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31 de maio de 2016

A TROVA






Lendo com atenção o folheto, Boletim Nacional, que recebo mensalmente da União Brasileira de Trovadores, presidida por Domitilla B. Beltrame, chamou minha atenção a matéria de Dalva Ventura, articulista do Jornal A VOZ DA SERRA, de Nova Friburgo, RJ, um excerto de seu artigo intitulado “Rodolpho Abbud, uma rara unanimidade”, artigo este que foi publicado em 30 de janeiro de 2009 e agora adaptado e atualizado por JB Xavier. Também mereceu minha atenção o texto de A.A. de Assis sobre “O Prestígio da Trova”. Achei realmente interessante, não que alguém ainda tenha dúvida se esta forma lírica de versejar seja ou não um significativo gênero literário. Claro que o é. Em seu texto, A.A. de Assis fez referência a duas grandes figuras do cenário cultural, relacionadas aos estudos a que me dedico: a Literatura e a Filologia. O articulista, poeta e exímio trovador, pertencente à União Brasileira de Trovadores, mostrando o prestígio da trova, transcreve um pequeno trecho da segunda parte do discurso de recepção a Adelmar Tavares, na Academia Brasileira de Letras, pelo acadêmico, o filólogo, Laudelino Freire, intitulada  A Trova.

Transcrevemos o texto completo de Laudelino Freire:
                
 “Tanto que surgiu, revelou-se a trova poesia rigorosa na técnica, na rima e sonoridade rítmica. Aperfeiçoou-se na beleza dos temas, na agudeza dos conceitos e na harmonia das palavras. Cultivaram-na finos espíritos entre nobres e burgueses, reis, damas e monges, e foi nesse ambiente de aristocracia que se desenvolveu até chegar à perfeição, sem se desvestir da nobreza das suas origens,

                Da antiga província romana, onde nasceu para a nossa língua, emigrou como alva flor, para, perfumando a ate noutros meios, entreabrir-se asos brincos da fantasia.

Modo natural e simples de poetar, é a expressão mais espontânea dos sentimentos que o amor inspira. Será sempre, por isso, poesia do coração, na qual apenas entra a arte para enfeitá-la com as pompas da forma, que, apurada e perfeita, só pensamos encontrar nos vates, em quem, delindo-se a imaginação, a métrica artificiosa supre os primores da originalidade e do sentimento” (Apud, CAMPOS, Humberto de. Antologia da Academia Brasileira de Letras. Trinta anos de discursos acadêmicos: 1897-1927, W.M. Jackson Inc, Editores, Rio de Janeiro, S.Paulo, Porto Alegre, 1958, p. 431) .


Assim, percebe-se que a trova é uma composição eminentemente romântica, aliás como Laudelino Freire a considera, na primeira parte de sua saudação ao novo acadêmico, quando tece considerações à obra de Adelmar Tavares, considerando-a guardiã de significativos ingredientes românticos.

Isto posto, passaremos a algumas e poucas considerações que considero importantíssimas sobre esta tão curta composição poética.

Para que quatros versos heptassílabos sejam considerados uma trova, é necessário, primeiramente, que haja rimas entre eles. As rimas de uma trova deverão existir, rimando o primeiro verso com o terceiro e o segundo com o quarto.

A trova, este poema de quatro versos e de sete sílabas cada um, caracterizará uma estrutura formal, em simetria rígida, mantendo um coerente paralelismo semântico entre os dois dísticos que a formam. Aliás, o verso de sete sílabas, também chamado de heptassílabo ou redondilha maior é o mais popular da lírica portuguesa, correspondendo à plena espiração do ato da respiração. Joaquim Ribeiro dizia que até os xingamentos são efetuados em redondilha maior... Assim é que, com esses paralelismos e simetrias conclusivos, os grandes poetas versejaram e versejam suas trovas. 

Por fim, as trovas devem exercer o fascínio pelo belo, explorando o lirismo romântico  contido nos temas que abordam, podendo, entretanto, ressaltar aspectos filosóficos e, por desvio de abordagem, o aspecto humorístico.

Mas, para que essa receita funcione, seu autor deverá trabalhar com as várias funções da linguagem, privilegiando o conotativo sobre o denotativo, onde a metáfora, mãe de todas as figuras de linguagem se fará presente, emocionando, transfigurando a realidade e criando novas formas significativas.

Eis a receita para se alcançar o belo. Fácil? Diga SIM aquele que nunca sofreu para encaixar tudo isso em quatro linhas rítmicas que transgridem o mais significativo de todos os códigos da vida: código da linguagem.  


ATÉ A PRÓXIMA

29 de maio de 2016

VERSEJAR É PRECISO, MAS É DIFÍCIL






“Presença no firmamento
em noite clara, estrelada:
– É o amor de Deus que, atento,
nos guarda na madrugada”.



Atendendo a um consulente que me pediu uma explicação sobre incoerência lírica, escolhi um exemplo de equívoco conceitual em poesia,  para mostrar esta situação. Um equívoco conceitual ocorre, por exemplo, na trova acima, premiada em concurso literário, colhida na revista da UBT, dezembro de 2015, incluída entre as Líricas e Filosóficas. O equívoco conceitual leva a uma  incoerência lírica, pois o lirismo fica prejudicado em sua plena realização. 
Este equívoco conceitual diz respeito ao sentido que os dois primeiros versos da trova citada, in caput, deveriam conter, para a conclusão surgir nos dois últimos versos da trova. E é assim que esse tipo de gênero lírico popular funciona.

Os dois primeiros versos da trova transcrita não propõem nada e os dois últimos tentam concluir o que não foi proposto.

Senão, vejamos: “Presença no firmamento / em noite clara, estrelada:”

     Presença do quê, ou de quem? A função denotativa da linguagem, de acordo com o texto, está predominando sobre a função conotativa, sem constituir uma ilação entre o concreto e o abstrato, material com o qual o sujeito lírico trabalha, para arquitetar uma subjetividade, através do código linguístico, explicitando o poético. Portanto o poético se fez excludente.

 E mais, os dois últimos versos, que na realidade representam um dístico, são uma resposta, percebida pelos diacríticos formais, dois pontos e travessão, que os estruturam como tal. Sendo respostas, os dois primeiros versos deveriam funcionar como a indagação. Isso não ocorreu. Logo a falta de uma proposição e da esperada conclusão  prejudicam o fazer poético e proporcionam um falso lirismo. Incoerência lírica.
Por outro lado, a nosso juízo, e já nos afastando de um equívoco conceitual, mas imbricado com a forma de se escandir um verso, é importante salientar que não só a contagem silábica deve ser levada em conta, mas também a indicação que o autor faz, com elementos diacríticos, no caso as vírgulas, indicando a pausa na leitura, para justificar um aposto, ou uma qualificação, ou um predicativo, para dar sentido à frase, pois nunca o aspecto fonológico poderá suplantar o semântico, devendo os dois conviver harmoniosamente, no plano da formatação dos gêneros poéticos.

Eis as dificuldades, o mistério e a beleza do versejar. Assim sendo, a sinalefa /kya/, resultante de “que atento” (3º verso) pode ser possível, mas teria de se adequar à estrutura semântica, isto é, ao sentido que o autor quis dar ao verso. Portanto, se estes dois últimos versos fossem realmente a resposta de alguma indagação poética, o aspecto semântico só se presentificaria, se o leitor obedecesse ao ritmo imposto pela pontuação, que o próprio autor definiu com as vírgulas. Seria assim, numa metalinguagem crítica: Isto é o amor de Deus, o qual Deus, sempre atento a tudo, nos guarda e nos protege na madrugada. Versejar é preciso, mas é difícil...



ATÉ A PRÓXIMA




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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.