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2 de agosto de 2016

TROVAS, TROVINHAS E TROVÕES



Hoje em dia, é enorme a produção de trovas de todos os tipos, sejam filosóficas, líricas ou humorísticas. Parece que essa estrondosa produção se deve ao incentivo que a UBT (União  Brasileira de Trovadores) tem dado aos amantes desse gênero literário, realizando, em quase todos os Estados da Federação, com frequência, concursos, cujos temas sugeridos são bastante variados. A entidade que reúne os mais significativos trovadores brasileiros realiza suas festas, seus Jogos Florais, em vários municípios, por esse gentil Brasil varonil, afora... A entidade divulga seus concursos e também determinadas regras a serem seguidas, enquadrando o trovador numa espécie de bitola, para que fique mais fácil o julgamento e não haja muita discussão a respeito das inúmeras possíveis formatações das quatro linhas da trova, poema de forma fixa, tão antigo quanto o código linguístico da língua portuguesa que a estrutura. Por outro lado, os trovadores acumulam trovas, trovinhas e trovões, guardando as que sobraram  e não foram para os concursos regionais, para irem direto engrossar os rascunhos de seus próximos livros. Assim, muitos poetas compõem, por encomenda, e a renovação custa muito a surgir, estagnando a ebulição fervescente de textos portadores de novas estéticas. Além disso, é bom lembrar que não surgem a toda hora obras primas e muito menos um João Cabral de Melo Neto, nem uma Maria Clara Machado a encomendar poemas para festinha de Natal... Entenderam, né? Dificilmente, se lê bons textos, crônicas inteligentes, contos empolgantes, poemas envolventes, belas trovas ou até mesmo escritos como estes de Sérgio Antunes, poeta e escritor que dizia que um trovador e repentista de Pindamonhangaba, ou talvez não fosse de lá, mas o fato é que ele vivia fazendo versos e que falava do céu de anil, das moças garbosas, do sino da igreja, de tudo, enfim. Um dia, estava ele no bar com uns amigos, entrou a Rosa e ele explicava que a Rosa era a mulher do Lino, o farmacêutico da cidade. Ninguém precisava descrevê-la: era um monumento natural, uma gostosona, com o perdão da palavra. Aí os amigos provocaram. "Não vai fazer uns versinhos pra Rosa?" E ele teria feito:


"Com seu corpo de violino

e seus pudores precários,

Rosa, a mulher do Lino

virou a extra de vários".



Esse tipo de humor não se vê com facilidade. É raro, mas é uma delícia! Esse Sérgio Antunes é muito bom: Que tal esse quarteto em decassílabos?


Nervosa? Perguntei o que é que houve

e ela pediu que eu tocasse nela

e eu, obediente, toquei nela,

a quinta sinfonia de Beethoven.



Mas, para quem gosta de trova reflexiva (será que alguém se trovará algum dia? Entenderam, também, né?), lá vai uma, citada, ainda, por Sérgio Antunes: 



 "Trova, conto de um canto,

poça d'água sobre o chão,

tão pequenina e entretanto,

reflete toda a amplidão".



E continua esse mesmo autor com seu repertório de “causos” poéticos, envolvendo trovas de preciosíssimas construções.  Diz ele: "Na Bahia houve um concurso para fazedores de trovas. Mas era preciso rimar com "lâmpada". A dura regra que afastou os concorrentes teve um ganhador:


 "Dizem que certo vigário

encomendou uma lâmpada

para homenagear a estampa da

Virgem Santa do Rosário".



Saída mais do que sensacional. O trovador usou a sílaba átona da combinação da preposição  - DE - com o artigo feminino  - A -  como parte integral de um vocábulo fonético proparoxítono, formado por uma palavra paroxítona ESTAMPA, que cedeu sua sílaba tônica TAM para formar o vocábulo fonético proparoxítono “ESTAMPA DA”.  É ou não é criatividade poética? Um caso raríssimo de “anacruse invertida”.

Seguem, agora, uma série de trovas muito bem construídas, todas com “raricidades” na construção, quer na semântica, no estilo ou no ineditismo da construção. 


1)            De PAULO LEMINSKI:


Todo bairro tem um louco

que o bairro trata bem.

Só está faltando um pouco

pra eu ser tratado também.



2)            De ALBA CHRISTINA CAMPOS NETTO:



Brigas de amor têm segredos,

e eu juro que me comovo

ouvindo os nós dos teus dedos

batendo à porta de novo...






3)            De AMALIA MAX:



Relógio, fique parado!

Não deixe o tempo passar...

Eu quero ser enganado

quando a velhice chegar!



4)            De CASTRO ALVES:



Na hora em que a terra dorme

enrolada em frios véus,

eu ouço uma reza enorme

enchendo o abismo dos céus...



5)            De CECÍLIA MEIRELLES:



Sou mais alta que esse morro,

mais vasta que aquele mar.

Há muito que me percorro

sem me poder encontrar.



6)            De DENISE CATALDI:



Deu muita sorte a vizinha

pulando o arame farpado,

pois só rasgou a calcinha:

o principal foi poupado!



7)            De ELTON CARVALHO:



Vem, palhaço, sem tardança,

com teus trejeitos, teus chistes...

e acorda a alegre criança

que dorme nos homens tristes!



8)            De FERNANDO PESSOA:



O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.



9)            De GUILHERME DE ALMEIDA:



 Tudo muda, tudo passa,

neste mundo de ilusão:

vai para o céu a fumaça,

fica na terra o carvão.



10)         De J.G.DE ARAÚJO JORGE:



Rosas tolas, tão vaidosas,

que em belas hastes vicejam...

Vem, amor, olha estas rosas,

quero que as rosas te vejam!



11)         De ARI SANTOS DE CAMPOS:



Num deslize a honradez

lá se foi, numa soltura.

Depois da primeira vez,

nenhuma cerca é segura.



12)         De NEWTON VIEIRA:



Ficou mais lento o meu passo?

Caminharei, mesmo assim!

Só temeria o cansaço

se me cansasse de mim...





13)         De RAUL DE LEONI:



Duas almas deves ter...

é um conselho dos mais sábios:

uma no fundo do ser,

outra boiando nos lábios.



    

E fechando esta apresentação, fiquemos com os poemas de MARIO QUINTANA: 

- I -

  (Quadra em decassílabos)


Se as coisas são inatingíveis... ora!

Não é motivo para não querê-las...

Que tristes os caminhos se não fora

A mágica presença das estrelas!



- II -

POEMINHO DO CONTRA


Todos estes que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão.

Eu passarinho!





ATÉ A PRÓXIMA

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.