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27 de outubro de 2017

SABER NÃO SEI, MAS POSSO TE AJUDAR!


O livro de Neuza Feijó Machado, “SABER NÃO SEI, MAS POSSO AJUDAR”, leitura destinada a crianças alfabetizadas das primeiras séries do Ensino Fundamental, publicado pela Editora Muiraquitã, Niterói, RJ, neste mês, será lançado em Portugal, no início da segunda metade do mês de novembro. A história trata da procura das raízes históricas da família de uma menina que ficou muito interessada em saber de onde vieram seus avós e bisavós paternos. Sua busca inicia dentro da própria família e vai crescendo, em círculos concêntricos de indagações e respostas, quase todas elas não muito positivas. A busca atinge pessoas do grupo de equivalentes, umas próximas outras mais distantes. A narrativa envolvente utiliza uma linguagem que beira o poético, predominando o discurso direto, chamando a atenção para o lúdico e para o encantamento. A leitura dramatizada em sala de aula, certamente envolverá o público-alvo infantil numa atmosfera de muita ansiedade pela descoberta. O desenrolar da história prenderá o leitor e seus ouvintes, no caso de narrativa dramatizada, não só pelo tema desenvolvido, através de sonoras aliterações rítmicas e muitas rimas toantes e sonantes, intercaladas nas frases, mas também pelas ilustrações, que são códigos não verbais, complementares e participantes do enredo. Tudo isso envolve a leitura no mágico e colorido mundo do faz-de-conta, dando asas à imaginação infantil. O bordão que dá título à obra e é sempre repetido por alguém indagado sobre as origens da família, prepara pedagogicamente o leitor, de forma explícita ou latente, para um fundamental exercício extraclasse, que é o da pesquisa, atividade docente que deve ser constantemente incentivada e realizada em sala de aula. Trata-se de uma obra didática e pedagogicamente correta, que nos envolve e provoca a reflexão sobre nossas origens, proporcionando inúmeros desdobramentos de nobres propósitos e de diversificados estudos programáticos futuros. O que mais chama a atenção no livro é, realmente, o tema dado para motivação dessa faixa etária dos primeiros anos de escolarização da criança. O tema das origens. A genealogia. A pesquisa sobre nossos antepassados mais próximos, que ainda fazem parte de nossa família, ainda lembrados. A família, nesse livro de Neuza Feijó, está presente como símbolo de demanda de felicidade. De algo importantíssimo que não pode ser deteriorado. De símbolo de união, de polo guardião dos mais significativos valores éticos e morais. Por outro lado, procuramos em variados catálogos de editoras nacionais que publicam livros infantis, obras relacionadas às raízes familiares e à genealogia. Nada foi encontrado.  Atendendo a uma pedagogia inicial, com temas próximos à diversão, ao prazer lúdico e campo semântico afim, há uma quantidade enorme de obras que desenvolvem a magicidade articulada à participação de personagens do mundo animal, como sereias, peixes, coelhos, besouros e filhotes de aves e mamíferos. Na linha de uma pedagogia direcionada mais a crianças com um hábito de leitura já sedimentado ou em fase de sedimentação, pelo prazer de ler, encontramos temas desenvolvidos nesses livros, como as lendas universais e as fábulas tradicionais, adaptadas a essa faixa etária e muitas histórias, que recorrem, também, a contos clássicos, como o da Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, A bela adormecida, João e o pé de feijão. Mas não encontramos nenhum texto com o tema desenvolvido por Neuza Feijó em “SABER NÃO SEI, MAS POSSO AJUDAR”, que a Editora Muiraquitã, em boa hora, lança no importante mercado do livro infantil. Vale a pena conferir.

ATÉ A PRÓXIMA

9 de outubro de 2017

FOGO NA LENHA E NOS CORAÇÕES






FOGÃO A LENHA

Fogão que faz as vezes de lareira!
Local onde, já cedo, a cada dia,
buscamos liberar a energia
do sol como estocado na madeira.

Local onde, de forma rotineira,
com jeito, sem qualquer sabedoria,
usamos, numa espécie de magia,
o sol sob as panelas e a chaleira.

Como esse, da cozinha, aceso e quente,
exista um fogão dentro da gente
com dispersão de ondas aquecidas!

Que nossos abrasados corações
mobilizando o Sol, como fogões,
aqueçam relações arrefecidas!

            Estamos diante de um dos mais lindos sonetos de temática interiorana da Literatura Brasileira. Seu autor, também do interior do Brasil, nascido em Ilhota, Santa Catarina, atualmente mora em Blumenau, uma cidade de maiores dimensões, onde se aposentou, sem antes muito labutar em variados segmentos produtivos, inclusive, no magistério superior. Mas sua verve poética respira a temática intimista e, muitas vezes, discorre sobre temas do cotidiano, deixando aí transparecer sua identificação com os momentos da vida pacata desses bucólicos e aprazíveis lugares de nossas  regiões interioranas.
            Ayrton é um mestre na criação harmônica de seus decassílabos, sáficos e heroicos, misturando as estrofações, aleatoriamente, mas mantendo um ritmo fortemente comprometido, sempre, com o desenvolvimento temático de suas composições. Refiro-me às estrofações dos tipos ABAB  E  ABBA, nas quadras de seus sonetos.
            O soneto em destaque, FOGÃO A LENHA é uma primorosa composição de cunho imprecativo, como súplica poética, usando os modos verbais adequados para tanto: “exista um fogão dentro da gente”; “aqueçam relações arrefecidas!”. Tal situação inclui, também, o soneto na ordem dos discursos filosóficos, com tratamento comezinho.
O desenvolvimento do tema, que é o retorno ao convívio sadio e amoroso das relações interpessoais, apropria-se de antigas imagens, como “o calor do sol” e “o fogo da lareira”, mas a maestria e a sensibilidade lírica  de Ayrton Mafra,  criaram uma nova forma expressiva, num inconfundível estranhamento poético: “Como esse, da cozinha, aceso e quente, / exista um fogão dentro da gente”. É uma inédita metáfora, a do aquecimento do sol e o aquecimento dessas mesmas relações degradadas, carcomidas, talvez, pelas mesmices do dia-a-dia, no convívio permanente.   
Já o tratamento dado pelo poeta às estruturas mórficas do poema é o outro ponto fundamental para o êxito da enorme dimensão artística do soneto. Na primeira quadra o enjambment encontrado entre o terceiro e o quarto versos -  “buscamos liberar a energia / do sol como estocado na madeira” – imprime à narrativa lírica, servindo-se também de expressiva hipálage, o ritmo crepitante do fogo a alastrar-se, tendo o vocábulo COMO (4º verso) o sentido de enquanto, conjunção adverbial temporal, e não uma simples conjunção comparativa.
 O primeiro terceto, onde inicia a transfiguração da realidade, passando-se do plano das ideias concebidas para as ideias pretendidas, isto é, onde se unem os diversos elementos da metamorfose poética, esse primeiro terceto – insistimos – é composto por expressivo hipérbato, envolvendo a elipse do termo FOGÃO, enquanto sujeito, subentendido, facilmente, pelo leitor, como se estivesse presencialmente grafado, tal a força retórica desta construção. Uma estrutura frasal elaboradíssima, beirando a técnica dos versos imprecativos de Augusto dos Anjos.
A chave-de-ouro do soneto insere-se numa comparação tácita, deixando-nos mentalmente contemplativos, absorvidos pela beleza da criação poética, uma marca registrada desse grande poeta catarinense, que, em breve, lançará mais um livro de poesias, para nos emocionar cada vez mais, com suas encantadoras composições.

ATÉ A PRÓXIMA

15 de setembro de 2017

PARTITIVO NÃO É A MESMA COISA QUE POSVÉRBIO





 
Sempre ouço a CBN, “A RÁDIO QUE TOCA NOTÍCIA”, como diz, com precisão esclarecedora, seu slogan, muito bem idealizado. Gosto de sua programação e de seus quadros fixos, que tratam de política, finanças, artes e muitas outras formas de disseminar o conhecimento, de acordo com as cinco funções básicas da radiodifusão, que são a de informar, formar, divertir, prestar serviços e vender, não, necessariamente nessa ordem.
            O Presente comentário surgiu por eu ter ouvido nesta emissora, às 15h30min, do dia 15 de setembro, os comentários do Prof. Pasquale Cipro Neto sobre um caso de regência verbal. Um ouvinte perguntou ao mestre se, gramaticalmente, era correto o emprego de expressões do tipo “beber do vinho”, “comer do pão” e outras similares. O eminente professor foi às respostas, utilizando-se da letra da música de Chico Buarque de Holanda, Cálice (1973 – lançada 1978), destacando o verso: “Como beber dessa bebida amarga”. Sua resposta, como não podia deixar de ser, foi correta, mas insistiu em caracterizar esse fenômeno de regência verbal como um caso de PARTITIVO. Nós não usaríamos esse termo, ao explicar o fenômeno. Se não, vejamos:
“Partitivo”, em gramática, é a palavra que designa uma parte de um todo. Mas como isso funciona? Não existe uma única forma linguística que detenha, nela mesma, essa significação. Em outras palavras: o partitivo é o emprego de uma preposição relacionada a um verbo – um tipo de regência ocasional – modificando o sentido desse verbo, acrescentando-lhe algo além de seu significado conhecido. Por exemplo. A preposição DE em “COMI DO BOLO”. Comer o bolo significa ingerir um alimento, um doce, uma iguaria qualquer. Comer do bolo passa a significar comer parte daquele alimento; ou apenas um pedaço dele (ou comê-lo totalmente com muita vontade e prazer). Portanto, a preposição DE tem aí, nessa frase, um valor nocional, significativo, pois impõe novo significado à expressão, se compararmos a: COMI O BOLO. Isto é, a mesma expressão sem a preposição DE. Estamos diante de um caso de sintaxe de regência. Sabemos que há verbos que exigem complementos para sua total significação e esses complementos podem surgir com ou sem preposição. Esses complementos são os objetos direto e indireto. Bem, isso é conhecido de todos. O que, talvez, não seja muito conhecido é que esse fenômeno sintático recebeu o nome de POSVÉRBIO, dado por Antenor Nascentes. O partitivo existe, mas é diferente do posvérbio.
Em português, só é partitivo se a ideia introduzida pela preposição levar à noção de “parte”. Se eu quero dizer – sempre expressivamente - que parte do bolo foi comida, eu emprego “comi do bolo”. Da mesma forma, digo “beber do vinho”, se entender como “beber parte do vinho oferecido”, mas se ficar implícita a “necessidade indispensável da bebida”, como ficou no exemplo acima do “bolo”, cujo outro sentido foi colocado entre parênteses, talvez o termo PARTITIVO não possa ser empregado, por não estar verbalizada, na ação de beber, somente uma parte do líquido a ser sorvido. Evidente que há outros empregos verbais com outras preposições que não introduzem o sentido de PARTE, ou apresente oportunidades de mais de uma interpretação. Portanto, não é claro o nome PARTITIVO, nem seu uso é recomendável. Mas é inegável que o seu emprego é de uso expressivo na língua. É uma maneira conotativa de se expressar; é uma forma linguística que sensibiliza e chama atenção para a função poética da linguagem. Mas existe a forma abrangente para essas situações de linguagem expressiva no estudo da regência verbal, que nos foi dada pelo grande mestre Antenor Nascentes: é o POSVÉRBIO. Em português, é eminentemente uma forma expressiva, por se tratar de uma construção, onde se usa, depois de certos verbos, uma preposição que lhes modifica o sentido, acrescentando-lhes novo matiz, e não rege a palavra que serve de complemento a esses verbos. Essa preposição funcionará como verdadeiro MORFEMA (in, O problema da regência, Rio de Janeiro, Livraria Freitas Bastos, 1960, p.17). Vejamos alguns exemplos. A) Arrancar DA espada (acentua a ideia do uso da arma); B) Comer DO pão (acentua a presença indispensável do alimento); C) Cumprir COM o dever (acentua a ideia de obediência, de zelo); D) Perguntar POR alguém (denota curiosidade, interesse); Olhar PELA criança (acentua a carga afetiva, o cuidado). Antenor Nascentes mostra ainda que em inglês tal fato também ocorre. Exemplos: To go = ir; To go up = subir; To go dow = descer; To go in = entrar; To go out = sair (Idem, ibidem, p.16). Por outro lado, na gramática inglesa, o partitivo ocorre para indicar que um objeto é afetado apenas e parcialmente pelo verbo, não tendo efeito denotativo, real. Muitas vezes, corresponde às palavras "some”, alguns ou "any", qualquer. É semelhante, também, em muitos aspectos ao caso genitivo.
Portanto, devemos distinguir PARTITIVO de POSVÉRBIO. Em português se empregarmos o termo partitivo, podemos dizer que todo partitivo é um posvébio, mas nem todo posvébio é um partitivo, como ressaltam os exemplos dados.
Como sugestão aos meus leitores, creio que devemos aplicar a esses casos especiais e expressivos de regência, ou de regência expressiva, o termo POSVÉRBIO e não partitivo, menos por essa singela explicação e muito mais pela reverência que faremos ao grande mestre, Antenor Nascentes, autor dessa nomenclatura, meu professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (na época UDF), com quem troquei, alguns anos depois de formado, correspondências, inclusive sobre esse fenômeno do POSVÉRBIO, discutindo, ainda, temas linguísticos variadíssimos, muitos reunidos depois, no livro escrito por quatro professores do Instituto de Educação do Estado do Rio de Janeiro, “Português para o Curso Normal”, Rio de Janeiro, 1967, .... tendo sido aprovado, com louvor, por este grande filólogo, etimólogo, dialectólogo e lexicógrafo brasileiro.

ATÉ A PRÓXIMA                    

5 de setembro de 2017

Artesanato vocabular no “Cancioneiro do Natal” de Stella Leonardos




Há 65 anos publiquei no “Jornal do Commercio” do Rio de Janeiro, no Caderno de Cultura, um artigo intitulado Artesanato vocabular no “Cancioneiro do Natal”. Cancioneiro do Natal é um livro de poemas de Stella Leonardos, cuja Primeira Edição, saiu, no Rio de Janeiro, editado pela Livraria São José, em 1964. Recebi-o da autora, autografado. São comentários críticos, formulados, a partir de uma crítica intrínseca, ainda não muito cultivada na época, mas que eu seguia rigidamente, orientado que fui por excelentes mestres, atentos à modernidade que envolve qualquer ciência e que não foi diferente com a Crítica Literária. Muito aprendi com estes professores com quem, mesmo depois de formado, mantive relacionamento de profunda e fraterna amizade. A eles, minha eterna saudade, pois me ensinaram que o texto literário pode ser esmiuçado – e deve – com toda a emoção da exegese, mas também com cientificidade, a qual deverá incidir nas diversas análises que levarão ao leitor explicações seguras sobre o contínuo transformar e o constante fazer literário. A meus mestres amigos, que hoje são referência para os estudos da Crítica Literária, Textual e Filológica, minha saudação e reverência: Tasso da Silveira; Leodegário A. de Azevedo Filho, Afrânio Coutinho, Joaquim Ribeiro, Eduardo Portella, Jesus Bello Galvão, Sílvio Elia, Jairo Dias de Carvalho.

Passados mais de meio século, republico este artigo, procurando homenagear a grande poetisa, Stella Leonardos que, com seus 94 anos de arte poética e com sua extensa e significativa obra literária, já está eternizada na história da Literatura Brasileira, como pertencente à Terceira Geração do Modernismo. É claro que se fosse reescrevê-lo, o faria com outra visão teórica, mas atentando para os significativos empregos de um vocabulário inovador para a sua época e rico em significados subjacentes. São inúmeros os seus livros premiados e, entre eles, Poesia em 3 Tempos (1957), Cancioneiro do Natal (1964), Geolírica (1966), Cantabile (1967), Amanhecência (1974), Romanceiro da Abolição (1986) e tantos outros. 

Segue o texto cinquentão:

“Cancioneiro do Natal” é um dos mais recentes livros de poesia de Stella Leonados, lançado pela Livraria São José, em 1964. Poesia da mais alta sensibilidade estética, impregnada de lirismo impressionista (“E a Estrela ia roçar nosso telhado”), num ritmo que se distribui vivo e sonoro nas duas partes da obra. Em Natal no Brasil o metro é curto, redondilhas, principalmente, envolvendo-nos o tema natalino, inspirado em nosso folclore. Contudo, é a arte de criar novos vocábulos que mais destaque dá à forma, manejando a autora, com rigorosa precisão linguística, o processo da composição e da derivação. Vejamos: “– o pedaço mais arco-íris”, p.11. O semantema nome arco-íris, com função adjetiva, visualiza todas as suas cores, transmitindo-nos esta impressão e também impondo a sua presença por ser, ao mesmo tempo, semantema nome e com função adjetiva. Assim, é a derivação imprópria realizada pela altura. Adjetivações de substantivos: “e nos teus olhos garotos” (p. 11). E esta adjetivação: “berços de noite inocência” (p. 12); “tão eco de Natais inesquecíveis” (p.15); “E pensar que sonhei de alma garota” (p.17); “Essa graça tão flor de quase incrível” (p.19); “Dia mago, barba luz e alvo manto” (p.20); “Dei-lhe uma viola bruxedo” (p.98); “Dá sorrisos cor simpleza” (p.103). A substantivação do verbo: “e irei de encontro ao rir das mesmas vozes” (p.13). O semantema dinâmico –rir- se torna estático, sem tempo, sem aspecto, sem continuidade, retratando uma só realidade não fugaz. A adjetivação do advérbio: “Este Natal a ti, meu sempre motivo de viver e curtir vida” (p.15). Substantivação do adjetivo: “e as sombras desses longes vão de encontro às sombras de meu ido coração” (p.18). Pela falta de expressividade da função adjetiva de –longe- para retratar a sua realidade, a poetisa o transforma em nome (semantema) com função de “coisa”, de algo que pertence ao mundo dos objetos: (os longes). O emprego do substantivo pelo adjetivo: “suspensa em fio mistério” (p. 26). Mistério é nome em função adjetiva. Substantivação do verbo: “do meu mirar” (p.42). É o dinâmico pelo estático. A valorização recai no fato e não na ação de mirar. Ainda: “dos mais elmos floresceres” (p.67). Substantivação do advérbio: “Viola e ganzá num sim” (p. 104). Toda esta criação está perfeitamente dentro das normas linguísticas da língua e do mesmo modo se apresentam os vocábulos  criados com apoio na composição. Expressões sintagmáticas são convertidas em novos e expressivos vocábulos, estruturalmente formados, foneticamente constituídos: “às minhas mãos fragi-leves” (p.11); “manhã de sobre-rosados” (p.12); “e soltam riso-pássaros” (p.12); “menina acordarei de olhos-saudade” (p. 12); “E teus olhos-céus, imperceptíveis” (p.14); “alegroandante o meu sonhar ingênuo” (p.16); “um dezembro sofrido, verdiescuros” (p. 18); “e o mago o azul-rei da noite santa”(p.20); “E então nos compôs-céus os nuvenbrancos” (p.20); “com toques-milagres” (p.31); “marujo-esperança” (p.34); “de mar-esperanças” (p.35); “A cabecinha-de-vento” (p.43); “olha de olhos boas-vindas” (p.54); “chegam três vozes desnoras” (p.63); “descerram portas-auroras” (p. 63); “mil-e-uma-noites sonhadas” (p.73); “encenar cristãos-e-mouros” (p.73); “Barro-poesia nas horas” (p.76); “e as luzes de estrelas-guias” (p.77); “rumo às ruas-corações” (p.78); “alegrovivente” (p.78); Três Marias moças-flores” (p.82); “outros Meninos-Messias” (p.85); “boi-bumbada animação” (p.89); “boibumbante oi oi oi oi !” (p. 89); “Moça, é bicho engole-gente” (90); “de cabra e barba-de-bode” (p.90); “pele-de-Ceará nos olhos” (p.92); “indisfarsável-possante” (p.96); “rosa-chá pra xás da Pérsia” (p.97); “sonhos sem-fim indeléveis” (p.97); “alma das noites-segredo” (p.98); “tremeluzentes, e vagos” (p.101); “levam levas vozes-lágrimas” (p. 107), para citar, apenas, as mais expressivas.
Recorre ao processo da derivação com muito cuidado, utilizando todos os recursos da prefixação e da sufixação, sempre obedecendo às normas linguísticas: “de algodoada mansuetude” (p.27); “de reisado – então não sei?” (p.32); “jornadeava. Então, aos poucos” (p.37); “Jesusinho nos proteja!” (p.85); “Adeus, ex-alegres bichos, / ex-chicote de Mateus” (p.93).

As sugestivas onomatopeias aliteradas enriquecem este artesanato vocabular: “tiquibum quitibum bum!” (p.72) e “em que viera, lapo lapo” (p. 100).

Na quadra : “E segue empós do Vaqueiro. / Atrás do séquito simples,  / seguidores simples mente / seguidos de álacre ritmo” (p.104), encontramos no terceiro verso (“seguidores simples mente”) a bipartição formal do advércio – simplesmente – que nos apresenta duas palavras: - simples – e – mente - , dando ritmo visual ao verso. “Simples” é nome que se refere a – seguidores - , porém, com função adverbial.

Por conseguinte, “Cancioneiro do Natal”, é poesia da mais lírica inspiração e, sobretudo, manancial de rico e inesgotável campo para as pesquisas da microanálise estilística, obra com que a fina sensibilidade de Stella Leonados nos brinda e deleita.

LCSF, Rio, 2 de maio de 1965, Ano do Quarto Centenário da Cidade do Rio de Janeiro.

 ATÉ A PRÓXIMA














31 de agosto de 2017

UM CONSTRANGIMENTO



Vou comentar, como faço nesse espaço, TROVAS, TROVINHAS E TROVÕES, uma trova classificada em primeiro lugar no 5º concurso, da 5ª Etapa, intitulada Trovas para Uma Vida Melhor, na Busca da Paz, do Equilíbrio em Sociedade.

O Tema escolhido foi CONSTRANGIMENTO.

Absolutamente não quero ser um desmancha-prazeres na busca da paz e do equilíbrio em sociedade, o que, evidentemente, se assim procedesse, não poderia estar a serviço de qualquer estética, muito menos a serviço de uma vida melhor. Mas meus comentários críticos são sempre para melhorar o desempenho de nossa poesia, expressa também por essa forma de poema fixo, a trova, tradicional na lírica occitânica, em língua portuguesa.
A trova classificada em Primeiro lugar, de Julimar Andrade Vieira, de Aracaju, Sergipe, foi a seguinte:


“Constrangimento terrível
o ser humano suporta,
ao ver seu sonho impossível
tornar-se esperança morta”.


Em primeiro lugar, o tema desenvolvido por qualquer trova deve se apresentar em versos heptassilábicos, conhecidos como Redondilha Maior, tradicional da lírica da Península Ibérica, desde o século XII. Depois, o sentido, isto é, o significado que envolve os significantes deve estar impecável, quanto à semantização de toda a estrutura material do poema. Em outras palavras: a trova tem que ter sentido. Não pode ter meio sentido. E o que dá sentido ao texto poético?  São as estruturas sintáticas, e suas combinações, não só entre forma e conteúdo, mas, principalmente, entre as relações sintagmáticas na constituinte gramatical de todos os vocábulos, envolvidos em sua construção, com todos os seus significados denotativos, mesmo sendo empregados conotativamente, a serviço, inclusive, de uma estética da hermenêutica. Ora, vejamos a interpretação da referida trova de Julimar Vieira, acima transcrita. 


O ser humano suporta muita coisa, inclusive constrangimentos terríveis. Um deles é ver seu sonho POSSÍVEL tornar-se uma esperança morta. Aí está o grande constrangimento. Mas o poeta usou o significante “impossível”, deixando o conjunto sem nenhum sentido. Vamos burilar esses comentários. Sonhar é possível, pois todos nós sonhamos. Portanto, todo sonho é possível, mas não pertence ao real e, assim, não tem comprometimento com a vigília, além de não ter obrigatoriedade com o realizável. Quando se atesta a impossibilidade do sonho, aí, sim, ele se torna esperança morta, acabado, finalizado. Mas para que isso aconteça, o sonho tem que nascer possível, sem aquele prefixo - IN - que tirou todo o sentido do pensar poético. A voz do poeta, que materializou, em trova, esse pensamento, recheado de excelente conteúdo filosófico, se confundiu com os significantes da língua, numa incompetência da competência do falar, isto é, da parole, enquanto parte material da langue.  Por outro lado, pode haver nisso tudo, também, uma grande inverdade, causando ao crítico um imenso CONSTRANGIMENTO. Isso ocorreria se a presença desse incômodo prefixo de negação, / IN / tivesse sido colocado, pela empolgação de um copista distraído, fato que se caracterizaria como uma ultracorreção gramatical, modificando totalmente estes comentários. 

ATÉ A PRÓXIMA

25 de agosto de 2017

QUASE UMA DÍZIMA PERIÓDICA EM LINGUAGEM



- O que você faria se seu filho estivesse usando twitter? Perguntou o repórte.
- Eu dava uma surra nele que ele jamais poria essa porcaria na boca!
Sinto muita pena dessa minha gente humilde, boa, honesta e crédula, inclusive mantendo o maior respeito com o profissional da televisão, pensando que a pergunta fosse sobre a utilização de drogas. Pois é! Um repórter de TV fez essa pergunta, em tom de gozação, mas, creio que estava também buscando resultados, possivelmente encomendados pela sua produção, procurando mostrar outras coisas, para futuras  pautas. Também usei, em meu ofício, artifício parecido, aliás, bastante parecido.
Certa ocasião, para mostrar aos meus alunos a arbitrariedade do signo linguístico e a função de gramaticidade da língua, enquanto sistema de signos, perguntei à turma se eles gostavam de GALOMA. Uns se comportaram como essa entrevistada, a moça que respondeu ao repórter, pensando até em algo impróprio e proibido de se usar. Outros perguntaram o que era GALOMA. Então, continuei, dizendo: - Vocês vão saber o que é, mas vejam essa frase que vou escrever no quadro-negro: “Lá em casa tem um pé de GALOMA, mas ainda está todo em flor”. Aí, um aluno esperto, disse: - No sítio de meu avô tem muito pé de GALOMA. É uma fruta muito doce. Tentando levar a conversa com a turma para o meu plano de ação, em seguida, retruquei: - “GALOMA pode até ser fruta, mas GALOMA, agora, é um verbo. E vocês todos sabem conjugá-lo. Vamos conjugar esse verbo? Que verbo é esse? - GALOMAR respondeu toda a turma, uns rindo e outros mais compenetrados, à espera de alguma coisa muito importante, que viria por aí e que eles não sabiam bem o que era. E continuei animado: “Eu galomo, tu galomas, ele galoma, nós galomamos, vós galomais, eles galomam”. Um outro aluno bem atento, ou provocador, perguntou lá do fundo da classe: - Professor, GALOMAR é verbo transitivo direto, indireto ou intransitivo. Eu respondi:  - “É transitivo direto, pede objeto direto, sem preposição. Senão, vejamos este período, que eu vou escrever bem embaixo do primeiro, agora, com giz amarelo.  E caprichei com letras bem arredondadas: ONTEM EU GALOMEI UM LINDO AZERUTAN. Qual é o objeto direto? Todos, estrondosamente, responderam: AZERUTAN ! Aí, começou tudo de novo... Entenderam, né?


ATÉ A PROXIMA


12 de agosto de 2017

A GALINHA COMEU




O que eu vou contar hoje é só para aqueles que viveram o tempo, onde uma expressão de “bullying” para gozar os trabalhadores da limpeza urbana era muito comum, principalmente no Rio de Janeiro. Isso há muito tempo... Era um sábado e o trânsito fluía encantadoramente. Percebi que não me atrasaria para o encontro marcado com meu amigo, no clube da cidade. Ledo engano. Mal dobrei o sinal, ou a sinaleira, como costumam chamar aquelas três luzes coloridas do trânsito, por estas bandas do sul, onde agora resido, vi tudo parado. Pensei num baita desastre, pois os fins de semana são tranquilos nas ruas esburacadas dessa bela cidade germânica, fundada pelo Dr. Hermann Blumenau, há muitos e muitos anos... O mais estranho é que se ouvia uma berraria danada. Umas músicas esquisitas, cantadas e esgoeladas por alguém de voz de taquara rachada. E quem cantava corria em redor de um enorme veículo verde, roncando o motor, na frente de carros que, educadamente não buzinavam. Percebi que a companhia de limpeza urbana estava trabalhando, não em silencio, mas euforicamente, na voz de um dos alegres lixeiros que pulava do balaústre traseiro do grande veículo, para as calçadas, recolhendo os sacos pretos e as caçambas de detritos das casas e dos prédios, cantando alto e bulindo com os passantes, chamando, mesmo, a atenção de todo mundo. Feliz com seu ofício ia se retorcendo agilmente da traseira do caminhão para o meio-fio das calçadas, com uma satisfação emocionante naquilo que fazia, nem se importando com o cheiro desagradável que saía de alguns sacos de lixo, já rasgados por cães vadios da cidade. Muitos carros à minha frente conseguiram trocar de faixa de rolamento e eu fiquei bem atrás da oficina de trabalho daquele jovem lixeiro, que parecia ter tirado a sorte grande, trabalhando penosa, mas alegremente num ofício, misto de picadeiro de circo e usina de reciclagem de dejetos urbanos. E o rapaz cantando, jogava todo o lixo lá para dentro. Pulava para todos os lados e não deixava um só saco negro na calçada. Apanhava dois, três ao mesmo tempo, e voltava para o estribo traseiro do caminhão, sempre falando muito alto e bulindo com todo mundo. Pelo caminho, às vezes, não havia nada para apanhar e o nosso herói ia, aos berros, dizendo gracinhas para os que passavam ou estavam parados na rua. Gritava e fazia piruetas, verdadeiras acrobacias na traseira do caminhão de lixo. Sua alegria extravagante, naquele trabalho insalubre, era também observado, com espanto, pelos motoristas dos carros que seguiam a procissão. Quando o caminhão passou por uma grande estação terminal de ônibus urbanos, cheia de gente, o rapaz exagerou e botou pra quebrar, caçoando de todo mundo, de maneira até quase desrespeitosa. Nesse momento, juro que ouvi, saindo lá de dentro, do fundo do tempo, uma voz cavernosa, lançando no ar um grito espetacular: A GALINHA COMEUUUUUUUUUUUU! Creio que ninguém entendeu aquele urro, um urro atemporal de “bullying” de rua, dos tempos de minha juventude, no Rio de Janeiro. Voltei ao passado alegre de minha infância, quando a gurizada gozava, inocentemente, todos os lixeiros, que se empoleiravam atrás de caminhões fedorentos de lixo, sem saber o que significava essa enigmática expressão, desconhecendo totalmente o valor daqueles trabalhadores que se engajavam num trabalho quase degradante, para deixar limpinha a cidade que nós todos sujávamos, infantilmente, sem nenhuma noção adquirida de cidadania... 

ATÉ A PRÓXIMA

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.