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8 de novembro de 2010

V E L H A C O


VELHACO é um adjetivo da língua portuguesa que se prende ao espanhol bellaco, de radical ignorado, segundo um dos maiores filólogos de todos os tempos, o alemão W. Meyer-Lübke, apud Nascentes, in Dicionário Etimológico da língua portuguesa, Volume I. Outros insignes filólogos, como Cortesão, Figueiredo, Diez, Adolfo Coelho e Franco de Sá dão como origem de VELHACO o latim VILIS, significando vil, mais sufixo ACA. João Ribeiro, in FRASES FEITAS, já ensinava que VELHACO nada tem a ver com VELHO, não é derivado, pois, desse adjetivo. Cita como exemplo o Canto XVI, Estrofe 75 de Viriato trágico:

Repara em que aos mais retos julgadores/ Chama de sanguinários e velhacos”.


E acrescenta: “O verdadeiro étimo de VELHACO é viliacus, de vilis, significando VIL”.

Assim, não deu para entender por que André Rizek bom e lúcido comentarista esportivo do programa “TROCA DE PASSES”, do SPORTV, da Rede Globo de Televisão, Canal 39 da SKY, que eu assino, e a ele assisto, principalmente quando o Fluminense vence seus jogos, utilizou esse adjetivo nos comentários da noite do dia 7 de novembro de 2010, para caracterizar o time do Corinthians, chamando-o de time VELHACO. Disse que não se tratava de nenhuma ofensa, nem que o time paulista era composto por jogadores velhos. Bem, não entendi o epíteto dado ao sério concorrente ao título desse ano de 2010. Se o ilustre comentarista quis dizer que VELHACO poderia significar uma boa qualidade enganou-se completamente. Se consultasse o dicionário de Antônio Houaiss veria que em todas as acepções desse adjetivo há um SEMA ligado ao campo semântico daquilo que é ordinário, que não presta. Fiquei sem entender e com a impressão de que foi uma precipitação do rapaz, tentando criar uma novidade linguística, talvez! Bem, se os meus leitores quiserem anotar, creio que expliquei o étimo de VELHACO. Muitos comentaristas do futebol adoram acrescentar UM ALGO MAIS aos comentários que fazem nos programas esportivos de rádio e de televisão, contudo, às vezes, ou quase sempre, metem os pés pelas mãos. Creio que o cesteiro não deve ir além do cesto.


ATÉ A PROXIMA.

28 de outubro de 2010

COMPETÊNCIA E DESEMPENHO NA LINGUAGEM DO FUTEBOL


“Mas tem a qualidade do passe muito ruim”.


(Caio, ex-jogador e comentarista da TV Globo.


Jogo Fla X Corinthians, dia 27/10/2010, Engenhão, Rio)





Quando um comentarista de futebol se expressa, tentando analisar um momento da partida, tem ele poucos segundos para transformar seu pensamento numa frase, dentro dos padrões da língua culta. É exigir muito desse profissional. Ele recebe uma pressão psicológica muito grande, pois a rapidez das jogadas exige sua total atenção para não perder os mínimos detalhes. Ele não pode se distrair, pois os acontecimentos se modificam em segundos. E o que dizer das construções frasais que é obrigado a formular! As suas construções frasais deverão estar de acordo com o uso que fazemos de nossa língua (de qualquer língua), isto é, como o Desempenho ou o uso que fazemos dela, resultado de complexos fatores lingüísticos e extralinguísticos, quando efetivamente falamos, ouvimos, escrevemos e lemos, por exemplo. Essas mesmas construções deverão estar também de acordo com a realização dos enunciados frasais do nosso cotidiano, portanto, de acordo com o que se chama de Competência, que é o conjunto de normas ou regras internalizadas pelo indivíduo falante, que permite a ele emitir e receber mensagens da língua que utiliza para se comunicar. Pode-se dizer que essa Competência é o conhecimento que os indivíduos falantes têm de sua própria língua. Todos nós temos conhecimento de nossa língua e com ela nos expressamos. Assim, passamos a entender o outro, mas ambos, emissor falante e receptor ouvinte não têm consciência das regras que lhes permitem usar sua língua. O lingüista tem por tarefa investigar e explicar esse fenômeno. Vamos tentar. Para tanto, precisamos completar o raciocínio. Há frases que são aceitas por todos, tanto pelo falante, como pelo ouvinte. São consideradas normais. Numa narração de futebol o narrador diz: “O jogo está apresentando muitos passes errados por parte dos jogadores dos dois times”. Todos entendem. Por outro lado, é fácil concluir que pode haver frases que não se entendem imediatamente ou se apresentam sem sentido. Logo, umas são aceitáveis e outras não são aceitáveis. Essa aceitabilidade é um fenômeno intuitivo. Agora, existe uma sutileza, relacionada com à aceitabilidade, conhecida como gramaticidade, que se relaciona com aquela aceitabilidade vista há pouco, mas não se identifica com ela. Essa gramaticidade se refere a uma ordenação, organização, norma, gramática mesmo, internalizada no indivíduo falante/ouvinte, que gera certas sequências e exclui outras. Isso está ligado à competência. Já a aceitabilidade é uma noção ligada ao estudo do desempenho. Quando os locutores e comentaristas dos jogos de futebol transmitidos pela televisão e pelo rádio, ficam empolgados com o jogo, passam essa empolgação para suas análises e quase sempre ocorre o que didaticamente chamamos de incompetência da competência de falar. Isso é comum, mesmo sendo esses profissionais constantemente testados pelas empresas jornalísticas onde trabalham, pois eles possuem, por obrigação de ofício, estudo formal, o que lhes proporciona alguma facilidade de expressão e isso facilita muito seus comentários. Muitos desses profissionais, entretanto, ficaram conhecidos por desrespeitarem quase sempre a norma culta da língua e, principalmente, por se expressarem, construindo uma fraseologia própria, como era o caso do saudoso e vibrante Mário Vianna (com dois enes, como gostava de ser chamado), comentarista de arbitragem dos anos 70, no rádio e na televisão. Os comentaristas de hoje, descobriram outras formas de encenação e se apresentam principalmente na televisão. Apresentam-se quase sempre com um visual bem produzido, numa tentativa semiológica, talvez, de amenizar, com os elegantes fatos com que se vestem o fato de maltratar a norma culta da língua. Mas nos comentários de futebol, transgredir a norma culta não é lá um grande pecado. O grande pecado é pousar de autoridade e escorregar nas construções lingüísticas. A linguagem que se deve utilizar nessas ocasiões, nos comentários relacionados aos acontecimentos no campo de jogo não deve ser o registro culto da língua e sim seu registro menos rígido, menos formal, mais descontraído, digamos: seu registro familiar. Isto porque a emoção é muito significativa e está intensamente presente nos comentários desses profissionais. Deixemos a gramaticidade reger esses comentários e aceitemos os registros menos cultos da fala, sem crucificar a metalinguagem desses profissionais esportivos. Hoje mesmo, no jogo entre Flamengo e Corinthians, no "Engenhão", o ex-jogador, Caio, agora comentarista da Rede Globo de Televisão me saiu com essa: “Mas ele tem a qualidade do passe muito ruim”. Caramba! Está aí o exemplo em que se mostra a aceitabilidade como uma noção ligada ao desempenho. Se o passe é ruim, onde está a qualidade? A norma culta aceita? Não, mas a frase possui gramaticidade e a aceitabilidade intuitivamente se relacionou diretamente ao desempenho lingüístico do comentarista, que por fatores extralingüísticos, desta forma estranha se manifestou. Deu para entender? Deu. Mas, agora, o difícil de entender é o figurino de toda equipe de radialistas, locutores, comentaristas, repórteres e alguns figurantes, que se apresentam impecavelmente uniformizados, com um comportamento visivelmente integrado, para trabalhar num show eminentemente apocalíptico, como é o espetáculo do jogo de futebol. Que o diga Umberto Eco!
ATÉ A PRÓXIMA

26 de outubro de 2010

BORBULHOS LÍRICOS E BARROCOS

Eduardo Meneghelli Júnior está relançando seu livro de poesias Borbulhos Mentais, pela Nova Letra, Editora. São quase cem poemas em versos livres, na linha modernista do poema-processo, com recorrências formais e uma formatação que lembra as espirais de Cassiano Ricardo, em Jeremias sem Chorar e Haroldo de Campos em seu concretismo barroco. A estrofação se apresenta com versos livres e curtos, predominando os versos de cinco e sete sílabas, as redondilhas menor e maior. Em sua figuração concretista, quase sempre relaciona formas a conteúdos, num sentido primeiro para a vista e, posteriormente, para a reflexão. Assim, fundo e forma se harmonizam nos versos autóctones e populares da lírica occitânica. A forte figura materna está presente em toda a obra, surgindo de forma explícita ou de forma velada. Mas a grande figura de mulher que assume o lugar de musa inspiradora é sua esposa. A ela logo se dirige, numa declaração manifesta de amor, no poema Pensando... “Quero e vou amar você./Sandra!” Nesse poema os versos em redondilha maior predominam, vindo em seguida os em redondilha menor. Contudo, a metrificação não obedece a nenhum padrão, o que não significa perda de qualidade, pois o fluxo borbulhante do pensamento poético de Eduardo Maneghelli Jr. é mesmo assim. Vem surgindo através de fluxos e refluxos interpretativos de sua realidade. Sua poesia (Poesia Vida) é como sua vida, um poema que pode trazer tanto a paz, a calmaria e a alegria, como a tempestade, a discórdia, o sofrimento. Sua vida é uma transgressão a inúmeros padrões estéticos, assim como sua poesia, eivada de um barroquismo conflitual, não entre o espírito e a matéria, mas entre o amor e a dor, beirando o realismo fingido: “O amor não existe, é uma ação/de duas pessoas que se encontram/e descobrem que quem manda é o coração,/por isso existe o sentimento:afeição!”. Eduardo é um apaixonado pela vida. Os títulos de seus poemas isso denunciam manifestamente. Assim: Apaixonado; Sonho; Para Você Especial; Amor, por exemplo. Para o poeta, o mundo é muito pequeno e ele não cabe mais aqui, por isso, no poema Vou ou Não? , cuja concepção gráfica é “sui generis”, cópia xerocada de uma folha de caderno espiral em texto cursivo, Eduardo prepara a fuga, sonhando e dizendo “Vou por uma perna/para fora do universo!”. Termina o poema quando a ilusão desaparece: “Só em pensar/em acordar/e ter que/voltar à realidade...” O poeta tem aí o seu escapismo bem nitidamente marcado. Portanto, a poesia de Eduardo Meneghelli Jr. passa, nesse seu livro Borbulhos Mentais, pelo artifício gráfico dos recursos concretistas e também por uma vereda semiológica, que deve ser explorada, numa leitura minuciosa, pois esses recursos introduzem, sem dúvida alguma, novos significados à escrituração, produzindo inúmeras formas expressivas, que merecem uma exaustiva análise literária, tanto no campo dos significados, como no domínio do significante lingüístico. Mas isso será para outra ocasião. Aproveite, leitor, esses Borbulhos Mentais de Eduardo Meneghelli Jr. e veja se não é isso mesmo!

ATÉ A PRÓXIMA

25 de outubro de 2010

UMA VISITA A CAMPINAS - SÃO PAULO -

A estação das flores sempre me despertou a vontade de viajar pelo interior do Brasil. As matas que ainda restam, do Atlântico ao cerrado, ficam, nessa época, mescladas de flores e cores. Tomei o caminho da microrregião de Campinas, por onde, em tempos remotos, passaram bandeirantes, tropeiros e muita emoção, em direção às colinas do interior. Instalei-me. Há muitos anos não andava por esses recantos. Fui visitar a 29ª Expoflora, em Holambra. Maravilhosa harmonização multicor entre a mata e o jardim. O calor pedia que eu ligasse o ar condicionado do carro no máximo. Uma seca no interior do país, provocada por fenômenos meteorológicos nos oceanos castigava a região. Os focos de incêndio, muitas vezes criminosos, ardiam e o capinzal ao lado das estradas pegava fogo. O fumo negro do mato que tomava altura impedia a boa visibilidade nas pistas de rolamento, quase todas muito bem pedagiadas. Os policiais rodoviários fizeram com que eu parasse num refúgio, pois a fumaça ofuscava totalmente a visão de todos. A espera durou uns quarenta minutos. Sentado, ao volante, dentro do carro, ar condicionado a todo vapor, esperando o vento mudar de direção, penso até que dormi. Gosto de tirar uma soneca. Se dormi, sonhei. Mas não demorou muito e as brigadas dos bombeiros cumpriram sua missão. Foram perfeitas em seu trabalho. O vento virou e logo a estrada já estava pronta para todos seguirem seus destinos. Havia, agora, pouca fumaça. Não deu outra, meu amigo fantasmagórico, aproveitando todo aquele ambiente propício à sua materialização, me cumprimentou do banco da trás, dizendo que nebulosidade é com ele mesmo... “Não me lembro de ter estado consigo visitando estes sítios, mas não me são totalmente estranhos”, disse, empregando sua sintaxe lusitana, um pouco diferente da forma com que construímos, aqui, as frases com esse pronome pessoal de terceira pessoa, para nós só reflexivo. Logo fui lhe mostrando os belos prados cultivados. Os cafezais em flor, com as touceiras bem alinhadas. Os cítricos e harmoniosos pomares. As laranjeiras com seus brincos alaranjados... Os canaviais dançando ao vento, ao som dos acordes de O Guarani do glorioso Carlos Gomes. Mostrava-lhe também as folhas rasteiras das dietéticas hortaliças, que se estendiam pelas colinas a fora, a perderem-se de vista... “Parecem-me terras do pouso das Campinas do Mato Grosso, pá!” Disse-me todo entusiasmado, reconhecendo, com sua visão atemporal, os descampados de uma antiga região de mata fechada, um insipiente bairro rural de 1767, hoje fervilhante de modernidades. “Tu confirmas que isto por cá é região de Campinas?” Disse-lhe que sim. E ele continuou: “Estamos, pois, em terras, de certa forma, desbravadas e administradas por um membro distante de minha família. Os Lemes saíram das ilhas oceânicas de Portugal, creio que da Ilha da Madeira, se não me falha a memória e, depois de muita movimentação pelo continente, seus descendentes chegaram ao Brasil. A linhagem dos Lemes é fidalga. Conheci muitos deles e me recordo agora, perfeitamente, da fisionomia de Francisco Barreto Leme, o fundador desses sítios”. Fiquei contentíssimo por ver meu amigo do outro mundo dissertando com tanto entusiasmo sobre fatos já tão esquecidos de muita gente. Devo, aqui, esclarecer ao leitor, para que não se assuste com a longevidade desse fantasma amigo, pois na eternidade, onde essa diáfana criatura vive, o tempo não mais se conta por datas, isto é, não existe o antes nem o depois. Só existe o fato, o qual se apresenta aos olhos de quem esse tempo contempla, de acordo com o que era quando começou. Parece complicado, mas quando ele me explicou isso, entendi perfeitamente. Mistérios de Deus... As suas lembranças se materializaram e meu hialino amigo foi me relatando a história daquele lugar. Ou melhor, foi me dizendo o que aquilo tudo fora e continua sendo, só que vibrantemente modificado. Coisas de fantasma, mesmo. E suas lembranças faziam-no se reportar aos Lemes. “O Francisco Barreto foi um bom homem. Trabalhador, honesto, generoso e de muita crença. Seus filhos apoiaram a doação de um terreno para construir uma pequena igreja, a primeira em Campinas de Mato Grosso”. Com uma igreja funcionando, funciona todo o resto, meu caro, disse-lhe quase como co-autor daquela incrível história. “Isso mesmo”, retrucou entusiasmado, e continuou. “Os habitantes da região se reuniram logo por ali e tudo cresceu muito rápido, mas há muito não vinha por estas bandas! Que progresso! Gostava mais dos tempos pretéritos”. Fiquei na dúvida, mas não tirei sua razão.


ATÉ A PRÓXIMA

18 de outubro de 2010

UM ESTRANHO PAÍS


Ela se considera brasileira como seus pais, mas seus avós não. Eles são polacos, vieram bem jovens da Poláquia para o interior de Santa Catarina. Muitas moças por aqui têm a pele muito clara. Sua família é assim. Seu marido e dois filhos, um casalzinho muito educado. Os guris também são de pele branquinha e com algumas sardas, cabelos loiros, olhos claros, com um tom azulado. Os pais os chamam de polaquinhos. Todos se dizem descendentes de polacos. Todos os branquelas, por estas bandas, se dizem polacos, mesmo tendo descendência italiana ou alemã. Mas, o que é polaco? Ela insiste em dizer que é o homem que nasce na Poláquia. A mulher que nasce lá, é polaca, mas eu sei que tem gente que fala que polaca é quem já foi mulher de vida fácil, mulher dama, prostituta. Tento saber de onde vem esse conhecimento de minha auxiliar de serviços caseiros e me convenço de que seus estudos foram bem feitos, embora ela tivesse estudado em escolas públicas de bairros pobres da periferia de sua pequena cidade natal, no interior de Santa Catarina. Puro preconceito? Talvez.
Ela sempre me pede para corrigir seu português estropiado por convivências, o que lhe coloca na boca cabeludos vícios de linguagem. Diz sempre que não gostaria que as crianças ficassem ouvindo os pais falando errado dentro de casa, por isso, quando termina seu horário, sai lá de casa vai à escola, onde os dois filhos estudam para conversar com as professoras. Eterna vigilância. Na semana passada o marido, homem calmo e desconfiado, recebeu um recenseador do IBGE e a custo informou que tinha algumas terras herdadas do pai, onde “pranta calípito”. Planta o quê, senhor? Seu grau de instrução? O que é isso? Seus estudos, senhor! Só tirei a primeira série.
Mas quem organiza as finanças da casa é ela, sua mulher. Casamento na Igreja Pentecostal de Nova Vida e no cartório. Uma mulher muito inteligente e curiosa. Aprender é com ela mesma!
Quando arruma minha biblioteca, afastando os livros uns dos outros para observar se há algum sinal de cupim nas prateleiras, me surpreende com perguntas gulosas de saber, e pega, interessada, o livrão grosso, para saber como se escrevem certas palavras, que têm aqueles sons chiados, da minha fala carioca.
Ela aprendeu comigo que não existe nenhum país chamado Poláquia, mas, de vez em quando escorrega e solta um "Poláquia". Também não soube explicar ao marido que insistia em dizer que ainda iria conhecer a terra natal de sua mãe e de sua nona, lá na Poláquia. Marido, sua mãe e sua avó não são polacas, elas são brasileiras! São polacas só na cor. Confusão para ele.
Um dia eu dei uma de professor de antigamente. Venha cá, menina! Escute aí! Polaco é um adjetivo masculino ou pode ser também um substantivo masculino, pertencente ou relativo à Polônia. Pode ser o natural ou habitante da Polônia. O mesmo que polonês, termo muito usado aqui no Brasil, e desde o fim do século XIX prevalece essa denominação, principalmente nos compostos gentílicos formados por polono-, como em “polono-russo”. Antes era "polaco-russo". Está entendendo? Ela coça a cabeça e franze a face, esticando a boca horizontalmente. Com os olhos arregalados corre para pegar um lápis e papel. O senhor quer repetir isso? Sua vontade de aprender é surpreendente. Anotava e aprendia. Então, completei a aula de sociolingüística, dizendo que o termo POLACA está sendo usado, hoje, aqui entre nós, como gentílico feminino de qualquer região dos imigrantes europeus, vindos ou não da Polônia, inclusive muitos alemães. Uma forma de gíria. POLACO ou POLONÊS são nomes ou adjetivos relativos à República da Polônia, tanto quanto o idioma lá falado. Portanto, no feminino é POLACA e POLONESA. No plural, POLACAS e POLONESAS, entendeu? Agora fiquei empolgado! Vai escutando aí! Então, menina, me diga por que você está usando POLÁQUIA em vez de POLÔNIA, para designar a terra de seus antepassados? Não sei, não, senhor! Mas fala mais que eu aprendo.
Veja. Isso ocorre, devido a uma formação natural de alguns fenômenos da linguagem. Um desses fenômenos se chama analogia e é o principal. Há muitas identidades sonoras entre inúmeros nomes de países, de onde vieram famílias e mais famílias para o Brasil. Além disso, veja que em POLÁQUIA o –A- é tônico, é forte, e aparece também na palavra POLACA. Já em POLÔNIA, encontramos –O- e não –A-, o que dificulta a compreensão da origem dessa palavra. Depois, a terminação –IA- já é encontrada no final de nomes de outros países, formando rimas como TURQUIA, ESLOVÁQUIA, ITÁLIA, GRÉCIA, SUÉCIA, FINLÂNDIA, ALBÂNIA, ÁUSTRIA, BULGÁRIA, RÚSSIA, ARGÉLIA e muito mais. Está entendendo? Mais ou menos, e gesticulou com a mão direita, querendo dizer mais ou menos. É claro que essa analogia é puramente sonora - continuie - pois o sufixo –IA-, dos nomes desses países parece ser o mesmo de POLÁQUIA, que você fala, formador de substantivos, mas nem sempre com a mesma origem, alternando, ora entre o latim e o grego, como, por exemplo, pode-se dizer que é grego e não latino, nos substantivos próprios, ITÁLIA e GRÉCIA. O senhor sabe grego? Calma, preste atenção! As origens se confundem e se fundem em um só sufixo, com este som -IA-. Ah! Que o senhor falou bonito, isso falou, mesmo!
Essa história toda de POLÁQUIA mostra como se pode formular uma hipótese etimológica, baseada em fatos linguísticos reais, quando a deriva da língua corre frouxa, e tudo isso surgiu pela criatividade vocabular de minha humilde, sincera, honesta e inteligente auxiliar de serviços caseiros.
Hoje, ela não trabalha mais lá em casa. Fez concurso público para merendeira escolar da prefeitura e passou com um notão!

ATÉ A PRÓXIMA

9 de outubro de 2010

A CHEGADA


Chegar foi fácil, pois em toda cidade grande como Campinas, os táxis, aos sábados, é que procuram os clientes. Do centro ao campus da PUC me pareceu um pulo. A amplidão horizontal desses sítios me extasia e sempre parece que vejo o cortejo dos intrépidos bandeirantes com seus capitães-de-mato, surgindo de trás das touceiras de capim alto, procurando negros fugidos. Marquei com o motorista o lugar certo para me apanhar ao término das aulas, lá pela primeira meia hora da tarde. Dei-lhe meu telefone celular para qualquer desencontro. Creio que fui o primeiro a chegar. Para saber como me dirigir à sala de aula certa, fui pedir informação a uma servente, impecavelmente uniformizada. O vento frio que soprava minha ansiedade para conhecer a turma, o professor e a matéria detalhada do curso, não me deixou absolutamente desconfortável, porque a funcionária fora de uma educação a toda prova, acompanhando-me até a entrada do Setor H-5, sala 825.
Revivi durante quatro rápidas horas momentos de muita alegria, por ver jovens interessados em adquirir conhecimentos para suas pretensões de vida. Revivi o método pedagógico e a inteligência docente, a paciência e a perspicácia da fixação da aprendizagem e muito mais coisas boas da docência viva em sala de aula. Meus dias na escola não terminaram com minha aposentadoria. Aprender é uma atitude docente, decente e contínua. Misturei-me a jornalistas e a filósofos.
Gostei.
Terminado o primeiro dia de aula, ainda ruminando a excelente proposta de execução dos conteúdos programáticos do jovem professor, dirigi-me ao ponto marcado com o motorista que me trouxe e que ficou de me pegar. Esperava. O tempo passava. Os alunos de minha turma e de muitas outras em atividades hebdomadárias já tinham se dispersado. Eu estava sozinho. O taxista não viera. Não houve nenhum telefonema. Aconteceu algo. Parece que foi a única coisa que não combinou com tudo que de agradável me aconteceu naquele primeiro dia de aula. Caminhei até o portão principal e esperei. Fui salvo por um simpático grupo de estudantes, que passou alegremente me oferecendo carona. No dia seguinte recebi o telefonema do taxista se desculpando e dizendo que havia mandado seu irmão me apanhar na universidade, mas em seu carro particular, automóvel preto comum, e sem o número de meu celular. Fiquei sem saber o que dizer, diante de desculpa tão inusitada. Contei isso para meu fantasma amigo do Porto, que está viajando comigo por essas bandas de São Paulo, e se ele já não fosse do outro mundo, diria que quase morreu de rir. E concluiu fantasmagoricamente, para me agradar:
-É um cinesíforo português, pá!


ATÉ A PRÓXIMA

6 de outubro de 2010

DEPARTAMENTO DA RECEITA




Cidade muito bem estruturada, com avenidas largas, canteiros de flores, respeitada sinalização e muitos “pardais eletrônicos”, impondo respeito mais ou menos forçado ao imenso fluxo de automóveis que circula por lá. Um lindo sítio. Foi a impressão que tive de Paulínia, nos arredores de Campinas. Seu comércio se aloja entre árvores e casas bem cuidadas. O vai-e-vem agitado e nervoso dos transeuntes parece que fica atenuado pela visão lateral que eles têm dos campos e canteiros de hortaliças, à beira das avenidas do centro dessa interessante cidade paulista.
Depois de ter visitado outros municípios mais afastados, por indicação de uma garçonete, que me serviu um gostoso cafezinho em Sumaré, a cidade que tem nome de orquídea, fui almoçar nessa dinâmica e próspera Paulínia, geradora de significativa e importante parcela do produto interno bruto do Estado de São Paulo.
No shopping, retirado do Centro, fui bem servido com refeição variada e saudável. Para fazer a digestão, perambulei por seus largos corredores, despreocupadamente, mas uma agitação na porta de uma loja me chamou atenção. No topo estavam os símbolos federais da República e do Ministério da Justiça. O nome Receita Federal fora escrito com letras bem menores e quase não era percebido pelo público usuário. Certamente a fachada deveria estar em obras, pois o que denunciava esses reparos, entre outras coisas, eram alguns dizeres, pintados como se fora um rascunho ou uma prévia, para ver se seria posteriormente aprovados. Estava lá em pretas pinceladas:
DEPARTAMENTO DA RECEITA
O falatório diante da entrada da sala é que me despertou mesmo a curiosidade e, então, fui averiguar. Interessantíssimo bate boca, um verdadeiro embate, entre uma gorda senhora, vestida de panos e cores, com as mãos amparadas numa espécie de balcão, que impedia a entrada, contra alguém, lá de dentro da repartição. Ela dizia que tinha direito a todo tipo de receita, pois estava escrito ali e, portanto queria algumas delas ou todas, as de doces e as de salgados. Queria, porque queria a de um bolo de milho e a de um estrogonofe de carne. Dizia que uma boa pessoa lhe informara que é aqui que vocês dão de graça a receita desses quitutes, sem se pagar nada! Pelo que soube mais tarde, pois o fato foi muito comentado, o funcionário federal custou a convencer a ingênua senhora de que ela tinha sido mais uma vítima de uma galhofa sem graça de uns três ou quatro brincalhões de plantão.
Pelo que sei, a Receita nunca deu nada a ninguém!


ATÉ A PRÓXIMA

5 de outubro de 2010

OS GERALDOS



Já faz muito tempo! Ia com destino certo a Nova Friburgo, para descansar de uma semana exausta. Aulas pra todos os lados, desde as 7 horas da manhã em cursinhos e colégios, espalhados por diversos bairros da magnífica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Depois da Ponte Rio - Niterói, em sentido a Itaboraí, há um baixadão com uma reta sonolenta com mais de 5 quilômetros. Para ficar ligado e com toda a atenção no caminho, desliguei o rádio do carro e fixei o olhar na estrada, observando, de soslaio, a paisagem lateral. Pastos e pequenas vilas de casas toscas e muitos bares com suas mesas de sinuquinhas tristes, todos mal vestidos, com jogadores despreocupados e muitos guris magrinhos, de calção e sem camisa, correndo atrás de uma bola de borracha toda suja, sempre um perigo para os carros que nunca respeitam o limite de velocidade por ali. Passavam voando. Muitos até pela contramão.
De repente, sinalizei para a direita, diminuí a velocidade, entrei por um acostamento esburacado muito do sem-vergonha e parei em frente a uma fábrica.
Saltei, dirigi-me ao balcão e perguntei:
- Você é Geraldo?
- Não!
- O Geraldo está?
- Não há nenhum Geraldo aqui, amigo. Em que posso ajudar? Mas onde está o Geraldo, insisti.
- Ninguém aqui se chama Geraldo, por quê? Qual é o problema?
- Meu amigo, fale a verdade, você não é Geraldo?
- Pare com isso! Aqui não tem nenhum Geraldo, já disse! Meu nome é João.
- Mas o dono é Geraldo, não é?
- Não! É Jorge!
- Mas o motorista é Geraldo, vai dizer que não?
- Não, senhor! Aqui ninguém é Geraldo!
- Então está tudo errado, amigão. Mas o que o senhor quer? Não estou entendendo nada, disse o rapaz, sem saber se ria ou se irritava.
Deixei a pobre criatura abobalhada com toda aquela cena realmente incomum, mesmo porque eu estava muito seguro do que fazia e saí dali com a satisfação do dever cumprido, pois jamais poderia ceder à tentação de teatralizar uma piada incrível que se materializou naquele palco surrealista com o João, empregado do Sr. Jorge, funcionário de uma fábrica do tipo fundo-de-quintal, onde nenhum Geraldo trabalhava...
Mas um imenso painel colorido à beira da Estrada Niterói-Manilha mostrava o nome daquela insipiente indústria que confeccionava todo tipo de proteção para portas, janelas, sacadas e varandas.

TOLDOS SÃO GERALDO
Não me contive. Era o mínimo que poderia fazer.


ATÉ A PRÓXIMA

26 de agosto de 2010

O QUASE PICARESCO PEDRINHO MENEZ

Como no ditado popular que diz que quem conta um conto aumenta um ponto, tentarei, sem nenhum ranço de crítica impressionista, acrescentar o meu ponto, interpretando o texto de Flávio José Cardozo, PEDRINHO VAI VOLTAR RICO, publicado em Zélia e outros, segundo livro de contos desse produtivo autor catarinense.
A história de vida do personagem Pedrinho é um entre-lugar: a pretensão de ser e o projeto de ter, envolvido pelo trauma da partida e a fugaz alegria do retorno, costurado por um discurso moralista, sem falsa moralidade.
O conto retrata uma cena da vida interiorana, de cidade pequena de municípios de poucas atividades econômicas, em épocas mais distantes dos dias de hoje. Trata-se de uma fábula moderna sobre o filho pródigo, caipira, mais o filho do que a fábula e tudo com um final não muito feliz, mas reflexivo e poético, por transfigurar a realidade e fundar novos significados.
A narrativa propõe um desfecho mágico, mostrando-nos sinais ou presságios de desilusões, envolvida a narrativa por discursos diretos, indiretos e indiretos-livres, servindo-se o autor de correlações de idéias, colocando a realidade de Pedrinho fora de seu ambiente, de sua casa, dirigindo-o para a grande cidade (Porto Alegre) ou fazendo-o se deslocar para outros sítios menores.
Através dessas correlações de idéias, como nas participações dos personagens envolvidos na urdidura da ação, a trama vai se desenrolando, surgindo verdadeiros mosaicos narrativos, que marcam e descrevem os acontecimentos como peças disformes. Essas peças em mosaico, lidas, não cursivamente, mas salteadas, montam a estória preparada pelo autor, forjando o comportamento respeitável de Pedrinho. Então, a imagem do filho pródigo que se autoexilou vai cativando o leitor, numa escritura simples com poucos recursos estilísticos, mas deixando reservado o grande momento da transfiguração para o final imprevisto, como transgressor de uma realidade, que se presentifica como fantasiosa, consubstanciando a neurose, pois a fantasia foi passada como real. Eis o valor intrínseco, portanto literário, desse conto de Flávio José Cardoso, cujo liame poético com Frederico Garcia Lorca, iniciando o conto, introduz a esperança, talvez a última virtude de nosso quase picaresco personagem Pedrinho.


ATÉ A PRÓXIMA

24 de agosto de 2010

VALE A PENA VER DE NOVO


Parodiando a Rede Globo de Televisão, orgulhosamente apresentamos, nessa época de reflexão eleitoral, a atualização do antigo texto:


UMA OPERAÇÃO FURACÃO QUE SE TRANSFORMOU EM VENTINHO TROPICAL

O Brasil atual é ainda a família portuguesa que aqui se multiplicou, após a chegada de D. João VI. A coisa foi dividida assim: um grupo com todas as regalias e poder tomava conta de vários grupos com menos regalias e com poucos poderes. Essa classe, ou grupo, tomava conta dos escravos e podia fazer qualquer coisa com os pobres infelizes. Os índios, bem, esses só serviam para indicar o caminho da roça e para morrer, desde que bem batizados pelos padres que fingiam estar do lado dos mais fracos, mas jantavam nos palácios e comiam as migalhas do banquete, dando à santa madre igreja as pingues fatias do bolo. Depois as duas primeiras classes ou grupos sociais disseram que todo mundo seria igual perante a Lei.
Que negócio é esse? Quem rouba ou mata tem que ir é para a cadeia! Seja pobre, ou seja, rico. Seja trabalhador ou desempregado. Seja funcionário público ou jogador de futebol (parece que um já foi, não é Bruno?). Seja delegado, juiz ou desembargador.
Mas vejam. Essa indignação é cíclica, isto é, de vez em quando mexe com o brio da sociedade e com os cidadãos de bem. Observem esses dois poemas de Oswald de Andrade, de 1922. Antes de apresentá-los, quero dizer que o discurso do poeta é o primeiro que surge como forma de indignação e protesto, pois ele é transgressor, isto é, vai contra a ordem estabelecida da língua e contra as patifarias dos poderosos. Assim, o discurso do poeta denuncia é denunciador. Mas vamos aos dois poemas.

(1º) RELICÁRIO

“No baile da Corte
Foi o Conde d’Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê, bebê, pitá e caí”.

(2º) SENHOR FEUDAL

“Se Pedro Segundo
Vier aqui
Com história
Eu boto ele na cadeia”.


Esses dois poemas de nosso maior poeta modernista, Oswald de Andrade, são discursos de humor que estabelecem a relação selva-escola, que por se darem bem, forjaram nossa cultura, logo, será relíquia e o que a detém será o relicário. Nesse primeiro poema, o real é mostrado como fantasia, dando-lhe um banho de imaginação ou de ficção, pois a nossa relíquia é um entre-lugar: o “comê, bebê, pitá e caí”.

Já no segundo poema, Senhor Feudal, o poder é criticado pelo próprio poder, pois o símbolo do absolutismo, D. Pedro II, dono do poder, surpreendentemente é punido pelo mesmo poder, representado pela cadeia, tudo de maneira imprevista.


O Brasil sempre foi isso, minha gente! Como é que esses desembargadores, juizes, delegados, advogados, senadores, deputados e outros corruptos privilegiados podem ficar presos, se são eles os donos da chave da cadeia?
Somos ou não somos o desdobramento daquela família portuguesa de 1808?

Ainda bem que chegou essa tal Lei da Ficha Limpa. Vamos ver se pega!


ATÉ A PRÓXIMA

16 de agosto de 2010

BOLOS, BOLINHOS, DOCES E DOCINHOS


Eu sempre escrevo, alguma coisa sobre esse tema. A falta de capricho na culinária que as cidades turísticas brasileiras oferecem a nós todos, turistas ou não, chega a ser irritante, deixando-me realmente indignado. Mas esse desleixo com a arte de se comer bem não é só privilégio de sítios do interior, não! Isso acontece no Rio de Janeiro e em São Paulo, também. Mas nas grandes cidades, a oferta das coisas boas supera as medíocres oferendas de bolos, bolinhos, doces e docinhos, que são típicos das cidadezinhas interioranas. E o que dizer dos pasteis, quindins, salgadinhos, balas, bombons, canudinhos, doces em calda, tudo de péssima qualidade, vendido em tabuleiros ou em vitrines de padarias ou em quiosques? Quando alguns desses bolinhos são de agradável gosto, apresentam-se grosseiros, mal acabados e de aspecto horrível. Se você for a qualquer país europeu, em qualquer festinha popular de subúrbio, em qualquer padaria de bairro vai encontrar doces e salgados de excelente qualidade, um regalo à vista e ao nosso faminto instinto devorador de coisinhas apetitosas... Formatos agradáveis, petiscos que dão água na boca! Tudo sem estar besuntado em manteiga de qualidade duvidosa e glacê estupidamente açucarado. Nada é fritado em óleo vagabundo. Possuem tamanho recomendado pela etiqueta gastronômica, o que vale dizer que se apresentam com um visual fino, e sua forma agrada tanto aos olhos quanto ao paladar. Mas aqui no Brasil ninguém capricha nisso. Nas confeitarias do interior, os empregados dizem que os patrões são alemães, italianos, húngaros, japoneses, espanhóis ou asiáticos e sabem fazer coisa boa. Mas eu desconfio de todos eles que trabalham assim equivocadamente, pois viajo muito e já provei coisas terríveis. São todos confeiteiros, cozinheiros, auxiliares e pseudochefs de cozinha carroceiros, isso sim! Até nas capitais encontram-se esses verdadeiros mata-fomes. Se você for a Curitiba e perguntar onde se come uma típica comida italiana, o homem humilde da rua lhe indicará o bairro de Santa Felicidade. Ledo engano! Lá, a maioria dos estabelecimentos de comida típica italiana é representante da culinária brega. Eu disse BREGA, não confundir com BELGA, que é outra coisa muito diferente, e lembra chocolates maravilhosos!!! Em Santa Felicidade existe um tipo de comida italiana fajuta e carroceira, mal feita, herança dos colonos incultos que para aqui vieram e trouxeram receitas horrorosas e se dizem representantes da típica comida romana. Comida italiana com requinte você vai encontrar no bairro do Batel. Nas cidades-balneário de Santa Catarina é a mesma coisa. Na festa da Marejada em Itajaí, por exemplo, vende-se o mais vagabundo quitute de peixe, fritado em óleo ordinário, cuja fumaça e odor rivalizam com o ar azedo da cozinha das páginas do romance O Cortiço de Aluisio Azevedo, surgindo atrás dos balcões, nos dias de festa, inúmeros Joões Romões e Bertolezas, envolvendo o visitante num ambiente selvagem de ganância capitalista, enganando a todos, inclusive descaracterizando os pratos típicos dessa bonita região praiana. Em quase todas as cidades por estas bandas, nos dias de festas, nos hotéis e nas confeitarias, que servem o tal café colonial, o engodo é o mesmo, só que o disfarce vem travestido de nomes alemães, com tortas soladas, suflês sem gosto, pastas insossas, sopas e canjas intragáveis. Isso sem falar do chocolate, que muitas das vezes é o nosso conhecidíssimo Tody de antigamente, um achocolatado em pó, diluído em leite quente. Assim, o turista fica muito triste, e ele, que não é bobo, vai gastar seu rico dinheirinho em outras plagas, onde os sabores das comidinhas típicas servem para agradar, tanto o estômago quanto o coração, indicando outras plagas a todos os seus amigos e parentes, pois é muito bom a gente se refestelar com os genuínos sabores de uma culinária sadia, honesta e saborosa.

ATÉ A PRÓXIMA

6 de agosto de 2010

OS PÉS DE LAURA


Maurício Murad lançará no próximo dia 21 de agosto, sábado, o romance OS PÉS DE LAURA.
O evento acontecerá na Livraria do Museu da República, a partir das 16 horas, no Palácio do Catete, Rua do Catete, 153. Há estacionamento e a Estação do Metrô-Catete fica em frente.
Os romances de Maurício Murad se caracterizam por uma linguagem escorreita que agrada por trazer um humor velado e sua sensibilidade capta do cotidiano aquilo que não percebemos imediatamente no ambiente circundante. Seus textos em prosa são carregados de lirismo poético, inseridos entre o clássico e o moderno, sem serem modernosos, com sentidas reflexões sobre a vida, que deseja viver plenamente, sempre a nos surpreender.
Vale a pena conferir mais esse romance de Maurício Murad, um apaixonado pelas letras, pelos esportes e pelas artes em geral.
Mais uma obra sua lançada pela Editora 7 Letras.
ATÉ A PRÓXIMA

29 de julho de 2010

O PORTUGUÊS VULGAR


Durante esses anos que estou no sul do Brasil, cinco em Curitiba, Paraná, e seis em Balneário Camboriú, Santa Catarina, venho observando que nesses sítios a Língua Portuguesa está se transformando em “português vulgar”, como aconteceu com o latim na Península Ibérica, após o desmoronamento do Império Romano. Aqui em Santa Catarina o falar regional até parece um caçanje do Português. Há muitos e muitos anos atrás, na Península Ibérica ocupada pelos romanos, as instituições, marcas e símbolos de uma sociedade, entre elas a Escola, se esfacelaram, com a invasão visigótica, deixando o “romance”, entregue à sua própria deriva. Desse "romance", o latim vulgar modificado, falado então, surgiram, aos poucos, as diversas línguas neolatinas, nos diferentes espaços por onde vicejou a cultura do povo romano, colonizador da ibérica península. Como uma repetição histórica, a língua portuguesa, grosso modo, está se transformando, sem que os mesmos fatores externos que atuaram no "romance" peninsular, isso é verdade, se presentifiquem nessas plagas sulinas do território brasileiro. Mas as instituições sociais aqui estão em completa decadência e isso é um sinal de alarme. É só observar como a Escola está atuando na formação integral do cidadão. O Poder Legislativo está engessado pelo Executivo e seus representantes são, com raríssimas exceções, pessoas desqualificadas para o exercício do cargo, bem como despreparadas intelectualmente, sem dizer que muitos estão penalizados pela justiça, recorrendo de todas as formas legais ou não, para se livrar da Lei da “Ficha Suja”. Reconhecemos, no entanto, que muitas instituições culturais, de ensino formal ou de ensino assistemático, além de grande parcela da sociedade comprometida com tecnologias de ponta, como a internet, por exemplo, estão se esforçando para melhorar esse quadro terrível da cultura atual brasileira. Mas voltando às observações sobre o falar inculto que se generaliza nas principais cidades do sul do país, tenho observado que não se dá mais importância ao falar escorreito, ao emprego do registro culto da língua portuguesa, mesmo em situações onde isso seria exigido. Nas salas de aula de universidades, principalmente as particulares; nas salas dos professores das escolas; nas Câmaras de Vereadores; nas instituições culturas; nas reuniões dos Conselhos Tutelares e em muitos outros lugares e em inúmeras outras situações em que se exige o falar culto, a língua culta não é mais utilizada e os vícios de linguagem de todos os tipos grassam, desrespeitando as mais comezinhas regras gramaticais. É muito comum ouvir concordâncias erradas, plurais não sigmáticos, regências estropiadas, verbos conjugados erroneamente e muito mais. No falar menos rígido, isto é, no uso da linguagem familiar pode-se até relevar muita coisa, mas não a troca da vogal temática –A- dos verbos da primeira conjugação pela vogal -E-, numa troca que soa como uma martelada nos ouvidos da gente, por dissimilações, onde a sincronia imita a diacronia dos primórdios de nossa hitória linguística. Assim, é comum ouvir-se “Nós compremos isso muito barato”; “Nós falemos”; “Nós abusemos” etc., sem falar que o –S- da desinência número-pessoal, -mos- nunca é pronunciado. Isso já caracteriza a linguagem popular e ela está penetrando, cada vez mais rápido, no espaço de outros falares, sem que ninguém denuncie essa invasão e as autoridades educacionais tomem providência. Há, também, a má conjugação dos verbos INTERVIR, HAVER impessoal, FAZER no sentido de passar o tempo ou no de indicar a temperatura, além do emprego da voz passiva pronominal, como no caso de ALUGA- CASAS em vez de ALUGAM-SE CASAS, Nisso tudo muita gente com razoável nível de escolaridade, às vezes, escorrega, mas a preocupação surge porque não percebemos a vontade de mudar. Os falantes não se importam em se reciclar, em se especializar, em estudar, talvez pelo simples motivo de que não sabem que transgridem a norma gramatical. Aliás, a gramática não é bem vista em quase todas as classes sociais da região, muito mais interessadas na praticidade da vida, alegando que a língua portuguesa é muito difícil e que a toda hora estão se realizando reformas ortográficas, que só servem para piorar tudo. Por aí, se vê que a Escola está falhando de algum modo. Quando a internet exige rapidez na comunicação escrita, o usuário, por exemplo, tecla vc, significando você. Isso é razoável para quem sabe escrever você por extenso. De tanto escrever vc no lugar de você, fica-se sem saber que as palavras oxítonas terminadas em –a-, -é-, -ê-, -ó-, -ô- são acentuadas, por exemplo. Lembro-me de um fato ocorrido comigo numa turma de miúdos, creio que hoje seria uma Quita ou Sexta Série. A mãe de uma aluna veio me interpelar, dizendo que considerei errada a palavra caju que a filha marcara na prova mensal com acento agudo no –u-. Ela tentou provar que a filha havia escrito a palavra CAJU com acento agugo no –u- de forma correta. Para tanto, levou para me mostrar uma lata de doce de caju, comprada em um supermercado. Lá estava a palavra caju acentuada assim: cajú. Percebe-se que a referência dessa mãe, dessa família, talvez da toda sua comunidade, fosse o supermercado ou a fábrica de doce, em vez da ESCOLA. E a televisão tem alguma coisa com isso? Tem, sim, senhor! Programas como Soletrando e alguns outros contemporizam a mediocridade, mas é muito pouco. Umas das funções da televisão – são cinco – é a de informar. Mas nunca deformar. E como deforma... E a publicidade tem alguma coisa a ver com isso? Tem, sim, senhor! Quando mostra o erro; quando apresenta o desvio; quando insiste no errado, através da função persuasiva da linguagem. Mas sobre isso ainda vou falar futuramente. Portanto, se, por um lado o linguista encontra nesses acontecimentos um prato cheio para pesquisar, para descrever os fenômenos da língua, enquanto ”langue” e “parole”, por outro lado é entristecedor ver a nossa língua portuguesa ser aviltada, vilipendiada, estropiada, por pura falta de conhecimentos específicos e pela falta, principalmente, de uma política séria e objetiva para a cultura e para a educação. Mas, convenhamos, o que se poderia esperar desse país que teve durante oito anos um governo, cujo chefe foi o mais popular e representativo apedeuta nacional?

ATÉ A PRÓXIMA

13 de julho de 2010

FALTA DE EDUCAÇÃO

Tornou-se uma prática irritante, dentro dos bancos de todo o país, você ser atendido por gerentes e seus auxiliares de um modo muito estranho, para não dizer com total falta de educação. Trato lhano e educado não é jogar mesuras de um lado para o outro dentro do ambiente de trabalho e dar risinhos amarelos, tentando encobrir a chatice de um emprego estafante e mal remunerado, como esse de atendente bancário. Não é só isso, não! Ser educado, como minha mãe me ensinou, é dar toda a atenção a todos, principalmente aos aos mais velhos; aos menos informados; aos necessitados e, principalmente, às visitas. O cliente de um banco que vai pedir informações ao gerente de uma agência é uma visita. Lá em casa, eu, quando recebo alguém, jamais atendo a um telefonema e muito menos fico batendo papo com quem me procura por telefone ou por qualquer outro meio de comunicação interpessoal, mesmo que o assunto seja importantíssimo. Para isso deve-se ter um mínimo de inteligência e algum expediente, para contornarmos a situação, sem melindrar ninguém, muito menos a nossa visita. Pois bem, fui conversar, na segunda-feira passada, com a gerência do Banco Itaú, na Avenida Brasil, da bonita cidade de Balneário Camboriú e minha conversa foi interrompida mais de três vezes pela funcionária, atendendo chamados telefônicos, deixando-me perdido em meu raciocínio, pois tentava respostas para assuntos financeiros que não dominava. E mais! A pobrezinha da auxiliar de gerente fez com que eu digitasse várias vezes minha senha, sem nenhum resultado, pois sempre atendia ao toque estridente do telefone, o que me tirava a concentrarão e a paciência. A bronca foi inevitável. O gerente, ao lado, disse que eram normas e obrigação de todos os atendentes prestarem informações, tanto presenciais como à distância, por telefone. É, parece até escola moderna com os famigerados Cursos por Teleconferência. Isso, francamente, não é uma forma polida de se prestar serviço! E como eu não estava matriculado naquela escola de Cursos à Distância, embora fosse "aluno-cliente" há mais de 25 anos daquele banco escolar, fui à “secretaria” e pedi meu “boletim” para desligamento, pois existem muitos outros estabelecimentos do gênero aqui nessa bonita cidade onde moro. Se todos os clientes mal atendidos tomassem a atitude que tomei, na hora, em bom e alto som, todos os serviços de repartições públicas ou privadas dariam um salto fantástico de qualidade. Por enquanto, quem pulou para um outro BANCO fui eu.

ATÉ A PRÓXIMA

2 de julho de 2010

D E S E S T A B I L I Z A Ç Ã O

Quem é pobre não se desequilibra, haja vista o sofrido povo nordestino que passa por secas e enxurradas, por descasos das autoridades públicas e por ataques de bandidos aos sofridos flagelados de todo tipo. Quem é pobre não se desequilibra nem se desespera. O pobre está sempre se referindo a um outro sistema simbólico para tentar explicar suas vicissitudes, pedindo a Deus e ao “Padim Padi Ciço” uma interferência a fim de que não o faça sofrer mais e botar sua vida nos trilhos. Quem é pobre se resigna com as coisas adversas e não se desespera, pelo contrário, não ameaça ninguém nem dá ponta-pé nos outros, nem murro nos postes ou no chão, de cabeça baixa. Quem é pobre acha até que tudo é o desejo do Onipotente, o responsável pela privação e provação, quando perde casa, gado, plantação e até seus entes queridos, mas não se desequilibra. Quem é pobre tenta encontrar um caminho mais curto, mas difícil, para sair da pobreza, mesmo não tendo quase nenhuma opção para isso. Então, o pobre, em sua maioria absoluta, vai tentar ser jogador de futebol. Aí, com muita sorte e também esforço ele vence, sai da caatinga, da favela (agora chamada de comunidade), das cidadezinhas tristes e sem graça nenhuma do interior do Brasil e vai, às vezes, sem passar pelos grandes centros das capitais, diretamente para o exterior. Vai para a Europa. Vai para o Real Madrid, para o Barcelona, para o Milan, para o Benfica, para o Manchester United, para o Arsenal, para o Paris de Saint-Germain, para o fim do mundo, para as Arábias, para os Emirados e Sultanatos do Islã. Então, esses meninos jogadores de futebol se tornam ricos e só voltam ao Brasil, para a Granja Comary, em Teresópolis, para servirem à Seleção Brasileira. Tornam-se canarinhos ricos, verde de dólar e amarelo de camisa cheia de propaganda. Dizem que esses jogadores, oriundos da pobreza, se transformam e passam a ter um sistema emocional compatível com sua nova posição de craque, de estrela pop, de “enfant gâté” de treinadores e de cartolas do futebol nacional e internacional. Mas onde está o equilíbrio emocional? Não existe, porque ao se tornarem ricos, com sua vida estabilizada, seu parentes próximos todos com a vida ajeitadinha, tudo cem por cento organizado e resolvido materialmente, perdem o equilíbrio emocional que devem manter dentro de uma competição, porque já têm muito e pensam que podem fazer o que lhes vem à cabeça, do charminho aos pisões desleais e criminosos, prejudicando toda equipe. De mais a mais pensam que se fizerem alguma besteira nada têm a perder. Estão pouco ligando para essa de autocontrole. Se conseguiram vencer a miséria, a fome e a morte súbita no agreste interiorano ou no fundo do nordeste brasileiro, pensam ser jogadores de futebol que desequilibram tudo e todos, não se importando com as dificuldades de um jogo decisivo, por exemplo. Admitem para si mesmos que a vitória chegará a qualquer momento, mas não estão preparados para o pior. Chegando esse pior, na forma de um fantasma ou na forma de um acidente em campo, se descontrolam e assim se comportam porque são ricos, ganham muito, mas muito mesmo, e quem quiser que prepare justificativas de toda sorte para explicar as suas inconsequências. O pobre não se desequilibra. Os ricaços de nossa Seleção Brasileira de Futebol, sim. Com isso tudo ficamos muito tristes, mas o Brasil pode até ter um lucrozinho (e que sirva de lição, mesmo), porque, tenho certeza, muitas outras crônicas vão aparecer centradas na soberba de alguns de nossos jogadores, para corrigir de vez todos esses erros desconcertantes na formação de um eleco que não reside mais aqui, nem nas grandes cidades, nem na caatinga e agreste nordestinos e, muito menos, nas favelas e alagados dos pauls lamacentos, há muito tempo.





ATÉ A PRÓXIMA

28 de junho de 2010

ACADEMIAS E INDÚSTRIA CULTURAL

Hoje é tudo pop. A cultura dita superior, se já existiu, não existe mais. A Escola de Frankfourt também ficou no passado. Walter Benjamin, em seus significativos textos e, principalmente, em “A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica”, parece que não mais se sustenta, pois baseava-se somente na maravilha gutembértica e na fotografia. Reproduziam-se cópias de produtos artísticos, que só aqueles de maior repertório e poder aquisitivo poderiam ver, ler, sentir e com elas se extasiavam. Abastecia-se assim um mercado específico e popularizava-se a arte. Essa indústria cultural de então ainda continua, mas hoje, com menos produtividade e mais intensamente se vale de outros meios, como a internet, para produzir e criar cópias de cantores e dançarinos, de Elvis Presley a Michael Jackson, por exemplo. A produzidíssima e pop Lady Gaga, de furor e frenesi alucinantes, deixa a galera em campo aberto ou atrás dos monitores de cristal líquido ululando histericamente. Ela é padrão de arte pop, sem dúvida alguma, produzida pelos “mass-media” dos tempos modernos. Nos quartos adolescentes lá estão antenados nos vídeos do You Tube rapazinhos muito mais preocupados com o rebolado do que com a condição de reprovado nas provas do Enem, assistindo a toda forma de manifestação eletrônica popular de arte, porque a arte continua instigando as mentes produtivas e, como a estética está centrada na ótica do receptor, ela, a arte continua tendo sua produção e sua apreciação tão viva como sempre foi, pois, ainda, segundo Walter Benjamin, “uma das principais tarefas da arte sempre foi criar um interesse que ainda não conseguiu satisfazer totalmente”.
Mas não é só o alucinante ritmo dos festivais do “Rock in Rio” de exportação que alucina a mente da juventude. É tudo que magicamente pode ser tocado, jogado e deleita. Contudo, não é só a juventude que acessa o mundo cibernético da internet. Todos nós nos servimos desse veículo para nos aperfeiçoarmos, graduarmos, pós-graduarmos, tornarmos doutores, isto é, para nos aculturarmos, aumentando nosso repertório, pesquisando e criando, servindo-nos do feed-back da rede mundial da informação, para crescermos na escala social. Abundam os Cursos à distância nas Universidades particulares de todo o país, verdadeiras fábricas de possíveis desempregados e de riqueza fácil para os investidores. Mas, a bem da verdade, a internet também propiciou uma forma de muitos e importantes cursos universitários existirem, não mais como presenciais, mas somente à distância, como os Cursos de Letras e de Pedagogia e isso está ocorrendo principalmente nas cidades do interior do Brasil, talvez por falta de interesse ou por falta do retorno do capital investido nesses estudos. De qualquer forma, a tecnologia está aí, também, nos ajudando a todos a formar uma ciber-enciclopédia e nós passamos de pesquisadores a informantes, num pingue-pongue cultural interativo wikipediano, jamais pensado pelas mais brilhantes mentes arthurclarkianas da ficção científica. Todas as manifestações culturais estão afetadas pela magia dos buscadores da Web. Nada é mais privilégio dos poderosos e ricos segmentos sociais. Estamos diante da inclusão digital avassaladora e irreversível. Hoje, se há indivíduos interessados em alguma coisa, podem se reunir e formar associações, clubes, museus, conselhos, sociedades, sindicatos, condomínios, escolas e academias literárias que substituem plenamente as arcádias dos séculos 17 e 18. Tudo registrado, com estatuto, diretoria e objetivos claros a alcançar, umas se baseando nas outras, sucessivamente, adquirindo o respeito da comunidade onde estão inseridas. Muito comum é a publicação de obras pertencentes às mais variadas formas culturais de expressão, como CDs, VTs, livros, retratando as artes cênicas, musicais e literárias. Bandas de música se formam nas garagens das casas da classe média e se apresentam ao público Global, em extasiantes programas de tevês, comandados por gordos que emagrecem artificialmente e por gordos que não conseguem emagrecer e se ufanam de carregar suas simpáticas calorias. Tudo isso fruto da ciência e da tecnologia, também de ponta, ao alcance de todos. Esses animadores culturais e "talk shows" falam sobre tudo e mostram tudo, do mais sério ao mais bizarro. Desempenhar o papel de artista é desempenhar uma função social como qualquer outra, embora a literatura tenha uma função diferente de outras formas estéticas. Ela é transgressora, como atesta a própria poesia, transmitida por mensagens raras, onde o emissor e o receptor possuem repertórios diferentes. Essa prática ou esse exercício se darão nos espaços públicos ou privados, que deverão ser bem organizados, definidos, respeitados e frenquentados por todos aqueles, atraídos e atingidos pelas raricidades das mensagens pictóricas, poéticas, teatrais, literárias de um modo geral. Antes, os espaços culturais, constituídos por Academias Literárias, por exemplo, só existiam, ocupados por privilegiados, enclausurados em prédios neoclássicos, nas principais cidades do país, quase sempre frequentada por uma elite soberba, “qui était rempli de soi-mme”. A vida social, percebendo o surgimento de um novo modo de ver e sentir a cultura cria os lugares certos para a sua produção e reprodução, assim como seus agentes. Multiplicam-se os estúdios de gravação de áudio e de vídeo, acelerando e propiciando o surgimento de empreendimentos comerciais como as TVs Corporativas, as TVs Educativas, as TVs Escolas, as Rádios Comunitárias, as Radioescolas e muito mais. São tantos esses empreendimentos, em quantidade e qualidade que muitos ficam à margem da Lei e se instalam como “piratas” nas comunidades mais carentes. Essa pirataria invade tudo na indústria cultural, dos CDs aos livros, na inocente, mas irresponsável, reprodução via xerox das páginas dos compêndios, nas escolas e nas universidades. As fábricas de livros se multiplicam com inovações tecnológicas setoriais, a exemplo dos convênios entre a Xerox do Brasil e o SENAI, possibilitando a publicação de obras do cidadão comum, do cidadão-massa, que existe, mas não tem rosto, só números e traços nas pesquisas de opinião, desencadeadas por Institutos especializados. Então, o professor sem editor, o poeta sem suporte mercadológico e sem rima, o pesquisador preocupado com seu objeto investigado, tendo a única certeza de que a ciência pertence ao geral e não ao particular, todos se tornam escritores e, assim, crescem e passam a ser mais respeitados no espectro social, despertando, em cada cidadão, um poder, suposto saber. Desta forma, o teatro, o cinema, a música, a pintura, a literatura e todas as formas sincréticas de expressão artística, por receberem a aprovação editorial, crédito indispensável à sua certificação de coisa boa, uma espécie de ISSO-Século XXI, passam a ter crédito de excelência e são divulgados por canais convencionais, circulando democraticamente também pela rede cibernética dos e-mails, dos sites, dos blogs e dos tweeters. Por tudo isso o saber se desburocratizou e saiu da camisa de força da União, dos Estados e dos Municípios, instâncias administrativas que tratavam a cultura como uma prerrogativa exclusiva do poder. Passou a se articular, tanto em suas manifestações cultas e populares, como na ancestralidade folclórica de seus fatos e também nas formas simples dos mais impressionantes chistes, como afirma André Jolles. As elites intelectualizadas e a vida cultural de toda aquela população privilegiada que fora atingida pelo discurso da escola perderam o privilégio de manipular tudo isso. Não é que a selva tenha superado a escola, como na poética visão antropofágica de Oswald de Andrade e de outros nossos críticos e artistas modernistas, mas o que estamos assistindo hoje é uma escola invadindo a selva, através dos meios eletrônicos de comunicação. Os Estados de Roraima, lar dos yanomamis, acima da linha do Equador, portanto no hemisfério norte e Santa Catarina, o belo Estado de variadíssima etnia, abaixo do trópico de Capricórnio, são regiões distantes, uma da outra, ligadas por um senso comum de participação cultural de seu povo, ávido de conhecimento, criando, em todas as áreas do saber, formas expressivas significativamente estéticas. Tanto lá como aqui prolifera um grande número de associações culturais de toda espécie - o maior número entre todos os Estados brasileiros - principalmente Academias de Letras em seus muitos municípios, quase todas vinculadas ao Conselho Nacional das Academias de Letras. Que ninguém fique, portanto, tímido ao entrar nos salões marmóreos do Olimpo com as botas cheias de barro. O autodidatismo será sempre bem-vindo para se alinhar ao saber institucionalizado, nesse momento em que os menos informados necessitam muito do saber para produzir, desenvolver, criar e acelerar o progresso do Brasil. Se essa discriminação aconteceu no passado, hoje não faz mais nenhum sentido. Preferimos a culturalização consciente das massas à massificação imbecil da cultura.

ATÉ A PRÓXIMA



5 de maio de 2010

SANTA MARIA MADALENA - DE VOLTA AO PASSADO


Não nasci em Santa Maria Madalena. Sou carioca da gema, da Lapa, fim da Rua Riachuelo, próximo aos Arcos. Era a Rua de Mata Cavalos de Bentinho e de Dom Casmurro, de Machado de Assis. As lembranças sempre foram minhas companheiras, vida afora. Confesso que gosto de sentir saudade. Talvez seja porque o que está lá, no passado, bem guardado, estático, seja somente para se contemplar, apreciar, para se refletir somente. Quem sabe se o que foi não poderia ou não deveria ter sido... Seria isso? Quando menino, se me perguntassem para onde gostaria de ir, se pudesse viajar no tempo, sempre respondia que gostaria muito de voltar ao passado. Eu sou do pretérito. Tinha toda a certeza de que se voltasse no tempo poderia corrigir os erros da humanidade, tornando-me um herói, como as figurinhas do Gibi mostravam, queria ser igual ao Super-Homem, que rodava ao contrário em volta da Terra, a toda velocidade e chegava ao passado, para salvar sua amada de um fatídico desastre. Voltava à infância de todos nós terráqueos. Mas quando minha prima Neuza me telefonou, dizendo que escrevera, com um amigo professor, uma história de madalenenses que fizeram história, encomendei logo um exemplar para curtir muita saudade, que efetivamente se concretizou, alguns dias depois, quando li as poucas e objetivas páginas de seu precioso livro FILHOS DO MUNICÍPIO DE SANTA MARIA MADALENA. Já disse que não sou de Santa Maria Madalena, mas sou filho de um madalenense.



Durante minha infância estive por lá nas férias de meu pai. Ficávamos numa chácara adorável, com uma várzea verdejante, um minguado filete de rio a cruzava encantador, uma várzea cheia de estrepolias de crianças, primos entre si, vizinhas bonitas, namoradinhas sazonais. Minha prima Neuza mexeu com os meus mais profundos sentimentos de nostalgia.



Minha vó Tatá no chafariz da praça de cima, a igreja de uma torre só, os jardins da praça de baixo, a venda do gorducho Américo Mansur, as fantásticas operações do Dr. Maneco, fazendo cesariana com gilete, o coreto com a retrete, Eupídio Feijó, o músico, Eurico Feijó, meu tio que fazia de tudo, tia Nialva, a minha tia mais santa de todas, que sempre me protegia das travessuras endiabradas, matança de galinhas indefesas, Tio Antônio do “troytler” alinhadíssimo, dos carnavais em que gente miúda só se mascarava, porque brincar no salão do Clube Montanhês, só com mais de 15 anos. E quando eu tinha 15 anos era muito bobo... Hoje, Neuza, minha prima registradora de vidas passadas, viajei no tempo e senti saudade. E quanto! Seu livro é ótimo.


ATÉ A PROXIMA

22 de abril de 2010

LANÇAMENTO DE LIVRO E A NOVA ORTOGRAFIA


Estou lançando mais um livro sobre a linguagem do futebol. Chama-se FUTEBOL FALADO. A primeira noite de autógrafos será no Auditório Central da UNIVALI, na 5ª Avenida, em Balneário Camboriú, Santa Catarina, no dia 28 de maio, a partir das 18 horas. Na ocasião, haverá uma mesa-redonda, onde vão ser discutidos assuntos interessantíssimos sobre o futebol e seu relacionamento com inúmeros discursos de sabel, como a Sociologia, a Linguística, a Literatura, a Educação Física, o Direito e muito mais. Foram convidados todos os alunos universitários dessas áreas, os setores da sociedade regional, interessados no tema, além da Federação Catarinense de Futebol, cuja sede se encontre nesse Município de Balneário Camboriú.


Participará do evento o Professor Dr. Maurício Murad, Sociólogo e escritor, ligado aos discursos universitários que falam do futebol, tanto na UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UERJ), como na UNIVERSO, além da Fundação Getúlio Vargas.

No Rio de Janeiro, o lançamento se dará na Livraria do Museu da República, no Palácio do Catete, no bairro de mesmo nome, a partir das 18 horas do dia 11 de junho, quando, oficialmente, inicia a Copa do Mundo de Futebol, na África do Sul.


Lembro que a obra a ser lançada brevemente está com a ortografia antiga, isto é, não fizemos ainda as alterações, pois temos até o ano de 2012, segundo a Lei, para isso realizarmos, oficialmente. Vejam uma coisa interessante. O nosso livro tem perto de 400 páginas e, além do trema, que foi totammente abolido, pouquíssimas palavras terão de se adaptar à nova ortografia, dentro de dois anos. Contamos, se não nos falha a memória, 6 palavras. Portanto, as mudanças ortográficas foram muito poucas. Irrelevantes, mesmo.


Mas para lembrarmos, mais uma vez, aos nossos amigos o que terá de ser alterado, reproduzo uma consulta, não muito antiga, feita por um leitor de nosso BLOG.


Perguntaram-me sobre a atual e muito comentada Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa, acertada para entrar em vigor no ano de 2009.

Querem saber se a extinção do trema e dos acentos agudos em ditongos abertos, enfim, se isso tudo representará uma melhora efetiva no idioma ou se terá apenas função unificadora.

Apresento minha visão sobre esse assunto, para que o leitor possa se inteirar do que vai aí pelo mundo das letrinhas...

MELHORA é um conceito subjetivo, pois qualquer língua de cultura, em seu aspecto escrito, representa um acordo entre os componentes de uma comunidade lingüística para representar o que se fala, com símbolos gráficos, que tentam se aproximar, o mais possível, do som que é emitido pelo sujeito falante. A escrita, portanto, é uma forma muito mais ideal do que real. Portanto, a qualquer tempo, haverá pessoas que se sentem confusas em aplicar as regras ortográficas, quando vão escrever em qualquer idioma. Estarão sempre contestando isso ou aquilo, sugerindo uma ou outra coisa para melhorar o desempenho gráfico, etc. Então, lembramos que a língua escrita será eminentemente adquirida, contrária à língua oral, falada, que será eminentemente transmitida. Isto significa que aquela se aprende na escola e esta será a língua que recebemos de nosso meio familiar, que se aprende com nossos pais, nas nossas casas. Mas, haverá um dia em que esses dois tipos de língua se encontrarão na vida do sujeito falante. Então, começa aí a visão crítica do indivíduo que usa a língua escrita e tenta direcionar aquilo que pensa a respeito dela para a vida comunitária. E isso é inevitável, porque escrever é uma pura combinação de sinais, e essa combinação pode se modificar ao longo do tempo. As modificações mais significativas incidem sobre os sinais chamados diacríticos, isto é, aqueles que dão às letras uma expressão mais viva para que elas representem o que vão significar. É o caso dos acentos agudo, grave, circunflexo, trema, hífen, aspas, cedilha, vírgula, ponto, ponto e vírgula, ponto de exclamação, ponto de interrogação etc. Mas a escrita, enquanto tentativa gráfica de representação fonética é mais resistente a alterações, porque ela não é tão volúvel como a acentuação gráfica. A ortografia de uma língua se prende profundamente à etimologia. É claro, que, cientificamente falando, a língua é um código de sinais e um de seus pressupostos básicos, segundo Ferdinand Saussure, é a arbitrariedade do signo lingüístico. Veja um exemplo claro que está presente nessa atual proposta de reforma ortográfica: em Portugal, escreve-se HÚMIDO, com H. No Brasil, é sem H, assim, ÚMIDO. Úmido vem do latim, umidu; espanhol, húmedo; italiano, úmido; francês, humide. Logo, em português deve ser sem H. Contudo, uma forma arcaica fora registrada, em português, como humede, no Livro da Montaria, tratado de monte, a caça maior, compilado sob a direção do rei D. João I, século XV. Talvez venha daí o H, lá em Portugal. Nessa época, século XV, a ortografia de nossa língua era titubeante. Escrevia-se da maneira como se ouvia e se pronunciava. Pouco se preocupava com a origem das palavras. Podemos dizer que isso vem desde o século XII, quando surge a primeira manifestação escrita da língua portuguesa (Canção da Ribeirinha, de Pay Soarez de Taueroos) até, praticamente, o século XVI, quando o português fica mais organizado, sistematizado, tradutor de uma literatura e serve de veículo de expressão de uma cultura em pleno desenvolvimento, recebendo o influxo do Renascimento. A ortografia veste-se, então, de uma aparência latinizante e, às vezes, grega. Tudo, nessa época, respirava latim, inclusive a escrita. Se o primeiro período de nossa ortografia, isto é, do sáculo XII ao século XVI, foi considerado o período arcaico, por apresentar muita oscilação na grafia, principalmente de fonemas novos na língua que não existiam no latim e no grego, como o /g/ com o valor de /guê/ e o /j/ com valor de jê/, alternando-se ora um, ora outro, como em fugo = a fujo, por exemplo, o período seguinte surgirá a partir do século XVI e irá até o início do século XX. Será o período pseudo-etimológico, porque deu-se muito valor à etimologia, até demais, surgindo aberrações incríveis. De todos os estudos que apareceram nesses séculos, sobre a ortografia da língua portuguesa, o embasamento lingüístico não estava presente. E tudo só serviu para complicar ainda mais o sistema ortográfico, levando-o a um verdadeiro caos. Parece que foi nessa época que apareceu, na língua escrita, em Portugal, a grafia HÚMIDO, com H.
Vejamos, agora, resumidamente, os acordos ortográficos que já ocorreram. Embora a Ortografia Nacional de Gonçalves Viana estivesse publicada desde 1904, somente em 1 de setembro de 1911 o Chefe do Executivo português torna obrigatório para Portugal a adoção da ortografia simplificada, que foi orientada por uma comissão de ilustres filólogos e lingüistas da qual faziam parte o próprio Gonçalves Viana, leite de Vasconcelos, Carolina Michaelis, J.J. Nunes, Adolfo Coelho, Epifânio Dias, Júlio Moreira, Cândido de Figueiredo e outros. É importante frisar que nessa reforma foram atendidos somente aspectos fonéticos do português falado só em Portugal, fato que ainda nos deixava diante de um problema a resolver. É bom lembrar que, dessa comissão não participaram filólogos brasileiros e nem por isso eminentes professores filólogos como Mário Barreto, Silva Ramos, Sousa da Silveira, Antenor Nascentes deixaram de apoiar tal medida. É bom lembrar, ainda, que, em 1907, a Academia Brasileira de Letras tentou adotar, nas suas publicações oficiais um sistema de grafia simplificada. Em 1915, a ABL aprova a proposta de Silva Ramos no sentido de harmonizar a reforma de 1907 com a portuguesa de 1911. Em 1931 houve um acordo entre a ABL e a Academia das Ciências de Lisboa e o nosso Governo tornou oficial, em todo o Território Nacional, a reforma portuguesa. Muitas idas e vindas aconteceram até Brasil e Portugal celebrarem mais dois acordos: o de 1943 e o de 1945. Pronunciou-se o Congresso Nacional pelo de 1943 que foi sancionado pelo Presidente da República. Mas a última ocorreu nos anos 70 do século passado, quando no Brasil, em Portugal e nos territórios portugueses praticamente se aboliu o acento grave, tendo o Brasil também abolido o acento diferencial de timbre (oposição entre aberto e fechado), por exemplo, “êste”, com acento, para distinguir de “este”, ponto cardeal. O atual Acordo Ortográfico, de 1990, é um tratado internacional que tem como objetivo criar uma ortografia unificada para o
português, a ser usada por todos os países lusófonos. Foi assinado pelos representantes oficiais de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, em Lisboa, no dia 16 de dezembro de 1990, após longo trabalho desenvolvido pela Academia de Ciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras, desde 1980. Timor-Leste aderiu ao Acordo em 2004. Cabo Verde ratificou o acordo em fevereiro de 2006 e São Tomé e Príncipe, em dezembro do mesmo ano. O acordo teve ainda a adesão da delegação de observadores da Galiza. Esse atual acordo pretende defender a unidade essencial da língua portuguesa e o aumento de seu prestígio internacional, pondo um ponto final na existência de duas normas ortográficas divergentes e ambas oficiais: uma no Brasil e outra nos restantes países de língua portuguesa. Atualmente o Português é a única língua do mundo ocidental falada por mais de duzentos milhões de pessoas com mais de uma ortografia oficial. A unificação ortográfica deverá acarretar alterações na forma de escrita de 1,6% do vocabulário usado em Portugal e de 0,5% no Brasil. O atual acordo deverá entrar em prática em 2008.

Mas o que muda com a atual reforma da língua portuguesa?


HÍFEN


Não se usará mais: 1) quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes ser duplicadas, como em "antirreligioso", "antissemita", "contrarregra", "infrassom". Exceção: será mantido o hífen quando os prefixos terminam com r -ou seja, "hiper-", "inter-" e "super-” como em "hiper-requintado", "inter-resistente" e "super-revista".
2) quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: "extraescolar", "aeroespacial", "autoestrada"


TREMA


Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados.

ACENTO DIFERENCIAL

Não se usará mais para diferenciar: 1) "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição). INTENSIDADE.2) "péla" (flexão do verbo pelar) de "pela" (combinação da preposição com o artigo). TIMBRE.3) "pólo" (substantivo) de "polo" (combinação antiga e popular de "por" e "lo"). TIMBRE.4) "pélo" (flexão do verbo pelar), "pêlo" (substantivo) e "pelo" (combinação da preposição com o artigo). TIMBRE e INTENSIDADE.5) "pêra" (substantivo - fruta), "péra" (substantivo arcaico - pedra) e "pera" (preposição arcaica). TIMBRE e INTENSIDADE.

ALFABETO

Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras "k", "w" e "y”.

ACENTO CIRCUNFLEXO

Não se usará mais: 1) nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem".2) em palavras terminadas em hiato "oo", como "enjôo" ou "vôo" -que se tornam "enjoo" e "voo”.

ACENTO AGUDO

Não se usará mais: 1) nos ditongos decrescentes abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia".2) nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: "feiúra" e "baiúca" passam a ser grafadas "feiura" e "baiuca".3) nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com "u" tônico precedido de "g" ou "q" e seguido de "e" ou "i". Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg[ü/u]ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem.

GRAFIA

No português de Portugal: 1) desaparecerão o "c" e o "p" de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como "acção", "acto", "adopção", "óptimo" -que se tornam "ação", "ato", "adoção" e "ótimo".2) será eliminado o "h" de palavras como "herva" e "húmido", que serão grafadas como no Brasil “erva" e "úmido".

Outra pergunta dizia respeito aos benefícios dessa nova reforma ortográfica. Se ela tornaira a língua portuguesa mais fácil de ser aprendida.

Meus amigos, podemos afirmar que o seu aprendizado, quando implica a apreensão da língua adquirida, aquela que está presente nos currículos escolares oficiais, a que é de responsabilidade da escola como instituição social de transmissão das mais variadas formas de cultura, esse aprendizado, insistimos, deverá ser feito de forma sistemática, obedecendo-se aos mais rigorosos métodos pedagógicos, com uma atuação docente segura dentro do processo ensino-aprendizagem. Isso quer dizer que na instituição escola, a Língua Portuguesa deve ser tratada como disciplina de um currículo contínuo e crescente, à medida que os alunos vão se desenvolvendo biológica, cultural, social e lingüisticamente. A Didática Especial será a diretriz conteudística que norteará o ensino da língua, cientificamente aplicado. Assim, qualquer língua pode se estudada e aprendida, com metodologia específica, de maneira sistemática, continuamente, desde as séries elementares, com sucesso, alegria e objetividade, desde que os professores tenham o devido preparo para tal e estejam engajados num processo educacional comprometido com as modernas práticas educacionais. Isso significa que, ser fácil ou difícil, aprender, na escola, uma determinada língua, vai depender do nível de ensino oferecido ao aluno. Difícil ou fácil será ensinar. Mas como o processo é baseado numa interdependência “Gestaltica”, ele se atualizará como ensino-aprendizagem, como uma avenida de mão dupla, onde professor e aluno se dão, um ao outro. Isso vale para o aprendizado de qualquer língua e de quaisquer outras disciplinas. Então, a língua que se aprende à escola deverá privilegiar o seu aspecto culto. As diferenças entre esses registros, o culto e o familiar, deverão também ser apresentados na escola. Desde cedo, portanto, os alunos vão observando que há níveis ou registros em sua linguagem e vão incorporando os conceitos de certo e errado, sem decorar regras gramaticais e algumas outras bobagens que muitos alunos ainda recebem nas escolas ultrapassadas e julgam, por isso, que a língua portuguesa é difícil. Parece-me que reformas ortográficas têm outros objetivos, como unificação de sistemas para efeitos políticos, comerciais, estéticos etc, mas não influem no aprendizado de qualquer língua. Dentro de pouco tempo todos se acostumarão com as mudanças.

Um outro leitor indaga o que poderia ser mudado no idioma para melhorá-lo. Será que existe alguma coisa, além da ortografia, que ajudaria a se aprender melhor o nosso idioma pátrio?


Ninguém muda um idioma por decreto-lei, por aviso prévio... ou por qualquer meio que seja. A língua é um sistema de signos. Aliás, o mais perfeito sistema sígnico, da sociedade. O sistema lingüístico é perfeito. Não precisa ser melhorado. Melhorado precisa ser, urgentemente, o ensino no Brasil. Os professores, agentes da educação, estão completamente despreparados, com inúmeras dificuldades para se aperfeiçoarem. Eles não têm incentivo por parte do poder público e seu local de trabalho, a escola, está defasada. A atuação docente estrutura-se sobre um tripé: formação específica; condições de trabalho; remuneração adequada. Se um desses sustentáculos falhar, falha todo o processo educativo. Agora, pergunto eu, isso funciona, hoje, no Brasil? O ensino em geral está sem planejamento-macro, nossos políticos são despreparados, sumiram de cena os grandes educadores, a sociedade reclama, mas não age... panem et circences, bolsa família e futebol... Meu caro jornalista, o ensino vai muito mal, principalmente o ensino da Língua Portuguesa, pois ela, como qualquer língua de cultura é a expressão maior de nossa cidadania.


ATÉ BREVE

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.