Quantos me visitaram ?

21 de janeiro de 2017

O ROMÂNTICO NO PARNASIANISMO DE VICENTE DE CARVALHO






A FLOR E A FONTE  

*Vicente de Carvalho

"Deixa-me, fonte!" Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria
Cantava, levando a flor.

"Deixa-me, deixa-me, fonte!"
Dizia a flor a chorar:
"Eu fui nascida no monte...
"Não me leves para o mar."

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

"Ai, balanços do meu galho,
"Balanços do berço meu;
"Ai, claras gotas de orvalho
"Caídas do azul do céu!..."

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

"Adeus, sombra das ramadas,
"Cantigas do rouxinol;
"Ai, festa das madrugadas,
"Doçuras do pôr-do-sol;

 "Carícias das brisas leves
"Que abrem rasgões de luar...
"Fonte, fonte, não me leves,
"Não me leves para o mar!"

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor...

*In Rosa, Rosa de Amor.

            Em primeiro lugar, é bom colocar, mesmo sabendo que a informação nada tem de literário, mas sim de curiosidade, que o bairro carioca de Vicente de Carvalho, na região oeste da cidade do Rio de Janeiro, não tem seu nome ligado ao poeta paulista, de verve parnasiana, com intensa conotação romântica. O nome do bairro se prende ao homônimo Vicente de Carvalho, fazendeiro do lugar que deu nome ao próspero reduto suburbano.
O poeta parnasiano Vicente de Carvalho nasceu em Santos, SP, a 5 de abril de  1866 e faleceu também na bonita praia paulista, em 22 de abril de 1924, vivendo, portanto, 58 anos, dentro da média de vida do brasileiro daquela época. Vicente de Carvalho foi bacharel na Faculdade de Direito de São Paulo SP, atuou como abolicionista, foi redator do Diário de Santos, fundou o Diário da Manhã em Santos e se tornou Deputado Constituinte, participando da Comissão Redatora da Constituinte de 1891. É considerado um dos principais nomes da poesia parnasiana brasileira, juntamente com Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira. Segundo Massaud Moisés, "o culto a Camões, modelo de poesia lírica e de soneto de recorte preciso e discursivo, o gosto do lirismo tradicional, a projeção para o mar e os temas histórico-poéticos, denunciam, em Vicente de Carvalho, um poeta formalmente apegado ao ideário parnasiano". Vicente de Carvalho foi um poeta que aderiu ao parnasianismo aniquilador do sentimento romântico, embora seus versos demonstrem melancolia, emotividade, alguma ironia, sugerindo influência simbolista.  Ainda nas palavras de Massaud Moisés, ele foi "um romântico autêntico", que nem o formalismo parnasiano nem o transcendentalismo simbolista haviam conseguido mudar. Vicente de Carvalho adere ao mar como principal tema de sua lírica, talvez um resquício dos tempos da sua infância em Santos, SP. Foi jornalista e redator do Diário de Santos e fundador do Diário da Manhã, da cidade de Santos. Escreveu para O Estado de S. Paulo e publicou, no fim de sua vida, muitos poemas na revista A Cigarra. Sua obra poética: a) Ardentias, 1885, eminentemente romântica; c) Relicário, 1888; c) Rosa, Rosa de Amor, 1902; d) Poemas e Canções, 1908; e) Versos da Mocidade, 1909. Publicou em prosa Páginas Soltas, 1911 e Luizinha, 1924, uma comédia e alguns contos.  Somente a partir de Relicário se afirma como poeta parnasiano, sem o historicismo e o retorno às origens míticas greco-romanas, que predominou , por exemplo, na conhecida trindade parnasiana: Alberto de Oliveira, Olavo Bilac e Raimundo Correia. Por outro lado, o romantismo em Vicente de Carvalho se faz presente no sentimento vivo da natureza; na visão do mar e das matas tropicais brasileiras; na visão das nossas montanhas e na beleza da mulher, muitas vezes comparando-a com aspectos da natureza, mas numa transfiguração muito mais ideal do que real da realidade circundante. Sua linguagem nesse momento é fácil, corriqueira, familiar, original, sempre mesclando versos curtos, como as redondilhas, com os decassílabos e seus quebrados de seis sílabas, num turbilhão de ritmos sugestivos e criativos. O Eu-lírico do poeta, finalmente, envolve-se com o tema do mar e da água, em alegorias e metáforas reflexivas e meditativas.

Este poema, A flor e a Fonte, do livro Rosa,Rosa de Amor, é composto por oito quadras, estrofes de quatro versos heptassílabos, redondilha maior. O esquema de rimas em todas as estrofes é ABAB. Trata-se de uma história fácil de entender. Numa delicada prosopopeia, duas peças da natureza em confronto. De um lado uma flor. Do outro, as água de uma fonte a correr para o mar, inexoravelmente. Surge, então, o diálogo, pela verve poética do sujeito lírico, narrador onisciente do poema, mas sem ufanismos e pieguices (características românticas), mas traçando objetivamente, uma transfiguração da realidade, numa linha de raciocínio lógico (Vicente de Carvalho era admirador e leitor de A. Comte e Spencer), pois a corrente da fonte não tem como, por sua natureza, atender aos clamores da flor. Flor sem qualificações, adjetivos. Simplesmente uma flor, talvez retratada na frialdade botânica da espécie... Contudo o poeta não consegue separar o sensorial do emotivo e na última estrofe, única vez que a voz do eu-lírico se pronuncia, o poeta, em lamúria sentida, compara sua desgraça à da flor impelida por uma força da natureza, maior do que ela, “numa descida como a da fonte e da flor”, um verdadeiro determinismo, imposto pelo destino das coisas, na visão de mundo do poeta. Além disso, percebe-se no poema vestígios de significantes marcantes do simbolismo romântico em toda a lamúria da flor, carregada pela fonte. A flor pertence à terra, seus galhos são seu berço e as gotas de orvalho são as lágrimas da flor em pranto! Por tudo que se observa no poema A Flor e a Fonte, de Vicente de Carvalho, pode-se dizer que se trata de uma composição parnasiana, que envolve o leitor e o extasia, pela simplicidade e metáforas telúricas, numa nova linguagem, rica em imagens da natureza e eivada de psicologismos. Um parnasianismo bem característico de Vicente de Carvalho, com perfeição de forma (ó), sem se enquadrar na forma (ô) do estilo de época, e com intensa ambição de isso realizar, criando sempre, fazendo-nos meditar na beleza da vida e sonhar com ela.


ATÉ A PRÓXIMA

11 de janeiro de 2017

TROVAS, TROVINHAS E TROVÕES III






“Minha alma no azul se expande...
Parece um sonho sem fim.
Sendo o nosso amor tão grande
Sinto o céu dentro de mim”!
                                                         Autor: João Batista Xavier Oliveira

A análise da trova acima visa encontrar uma relação significativa entre as quatro elucubrações ou pensamentos contidos em cada verso, sustentados pelos respectivos verbos de cada oração.
            Assim, o 1º verso (MINHA ALMA NO AZUL SE EXPANDE) pode ser entendido, de acordo com os significados dos nomes substantivos, verbos e relacionamentos sintáticos, como: Minha alma vai se expandindo no azul do céu. A esse primeiro verso se coordena (se liga) um outro, o 2º, sem que haja entre eles nenhuma dependência sintática. Isto é, um verso não é função sintática do outro. Observem: PARECE UM SONHO SEM FIM. É como se dissessem: “Minha alma no azul se expande” e “isso parece um sonho sem fim”.
Esses dois versos, um dístico, é um pensamento poético, com total e plena estruturação sintática. Com total sentido formal. O sentido formal deve existir em qualquer tipo de escritura, seja ela uma escritura denotativa, seja ela uma escritura conotativa. Quer dizer, tanto o referencial quanto o metafórico devem se estruturar dentro de um modelo linguístico pré-estabelecido. No caso trata-se de se seguir a estrutura da língua portuguesa.  Observem o exemplo: “Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabiá; /As aves que aqui gorjeiam,/ Não gorjeiam como lá.” (Canção do Exílio, Gonçalves Dias). Os dois primeiros versos formam um dístico com sentido complementar, um completa o sentido do outro.  É como se dissesse: O sabiá canta nas palmeiras que existem na minha terra. Da mesma forma os dois últimos versos também se completam. Seria: “Onde estou agora (no exílio, em outras terras) as aves daqui não gorjeiam como as aves que gorjeiam lá na minha terra natal”. Pode-se concluir, dizendo que existe um nexo significativo entre todos os quatro versos da estrofe de Gonçalves Dias. Agora, jamais se poderá dizer que o poético se ausentou da cena descrita naquele texto, pelo fato de que nunca ninguém viu um sabiá cantar empoleirado nas folhas das palmeiras do Maranhão. E mesmo assim, a imaginação inspirou o poeta... Queremos dizer com isso que, nos versos, a poeticidade se constrói com ou sem palavras, com ou sem subjetivismos, mas o sentido poético só se constrói com a ordenação das palavras na frase, obedecendo às estruturas rítmicas e sintáticas da língua. Portanto, se invertêssemos a ordem de aparição dos vocábulos dos quatro primeiros versos da Canção do Exílio, num hipérbato desconcertante, prejudicando totalmente o entendimento do discurso, sem nenhuma gramaticidade ou aceitabilidade, a poesia jamais lá se instalaria. Assim: Tem palmeira terra minha /   Canta onde o Sabiá  / Gorjeiam as aves que aqui / Como não gorjeiam lá. 
Observemos, agora, os dois últimos versos da trova em questão: Sendo o nosso amor tão grande / Sinto o céu dentro de mim.
Esses dois versos estão subordinados um ao outro, numa ordem invertida. O verso Sendo o nosso amor tão grande tem o seu verbo no gerúndio (sendo) o que torna essa oração uma oração reduzida, com valor causal, subordinada, portanto à seguinte, que seria a principal. Correspondendo a esta interpretação: Eu sinto o céu dentro de mim, porque o nosso amor é tão grande. Nesse caso, entenda-se a expressão “tão grande” como equivalente a “muito grande”, não se considerando haver aí uma consequência.
Se formos considerar a existência de uma consequência, a interpretação seria outra. Vejamos esta hipótese. Vamos considerar o verbo SER, na forma de gerúndio, um verbo vicário. Sem significado, só para dar corpo fonético à frase. Portanto, excluído de cena, entender-se-ia assim esse terceiro verso da trova em questão: O nosso amor é tão grande (ração principal) que sinto o céu dentro de mim (oração subordinada consecutiva, pois depende da oração principal, para o conjunto das duas formar sentido).
Parece-nos que esta última interpretação é menos plausível. Ficaremos com a primeira interpretação.
Agora, juntando os quatro versos analisados, dois a dois, verificamos que os dois primeiros estão desconectados, formalmente, dos dois últimos, pois não produzem sentido. Os dois primeiros versos da trova formam um período coordenado, com sentido finito, embora haja uma visão conotativa, poética, metafórica, portanto. Mas as metáforas estão, no nível do significado, perfeitamente estruturadas. Já os dois últimos versos da trova, tomando-se a primeira interpretação, constituem uma estrutura em subordinação, sem liame conceitual com os dois primeiros.

Concluindo, podemos dizer que se entende o que o autor quis dizer, ao se expressar dentro das amarras de um poema fixo como a trova, mas entende-se, por pura intuição, por puro impressionismo, pois neste caso mostrou-se   - e a análise é para isso mesmo – que a grandeza do conteúdo foi tanta, que não coube nas amarras das estruturas linguísticas conhecidas e trabalhadas inconscientemente  pelo poeta. 

ATÉ A PROXIMA

10 de janeiro de 2017

CHOVEU A CÂNTAROS



Um amigo que muito considero por sua formação humanística, além de excelente músico, mestre em prolatar discursos afinados com a ética na política, usou certa vez, em postagem nas redes sociais a expressão “em cântaros”. Meu amigo Eduardo! Essa expressão que você usou "o céu derrama-se em cântaros" é uma metonímia perfeita. Digo-lhe que isto me lembrou uma aula dada, há muitos e muitos anos, num colégio religioso, lá na Rua do Catete. Era o famoso Santo Antônio Maria Zaccaria. CÂNTARO é um nome de origem grega, KANTARÓS. Pena que eu não tenho recursos técnicos para usar aqui aqueles caracteres da língua de Homero, a fim de dar maior credibilidade às minhas elucubrações filológicas. Mas seria: KAPA + ALFA + NI + TAU + ALFA + RÔ + ÓMICRON + SIGMA). Chegou ao português pelo latim CANTHARUS, que significa, entre outras coisas da mesma constelação semântica, vasilha grande de beber, bojuda e com alças; bilha grande; grande cangirão. O que predomina neste significante é o "SEMA" COISA GRANDE. Portanto está nítida a figura de linguagem, conhecida como METONÍMIA, isto é, o emprego, no caso, do continente pelo conteúdo. Pois bem, lembro-me como se fosse hoje. Estava explicando isso a uma turma de 4º ano Ginasial (faz, realmente, muito tempo. Tempo em que o ensino da Língua Portuguesa era, como se dizia, puxado), quando passou pela porta da minha sala o senhor Luís, um empregado fanho, parecendo abobalhado, muito religioso, que se autodesignava IRMÃO. Era o Irmão Luís, que vivia sempre correndo de um lugar para ou outro, conhecidíssimo em toda a escola, desdobrando-se em mil-e-uma atividade. Servia, também, especial e particularmente ao Reitor da instituição, Pe. Vicente Adamo, homem austero, sisudo, classificado mesmo como um bruto e não muito querido pelo corpo docente, além de temido pela garotada de toda aquela conceituada instituição Barnabita de ensino, da cidade do Rio de Janeiro. Levava o apressado Irmão Luís,  numa bandeja ,um jarrão de água gelada para o Reitor, quando, bem em frente à porta da minha sala de aula, levou um escorregão naquele longo e muito bem encerado corredor, estatelando-se no chão com jarra e tudo. A jarra voou pelos ares, naquele ambiente que respirava respeito e atenção de todos os alunos, e entrou como um meteoro em minha sala de aula, indo estilhaçar-se em cacos encharcados de água e gelo por todos os lados, junto ao quadro-negro. Aproveitei a patética cena para a fixação da aprendizagem. Anos mais tarde, em Teresópolis, encontrei numa farmácia, um médico que me reconheceu como seu ex-professor. Disse-me, abraçando-me com carinho e emoção: “METONÍMIA É O EMPREGO DA PARTE PELO TODO E DO CONTINENTE PELO CONTEÚDO. EXEMPLO: CHOVE A CÂNTAROS, COITADO DO IRMÃO LUÍS, FICOU TODO QUEBRADO”. Meu amigo Eduardo, o magistério é a melhor profissão do mundo... depois da de músico....


ATÉ A PRÓXIMA

22 de dezembro de 2016

TROVAS, TROVINHAS E TROVÕES – Versão II



Recebi as trovas selecionadas do importante, criativo e inédito concurso de trovas para serem etiquetadas nos ônibus de Balneário Camboriú, que teve como tema a natureza ,de um modo geral.
O projeto de autoria da escritora Eliana Jimenez é muito criativo e interessante, pois faz pensar sobre a necessidade de se cuidar do meio ambiente, hoje muito maltratado, por falta de educação e ignorância de todos aqueles que praticam atos que degrada nossas praias, mares, lagos e lagoas. Não é só o indivíduo despreparado que degrada a natureza, muitas vezes sem consciência do que faz, por pura ignorância. São,também empresas, de todos os tipos, que poluem o meio ambiente, em nome de uma ganância destruidora de paisagens belas e do solos produtores.
Contudo, no que diz respeito a concursos como este em questão, chamo a atenção, especificamente, para a falta de cuidado que teve a produção do projeto da escritora Eliana Gimenez, na sua fase de escolhas das produções literárias classificadas como vencedoras, pois nas 18 trovas que me chegaram às mãos, pude observar, a grosso modo – num olhar  rápido e despretensioso – 6 impropriedades, a maioria relacionada ao código linguístico da língua portuguesa mal usado.Uma pena! Vejamos:
      1) que, na caçada a riqueza” – Autor A.A.de Assis, Maringá-PR. Comentário: falta o sinal diacrítico, acento grave no –a- em “à riqueza”;
     2) morrendo de poluição” – Angélica Vilela dos Santos – Taubaté-SP. Comentário: O vocábulo “poluição”, na trova em questão não comporta o fenômeno fonético intravocabular chamado de sinérese, pois a última sílaba /ção/ é tônica, prejudicando a contagem métrica;
    3) Deixe à gerações futuras”. Comentário: Erro gravíssimo no emprego do acento grave na vogal –a-. Deveria ser grafado “a gerações”. Por se tratar de assunto de nível bem elementar, declino de maiores comentários;
      4) nem sempre os ventos socorrem / as asas desesperadas / dos passarinhos, .....” Comentário: Será que há ventos que socorrem passarinhos? A liberdade de imaginação poética atinge o ridículo...;
        5) Você que lê estes versos / nas ruas desta cidade / não deixe nas mãos de perversos / a biodiversidade” . Plácido Amaral – Caicó – RN. Comentário: O terceiro verso está, como se diz na gíria da crítica comezinha, de pé quebrado, isto é, possui 8 sílabas métricas. Vejamos:  /não1/ dei2/xe3/nas4/mãos5/de6/per7/ver8/sos;
       6) Ganancia” é terra ferida”. Reovaldo Paulichi – Atibaia – SP. Comentário: Ganância é palavra proparoxítona e como tal, será acentuada em sua sílaba tônica. Elementar, também, meu caro produtor!
      A melhor trova do inédito concurso, a nosso juízo é a de José Ouverner – Pindamonhangana – SP.
“Mãe natureza”! – Eis o nome
de quem em nome do amor,
gera o fruto e estanca a fome
do seu próprio predador! “

Comentário rápido: Trabalha com jogo de palavras e de ideias, empregando metáforas antitéticas.

Assim, essas trovas estarão constantemente sendo lidas pelos transeuntes e passageiros dos ônibus de Balneário Camboriú, podendo cada erro ser alvo da crítica feroz do leitor culto e atento aos fatos da estética e do uso culto da língua portuguesa. Um projeto tão interessante como este mereceria um controle de qualidade, para que, passando pela bela praia de Balneário Camboriú, não morresse nela...  

ATÉ A PRÓXIMA

28 de novembro de 2016

OCUPAÇÃO NIILISTA


A esquerda brasileira é esquizofrênica, porque toda ela: os políticos, os filiados ao partido dos trabalhadores, os filiados ao partido comunista brasileiro, a grande maioria de professores e intelectuais sem muito preparo, todos sofrem de psicoses endógenas, apresentando sintomas claros de dissociação entre suas ações e aquilo em que realmente acreditam e pensam. Teoricamente são um desastre, tanto quando explicitam teorias equivocadas, e também quando tentam praticar algo de real mérito e sempre apresentam alucinações ao analisar e discutir o quadro político atual de nossa enxovalhada república. Invertem tudo, em delírios persecutórios, querendo acreditar no que pensam ser, enquanto produto do delírio de serem, o que na realidade, ou no real, não são e nunca foram.
Existe um trabalho irreparável sobre política, incidindo sobre a ótica psicanalítica, na visão de Jacques Lacan, do Prof. Dr. Antônio Sérgio Lima Mendonça (*), que inicia mostrando a diferença entre Discurso do Capitalista e discurso capitalista. Aquele seria o quinto discurso de Lacan, após acrescentar o discurso de Fazer Desejar, o quarto, a partir dos três ofícios impossíveis de serem realizados, que Freud nomeou como os Ofícios de Governar, de Psicanalisar e de Educar.  Talvez, e com toda certeza, seria também implicado como impossível de ser realizado, tal como os quatro outros  O trabalho se fundamenta em um texto de Jacques-Alain Miller, genro do mestre da psicanálise pós-freudiana.
Então, vamos lá. O discurso capitalista trata de enriquecer, enchendo as burras de dinheiro e nunca desejar. Toda atividade humana visa à acumulação. A acumulação torna-se o mais-gozar do capitalismo. Aqui, Antônio Sérgio vai fundo na crítica aos universitários dos anos dourados, que hoje são os professores de plantão nas “ocupações” das nossas desprestigiadas e enfermas universidades. Diz ele: “Os que já leram O Capital (Kals Marx), que é um dos livros, no Brasil, mais citado e menos lido, no livro 10 do tomo I vão encontrar aquele texto que enfeitiçou a nossa universidade, nos anos 70, chamado! Fetichismo da mercadoria”. Aí apareceu um bando de “criativos de plantão”, atribuindo ao termo marxista fetichismo o status de termo freudiano, o que era e é um equívoco. Fetichismo quer dizer lá, em alemão, feitiço. Marx estava falando do feitiço da mercadoria, ou seja, da capacidade que a mercadoria teria no capitalismo de enfeitiçar as pessoas ao equivaler trabalho e valor. E essa capacidade da mercadoria de enfeitiçar se devia ao fato de a mercadoria ter um duplo e indissociável aspecto: ser um elemento econômico e ideológico ao mesmo tempo. Isso seria uma forma de, a juízo de Marx, dissimular o que ela chamava de mais-valia. E o que ele chama de mais-valia tem um lado algo meio “datado”, o que é um erro, hoje em dia (desculpem-me por chamar Marx de “equivocado”) e tem um lado estrutural que continua correto.”
Assim sendo, percebe-se que o capitalismo do século XIX não é igual ao capitalismo de nosso século. Era outro. O capitalismo atual é bem diferente. Os serviços são tecnologizados e os salários não são, necessariamente, pagos por horas e sim por outras muitas formas de recebimento.
 Mais tarde Rosa Luxemburgo, uma força emergente e contraditória aos princípios marxistas, pois espartaquista, acrescentaria, conceitualmente, algo importante no capital, outra forma de entender a acumulação. Para Marx, a acumulação capitalista é o produto da mais-valia, porque a mais-valia surge do não pagamento do valor do trabalho no preço da mercadoria. Eis o básico e primeiro princípio da acumulação. Já para Rosa Luxemburgo,  não é a acumulação que vai gerar o capitalismo. É o próprio capitalismo que  que vai gerar a acumulação, no mundo que se internacionaliza. Um modo de expansão do capitalismo, como pensou, muito perto do conceito atual, nesse mundo globalizado de hoje, para sermos bem precisos e redundantes.
Será que percebemos que não há sistemas políticos no mundo atual que não tenham se submetido ao princípio da acumulação capitalista? Tanto no sentido econômico como nos mais amplos sentidos. O Discurso do Capitalista será um modo de pensar e não um modo de produção. Isso pode ser verificado porque os lacanianos sabem que é o discurso que rege o mundo e não, como pensavam os marxistas, que o capital que fala fosse uma superestrutura da realidade econômica, como argumente e afirma Antônio Sérgio. No Discurso do Capitalista não há lugar para os perdedores, aqueles que não foram bem sucedidos na lógica da acumulação.
E o autor desse precioso trabalho, LACAN, A PSICANÁLISE E A POLÍTICA, termina, para deixar bem claro -  acrescentamos nós -  a essa esquedopata pseudo-intelectual brasileira, das ocupações universitárias sem sentido de honra, vergonha e impudência “que no capitalismo hodierno, a moral só surge para condenar o malsucedido, e o Estado de Direito e a democracia para legislar e/ou legitimar a sua condenação; o que nos candidata ao sentido que, alguns pensadores, inspirados retroativamente, como Giorgio Agamben, nos conhecimentos filológico-linguísticos de Émile Benveniste, chamaram de Homo Sacer, ou seja, a exclusão como reversão da santidade, como forma de evitação do serviçal, na qual o sacro perde a intocabilidade e passa a ser passível de ser morto, malgrado a ordem jurídica vigente: trata-se de algo próximo do “linchamento moral” e/ou do “assassinato cultural”. Portanto, tão moderno quanto agora, assim pode-se terminar esse texto-resenha.
·         

MENDONÇA, Antônio Sérgio Lima. CAPÍTULO 5. Lacan, a psicanálise e a política, IN Lacan com Freud: A cultura e o mal-estar civilizatório. Companhia da Freud, Rio de Janeiro, 2010, págs. 75-92.

ATÉ A PRÓXIMA



















23 de novembro de 2016

MÁQUINAS DE ESCREVER




   Escrever por escrever aos borbotões pode ser terapia, afinal é uma prática salutar que distrai e pode produzir muita coisa boa. Ultimamente fiquei encantado e um pouco intrigado com a produção em série de obras literárias produzidas por um só escritor e lançadas ao mercado, em Feiras de Livros regionais, inclusive. Muitas concorreram a premiações literárias e obtiveram belos e significativos troféus, mas isso não é comum. Portanto, debrucei-me sobre este acontecimento e fui reler meus preferidos autores que trataram da Teoria Literária. Roland Barthes dissera, há mais de quarenta anos, que o mundo assistia aos esforços que os artistas, principalmente os escritores, estavam fazendo para destruir a arte. Mas como os textos literários são constituídos de linguagem plurissignificativa e a destruição da linguagem não pode ser verdadeiramente executada, o autor de O prazer do texto retifica, afirmando que suas palavras foram dirigidas mais às artes plásticas do que a literatura, se bem que os problemas estéticos aí, na literatura, são inteiramente diferentes do que na pintura e na escultura, mas de certa forma se imbricam.     
Deve-se escrever compulsivamente? Bem, escrever é anotar para que as palavras permaneçam fixadas ao papel (...scripta manent). Isso pode ser conseguido com o simples exercício da cópia, para se aprimorar a caligrafia e se fixar nas memórias visual e táctil as grafias das palavras. Mas o ato de escrever pode também estar ligado a um tipo especial de prazer. Tal como existe o prazer em ler, aquele que traz o leitor para os escritos do outro, para os textos literários que vão proporcionar ao leitor euforia e conforto, além de colocá-lo em sintonia com o mundo ou ambiente circundante, inserindo-o na cultura, existe, também, o prazer em criar um texto uma escritura. É o prazer compulsivo. Euforia em disseminar a cultura internalizada que irá surgindo, moldando as formas linguísticas de tal modo que o produto se torne expressivamente agradável. Mas agradável a quem? Se essa forma de agrado não for destinada ao receptor, no caso específico da escritura literária (nas outras artes ocorre o mesmo), uma vez que a estética está centrada na ótica do receptor, não surgirá desse esforço físico nenhuma consequência.         
A escrita compulsiva parece que pode atingir a fruição, o desfrute, o gozo, o êxtase. Os textos de fruição autênticos e raros não surgem da compulsão em escrever. Surgem de uma internalizada leitura literária, adquirida, não inata, mas elaborada e cultivada, aprendida, por conseguinte. O escritor compulsivo sem experiências de intertextualidades, relação com outros diversos textos, e sem liames estabelecidos com acontecimentos universais, não produzirá uma escritura para o outro. Produzirá uma escritura para si, supostamente literária. A escritura deverá se destinar a um letramento literário e não a uma leitura literária, como a que, costumeiramente, se faz nas escolas, desenvolvendo-se conteúdos didático-programáticos. Esse letramento deverá estar envolvido pelo conserto e desconserto do mundo, além do prazer e fruição, mas sobretudo, pela paixão e enfetichamento do objeto-tema retratado, escolhido para alumbrar o leitor.  


LEITURAS  SUGERIDAS 

1- BARTHES, Roland. Le plaisir du texte, Paris, Éditions Seuil, 1973. 2- COSSON, Rildo. Letramento Literário: teoria e prática. São Paulo, Contexto, 2007. 3- ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história literária. São Paulo, Ática, 1989.

ATÉ A PRÓXIMA



22 de novembro de 2016

VOU CONTAR UMA HISTÓRIA

Primeira Parte: INTRODUÇÃO                     

Era uma vez uma instituição “literária” que se chamava União dos Trovadores do Brasil, UBT. Atualmente, tem como presidente nacional uma Sra. chamada Domitila Borges Beltrame, que não sabe o que significa o vocábulo exacerbação, tanto é assim que escreve, equivocadamente, “exarcebação”. Não acreditam? Está lá, por duas vezes grafado, na página 02 do Boletim Nacional da União Brasileira de Trovadores, número 578, outubro de 2016. Esta senhora assina o artigo PALAVRAS DA PRESIDÊNCIA.  Ora bolas, uma entidade cultural que cultiva e preserva a memória literária da TROVA, não pode se expor de maneira ridícula, estropiando a língua portuguesa de Camões, Pessoa, Bilac e do próprio patrono da UBT, o poeta-trovador, Luís Otávio. E mais. Essa atual Diretora, D. Domitila Borges Beltrame, não tem condições culturais nem administrativas para continuar à frende de uma instituição tão simpática e de mais de cinquenta anos, ou perto disso. É estranho o enredo dessa história? Então, leiam com atenção a correspondência que essa senhora em epígrafe recebeu e nem sequer se dispôs a responder, talvez por não saber ler interpretativamente os sintagmas, as frases e os parágrafos. Bem, quem não sabe das coisas não consegue, mesmo...

Segunda Parte: O IRRESPONDÍVEL

A atual presidente da UBT nacional recebeu uma correspondência assinada, no dia 25 de outubro de 2016, na qual é esclarecido todo um tremendo imbróglio, surgido por sua total incapacidade de entender e interpretar textos. E olhem que o texto que os senhores vão ler (o mesmo que ela recebeu) é simples, sem nenhum artifício estilístico e com um vocabulário bem redundante, fácil, portanto, de ser entendido.

Vamos aos fatos.

Blumenau, 25 de outubro de 2016. Prezada Sra. Domitilla Beltrame.

Li no Boletim Nacional da União Brasileira de Trovadores, outubro 2016, nº 579, página 02, no texto PALAVRAS DA PRESIDÊNCIA, seus comentários sobre o evento que coordenei, o I Concurso Nacional de Trovas de Blumenau.
Causou-me enorme estranheza sua declaração, a respeito da minha não distinção entre Trovadores Veteranos e Novos Trovadores no Concurso que coordenei. Sei, perfeitamente, que no Edital havia referências a esse tipo de distinção. Contudo, expliquei a V.S. os motivos pelos quais não considerei esses dois tipos de trovadores. Sei que a senhora tem todo o direito em querer que as coisas corram dentro das normas previstas nos seus regulamentos, mas chegar ao ponto de ver exacerbação em minha humilde e sincera argumentação, por não seguir sua orientação, é uma atitude que não posso aceitar. Não agravei nada. Não exagerei nada, porque nada havia para ser exagerado. Gostaria que refletisse bem a respeito disso tudo. E para que não haja dúvidas, transcrevo o texto do e-mail em que lhe enviei os resultados do I Concurso de Trovas de Blumenau, com a referida justificativa e que não foi respondido, surgindo lastimáveis comentários, em seu Boletim (Nº579, outubro/2016), aberto aos seus leitores, o que caracteriza ação ignominiosa, portanto. Ei-lo:

“Prezada senhora.
Englobei todos os concorrentes em uma só categoria, pois foram muitas trovas e não poderia sobrecarregar os julgadores com subdivisões, uma vez que são pessoas muito ocupadas, pois mesmo aposentadas, atuam em diversos setores da vida cultural de sua cidade, dando assessoria linguística e literária a importantes agentes culturais do Rio de Janeiro. Creio, contudo, que o critério adotado só prestigiou a vossa simpática e atuante União Brasileira de Trovadores. Já enviei os Certificados para os vencedores e os Diplomas para os componentes da Banca Julgadora.
 Prof. Luiz Cesar Saraiva Feijó”

Assim sendo, pergunto onde houve exacerbação e quais motivos (talvez sejam sub-reptícios) existem para tamanha indignação, a ponto de ter tentado anular os resultados? Gostaria de frisar que aquele Concurso foi um dos que mais transparência apresentou em toda a história dos julgamentos de Concursos da UBT, pois mostrou a todos a qualificadíssima banca julgadora, que declinou seus critérios, a forma de avaliação e as considerações gerais adotadas na seleção dos poemas vencedores. Da forma como organizei o julgamento e a apuração, não seria possível nenhuma fraude, nenhuma possibilidade de macular o resultado e creio, mesmo, que não houve nada parecido com esse critério de avaliação e apuração na UBT. Em vez de a senhora agradecer, vem dizer que houve exacerbação, agravamento, aumento exagerado de impertinências em minha atitude?  Recebi, Senhora Presidente, elogios de inúmeros concorrentes a respeito de como procedi na coordenação desse Concurso, todos aplaudindo a lisura e a maneira como foram julgados seus poemas, suas composições. Em tempo, pergunto, ainda, como os tais “novos trovadores” e “os trovadores veteranos” poderiam ter sido prejudicados com tal nivelamento? Sei que o Edital previa um tipo diferente de premiação, mas expliquei em meu e-mail (a cima reproduzido) o porquê de ter havido tratamento diferente. Não foi suficiente ou não houve boa vontade? Talvez não tenha havido compreensão...

Sra. Presidente, fique com suas convicções, pois são legítimas, mas fique também sabendo que não vejo nenhuma exacerbação nas palavras e nas atitudes que tomei ao explicar-lhe os motivos para não levar em consideração o quesito Novo Trovador e Trovador Veterano. Creio que isso é impossível de ser justificado.

Finalizando, Sra. Presidente, “recém-chegado”, pela nova ortografia em vigor, possui hífen, e a expressão “ao par” está mal empregada, pois deveria grafá-la “a par”. E, ainda, no Item 9 das suas orientações, a senhora, sim, exacerbou, pois agravou substancialmente a redação de seu texto, porque não tomou cuidado no uso do pronome reflexivo “SE”, cujo emprego, aí, exige o verbo no plural (“que se façam”), errando mais uma vez e  isso, sim, merece séria reprovação. Ass. Luiz Cesar Saraiva Feijó.

F I M


ATÉ BREVE 

Arquivo do blog

Quem sou eu

Minha foto
Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.