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28 de junho de 2010

ACADEMIAS E INDÚSTRIA CULTURAL

Hoje é tudo pop. A cultura dita superior, se já existiu, não existe mais. A Escola de Frankfourt também ficou no passado. Walter Benjamin, em seus significativos textos e, principalmente, em “A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica”, parece que não mais se sustenta, pois baseava-se somente na maravilha gutembértica e na fotografia. Reproduziam-se cópias de produtos artísticos, que só aqueles de maior repertório e poder aquisitivo poderiam ver, ler, sentir e com elas se extasiavam. Abastecia-se assim um mercado específico e popularizava-se a arte. Essa indústria cultural de então ainda continua, mas hoje, com menos produtividade e mais intensamente se vale de outros meios, como a internet, para produzir e criar cópias de cantores e dançarinos, de Elvis Presley a Michael Jackson, por exemplo. A produzidíssima e pop Lady Gaga, de furor e frenesi alucinantes, deixa a galera em campo aberto ou atrás dos monitores de cristal líquido ululando histericamente. Ela é padrão de arte pop, sem dúvida alguma, produzida pelos “mass-media” dos tempos modernos. Nos quartos adolescentes lá estão antenados nos vídeos do You Tube rapazinhos muito mais preocupados com o rebolado do que com a condição de reprovado nas provas do Enem, assistindo a toda forma de manifestação eletrônica popular de arte, porque a arte continua instigando as mentes produtivas e, como a estética está centrada na ótica do receptor, ela, a arte continua tendo sua produção e sua apreciação tão viva como sempre foi, pois, ainda, segundo Walter Benjamin, “uma das principais tarefas da arte sempre foi criar um interesse que ainda não conseguiu satisfazer totalmente”.
Mas não é só o alucinante ritmo dos festivais do “Rock in Rio” de exportação que alucina a mente da juventude. É tudo que magicamente pode ser tocado, jogado e deleita. Contudo, não é só a juventude que acessa o mundo cibernético da internet. Todos nós nos servimos desse veículo para nos aperfeiçoarmos, graduarmos, pós-graduarmos, tornarmos doutores, isto é, para nos aculturarmos, aumentando nosso repertório, pesquisando e criando, servindo-nos do feed-back da rede mundial da informação, para crescermos na escala social. Abundam os Cursos à distância nas Universidades particulares de todo o país, verdadeiras fábricas de possíveis desempregados e de riqueza fácil para os investidores. Mas, a bem da verdade, a internet também propiciou uma forma de muitos e importantes cursos universitários existirem, não mais como presenciais, mas somente à distância, como os Cursos de Letras e de Pedagogia e isso está ocorrendo principalmente nas cidades do interior do Brasil, talvez por falta de interesse ou por falta do retorno do capital investido nesses estudos. De qualquer forma, a tecnologia está aí, também, nos ajudando a todos a formar uma ciber-enciclopédia e nós passamos de pesquisadores a informantes, num pingue-pongue cultural interativo wikipediano, jamais pensado pelas mais brilhantes mentes arthurclarkianas da ficção científica. Todas as manifestações culturais estão afetadas pela magia dos buscadores da Web. Nada é mais privilégio dos poderosos e ricos segmentos sociais. Estamos diante da inclusão digital avassaladora e irreversível. Hoje, se há indivíduos interessados em alguma coisa, podem se reunir e formar associações, clubes, museus, conselhos, sociedades, sindicatos, condomínios, escolas e academias literárias que substituem plenamente as arcádias dos séculos 17 e 18. Tudo registrado, com estatuto, diretoria e objetivos claros a alcançar, umas se baseando nas outras, sucessivamente, adquirindo o respeito da comunidade onde estão inseridas. Muito comum é a publicação de obras pertencentes às mais variadas formas culturais de expressão, como CDs, VTs, livros, retratando as artes cênicas, musicais e literárias. Bandas de música se formam nas garagens das casas da classe média e se apresentam ao público Global, em extasiantes programas de tevês, comandados por gordos que emagrecem artificialmente e por gordos que não conseguem emagrecer e se ufanam de carregar suas simpáticas calorias. Tudo isso fruto da ciência e da tecnologia, também de ponta, ao alcance de todos. Esses animadores culturais e "talk shows" falam sobre tudo e mostram tudo, do mais sério ao mais bizarro. Desempenhar o papel de artista é desempenhar uma função social como qualquer outra, embora a literatura tenha uma função diferente de outras formas estéticas. Ela é transgressora, como atesta a própria poesia, transmitida por mensagens raras, onde o emissor e o receptor possuem repertórios diferentes. Essa prática ou esse exercício se darão nos espaços públicos ou privados, que deverão ser bem organizados, definidos, respeitados e frenquentados por todos aqueles, atraídos e atingidos pelas raricidades das mensagens pictóricas, poéticas, teatrais, literárias de um modo geral. Antes, os espaços culturais, constituídos por Academias Literárias, por exemplo, só existiam, ocupados por privilegiados, enclausurados em prédios neoclássicos, nas principais cidades do país, quase sempre frequentada por uma elite soberba, “qui était rempli de soi-mme”. A vida social, percebendo o surgimento de um novo modo de ver e sentir a cultura cria os lugares certos para a sua produção e reprodução, assim como seus agentes. Multiplicam-se os estúdios de gravação de áudio e de vídeo, acelerando e propiciando o surgimento de empreendimentos comerciais como as TVs Corporativas, as TVs Educativas, as TVs Escolas, as Rádios Comunitárias, as Radioescolas e muito mais. São tantos esses empreendimentos, em quantidade e qualidade que muitos ficam à margem da Lei e se instalam como “piratas” nas comunidades mais carentes. Essa pirataria invade tudo na indústria cultural, dos CDs aos livros, na inocente, mas irresponsável, reprodução via xerox das páginas dos compêndios, nas escolas e nas universidades. As fábricas de livros se multiplicam com inovações tecnológicas setoriais, a exemplo dos convênios entre a Xerox do Brasil e o SENAI, possibilitando a publicação de obras do cidadão comum, do cidadão-massa, que existe, mas não tem rosto, só números e traços nas pesquisas de opinião, desencadeadas por Institutos especializados. Então, o professor sem editor, o poeta sem suporte mercadológico e sem rima, o pesquisador preocupado com seu objeto investigado, tendo a única certeza de que a ciência pertence ao geral e não ao particular, todos se tornam escritores e, assim, crescem e passam a ser mais respeitados no espectro social, despertando, em cada cidadão, um poder, suposto saber. Desta forma, o teatro, o cinema, a música, a pintura, a literatura e todas as formas sincréticas de expressão artística, por receberem a aprovação editorial, crédito indispensável à sua certificação de coisa boa, uma espécie de ISSO-Século XXI, passam a ter crédito de excelência e são divulgados por canais convencionais, circulando democraticamente também pela rede cibernética dos e-mails, dos sites, dos blogs e dos tweeters. Por tudo isso o saber se desburocratizou e saiu da camisa de força da União, dos Estados e dos Municípios, instâncias administrativas que tratavam a cultura como uma prerrogativa exclusiva do poder. Passou a se articular, tanto em suas manifestações cultas e populares, como na ancestralidade folclórica de seus fatos e também nas formas simples dos mais impressionantes chistes, como afirma André Jolles. As elites intelectualizadas e a vida cultural de toda aquela população privilegiada que fora atingida pelo discurso da escola perderam o privilégio de manipular tudo isso. Não é que a selva tenha superado a escola, como na poética visão antropofágica de Oswald de Andrade e de outros nossos críticos e artistas modernistas, mas o que estamos assistindo hoje é uma escola invadindo a selva, através dos meios eletrônicos de comunicação. Os Estados de Roraima, lar dos yanomamis, acima da linha do Equador, portanto no hemisfério norte e Santa Catarina, o belo Estado de variadíssima etnia, abaixo do trópico de Capricórnio, são regiões distantes, uma da outra, ligadas por um senso comum de participação cultural de seu povo, ávido de conhecimento, criando, em todas as áreas do saber, formas expressivas significativamente estéticas. Tanto lá como aqui prolifera um grande número de associações culturais de toda espécie - o maior número entre todos os Estados brasileiros - principalmente Academias de Letras em seus muitos municípios, quase todas vinculadas ao Conselho Nacional das Academias de Letras. Que ninguém fique, portanto, tímido ao entrar nos salões marmóreos do Olimpo com as botas cheias de barro. O autodidatismo será sempre bem-vindo para se alinhar ao saber institucionalizado, nesse momento em que os menos informados necessitam muito do saber para produzir, desenvolver, criar e acelerar o progresso do Brasil. Se essa discriminação aconteceu no passado, hoje não faz mais nenhum sentido. Preferimos a culturalização consciente das massas à massificação imbecil da cultura.

ATÉ A PRÓXIMA



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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.