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28 de outubro de 2010

COMPETÊNCIA E DESEMPENHO NA LINGUAGEM DO FUTEBOL


“Mas tem a qualidade do passe muito ruim”.


(Caio, ex-jogador e comentarista da TV Globo.


Jogo Fla X Corinthians, dia 27/10/2010, Engenhão, Rio)





Quando um comentarista de futebol se expressa, tentando analisar um momento da partida, tem ele poucos segundos para transformar seu pensamento numa frase, dentro dos padrões da língua culta. É exigir muito desse profissional. Ele recebe uma pressão psicológica muito grande, pois a rapidez das jogadas exige sua total atenção para não perder os mínimos detalhes. Ele não pode se distrair, pois os acontecimentos se modificam em segundos. E o que dizer das construções frasais que é obrigado a formular! As suas construções frasais deverão estar de acordo com o uso que fazemos de nossa língua (de qualquer língua), isto é, como o Desempenho ou o uso que fazemos dela, resultado de complexos fatores lingüísticos e extralinguísticos, quando efetivamente falamos, ouvimos, escrevemos e lemos, por exemplo. Essas mesmas construções deverão estar também de acordo com a realização dos enunciados frasais do nosso cotidiano, portanto, de acordo com o que se chama de Competência, que é o conjunto de normas ou regras internalizadas pelo indivíduo falante, que permite a ele emitir e receber mensagens da língua que utiliza para se comunicar. Pode-se dizer que essa Competência é o conhecimento que os indivíduos falantes têm de sua própria língua. Todos nós temos conhecimento de nossa língua e com ela nos expressamos. Assim, passamos a entender o outro, mas ambos, emissor falante e receptor ouvinte não têm consciência das regras que lhes permitem usar sua língua. O lingüista tem por tarefa investigar e explicar esse fenômeno. Vamos tentar. Para tanto, precisamos completar o raciocínio. Há frases que são aceitas por todos, tanto pelo falante, como pelo ouvinte. São consideradas normais. Numa narração de futebol o narrador diz: “O jogo está apresentando muitos passes errados por parte dos jogadores dos dois times”. Todos entendem. Por outro lado, é fácil concluir que pode haver frases que não se entendem imediatamente ou se apresentam sem sentido. Logo, umas são aceitáveis e outras não são aceitáveis. Essa aceitabilidade é um fenômeno intuitivo. Agora, existe uma sutileza, relacionada com à aceitabilidade, conhecida como gramaticidade, que se relaciona com aquela aceitabilidade vista há pouco, mas não se identifica com ela. Essa gramaticidade se refere a uma ordenação, organização, norma, gramática mesmo, internalizada no indivíduo falante/ouvinte, que gera certas sequências e exclui outras. Isso está ligado à competência. Já a aceitabilidade é uma noção ligada ao estudo do desempenho. Quando os locutores e comentaristas dos jogos de futebol transmitidos pela televisão e pelo rádio, ficam empolgados com o jogo, passam essa empolgação para suas análises e quase sempre ocorre o que didaticamente chamamos de incompetência da competência de falar. Isso é comum, mesmo sendo esses profissionais constantemente testados pelas empresas jornalísticas onde trabalham, pois eles possuem, por obrigação de ofício, estudo formal, o que lhes proporciona alguma facilidade de expressão e isso facilita muito seus comentários. Muitos desses profissionais, entretanto, ficaram conhecidos por desrespeitarem quase sempre a norma culta da língua e, principalmente, por se expressarem, construindo uma fraseologia própria, como era o caso do saudoso e vibrante Mário Vianna (com dois enes, como gostava de ser chamado), comentarista de arbitragem dos anos 70, no rádio e na televisão. Os comentaristas de hoje, descobriram outras formas de encenação e se apresentam principalmente na televisão. Apresentam-se quase sempre com um visual bem produzido, numa tentativa semiológica, talvez, de amenizar, com os elegantes fatos com que se vestem o fato de maltratar a norma culta da língua. Mas nos comentários de futebol, transgredir a norma culta não é lá um grande pecado. O grande pecado é pousar de autoridade e escorregar nas construções lingüísticas. A linguagem que se deve utilizar nessas ocasiões, nos comentários relacionados aos acontecimentos no campo de jogo não deve ser o registro culto da língua e sim seu registro menos rígido, menos formal, mais descontraído, digamos: seu registro familiar. Isto porque a emoção é muito significativa e está intensamente presente nos comentários desses profissionais. Deixemos a gramaticidade reger esses comentários e aceitemos os registros menos cultos da fala, sem crucificar a metalinguagem desses profissionais esportivos. Hoje mesmo, no jogo entre Flamengo e Corinthians, no "Engenhão", o ex-jogador, Caio, agora comentarista da Rede Globo de Televisão me saiu com essa: “Mas ele tem a qualidade do passe muito ruim”. Caramba! Está aí o exemplo em que se mostra a aceitabilidade como uma noção ligada ao desempenho. Se o passe é ruim, onde está a qualidade? A norma culta aceita? Não, mas a frase possui gramaticidade e a aceitabilidade intuitivamente se relacionou diretamente ao desempenho lingüístico do comentarista, que por fatores extralingüísticos, desta forma estranha se manifestou. Deu para entender? Deu. Mas, agora, o difícil de entender é o figurino de toda equipe de radialistas, locutores, comentaristas, repórteres e alguns figurantes, que se apresentam impecavelmente uniformizados, com um comportamento visivelmente integrado, para trabalhar num show eminentemente apocalíptico, como é o espetáculo do jogo de futebol. Que o diga Umberto Eco!
ATÉ A PRÓXIMA

26 de outubro de 2010

BORBULHOS LÍRICOS E BARROCOS

Eduardo Meneghelli Júnior está relançando seu livro de poesias Borbulhos Mentais, pela Nova Letra, Editora. São quase cem poemas em versos livres, na linha modernista do poema-processo, com recorrências formais e uma formatação que lembra as espirais de Cassiano Ricardo, em Jeremias sem Chorar e Haroldo de Campos em seu concretismo barroco. A estrofação se apresenta com versos livres e curtos, predominando os versos de cinco e sete sílabas, as redondilhas menor e maior. Em sua figuração concretista, quase sempre relaciona formas a conteúdos, num sentido primeiro para a vista e, posteriormente, para a reflexão. Assim, fundo e forma se harmonizam nos versos autóctones e populares da lírica occitânica. A forte figura materna está presente em toda a obra, surgindo de forma explícita ou de forma velada. Mas a grande figura de mulher que assume o lugar de musa inspiradora é sua esposa. A ela logo se dirige, numa declaração manifesta de amor, no poema Pensando... “Quero e vou amar você./Sandra!” Nesse poema os versos em redondilha maior predominam, vindo em seguida os em redondilha menor. Contudo, a metrificação não obedece a nenhum padrão, o que não significa perda de qualidade, pois o fluxo borbulhante do pensamento poético de Eduardo Maneghelli Jr. é mesmo assim. Vem surgindo através de fluxos e refluxos interpretativos de sua realidade. Sua poesia (Poesia Vida) é como sua vida, um poema que pode trazer tanto a paz, a calmaria e a alegria, como a tempestade, a discórdia, o sofrimento. Sua vida é uma transgressão a inúmeros padrões estéticos, assim como sua poesia, eivada de um barroquismo conflitual, não entre o espírito e a matéria, mas entre o amor e a dor, beirando o realismo fingido: “O amor não existe, é uma ação/de duas pessoas que se encontram/e descobrem que quem manda é o coração,/por isso existe o sentimento:afeição!”. Eduardo é um apaixonado pela vida. Os títulos de seus poemas isso denunciam manifestamente. Assim: Apaixonado; Sonho; Para Você Especial; Amor, por exemplo. Para o poeta, o mundo é muito pequeno e ele não cabe mais aqui, por isso, no poema Vou ou Não? , cuja concepção gráfica é “sui generis”, cópia xerocada de uma folha de caderno espiral em texto cursivo, Eduardo prepara a fuga, sonhando e dizendo “Vou por uma perna/para fora do universo!”. Termina o poema quando a ilusão desaparece: “Só em pensar/em acordar/e ter que/voltar à realidade...” O poeta tem aí o seu escapismo bem nitidamente marcado. Portanto, a poesia de Eduardo Meneghelli Jr. passa, nesse seu livro Borbulhos Mentais, pelo artifício gráfico dos recursos concretistas e também por uma vereda semiológica, que deve ser explorada, numa leitura minuciosa, pois esses recursos introduzem, sem dúvida alguma, novos significados à escrituração, produzindo inúmeras formas expressivas, que merecem uma exaustiva análise literária, tanto no campo dos significados, como no domínio do significante lingüístico. Mas isso será para outra ocasião. Aproveite, leitor, esses Borbulhos Mentais de Eduardo Meneghelli Jr. e veja se não é isso mesmo!

ATÉ A PRÓXIMA

25 de outubro de 2010

UMA VISITA A CAMPINAS - SÃO PAULO -

A estação das flores sempre me despertou a vontade de viajar pelo interior do Brasil. As matas que ainda restam, do Atlântico ao cerrado, ficam, nessa época, mescladas de flores e cores. Tomei o caminho da microrregião de Campinas, por onde, em tempos remotos, passaram bandeirantes, tropeiros e muita emoção, em direção às colinas do interior. Instalei-me. Há muitos anos não andava por esses recantos. Fui visitar a 29ª Expoflora, em Holambra. Maravilhosa harmonização multicor entre a mata e o jardim. O calor pedia que eu ligasse o ar condicionado do carro no máximo. Uma seca no interior do país, provocada por fenômenos meteorológicos nos oceanos castigava a região. Os focos de incêndio, muitas vezes criminosos, ardiam e o capinzal ao lado das estradas pegava fogo. O fumo negro do mato que tomava altura impedia a boa visibilidade nas pistas de rolamento, quase todas muito bem pedagiadas. Os policiais rodoviários fizeram com que eu parasse num refúgio, pois a fumaça ofuscava totalmente a visão de todos. A espera durou uns quarenta minutos. Sentado, ao volante, dentro do carro, ar condicionado a todo vapor, esperando o vento mudar de direção, penso até que dormi. Gosto de tirar uma soneca. Se dormi, sonhei. Mas não demorou muito e as brigadas dos bombeiros cumpriram sua missão. Foram perfeitas em seu trabalho. O vento virou e logo a estrada já estava pronta para todos seguirem seus destinos. Havia, agora, pouca fumaça. Não deu outra, meu amigo fantasmagórico, aproveitando todo aquele ambiente propício à sua materialização, me cumprimentou do banco da trás, dizendo que nebulosidade é com ele mesmo... “Não me lembro de ter estado consigo visitando estes sítios, mas não me são totalmente estranhos”, disse, empregando sua sintaxe lusitana, um pouco diferente da forma com que construímos, aqui, as frases com esse pronome pessoal de terceira pessoa, para nós só reflexivo. Logo fui lhe mostrando os belos prados cultivados. Os cafezais em flor, com as touceiras bem alinhadas. Os cítricos e harmoniosos pomares. As laranjeiras com seus brincos alaranjados... Os canaviais dançando ao vento, ao som dos acordes de O Guarani do glorioso Carlos Gomes. Mostrava-lhe também as folhas rasteiras das dietéticas hortaliças, que se estendiam pelas colinas a fora, a perderem-se de vista... “Parecem-me terras do pouso das Campinas do Mato Grosso, pá!” Disse-me todo entusiasmado, reconhecendo, com sua visão atemporal, os descampados de uma antiga região de mata fechada, um insipiente bairro rural de 1767, hoje fervilhante de modernidades. “Tu confirmas que isto por cá é região de Campinas?” Disse-lhe que sim. E ele continuou: “Estamos, pois, em terras, de certa forma, desbravadas e administradas por um membro distante de minha família. Os Lemes saíram das ilhas oceânicas de Portugal, creio que da Ilha da Madeira, se não me falha a memória e, depois de muita movimentação pelo continente, seus descendentes chegaram ao Brasil. A linhagem dos Lemes é fidalga. Conheci muitos deles e me recordo agora, perfeitamente, da fisionomia de Francisco Barreto Leme, o fundador desses sítios”. Fiquei contentíssimo por ver meu amigo do outro mundo dissertando com tanto entusiasmo sobre fatos já tão esquecidos de muita gente. Devo, aqui, esclarecer ao leitor, para que não se assuste com a longevidade desse fantasma amigo, pois na eternidade, onde essa diáfana criatura vive, o tempo não mais se conta por datas, isto é, não existe o antes nem o depois. Só existe o fato, o qual se apresenta aos olhos de quem esse tempo contempla, de acordo com o que era quando começou. Parece complicado, mas quando ele me explicou isso, entendi perfeitamente. Mistérios de Deus... As suas lembranças se materializaram e meu hialino amigo foi me relatando a história daquele lugar. Ou melhor, foi me dizendo o que aquilo tudo fora e continua sendo, só que vibrantemente modificado. Coisas de fantasma, mesmo. E suas lembranças faziam-no se reportar aos Lemes. “O Francisco Barreto foi um bom homem. Trabalhador, honesto, generoso e de muita crença. Seus filhos apoiaram a doação de um terreno para construir uma pequena igreja, a primeira em Campinas de Mato Grosso”. Com uma igreja funcionando, funciona todo o resto, meu caro, disse-lhe quase como co-autor daquela incrível história. “Isso mesmo”, retrucou entusiasmado, e continuou. “Os habitantes da região se reuniram logo por ali e tudo cresceu muito rápido, mas há muito não vinha por estas bandas! Que progresso! Gostava mais dos tempos pretéritos”. Fiquei na dúvida, mas não tirei sua razão.


ATÉ A PRÓXIMA

18 de outubro de 2010

UM ESTRANHO PAÍS


Ela se considera brasileira como seus pais, mas seus avós não. Eles são polacos, vieram bem jovens da Poláquia para o interior de Santa Catarina. Muitas moças por aqui têm a pele muito clara. Sua família é assim. Seu marido e dois filhos, um casalzinho muito educado. Os guris também são de pele branquinha e com algumas sardas, cabelos loiros, olhos claros, com um tom azulado. Os pais os chamam de polaquinhos. Todos se dizem descendentes de polacos. Todos os branquelas, por estas bandas, se dizem polacos, mesmo tendo descendência italiana ou alemã. Mas, o que é polaco? Ela insiste em dizer que é o homem que nasce na Poláquia. A mulher que nasce lá, é polaca, mas eu sei que tem gente que fala que polaca é quem já foi mulher de vida fácil, mulher dama, prostituta. Tento saber de onde vem esse conhecimento de minha auxiliar de serviços caseiros e me convenço de que seus estudos foram bem feitos, embora ela tivesse estudado em escolas públicas de bairros pobres da periferia de sua pequena cidade natal, no interior de Santa Catarina. Puro preconceito? Talvez.
Ela sempre me pede para corrigir seu português estropiado por convivências, o que lhe coloca na boca cabeludos vícios de linguagem. Diz sempre que não gostaria que as crianças ficassem ouvindo os pais falando errado dentro de casa, por isso, quando termina seu horário, sai lá de casa vai à escola, onde os dois filhos estudam para conversar com as professoras. Eterna vigilância. Na semana passada o marido, homem calmo e desconfiado, recebeu um recenseador do IBGE e a custo informou que tinha algumas terras herdadas do pai, onde “pranta calípito”. Planta o quê, senhor? Seu grau de instrução? O que é isso? Seus estudos, senhor! Só tirei a primeira série.
Mas quem organiza as finanças da casa é ela, sua mulher. Casamento na Igreja Pentecostal de Nova Vida e no cartório. Uma mulher muito inteligente e curiosa. Aprender é com ela mesma!
Quando arruma minha biblioteca, afastando os livros uns dos outros para observar se há algum sinal de cupim nas prateleiras, me surpreende com perguntas gulosas de saber, e pega, interessada, o livrão grosso, para saber como se escrevem certas palavras, que têm aqueles sons chiados, da minha fala carioca.
Ela aprendeu comigo que não existe nenhum país chamado Poláquia, mas, de vez em quando escorrega e solta um "Poláquia". Também não soube explicar ao marido que insistia em dizer que ainda iria conhecer a terra natal de sua mãe e de sua nona, lá na Poláquia. Marido, sua mãe e sua avó não são polacas, elas são brasileiras! São polacas só na cor. Confusão para ele.
Um dia eu dei uma de professor de antigamente. Venha cá, menina! Escute aí! Polaco é um adjetivo masculino ou pode ser também um substantivo masculino, pertencente ou relativo à Polônia. Pode ser o natural ou habitante da Polônia. O mesmo que polonês, termo muito usado aqui no Brasil, e desde o fim do século XIX prevalece essa denominação, principalmente nos compostos gentílicos formados por polono-, como em “polono-russo”. Antes era "polaco-russo". Está entendendo? Ela coça a cabeça e franze a face, esticando a boca horizontalmente. Com os olhos arregalados corre para pegar um lápis e papel. O senhor quer repetir isso? Sua vontade de aprender é surpreendente. Anotava e aprendia. Então, completei a aula de sociolingüística, dizendo que o termo POLACA está sendo usado, hoje, aqui entre nós, como gentílico feminino de qualquer região dos imigrantes europeus, vindos ou não da Polônia, inclusive muitos alemães. Uma forma de gíria. POLACO ou POLONÊS são nomes ou adjetivos relativos à República da Polônia, tanto quanto o idioma lá falado. Portanto, no feminino é POLACA e POLONESA. No plural, POLACAS e POLONESAS, entendeu? Agora fiquei empolgado! Vai escutando aí! Então, menina, me diga por que você está usando POLÁQUIA em vez de POLÔNIA, para designar a terra de seus antepassados? Não sei, não, senhor! Mas fala mais que eu aprendo.
Veja. Isso ocorre, devido a uma formação natural de alguns fenômenos da linguagem. Um desses fenômenos se chama analogia e é o principal. Há muitas identidades sonoras entre inúmeros nomes de países, de onde vieram famílias e mais famílias para o Brasil. Além disso, veja que em POLÁQUIA o –A- é tônico, é forte, e aparece também na palavra POLACA. Já em POLÔNIA, encontramos –O- e não –A-, o que dificulta a compreensão da origem dessa palavra. Depois, a terminação –IA- já é encontrada no final de nomes de outros países, formando rimas como TURQUIA, ESLOVÁQUIA, ITÁLIA, GRÉCIA, SUÉCIA, FINLÂNDIA, ALBÂNIA, ÁUSTRIA, BULGÁRIA, RÚSSIA, ARGÉLIA e muito mais. Está entendendo? Mais ou menos, e gesticulou com a mão direita, querendo dizer mais ou menos. É claro que essa analogia é puramente sonora - continuie - pois o sufixo –IA-, dos nomes desses países parece ser o mesmo de POLÁQUIA, que você fala, formador de substantivos, mas nem sempre com a mesma origem, alternando, ora entre o latim e o grego, como, por exemplo, pode-se dizer que é grego e não latino, nos substantivos próprios, ITÁLIA e GRÉCIA. O senhor sabe grego? Calma, preste atenção! As origens se confundem e se fundem em um só sufixo, com este som -IA-. Ah! Que o senhor falou bonito, isso falou, mesmo!
Essa história toda de POLÁQUIA mostra como se pode formular uma hipótese etimológica, baseada em fatos linguísticos reais, quando a deriva da língua corre frouxa, e tudo isso surgiu pela criatividade vocabular de minha humilde, sincera, honesta e inteligente auxiliar de serviços caseiros.
Hoje, ela não trabalha mais lá em casa. Fez concurso público para merendeira escolar da prefeitura e passou com um notão!

ATÉ A PRÓXIMA

9 de outubro de 2010

A CHEGADA


Chegar foi fácil, pois em toda cidade grande como Campinas, os táxis, aos sábados, é que procuram os clientes. Do centro ao campus da PUC me pareceu um pulo. A amplidão horizontal desses sítios me extasia e sempre parece que vejo o cortejo dos intrépidos bandeirantes com seus capitães-de-mato, surgindo de trás das touceiras de capim alto, procurando negros fugidos. Marquei com o motorista o lugar certo para me apanhar ao término das aulas, lá pela primeira meia hora da tarde. Dei-lhe meu telefone celular para qualquer desencontro. Creio que fui o primeiro a chegar. Para saber como me dirigir à sala de aula certa, fui pedir informação a uma servente, impecavelmente uniformizada. O vento frio que soprava minha ansiedade para conhecer a turma, o professor e a matéria detalhada do curso, não me deixou absolutamente desconfortável, porque a funcionária fora de uma educação a toda prova, acompanhando-me até a entrada do Setor H-5, sala 825.
Revivi durante quatro rápidas horas momentos de muita alegria, por ver jovens interessados em adquirir conhecimentos para suas pretensões de vida. Revivi o método pedagógico e a inteligência docente, a paciência e a perspicácia da fixação da aprendizagem e muito mais coisas boas da docência viva em sala de aula. Meus dias na escola não terminaram com minha aposentadoria. Aprender é uma atitude docente, decente e contínua. Misturei-me a jornalistas e a filósofos.
Gostei.
Terminado o primeiro dia de aula, ainda ruminando a excelente proposta de execução dos conteúdos programáticos do jovem professor, dirigi-me ao ponto marcado com o motorista que me trouxe e que ficou de me pegar. Esperava. O tempo passava. Os alunos de minha turma e de muitas outras em atividades hebdomadárias já tinham se dispersado. Eu estava sozinho. O taxista não viera. Não houve nenhum telefonema. Aconteceu algo. Parece que foi a única coisa que não combinou com tudo que de agradável me aconteceu naquele primeiro dia de aula. Caminhei até o portão principal e esperei. Fui salvo por um simpático grupo de estudantes, que passou alegremente me oferecendo carona. No dia seguinte recebi o telefonema do taxista se desculpando e dizendo que havia mandado seu irmão me apanhar na universidade, mas em seu carro particular, automóvel preto comum, e sem o número de meu celular. Fiquei sem saber o que dizer, diante de desculpa tão inusitada. Contei isso para meu fantasma amigo do Porto, que está viajando comigo por essas bandas de São Paulo, e se ele já não fosse do outro mundo, diria que quase morreu de rir. E concluiu fantasmagoricamente, para me agradar:
-É um cinesíforo português, pá!


ATÉ A PRÓXIMA

6 de outubro de 2010

DEPARTAMENTO DA RECEITA




Cidade muito bem estruturada, com avenidas largas, canteiros de flores, respeitada sinalização e muitos “pardais eletrônicos”, impondo respeito mais ou menos forçado ao imenso fluxo de automóveis que circula por lá. Um lindo sítio. Foi a impressão que tive de Paulínia, nos arredores de Campinas. Seu comércio se aloja entre árvores e casas bem cuidadas. O vai-e-vem agitado e nervoso dos transeuntes parece que fica atenuado pela visão lateral que eles têm dos campos e canteiros de hortaliças, à beira das avenidas do centro dessa interessante cidade paulista.
Depois de ter visitado outros municípios mais afastados, por indicação de uma garçonete, que me serviu um gostoso cafezinho em Sumaré, a cidade que tem nome de orquídea, fui almoçar nessa dinâmica e próspera Paulínia, geradora de significativa e importante parcela do produto interno bruto do Estado de São Paulo.
No shopping, retirado do Centro, fui bem servido com refeição variada e saudável. Para fazer a digestão, perambulei por seus largos corredores, despreocupadamente, mas uma agitação na porta de uma loja me chamou atenção. No topo estavam os símbolos federais da República e do Ministério da Justiça. O nome Receita Federal fora escrito com letras bem menores e quase não era percebido pelo público usuário. Certamente a fachada deveria estar em obras, pois o que denunciava esses reparos, entre outras coisas, eram alguns dizeres, pintados como se fora um rascunho ou uma prévia, para ver se seria posteriormente aprovados. Estava lá em pretas pinceladas:
DEPARTAMENTO DA RECEITA
O falatório diante da entrada da sala é que me despertou mesmo a curiosidade e, então, fui averiguar. Interessantíssimo bate boca, um verdadeiro embate, entre uma gorda senhora, vestida de panos e cores, com as mãos amparadas numa espécie de balcão, que impedia a entrada, contra alguém, lá de dentro da repartição. Ela dizia que tinha direito a todo tipo de receita, pois estava escrito ali e, portanto queria algumas delas ou todas, as de doces e as de salgados. Queria, porque queria a de um bolo de milho e a de um estrogonofe de carne. Dizia que uma boa pessoa lhe informara que é aqui que vocês dão de graça a receita desses quitutes, sem se pagar nada! Pelo que soube mais tarde, pois o fato foi muito comentado, o funcionário federal custou a convencer a ingênua senhora de que ela tinha sido mais uma vítima de uma galhofa sem graça de uns três ou quatro brincalhões de plantão.
Pelo que sei, a Receita nunca deu nada a ninguém!


ATÉ A PRÓXIMA

5 de outubro de 2010

OS GERALDOS



Já faz muito tempo! Ia com destino certo a Nova Friburgo, para descansar de uma semana exausta. Aulas pra todos os lados, desde as 7 horas da manhã em cursinhos e colégios, espalhados por diversos bairros da magnífica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Depois da Ponte Rio - Niterói, em sentido a Itaboraí, há um baixadão com uma reta sonolenta com mais de 5 quilômetros. Para ficar ligado e com toda a atenção no caminho, desliguei o rádio do carro e fixei o olhar na estrada, observando, de soslaio, a paisagem lateral. Pastos e pequenas vilas de casas toscas e muitos bares com suas mesas de sinuquinhas tristes, todos mal vestidos, com jogadores despreocupados e muitos guris magrinhos, de calção e sem camisa, correndo atrás de uma bola de borracha toda suja, sempre um perigo para os carros que nunca respeitam o limite de velocidade por ali. Passavam voando. Muitos até pela contramão.
De repente, sinalizei para a direita, diminuí a velocidade, entrei por um acostamento esburacado muito do sem-vergonha e parei em frente a uma fábrica.
Saltei, dirigi-me ao balcão e perguntei:
- Você é Geraldo?
- Não!
- O Geraldo está?
- Não há nenhum Geraldo aqui, amigo. Em que posso ajudar? Mas onde está o Geraldo, insisti.
- Ninguém aqui se chama Geraldo, por quê? Qual é o problema?
- Meu amigo, fale a verdade, você não é Geraldo?
- Pare com isso! Aqui não tem nenhum Geraldo, já disse! Meu nome é João.
- Mas o dono é Geraldo, não é?
- Não! É Jorge!
- Mas o motorista é Geraldo, vai dizer que não?
- Não, senhor! Aqui ninguém é Geraldo!
- Então está tudo errado, amigão. Mas o que o senhor quer? Não estou entendendo nada, disse o rapaz, sem saber se ria ou se irritava.
Deixei a pobre criatura abobalhada com toda aquela cena realmente incomum, mesmo porque eu estava muito seguro do que fazia e saí dali com a satisfação do dever cumprido, pois jamais poderia ceder à tentação de teatralizar uma piada incrível que se materializou naquele palco surrealista com o João, empregado do Sr. Jorge, funcionário de uma fábrica do tipo fundo-de-quintal, onde nenhum Geraldo trabalhava...
Mas um imenso painel colorido à beira da Estrada Niterói-Manilha mostrava o nome daquela insipiente indústria que confeccionava todo tipo de proteção para portas, janelas, sacadas e varandas.

TOLDOS SÃO GERALDO
Não me contive. Era o mínimo que poderia fazer.


ATÉ A PRÓXIMA

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.