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12 de abril de 2018

A BRUXA E O GUAXINIM





Era em Portugal, ano de 1986, precisamente Lisboa. Estava a fazer minha caminhada noturna, depois de um dia cheio de trabalho. Cumpria os deveres de meu semestre sabático, pela UERJ. Empolgado pelas novidades que iam aparecendo na caminhada constante contra os quilinhos adquiridos pelos bacalhaus consumidos, com muito azeite, batatas e bons vinhos, naturalmente, deixei para trás, sem perceber, a estação de Picoas, que foi ficando cada vez muito longe de meus passos largos e ansiosos em resgatar o figurino esguio de antanho. Quando percebi, havia me distanciado mais de hora e meia, realizando exercícios aeróbicos a passos largos. A residência, na qual um grande amigo me colocara estava ficando muito para trás. Conclusão, o prédio tinha horário rígido para fechar e eu não trouxeram a chave do magnífico portão de ferro rendado, em estilo “art nouvau”. Ficaria simplesmente na rua se não retornasse imediatamente e rápido, voando, por assim dizer. A bruxa, que administrava os quartos, alugados à revelia do verdadeiro dono do grande apartamento, não acordaria e não me deixaria entrar nem que recebesse dos céus pedido clemencial. Mas como? Já era tarde e as ruas iluminadas e seguras estavam desertas. Não haviam inventado ainda o telemóvel. Só o Metro me salvaria. Vislumbrei muito longe o farol da primeira carruagem com luz forte e destemida, vindo, superficialmente, em direção à estação que serve ao moderno aeroporto da cidade que Ulisses fundara. Corri para pegar o combóio e procurei a bilheteria. Nada! Tudo deserto e livre. Não havia uma só catraca. Essas barreiras, contra (ou a favor) de nossas consciências, ainda não tinham sido inventadas, assim como os fantásticos telemóveis, hoje operados pela, vejam só, Companhia de Telefonia  Vodafone... Vodafone é voda! Botei a mão no bolso e verifiquei que não trouxera um mísero escudo. Estava totalmente desprevenido de moedas e de notas gigantes do dinheiro português de então. O combóio parou e eu entrei. Viajei sozinho na carruagem durante três estações, sem que ninguém entrasse, nem o temido fiscal, fardado como um soldado prussiano dos tempos salazarescos. Cheguei ao prédio onde morava e encontrei os magníficos portões ainda abertos. Graças a Deus a bruxa ressonava alto como um guaxinim embriagado. Custei um pouco a dormir. No dia seguinte acordei com uma enxaqueca terrível, pois só pensava em como poderia ressarcir a Cia de Carris de Lisboa daquela passagem que subtraíra, emergencialmente, e não me considerava um miserável, com direito a pular uma catraca que não existia ainda, mas que me deixara, internamente, envergonhado. Tomei um digestivo e tudo passou.

ATÉ A PROXIMA

1 de março de 2018

UMA ESTRADA VELHA CHEIA DE POESIA





         Ruy do Carmo Baptista foi poeta e radialista. Natural de Cantagalo, Estado do Rio de Janeiro, trabalhou na primeira hidrelétrica de seu estado natal, construída no rio Macabu, ingressando nas Centrais Elétricas Fluminenses S.A., onde se aposentou, na cidade de Campos dos Goytacazes. Manteve por mais de 20 anos um programa matutino de rádio em Campos: “Alvorada Sertaneja”. Pertenceu ao “Círculo de Estudos Literários e Filosóficos Farias Brito”, em Macaé, e frequentou a “Academia Pedralva – Letras e Artes”, em Campos. Teve com a Professora Ivone Rabello Tavares quatro filhos, Edméia, Rui, José e Talita, que perpetuaram sua memória de poeta e cantador, publicando suas composições neste livro, editado na cidade de Campos dos Goytacazes, em 2014.
            Sua poesia mistura a fala caipira do norte-fluminense com o falar culto e semiculto dessa mesma região onde nasceu, viveu e produziu suas composições em versos curtos, característicos da lírica surgida na Península Ibérica. Os versos de Ruy Baptista mesclam seu desempenho fonético variado, praticado na escolha de vocábulos, fases feitas e metáforas regionais, entre outras situações linguísticas, mas soando diferente da fala caipira do interior paulista, onde a principal característica é o “r” vibrante retroflexo, muito intenso, parecendo deter o som de muitos desses fonemas. Essa linguagem presente no caboclo do norte fluminense, juntamente com a fala característica do “r” caipira do interior de São Paulo, uma variante vibrante apical, rolada, retroflexa, anterior, do fonema original “r” é uma das características marcantes que vão fazer a diferença entre o Português do Brasil e o Português de Portugal, numa de suas inúmeras diferenças, contudo, sempre mantendo uma unidade significativa nessa imensa diversidade. À guisa de maior e melhor esclarecimento, mesmo lidando com textos escritos, parece-nos que, do mesmo modo, o “s” chiado, típico do falar do carioca, se interiorizou pelos inúmeros municípios do norte do Estado do Rio de Janeiro e, por incrível que possa parecer, essa pronúncia foi-nos trazida pelos próprios portugueses, a partir de 1808 e se caracterizou como sinal de prestígio, pois era assim que aqueles que frequentavam a Corte falavam. Com isso, cresce a tese de que o sotaque carioca do fim do século XVIII se assemelhava ao do português que por aqui viveu, por exemplo, nas rodas elegante da sociedade da época, frequentadas, por exemplo, pelo poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, no centro da cidade do Rio de Janeiro de antanho.
Portanto, na fala caipira, registram-se nesse pequeno livro de poemas os sons foneticamente utilizados pelo povo da região em que o poeta viveu, sem  inventar nenhuma pronúncia, dando um retrato, isto é, reproduzindo fielmente as variações fônicas do linguajar caboclo da região do Norte Fluminense dos Campos dos Goytacazes. O mesmo deveria acontecer em seus programas radiofônicos, pois o título e seu personagem isso denunciam: “Alvorada Sertaneja” e “Sô Tião”. Seria uma referência exemplificativa o poema DESILUSÃO DE CABOCLO, página 21. Versejando no registro culto da língua, Ruy Baptista dá preferência aos dois mais significativos metros do idioma português, a redondilha maior (sete sílabas métricas) e a redondilha menor (cinco sílabas métricas), em estrofações variadas. Os versos de ESTRADA VELHA são, em sua maioria, construídos com palavras simples, constantes do vocabulário ativo da língua, mas eivados de regionalismos, alguns, hoje, desconhecidos, talvez, do leitor citadino. Assim, a flora e a fauna são exemplos significativos, que aparecem no poema CAMPOS DOS GOYTACAZES, pág. 71. São raros os exemplos de vocábulos menos conhecidos do leitor distanciado da vida interiorana. O poema RECURSO DO CAIPIRA, pág. 29, assim inicia: “Eu viajava cansado / conduzindo um gado erado”. Erar é verbo e significa a ação de engordar o gado. Na lenda contada em versos, uma forma poética de Ruy Baptista manter viva a tradição oral, encontramos no próprio título o vocábulo CABORÉ (pág.105), que no texto é uma espécie de mocho, coruja. No nordeste brasileiro, é filhote de coruja, fixado na tradição folclórica com o ditado “Coruja não tem pai, caboré não tem avô”, e em outros exemplos assinalados, ainda, por Câmara Cascudo. Possivelmente esses vocábulos poderiam suscitar algum ruído no entendimento do leitor. Mas são muito poucos. Isso é interessante, pois os versos de ESTRADA VELHA foram escritos na primeira metade do século XX e muitos termos prendem-se a um regionalismo confinado no norte do Estado do Rio de Janeiro.
            Percebemos, por outro lado, que os poemas deste singelo, mas interessante livrinho (143 páginas, 20 x 14), envolvidos pelo conhecido estilo caipira, que nos apresenta “causos”, e lendas mirabolantes registra a beleza das histórias contadas em reuniões de famílias, e muitos de seus poemas foram escritos para serem cantados (talvez alguns, ou muitos até teriam sido musicados) ao ritmo toante da viola sertaneja.
O resgate desses poemas de Ruy do Carmo Baptista, poeta e cantador fluminense, feito por seus filhos e publicado há poucos anos, em Campos dos Goytacazes, propicia ao leitor um reencontro com os ritmos já não tão presentes hoje nos poetas modernos. São ritmos saudosistas que invocam a força do talento, da luta e da vitória do homem do campo sobre as intempéries da vida na roça; do homem da pequena vila; do homem que labuta na suada e ensolarada lavoura e no trato do gado em pastagens íngremes; nas matas fechadas, onde caça para seu sustento e de sua família, lá no sertão desse nosso interior, agora tão perto dos grandes centros, mas tão distante de nossos pensamentos, quando queremos encontrar um lugarzinho pacato para sermos felizes... O livro de Ruy Baptista possui os ritmos  de um poeta simples, mas ufanista, que nos faz lembrar a estética popular de geniais artistas, impressionados com a beleza intrínseca de nossa terra, num poetar brasílico grandiloquente, como, por exemplo, o de um Catulo da Paixão Cearense.

ATÉ A PRÓXIMA

5 de fevereiro de 2018

A RIMA E MUITOS ABSURDOS




A RIMA é, sobretudo, um fenômeno fonético.

A lição de Mattoso Câmara Jr., um dos maiores, se não o maior, linguista brasileiro, é muito precisa. Mattoso diz que, em última análise, é a norma linguística que impõe a RIMA, independentemente de qualquer individualismo, seja quem for o poeta, ou do particularismo de uma plêiade de qualquer instituição ou escolas literárias, por exemplo, que trabalhem com poemas e rimas, por mais eminentes e predominantes que sejam esses poetas, essas plêiades ou essas instituições, em sua época. Ou em qualquer época, pode-se, ainda, afirmar.

Então, o que se pode e se deve fazer é orientar os indivíduos ou grupo de indivíduos, unidos por um ideal estético, para que entendam plenamente como tudo isso funciona.  Deve-se mostrar que o estudo da versificação se dá em base linguística e baseia-se, não só na fonética geral, mas também nas modernas orientações dos estudos fônicos, adstritos à fonologia do Círculo Linguístico de Praga, de acordo com as visões de Trubetzkoy e Roman Jakobson, entre outros, ou de acordo com a fonêmica  da escola norte-americana, derivada de Sapir e Bloonfield. Fora disso, é se expor às críticas de todas as agudas pontas da rosa dos ventos...

Assim, sendo, é importante, em primeiro lugar, lembrar que a Rima brasileira é diferente da rima do português de Portugal. Logo qualquer trabalho poético no Brasil, deverá ser regido, no que diz respeito à RIMA, pelos ditames dos estudos fonológicos do PORTUGUÊS do BRASIL. 

Vejamos o que Mattoso Câmara Jr afirma:

“A rima brasileira tem uma temática própria, consubstanciada numa tradição estética, que lhe mantém a unidade através das mudanças de escola e ideias poéticas”. (Para o estudo da fonêmica portuguesa, Vozes, Petrópolis, 2008, p. 85).

No Brasil, isto é, no português do Brasil, a palavra “mãe” não rima com a palavra “também” e outras terminadas em ditongo tônico, decrescente, grafado  –ém-. Em Portugal, sim.  O caso de Casimiro de Abreu é isolado e esporádico.

As seguintes Rimas imperfeitas, consagradas pela tradição parnasiana, romântica, simbolista e modernista são rimas lídimas, válidas, portanto. Não desmerecem o texto nem o seu autor:

Nus > azuis – C. de Abreu;
Azuis > luz – O. Bilac;
Espirais > Satanás – C. Alves;
Traz > mais – A. de Oliveira.

Estão, pois, de acordo com os modernos estudos linguísticos e fônicos, adstritos à fonologia do Círculo Linguístico de Praga, de acordo com as visões de Trubetzkoy e Jakobson, entre outros.
De acordo com os critérios dos estudos fonológicos, advindos do Círculo Linguístico de Praga, com Trubetzkoy e Roman Jakobson, interpretando os sons da fala, podemos dizer que a RIMA consiste numa coincidência de traços distintivos entre duas ou mais séries fônicas, a partir de um determinado ponto da enunciação.

A RIMA será perfeita, quando a coincidência abarcar todos os traços distintivos.

A RIMA será imperfeita, ao contrário, quando as séries fônicas divergirem em certos componentes quer simultâneos, quer sucessivos:  no caso dos simultâneos, quando houver divergência de fonemas; no caso dos sucessivos, quando houver um fonema presente numa série e ausente noutra. O que condiciona o aparecimento de uma RIMA IMPERFEITA é o sentimento, por parte dos poetas, que sentem que NÃO há necessidade de uma coincidência TOTAL de traços fônicos distintivos, isto porque os há estrutural e funcionalmente fracos em cada série fônica, por força das próprias condições fonêmicas da língua. Lição dada por MattosoCâmara Jr., in 2008, p.90.

RIMAS APARENTEMENTE IMPERFEITAS

Podemos considerar perfeitas as rimas aparentemente imperfeitas, que surjam baseadas no triângulo do quadro das vogais átonas finais, do português do Brasil:

Vogais átonas finais:  / i / ,  / a / ,  / u /.

Assim, rimas aparentemente imperfeitas, mas ditas PERFEITAS:

Argus > largos; Vênus > serenos; Cálix > vales; Nave > “clamavi”; Regina Coeli > impele; Define > Bellini; Impele-te > satélite

PRONÚNCIA SINCOPADA

Visse > superfície; Ricos > oblíquos; Suponho-os > risonhos; Depeno-os > ingênuos; Espécie > tece e;

Esta pequena introdução é importante para comentar muitas propostas de algumas  agremiações lúdico-recreativas, sem preocupação com a teoria literária e a ciência linguística, que promovem concursos internos ou aberto ao público em geral. Uma dessas propostas que tivemos a oportunidade de folhear, trazida por um amigo, dizia respeito ao tratamento dos versos das trovas que concorreriam a prêmios, postadas por poetas e versejadores brasileiros, no código linguístico do português do Brasil. Nessas ocasiões, deve-se tomar todo cuidado para não se cair em equívocos lamentáveis. No texto em questão, publicado no Boletim Oficial da referida entidade,   seus dirigentes confundiram FORMA APOCOPADA com FORMA SINCOPADA, confundindo-se teoricamente, dando, inclusive, exemplos de um caso pelo outro.

Enfim, ficou claro que agremiações lúdico-recreativas não detêm, nem pode deter poder nenhum normativo generalizado, nem podem servir  de “vade mecum” poético para ninguém. Podem, no mínimo, combinar entre seus pares, o que valerá, internamente, nos concursos de trovas ou demais poemas de forma fixa, por exemplo, desde que acertem tudo de maneira plausível, dentro das regras tradicionais do estudo da Versificação.

Assim sendo, pretendemos insistir nas orientações linguísticas de estudiosos clássicos, como as de Mattoso Câmara Jr., estudioso desse campo do saber linguístico-literário. Fomos aluno e amigo do mestre Mattoso, que se destacou não só no Brasil, como no exterior, principalmente nos Estados Unidos da América, onde estudou com Roman Jakobson e pronunciou inúmeras conferências em universidades famosas. Foi fundador e membro nato da Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL) da qual pertencemos, (1997) e, ao falecer (1970), era presidente da Associação de Linguística e Filologia da América Latina e, desde 1967, membro do Comitê Internacional Permanente de Linguistas, composto por 12 membros, sendo o único da América Latina.

Portanto, voltando ao tema dessas breves considerações, orientamos os interessados no assunto a se louvarem nos trabalhos sobre a RIMA, divulgados por especialistas e não em propostas completamente desviada do saber teórico, clássico e fundamental, sempre à luz dos preceitos básicos de renomados estudiosos, como, por exemplo, Trubetzkoy e R. Jakobson.

Finalizando, pode-se afirmar que todas as associações lítero-recreativas, agindo de acordo com as normas técnicas da versificação, procurando obter satisfatório conhecimento da Língua Portuguesa do Brasil, que é a mesma de Portugal, mantendo uma unidade dentro das inúmeras diversidades existentes entre elas, como a articulação fonética, vista de passagem, no presente estudo, podem continuar alegrando a vida de todos que encontram na poesia um refrescante bálsamo para a paz do espírito, para a alegria da alma, livrando nossas mentes das tensões da referencialidade do real, criando um imaginário onde só pela poesia pode-se amar, até de uma maneira toda especial, dando-se o que não se tem a alguém que, absolutamente, tal coisa não deseja (J. Lacan).



ATÉ A PRÓXIMA

26 de janeiro de 2018

PROFESSOR DE FELICIDADE





Vou falar na primeira pessoa, porque a mentira nunca vem em primeiro lugar em qualquer narrativa. Ela vem, muitas vezes dissimulada, lá no fim da história. O que vou narrar são fragmentos de uma vida dedicada ao ensino. Atividades dentro de salas de aula, há muitos anos... Desde sempre! Lembro-me muito bem. Há mais de 60 anos eu inovava em sala de aula, tentando dar aulas de felicidade. Minhas inovações pedagógicas surgiram muito antes da Lei 5697, de 1972 e, por essa época já havia abolido as notas, na escala decimal, substituindo-as por conceitos. Quem foi meu aluno, nesse tempo, pode tudo isso testemunhar. Eram conceitos motivadores, que se encaixavam na faixa etária das primeiras séries do Curso Ginasial. Ficaram famosos, entre a gurizada, o Porquinho Rindo; o Porquinho Sério; o Porquinho Triste e o Porquinho Desesperado. Não havia correspondência entre estes termos linguísticos e os números. Era só isso, mesmo. Os alunos gostavam da minha avaliação, mesmo os que tiravam Porquinho Desesperado, evidentemente um conceito nada interessante. Eles interpretavam o que aquilo representava, pois comparavam esses conceitos com seu desempenho nas provas. Havia sim, embutido nos conceitos, um valor, ao mesmo tempo subjetivo e objetivo. E todos entendiam. Muitos exibiam o conceito obtido numa avaliação como um troféu gostoso, lúdico, conquistado por sua própria performance. Cada conceito tinha sua imagem característica, uma caricatura gráfica do que, denotativamente, representavam. Não se destruía, nas correções das provas, a participação do aluno, em suas respostas, muitas vezes criativa, quando respondiam às questões propostas. Não corrigíamos nada com palavras incompreensíveis; nada era censurado; não rabiscávamos a prova de ninguém. Os equívocos e os “erros” eram transcritos na margem, discretamente. Nunca valorizávamos o erro. Abolimos, também, o uso do terno e gravata como uniforme do professor em sala de aula, substituindo-o pelo jaleco branco. Fiquei até parecido com médico! Foi uma atitude unilateral, passível de repreensão, eu sei, mas o calor de 40° da Cidade Maravilhosa em seus verões de arrepiar, falou mais alto... Abolimos o uso do livro didático em sala de aula e sofremos a fúria das editoras especializadas. Passamos a usar qualquer jornal do dia, sem exigir que ninguém trouxesse um, em especial. Tentávamos fazer com que o aluno adquirisse o hábito de comprar e ler jornal, mesmo nos dias em que não tivessem aula de Língua Portuguesa. Pouca coisa? Creio que não. Eles aprenderam a gostar de ler. Quem não gosta, nos jornais, da seção das Histórias em Quadrinhos, um “entre-lugar” dividido com a literatura e o cinema? Nunca eles haviam tomado a decisão de comprar alguma coisa sadia, para consumo próprio. Foi a primeira vez. Estavam comprando e consumindo informações e notícias, as mais variadas possíveis, a primeira parcela de uma enorme conta de somar, na contabilidade da vida, formando, cada um, o seu incipiente repertório cultural. O próximo passo foi abolir funcionalmente o tradicional quadro-negro, onde se escrevia qualquer bobagem. Só o usávamos para a fixação da aprendizagem. Creio que pela primeira vez se utilizou, em colégio público, nas aulas de Língua Portuguesa, material tão, aparentemente, incompatível com fonemas, sílabas, classes de palavra, conjugações, vozes verbais, figuras de sintaxe, polifonia, metafonia, tudo misturado com muita satisfação e alegria. Passamos também a usar cola plástica, tesoura,   barbante, papel de mimeógrafo, recortando as notícias do dia, interpretando-as e com elas partindo para a leitura e para as análises de todos os tipos programáticos, deixando a sala de aula imunda para o professor seguinte de outra matéria, que me substituiria. Depois de algum tempo e muitas reclamações, as aulas de Língua Portuguesa passaram a ter mais alguns minutos de duração e foram colocadas nos últimos seguimentos do horário do dia, fechando o turno da manhã. Mais uma aceleração pedagógica, inovadora, com reflexos futuros. (Anos depois, dando aula no Colégio de Aplicação, Fernando Rodrigues da Silveira, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ, verifiquei que as aulas de todas as disciplinas passaram a ter a duração de 100 minutos) Foram atitudes pedagógicas tomadas há mais de 60 anos, em escolas públicas oficiais, sob a responsabilidade da Secretaria de Educação do Estado da Guanabara (hoje, Estado do Rio de Janeiro). Sabem em que colégio tudo isso começou? Nada mais, nada menos que no maior colégio do Rio de Janeiro, na época: o Instituto de Educação, aquele mesmo! Aquele prédio lindíssimo, estilo barroco mexicano, na Rua Mariz e Barros, entre a Praça da Bandeira e a Tijuca, que formava as nossas professorinhas primárias, com diminutivo afetivo, acima de tudo... Pelo que fizemos, quase apanhamos das mães dos pequeninos alunos que não entenderam imediatamente o que estava acontecendo. A Direção queria me expulsar do magistério. Lutei bravamente, numa época difícil de regime político de exceção, mas consegui não ser penalizado e, de certa forma foi reconhecido, saindo até vitoriosa a minha teoria revolucionária de motivação na aprendizagem. Se fomos seguidos? Não importa. O que importa é que fomos reconhecidos, não imediatamente, pois a educação é um processo lento e contínuo. Não existem frutos para serem colhidos imediatamente. A safra custa amadurecer. Depois do Instituto de Educação fomos trabalhar no Colégio Estadual Gomes Freire de Andrade, o famigerado Conde de Bobadilha, aquele que matou mais de duzentos mil índios, na região da Foz do Iguaçu, Paraná. Minha primeira providência no novo colégio foi pedir através de ofício à Secretaria de Educação, a mudança do nome daquele estabelecimento de ensino médio. Queriam me expulsar outra vez. Lá também inovamos. Criamos a primeira radioescola do Brasil, em colégio público de Nível Médio, graças à compreensão de seu diretor, um professor fabuloso, um sábio, Jairo Dias de Carvalho, meu dileto amigo, que não está mais entre nós. O empreendimento foi reconhecido pelo Secretário de Estado de Educação, na época, Celso Octávio do Prado Kelly, pai do João Roberto Kelly, o músico carnavalesco de marchinhas irreverentes, estão lembrados? De lá saí para o Colégio Estadual Barão do Rio Branco e introduzimos a semente dos festivais de música e poemas escolares, numa mistureba cultural de shows e poesia.  Além disso, construímos, com recursos próprios, uma sala especial de Latim. Isso mesmo, Latim. Parecia uma sala de museu.  Mas tudo em educação, se não tiver conscientização e prática contínua, se esvai como água entre os dedos e a sede do saber não se satisfaz, deixando morrer à mingua o desejo de se crescer intelectualmente... Lutei, lutei sempre. Coloquei em livretos essas experiências todas, publicadas pelo editor, Lúcio de Abreu, da Editora Gernasa, um arauto da boa e inovadora educação, um grande amigo, que também já se foi e a quem muito devo, por acreditar nas  "maluquices" daquele jovem e  inquieto professor. Nunca acreditei que somente o cuspe e giz pudessem servir para muita coisa dentro de uma sala de aula. Pois é, existe ainda no Brasil uma grande defasagem entre o que o aluno espera da escola e aquilo que ela oferece a ele. Desenvolvi esse tema também em um livreto da Editora Gernasa, do meu bom amigo Lúcio... Se estes fragmentos memoriais vão servir para alguma coisa, também não sei dizer. Sei que enquanto me lembrar do que fiz, por amor à cauda que abracei, profissionalmente, e que serviu para implementar a cultura e o saber, ajudando o próximo, vou registrando em textos memorialistas, antes que as nuvens negras da tempestade cerebral descarreguem seus raios fúlgidos, mas trágicos, em minha cansada memória e apague tudo. Numa época em que a figura do professor está tão desprestigiada, sirva essa voz tosca desse mestre-escola para registrar que ensinar é ainda a mais nobre de todas as profissões. Assim, entendo e sempre entendi que o professor tem de ser mestre do absurdo, porque só os grandes impactos constroem, enquanto as pequeninas coisas, sempre repetidas, decoradas, empurradas com a barriga, não funcionam, pois não têm graça nenhuma, corroem, enjoam e estragam a nossa vida, a vida de todos nós, a vida do homem comum, a vida de nossos alunos. Todos nós precisamos - o aluno em particular -  de felicidade para viver e o professor tem, por obrigação primeira, abastecer essa demanda. O professor, antes de tudo deve ser professor de felicidade. 

ATÉ A PRÓXIMA

11 de dezembro de 2017

O PÂNICO



 


Não queiras, em hipótese alguma, enfrentar a ira de uma autoclave enferrujada, servindo bravamente a uma velha sanita, não muito confiável! Insisto. Em hipótese alguma!
Tudo transcorria normalmente, até com a chuvinha fina, muito bem-vinda por todos -  e fazia tempo que ela não aparecia -  pois estava tudo muito seco, desde a capital até o interior das terras no entorno do Porto, lá por Oliveira de Azeméis. O fogaréu nas matas de pinheiros e eucaliptos já havia matado muitas pessoas e interrompido as comunicações de várias estradas vicinais que cortam os encantadores vales de Ossela, cidade de meus antepassados e que visitava com alguns parentes. Depois a chuva aumentou, mas não tirou o ânimo de conhecermos tudo, nos mínimos detalhes. Era uma comitiva alegre e culta. Sabedor de minhas pretensões, um grande amigo preparou magnífico e interessante roteiro, com guia e tudo, para que visitássemos os sítios onde meus bisavós viveram e minha avó paterna nascera. Quanta alegria e ansiedade para conhecer tudo!  Significativa foi a visita à igreja do século XVII onde minha avó Emília foi batizada numa vetusta pia de pedra. Lá, também, poucos anos depois, recebeu este santo sacramento o escritor Ferreira de Castro -  ele mesmo -  o autor de “A Selva”, “A lã e a Neve” e muitas outras obras em que meu amigo Pedro Calheiros é especialista, analisando doutamente suas escrituras e escriturações. Muitas emoções estavam reservadas nessa visita.
A primeira ocorreu quando a chuva ficou mais forte e esbranquiçou o fundo da igreja, entre o altar-mor e a sacristia lateral que dá acesso à torre, recentemente restaurada. Por lá, surgiu o meu sumido amigo fantasma, todo paramentado, em grande estilo, com uma alva túnica inconsútil, própria dos grandes espíritos etéreos. Surgiu sorridente bem mais branco e radiante, pois estava em casa e me encontrou em terras conhecidas, onde viveu, também, em tempos memoriais, aventuras de muitos e variados tipos. Ele é incrível, ou fora incrível! Já não sei, pois sempre me confundo ao lidar com esse estranhamento, sui generis, onde a noção de tempo-espaço ainda não está totalmente definida em meus pensamentos.  Disse-me que sua alegria eterna estava a transbordar de ansiedade, pois como não podia se materializar para qualquer um, queria, porque queria desejar ao seleto grupo todo o sucesso em seu empreendimento. Acalmei-o. Seus desejos seriam transmitidos ao pessoal, sem que ninguém suspeitasse de minha sanidade mental. Já sou especialista em lidar com essas singelas e etéreas criaturas nefelibatas.
O grupo fotografava o interior da igreja, quando minha prima perguntou onde ficava a casa-de-banho. A segunda emoção do dia estava prestes a acontecer. Quem quisesse utilizar o banheiro teria de sair pela porta lateral sul, passar por cima dos inúmeros túmulos, estirados eclesiasticamente sob o piso de pedra da nave central, passar por uma calçada estreia e se servir daquela, talvez, única dependência que não estava plenamente restaurada. Foi seguida pela simpática guia. Entraram. Serviram-se. Mas, de repente, lá de dentro, veio a nos assustar um grito desesperador.
- Credo! Não acredito!
 - Como foi possível isso acontecer!  - E agora?
 - Perdi todas as fotos! - Estou sem comunicação com o mundo.
 - Não vivo sem celular!
E suava frio de raiva, desesperando-se com o terrível acidente, somente presenciado por nossa guia que nos acompanhava desde a chegada à vila de Oliveira de Azeméis. Foi ela quem disse, com seu sotaque carregado, repleto de tons consonantais vibrantes, o que tinha acontecido:
- “A menina deixou cair o telemóvel à sanita, puxou a autoclave, e entrou em pánico”!

ATÉ A PRÓXIMA 

4 de dezembro de 2017

A origem de Camboriú: um mistério ou um mister rio?




Muito se tem escrito sobre a influência do tupi na formação do léxico do português brasileiro, com a presença de elementos da língua de nossos índios na fauna, na flora, nas paisagens, na comida, na fraseologia, na onomástica, na toponímia, na hidromínia, na antroponímia e em nomes ou em falsos nomes próprios de homem e mulher.
Em primeiro lugar é importante salientar que no início da colonização do Brasil, bem no início do século XVI, a língua mais divulgada e usada entre os portugueses, no seio familiar e no contato com os índios, era o tupinambá. O tupinambá foi chamado de língua brasílica e usado também pelos missionários capuchinhos e jesuítas ao longo do século XVII.  Já a língua geral, utilizada no final do século XVII e início do século XVIII, sob o aspecto linguístico não designava mais aquela língua genuína de outrora. Era uma forma modificada, tida como equivalente ao tupi utilizado mais tarde pelos padres jesuítas.
Aryon  Dall’Igna Rodrigues, o pioneiro da aplicação dos modernos  métodos linguísticos aplicados às línguas indígenas do Brasil  e em especial ao tupinambá da época dos primeiros jesuítas, em seu livro Línguas Brasileiras. Para o conhecimento das línguas indígenas, São Paulo, Ed. Loyola, 1986, nos mostra que o termo tupi (de tupinambá), aparece no século XVIII e dizia respeito, inicialmente, à língua dos índios tupinambás, localizados no norte do Pará.
Wolf Dietrich, professor titular emérito do Instituto de Filologia Românica da Universidade de Münster, na Alemanha, e sócio correspondente da Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), juntamente com Volker Noll, doutor e professor titular de Linguística Românica de Münster, Alemanha, no artigo O papel do tupi na formação do português brasileiro, in O português e o tupi no Brasil, Editora Contexto, São Paulo, 2010, acrescentam que esta denominação tupi servia para diferenciar a forma genuína do tupi, falado pela nação tupinambá, da língua geral amazônica... “que se formou no curso da expansão portuguesa na bacia do rio Amazonas nos séculos XVII e XVIII”, concordando plenamente com Aryon Dall’Igna Rodrigues. Continuando, afirmam os dois professores que “durante muito tempo”, o tupi, “serviu também de língua de comércio entre brancos e índios aloglotas”. Chamam, ainda, a atenção – e isso é muito importante – que só a partir do século XIX essa língua tupi foi chamada de nheengatu, do tupinambá nh’ë, “fala”, “língua”, + katu, “bom”, “forte”, “vigoroso”, “válido”, “autêntico”, nomenclatura que balizará as pesquisas e os estudos diacrônicos sobre as línguas da família tupi-guarani. Portanto, ficam aqui esclarecidos os empregos dos termos tupi e tupinambá.
               O surgimento de nomes, com efetiva presença da língua indígena, está ligado, ou à primitiva língua brasílica, o tupinambá, ou à língua geral já modificada, o tupi. Mas, grande influência mesmo teve o nheengatu, que, a partir do século XIX, passou a marcar muitos acidentes geográficos, objetos e uma grande diversidade de nomes de cidades, rios e povoados em nosso território.  Não quer dizer que outras nações indígenas que povoara outrora os sítios do atual Estado de Santa Catarina não tenham deixado a marca registrada de sua língua também em nossa fauna, flora, toponímia, fraseologia e nomes próprios de pessoa. Mas muitos nomes, principalmente os nomes onomásticos, que parecem ter surgidos no início de nossa colonização, entrando na língua portuguesa a partir dos primeiros envolvimentos entre índios e brancos, são termos praticamente recentes, do fim do século XIX, como parece ter ocorrido com o topônimo Camboriú. Cabe lembrar a colocação de Antônio Houaiss no Prefácio-Estudo do Dicionário histórico das palavras portuguesas de origem tupi, de Antônio Geraldo da Cunha, quando assim se pronuncia:


 É de suspeitar que três camadas distintas de topônimos tupis – ou brasílicos – coexistem hoje em dia: a dos topônimos dos próprios brasílicos de antes e durante os primeiros séculos de imposição colonial, a dos topônimos “tupinambizados” da língua geral de intercurso, que talvez reproduzissem os processos originais, talvez lhes acrescentassem ou diminuíssem algo, estilizando-os, e a dos topônimos tupinizados em operação consciente de composição por parte de tupinofonos, tupinizantes ou  tupinólogos – sem considerar defasagens regionais, como a amazônica, que deve repetir com certa modernidade o que ocorreu em outras áreas dois séculos antes” (in, CUNHA, 1999, p. 10).

Ademais, é sempre interessante lembrar que quase todos os sérios pesquisadores do século XX, professores de nosso idioma, filólogos eméritos da língua portuguesa, trabalharam com textos seiscentistas e setecentistas, dos padres jesuítas, como Anchieta, Nóbrega e outros, para estabelecerem os étimos históricos dos nomes de origem tupi. Eram filólogos e trabalhavam com textos. O linguista trabalha também com esses materiais, mas dá preferência à língua oral. A língua de nossos índios era ágrafa e sabe-se que diversos nomes de lugares, vilas, vilarejos, cidades, rios e muito mais, foram dados pelo homem branco, tomando como base a língua indígena, mesmo na época do estabelecimento daquele convívio bilíngue de que nos falam inúmeros historiadores, antropólogos e linguistas. Cabe saber como tudo aconteceu.
 Contudo, o método filológico não deve ser abandonado por pesquisadores que com essa metodologia podem abonar inúmeros termos relacionados à língua indígena, folheando, em cartórios, por exemplo, inúmeros tipos de documentos, como certidões, registros de compra e venda de escravos, cartas de alforria, leis, avisos de todos os tipos, sempre escritos pelo homem branco, como não poderia deixar de ser.
A busca das origens leva o pesquisador consciente a tecer inúmeras hipóteses e interpretações interessantes, respaldadas sempre em critérios sustentáveis e isso é importante para a ciência da etimologia.
Uma excelente e simples orientação aos etimólogos é encarar esse assunto como ciência e não como diversão ou passatempo. Mário Eduardo Viaro, da USP, um dos mais importantes etimólogos brasileiro, em seu livro Etimologia, adverte:

Etimologia e imaginação nem sempre fazem um bom casamento. Mais infeliz ainda é a tentativa de unir Etimologia e diversão, como se pode ver em muitas obras do gênero. A pesquisa etimológica, como uma edição científica, deve passar por muitas etapas rigorosas e, mesmo assim, as soluções de étimos são múltiplas e sujeitas a revisão. A situação, perante uma profusão de étimos (quando bons e dignos de avaliação) é apresentá-los sem uma solução definitiva, da mesma forma que muitas ciências o fazem seriamente com hipóteses não excludentes. Cabe a outros confirmar ou rejeitar tais hipóteses mediante a apresentação de novos dados e argumentos igualmente bem fundamentados. Não se pode provar uma etimologia apenas por meio de semelhança formal entre o étimo proposto e as palavras investigadas. Dadas duas línguas quaisquer, se um elemento de seu vocabulário é parecido ou idêntico, tanto no significante, quanto no significado, isso pode dever-se basicamente a três fatores distintos: coincidência, empréstimo ou origem comum” (In, Etimologia, Ed. Contexto, São Pulo, 2011, p. 97).

Assim, o pesquisador deverá levantar suas hipóteses, baseando-se sempre num arcabouço teórico bem definido. É o caso do pesquisador Lino João Dell’Antonio, em seu livro Nomes indígenas dos municípios catarinenses, Blumenau, 2009, que trabalha em bases filológicas, antropológicas e linguísticas, com segura  visão da realidade indígena. Diz que são poucas as análises etimológicas sem textos abonadores. Salienta, ainda, que “a toponímia pragmática, por ser a fiel expressão da raça indígena, é a parte mais importante do método de pesquisa”. Em suma, sua interessante tese, é a de que “qualquer topônimo indígena é uma definição pragmática da realidade externa” (Op. Cit., p. 42). Na procura das origens do termo Camboriú, nome de município e do rio que o corta, diz Lino João Dell’Antônio que não raro, muitos topônimos provêm de frases de uso frequente do dia-a-dia indígena. Como exemplo desta afirmação, cita a frase (sic) “caa amba y á”, ramos para cercar arroio. Caa = ramos; amba = cercar; y = rio; á = indica finalidade. Tal interpretação é também encontrada nos fundamentos linguísticos de A.J. Peralta e T. Osuna. Assim, Dell’Antonio, depois de longa exposição histórica, conclui sua investigação afirmando que Camboriú “é termo indígena e significa rio com camboas, em alusão às tapagens que se faziam para capturar peixes nas vazantes das marés”. (cf. op. cit. P.73)
Freire (Laudelino Freire, Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa, Rio de Janeiro, A Noite, 1930), anotou camboa como variante de gamboa e disse que Camboriú significa lugar em que remansa a água dos rios, dando aparência de lago tranquilo. Sua versão é a de que Camboriú significa onde o rio camba.
O IBGE (Enciclopédia dos municípios brasileiros, Rio de Janeiro, 1959), louvando-se em Lucas Boiteux (História de Santa Catarina – Resumo Didático -, São Paulo, Ed. Melhoramentos, 1919) que, por sua vez, se baseou na primeira edição de Theodoro Sampaio (O tupi na geografia nacional, São Paulo, Casa Eclética, 1901) afirma ser o termo Camboriú originário de “camby”, leite + “ri”, correndo + “y”, água, donde a expressão rio onde corre o leite.
Ainda Theodoro Sampaio, nessa primeira edição de seu livro, O tupi na geografia nacional, levanta a possibilidade de Camboriú significar rio dos robalos.
Reitz (Pe. Raulino Reitz, em artigo intitulado Camboriú significa criadouro de robalo, in Blumenau em Cadernos, t. 17, n. 4, abr, de 1976), baseado nessa última argumentação de Theodoro Sampaio, e vendo em “u” o significado de comer, sugere a hipótese do significado de Camboriú ser criadouro de robalos e não rio de robalos.
Patrianova (Hermes Justino Patrianova, em artigo intitulado Camburiú e não Camboriú, in Blumenau em Cadernos, t. 30, n. 9, set, de 1989) diz que Camboriú, em tempos passados, chamava-se Cambariguassu, de “camba”, significando seio + “ari”, em cima + “iguassu”, grande. Daí: seio grande em cima do morro.
Já para Wolf Dietrich e Volker Noll, Camboriú (SC) < kamburi + y = robalo d’água; rio dos camurins, tipo de peixe brasileiro, parecido com o robalo português do mar. De acordo, ainda, com esses mesmos autores, o étimo kambury ou kambory deu nome também a uma lagoa em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, a Lagoa de Camorim, na zona oeste, com abundância desse peixe em épocas passadas.  
O historiador regional Isaque Borba Corrêa justifica a origem de Camboriú, ligando o topônimo ao étimo Camboriguassu, encontrado em documentos escritos do século XIX (Cf. CORRÊA, 1984), que passa a “Cambriú”, pela lei do menor esforço, e significa robalo grande. Mostra ainda que o primitivo nome do atual município de Camboriú era Cambriú, e isso pode ser encontrado - diz Isaque Borba -, nos cartórios da cidade de Camboriú. E completa: de Cambriú passou a Camboriú. Aqui, é importante assinalar que características do português brasileiro, inclusive algumas delas encontradas no seu léxico, podem e devem ser explicadas quanto à sua evolução ou transformação, estritamente dentro da linha histórica da evolução das línguas românicas conforme anotam Wolf Dietrich / Volker Noll, na obra aqui já citada. Portanto, precisa ser bem explicado o possível fenômeno fonético ocorrido aí nessa última hipótese (Cambriú > Camboriú), que poderia ser um anapitixe ou suarabati, desfazendo o encontro consonantal. Isaque Borba diz, ainda, que foi por influência do falar de padres, escrivãs e cidadãos de um modo geral, uns mais, outros menos instruídos, que, por eufonia, o povo transformou o termo primitivo. É bem possível ter ocorrido esse fenômeno de fonética histórica, a fim de se desfazer uma Realização Difícil ou, talvez, neste caso específico, para dar um toque eufônico ao topônimo. Por outro lado, tanto os representantes sociais do conservadorismo linguístico, como os usuários mais descuidados no uso da língua sempre se deixaram levar pela deriva da língua, o drift de Sapir, embora, inconscientemente, muitas vezes. Isaque Borba serviu-se, portanto, de textos, mas as justificativas linguísticas estão à espera de algumas explicações fonéticas que justifiquem com mais detalhes todas as alterações sofridas “ab ovo”, pois a origem histórica dos étimos primitivos em discussão (com suas combinações) deverá dar sustentação às alterações fonéticas sofridas pelos termos aglutinados, combinados e envolvidos, até o surgimento da forma final do topônimo.
Assim, entre todas as hipóteses etimológicas, deixando de lado muitas que aqui não apresentamos, a de João Lino Dell’Antonio e a de Isaque Borba são as mais consistentes, embora apresentem diferentes origens para Camboriú, que nos parece, realmente, ser um topônimo não muito antigo na onomástica catarinense, podendo até sua forma atual ser fruto daquele tipo de vocábulo construído pelo homem branco, ou um vocábulo “tupinambizado”, na nomenclatura de Antônio Houaiss, utilizando-se, para a sua formação final elementos da língua tupi ou do nheengatu. Parece, ainda, que faltou a todos esses estudiosos que tentaram buscar as origens do topônimo Camboriú mais explicações tácitas. Todos partiram, não só de uma visão antropológica, mas também de visões históricas, sociológicas e linguísticas e apontaram étimos tupis, como “caa”, ramos, galhos, ramagens ; “amba”, cercas  ou ainda  “camury” ou “camory”, peixe identificado com o robalo, e muitos outros, deixando somente de concluir, na linha das transformações fonéticas, como se chegou ao vocábulo Camboriú.
Porém, por tudo que apresentamos sobre as origens do topônimo Camboriú pode-se dizer que todas as hipóteses estão dentro de uma aceitabilidade investigativa com cientificidade, embora o raciocínio analógico, em alguns casos, tenha se manifestado como um dos germes recorrentes de explicações etimológicas, como mostramos no início, citando Mário Eduardo Viaro (Ver, VIARO, 2011, p.224).
Assim, acreditamos que todos os pesquisadores aqui mencionados, certamente, muito contribuíram, com sua visão crítico-analista, para a solução do mistério das origens desse vocábulo oxítono, nome misterioso de rio, um mister rio, um senhor rio, que batiza também dois dos mais belos recantos de Santa Catarina.  

 BIBLIOGRAFIA

CORNELSEN, Eugênio. Língua Guarany. Rio de Janeiro, 1937.
CORRÊA, Isaque Borba. História de duas cidades: Camboriú e Balneário Camboriú. B. Camboriú, Gráfica Camboriú, 1984.
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DELL’ANTONIO, Lino João. Nomes indígenas dos municípios catarinenses – significado e origem – Blumenau, Ed. Odorizzi, 2009.
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NASCENTES, Antenor. Dicionário etimológico da Língua Portuguesa, V.I e II. Rio de Janeiro, 1952.
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TIBIRIÇÁ, Luiz Caldas. Dicionário de topônimos brasileiros de origem tupi. São Paulo, Traço Editora, 1985.
TIBIRIÇÁ, Luiz Caldas. Dicionário guarani-português, São Paulo, Traço Editora, 1989.
 TIBIRIÇÁ, Luiz Caldas. Dicionário tupi-português. 2ª ed, São Paulo, Traço Editora, 1984.
VIARO, Mário Eduardo. Etimologia. São Paulo, Editora Contexto, 2011.
VOLKER, Noll et WOLF, Dietrich. O português e o tupi no Brasil. São Paulo, Editora Contexto, 2010.


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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.