jota havia chegado a um ponto onde os limites da existência se apresentavam duros e cruéis, acotovelando-se impiedosamente ao redor da pessoa. Eu era sabedor que essas baixas camadas da vida lá estaria pra nos receber”.

Finalmente, a personagem J. Ferreira fala pela narrativa onisciente do autor e uma das atenuantes acima referidas pode se encontrar no próprio título do último capítulo: PRIMEIRO DE ABRIL É UMA BOA DATA. Lá, até as metáforas, indicadoras do predomínio da conotação sobre a denotação são mais fortes, pesadas, mas aliviam a tensão que domina o texto final, impregnado pelo intertexto machadiano, onde o poético dilui o trágico.


ATÉ A PRÓXIMA

AS MARCHINHAS CARNAVALESCAS VÃO VOLTAR ?


Estou postando nesse BLOG DO PROFESSOR textos dedicados à memória do Professor Leodegário A. de Azevedo Filho, meu amigo e compadre, falecido no dia 30 de janeiro de 2011, no Rio de Janeiro e também os que escrevo normalmente sobre as coisas do Sul, da Bola e das Letras. Crônicas do dia-a-dia que há quatro anos venho postando nesse espaço aberto aos que apreciam esse estilo que reflete a vida social, os costumes e o cotidiano de nossa gente.



“Tanto riso, oh quanta alegria, mais de mil palhaços no salão...



Será que ainda existem arlequins e colombinas ? Não há mais bailes de carnaval ! A Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro mudou. O Brasil mudou. O mundo mudou. Nós mudamos. A folia de carnaval combinava com o romantismo do pecado, escamoteado em rápidos agarramentos, beijinho no pescoço, alguns até na boca e mãos alisando os seios pela metade. Isso mesmo, só a parte de cima. Apalpá-los totalmente só na terça-feira gorda. Hoje, as cenas da Casa Mais Vigiada do Brasil, que repetem as orgias das casas de prostituição da Rua Alice, dos idos dos anos 40, com muito mais profissionalismo, não despertam em ninguém nenhuma sensação de desejo. Vulgarizou geral. As investidas da rapaziada nos blocos de sujo para cima das meninas deixaram de ter motivação. Consegue-se tudo isso a qualquer momento, com qualquer parceira, em nome de uma modernidade luxuriosa, presente em todas as casas que tenham um aparelho de televisão ligado na Rede Globo, ufanisticamente aplaudida por um povinho sem cultura nenhuma e com um gosto musical, esteticamente castrado, fã ardoroso de um grande animador, dublê de literato, apresentador desse programa chamado, só para disfarçar, de jogo de relacionamento social.Nos carnavais de antigamente uma libidinagem bem acanhada e o proibido mesmo alimentava a fantasia do desejo, explodindo toda a manifestação sensual reprimida, na verbalização das marchinhas carnavalescas, com suas letras quase sempre falando da paixão carnal, dor de cotovelo, de amor não correspondido, tudo com metáforas poéticas, sem vocábulos chulos e muito duplo sentido, um resquício de recato, para não falar vergonha, que desapareceu totalmente nos dias de hoje. Os temas recorrentes a assuntos que agora poderíamos chamar de politicamente incorretos, ou de socialmente degradados, como, por exemplo, a famosa Cabeleira dos inúmeros Zezés, que andam por aí, eram retratados metaforicamente, com recato e com duplo sentido, diluindo o referencial numa linguagem figurada bem arrumada. Isso mesmo, com RIMA !Também era muito comum nas letras das marchinhas de carnaval a crítica política, explicitada através do humor como riso. As "maracutaias" dos políticos da época surgiam espirituosamente nas músicas carnavalescas, sempre com retumbante sucesso, como se o desvio social do homem público fosse alguma coisa para se achar graça. Mas era assim, mesmo e creio que a coisa ainda não mudou... Quanto aos desmandos e às roubalheiras dos políticos atuais, parece que nisso ninguém mais acha graça, não. Mas muita gente deixa como está, porque pior não pode ficar, não é Deputado Tiririca? Esses desvios no comportamento político não têm mais graça nenhuma e, agora, não seria tema de nenhuma música carnavalesca, pensamos nós. A censura dos anos 40 e 50 ainda despertava a vontade de se criticar o “status quo” . Parece que hoje, isso não funcionaria. A divulgação das músicas vencedoras nos concursos de marchinhas carnavalescas da TV Globo não são muito divulgadas pelo rádio, como antigamente. Aliás, o Rádio também mudou. Não se faz mais uma PRE-8, Rádio Nacional, como antigamente, no Rio de Janeiro! No interior do Brasil as emissoras de rádio só tocam música da pior qualidade. E quem ouve? Gente de uma sensibilidade também muito questionável. Realmente, os tempos mudaram, mas a música, erudita ou popular, e a poesia construída com nosso idioma sempre terão um lugar de destaque na vida artística de todos aqueles que cultuam a arte e trabalham com a estética do belo.


Arlequim está chorando pelo amor da Colombina, no meio da multidão”.


ATÉ A PRÓXIMA

6 de fevereiro de 2011

OS AMIGOS VÊM DE LONGE



Na lindíssima e emocionante Missa de 7º Dia da Ressurreição de Leodegário A. de Azevedo Filho, rezada pelo Pe. Jorjão, na Capela da Universidade de Notre Dame, neste último sábado, os amigos do grande mestre Leodegário vieram de todos os cantos do Brasil e do mundo.
Sebastião Tavares de Pinho, seu amigo de muitos e muitos anos, chegou de Lisboa para confortar a família enlutada e chorar com os amigos comuns. Muito comovido abraçou-nos a todos.
Somente figuras grandiosas de espírito, como Leodegário A. de Azevedo Filho, são capazes de conquistar o respeito e a amizade sincera de tantos com quem lidou, tanto no campo profissional como no dia-a-dia, conforme testemunhei em suas participações nas inúmeras Exposições de Canários, realizadas nos subúrbios cariocas.
Leodegário, a nossa eterna saudade, amigo de mais de 50 anos!

3 de fevereiro de 2011

OLÁ, AMIGO LEO...



Se eu pudesse escrever uma carta para o Leo…
Eu diria:
Olá professor, doutor, filólogo, literarato,
Mas estes títulos desaparecem quando os jovens nos julgam velhos e a aposentadoria apaga nossa identidade, então
Eu diria apenas:

Olá amigo,
Este título é permanente. Leodegário era assim. Tocava-se a campainha da casa, ele abria a porta e dizia: Entre, entre. Quanto tempo! Que bom vê-la. Sempre havia um lugar, ou melhor, muitos ao redor da mesa. Nunca faltava um whiskizinho e, lógico, os quitutes da Ilka. O papo rolava. O relógio parava. As palavras se desdobravam em frases, sentenças, num discurso tão variado e infinito quanto a erudição do amigo. Camões estava sempre presente. Não gostava do whisky, mas sua presença era sentida. Da mesa ía-se à sala contígua onde os livros contavam histórias de muitos séculos e se juntavam uns aos outros numa festa intelectual. Eram os outros amigos sempre presentes, convidando os novos que chegavam a ingressar no círculo da amizade.
Leodegário me ensinou tanto, tantas vezes, sua generosidade era uma dádiva ao compartilhar o conheicmento por puro prazer sem nada pedir ou exigir de volta. Lá pelas tantas o relógio decidia voltar à ativa, era a hora do sono chegar e dos sonhos literários descansarem até o dia seguinte.
Leo, você não foi, está aqui presente, continuará presente nas rondas intelectuais, nas palavras suas que serão transmitidas pelos mestres e nos pensamento dos novos alunos que continuarão a jornada. E quando todos estes se ausentarem, você continuará eternamente presente nas linhas, nos parágrafos, nos textos que o tempo não destruirá.
E Camões diria:

O cisne, quando sente ser chegada
A hora que põe termo a sua vida,
Música com voz alta e mui sentida,
Lamentos pola praia inabitada.
Deseja ter a vida prolongada,
Chorando do viver a despedida;
E, com grande saudade da partida,
Celebra o fim tão triste jornada.

Todos nós somos o cisne, pois não queríamos o fim de sua jornada.
Amigo Leo, você está aqui, sempre presente.

Saudades,
Monica Rector
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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.