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20 de abril de 2017

A INVEJA ATRAPALHA



 
No meio intelectual a pior falta não é a de conhecimento. É a de caráter. Pela segunda vez a Presidente da UBT Nacional, Domitilla Borges Beltrame, volta a mostrar em seu comportamento um desvio ético, ao desativar a Delegacia UBT de Blumenau.  O fez pelo Boletim Nacional sob sua responsabilidade, alegando em péssimo estilo sincopado, que seu delegado, Luiz Cesar Saraiva Feijó, “não se adaptou às normas de procedimentos, concursos e conduta da UBT, ferindo o ambiente fraterno que existe entre os trovadores (sic).
Em primeiro lugar, eu não poderia tomar conhecimento do fato para, no mínimo, me defender, por não ter acesso ao Boletim Nacional que esta senhora edita e onde foi notificada a desativação da referida Delegacia.
Domitilla Borges Beltrame não teve a coragem de se dirigir a mim, por escrito, preferindo a calúnia como forma simples de dar por encerrada uma divergência, tratada com todo o rigor técnico por mim, como consta na CARTA ABERTA que lhe dirigi, em outubro de 2016. Se não fosse a gentileza da trovadora Eliana Jimenez, de Balneário Camboriú, que me enviou cópia do referido Boletim, ficaria sem saber que fora alvo, mais uma vez, de acusações mentirosas, próprias de quem não tem caráter nem condições intelectuais para dirigir tão importante agremiação literária como a União Brasileira de Trovadores.
Vejamos. 1º) Como dizer que não me adaptei às normas de procedimentos dos concursos da UBT? Expliquei tudo na CARTA ABERTA que, inclusive, enviei para o seu endereço eletrônico. Vou publicá-la, novamente, nas redes sociais, para uma leitura sua mais consistente... 2º) Como dizer que feri o ambiente fraterno que existe entre os trovadores? Mentira! Nada disso aconteceu. Muitos trovadores se manifestaram solidarizando-se com o que expus naquela ocasião, pois a CARTA ABERTA foi enviada para todos que participaram do I CONCURSO DE TROVAS DE BLUMENAU. O que realmente aconteceu foi que a senhora, presidente Domitilla Borges Beltrame, que mal  sabe redigir textos dissertativos, também tem muita dificuldade em entender excertos de natureza narrativa. A senhora pode saber ler, mas não entende o que lê. Mas o problema é maior. É de caráter. Então, tudo pode facilmente ficar fora de controle. Desculpo a falta de informação literária e a incompetência para a gestão de associações lítero-recreativas como a UBT, mas não faço concessões à mediocridade moral.
Depois que percebi quem está dirigindo atualmente a UBT – Nacional, não me interesso mais por esse grupo. Disse tudo na CARTA ABERTA de outubro de 2016. E para quem dela não tomou conhecimento, ou de seu conteúdo já se esqueceu, republico, mais uma vez, com muita tranquilidade, nas redes sociais, a CARTA ABERTA a Domitilla Borges Beltrame, como uma forma de repúdio, também, às calúnias contidas no seu muito mal redigido texto de desativação da Delegacia de Blumenau. Delegacia esta que teve um dos concursos mais honestos de todos os tempos da UBT, com critérios definidos, comissão julgadora conhecida de todos e nomeada com antecedência, tudo às claras (nada escondidinho), integrada por doutores em Literatura Brasileira, Professores Titulares de Universidades Federais. O Concurso foi aplaudido pelos concorrentes, por pessoas sérias, esclarecidas e inteligentes. A inveja atrapalha, não é Domitilla Borges Beltrame ?
Blumenau, 20 de abril de 2017.
Ass. LUIZ CESAR SARAIVA FEIJÓ

CARTA ABERTA A DOMITILLA BORGES BELTRAME
Ao ler as primeiras linhas do artigo da Presidente, Domitilla Borges Beltrame, PALAVRAS DA PRESIDÊNCIA, no Boletim Nacional, órgão oficial da UBT Nacional, nº 579, de outubro de 2016, me senti atingido por suas palavras: “Com o desaparecimento de grande parte dos trovadores, está havendo na UBT a substituição gradual desses trovadores por recém chegados (sic) à entidade, que, compreensivamente, não estão ainda ao par (sic) dos seus usos e costumes, nem de algumas das suas tradições cultivadas por mais de meio século. Dois eventos recentes atestam minhas palavras: o excessivo número de premiados no concurso de São Gonçalo no Rio de Janeiro e a não distinção entre Trovadores Veteranos e Novos Trovadores no concurso de Blumenau em Santa Catarina. Em ambos os casos houve inclusive exarcebação (sic) de ânimos, o que quase me fez cancelar os resultados de ambos os concursos, e se não fiz, foi somente para não aumentar ainda mais o mal estar que essas exarcebações (sic) causaram, e por entender que foram causadas pelas boas intenções desses recém chegados (sic).” Assim sendo, enviei-lhe a seguinte missiva, por e-mail:

Prezada Sra. Domitilla Beltrame.

Li no Boletim Nacional da União Brasileira de Trovadores, outubro 2016, nº 579, página 02, no texto PALAVRAS DA PRESIDÊNCIA, seus comentários sobre o evento que coordenei, o I Concurso Nacional de Trovas de Blumenau.
Causou-me enorme estranheza sua declaração, a respeito da minha não distinção entre Trovadores Veteranos e Novos Trovadores no Concurso que coordenei. Sei, perfeitamente, que no Edital havia referências a esse tipo de distinção. Contudo, expliquei a V.S. os motivos pelos quais não considerei esses dois tipos de trovadores. Sei que a senhora tem todo o direito em querer que as coisas corram dentro das normas previstas nos seus regulamentos, mas chegar ao ponto de ver exacerbação em minha humilde e sincera argumentação, por não seguir sua orientação, é uma atitude que não posso aceitar. Não agravei nada. Não exagerei nada, porque nada havia para ser exagerado. Gostaria que refletisse bem a respeito disso tudo. E para que não haja dúvidas, transcrevo o texto do e-mail em que lhe enviei os resultados do I Concurso de Trovas de Blumenau, com a referida justificativa:

Prezada senhora.

Englobei todos os concorrentes em uma só categoria, pois foram muitas trovas e não poderia sobrecarregar os julgadores com subdivisões, uma vez que são pessoas muito ocupadas, pois mesmo aposentadas, atuam em diversos setores da vida cultural de sua cidade, dando assessoria linguística e literária a importantes agentes culturais do Rio de Janeiro. Creio, contudo, que o critério adotado só prestigiou a vossa simpática e atuante União Brasileira de Trovadores. Já enviei os Certificados para os vencedores e os Diplomas para os componentes da Banca Julgadora.
 Prof. Luiz Cesar Saraiva Feijó

Assim sendo, pergunto onde houve exacerbação e quais motivos (talvez sejam sub-reptícios) existem para tamanha indignação, a ponto de ter tentado anular os resultados? Gostaria de frisar que aquele Concurso foi um dos que mais transparência apresentou em toda a história dos julgamentos de Concursos da UBT, pois mostrou a todos a qualificadíssima banca julgadora, que declinou seus critérios, a forma de avaliação e as considerações gerais adotadas na seleção dos poemas vencedores. Da forma como organizei o julgamento e a apuração, não seria possível nenhuma fraude, nenhuma possibilidade de macular o resultado e creio, mesmo, que não houve nada parecido com esse critério de avaliação e apuração na UBT. Em vez de a senhora agradecer, vem dizer que houve exacerbação, agravamento, aumento exagerado de impertinências em minha atitude?  Recebi, Senhora Presidente, elogios de inúmeros concorrentes a respeito de como procedi na coordenação desse Concurso, todos aplaudindo a lisura e a maneira como foram julgados seus poemas, suas composições. Em tempo, pergunto, ainda, como os tais “novos trovadores” e “os trovadores veteranos” poderiam ter sido prejudicados com tal nivelamento? Sei que o Edital previa um tipo diferente de premiação, mas expliquei em meu e-mail (a cima reproduzido) o porquê de ter havido tratamento diferente. Não foi suficiente ou não houve boa vontade? Talvez não tenha havido compreensão...
Sra. Presidente, fique com suas convicções, pois são legítimas, mas fique também sabendo que não vejo nenhuma exacerbação nas palavras e nas atitudes que tomei ao explicar-lhe os motivos para não levar em consideração o quesito Novo Trovador e Trovador Veterano. Creio que isso é impossível de ser justificado.
Finalizando, Sra. Presidente, “recém-chegado”, pela nova ortografia em vigor, possui hífen, e a expressão “ao par” está mal empregada, pois deveria grafá-la “a par”. Já a grafia equivocada do vocábulo exacerbação em duas situações distintas foi por mim considerada erro de digitação, pois a metátese é natural, considerando a realização difícil da pronúncia desse vocábulo, cujo reflexo imediato se dá na escrita. E no Item 9 das suas orientações, a senhora, sim, exacerbou, pois agravou substancialmente a redação de seu texto, porque não tomou cuidado no uso do pronome reflexivo “SE”, cujo emprego, aí, exige o verbo no plural (“que se façam”), errando mais uma vez e  isso, sim, merece séria reprovação.
Ass. Luiz Cesar Saraiva Feijó

ATÉ A PRÓXIMA

23 de março de 2017

SONHO DE UM CANTADOR







Ainda não havia visitado o Teatro Carlos Gomes da cidade de Blumenau. Há alguns dias vinha recebendo informações cifradas de meu amigo fantasma, que, diga-se de passagem, não se comunicava comigo uma eternidade. Exageros etéreos à parte, caracterizado por esse ridículo hipérbato, resquício de minha profissão, já deixada para trás, não pude me esquivar de atender ao meu branco, enfumaçado e dileto companheiro, depois que ele deixou um convite, misteriosamente enviado e que ficou estampado numa aba inferior do écran azulado de meu computador. Para quem já se esqueceu de quem se trata, ou para os que nunca leram minhas crônicas catarinenses, recheadas de inúmeros absurdos, esse fantasma amigo é um nobre português de priscas eras, que tem laços de parentesco com importantes famílias germânicas e italianas do início da Idade Média. Aqui no sul do Brasil, onde agora resido, meu amigo de outras dimensões já comigo viajou e me esclareceu inúmeras situações históricas, levando-me a sítios espetaculares, onde seus parentes edificaram, com muito trabalho e denodo à terra, núcleos colonizadores que hoje orgulham todos os brasileiros, descendentes ou não desses povos europeus. Conheci-o no Castelo da Penha, nos arredores de Lisboa. Veio comigo para o Brasil dentro de minha bagagem de mão, num inesquecível voo da TAP, que chegou com algum atraso ao aeroporto internacional Antônio Carlos Jobim, no Rio de Janeiro, em 1985, pois se materializou no banheiro e quase instalou o caos total entre comissários, aeromoças, pilotos e copilotos, além de alguns estupefactos passageiros.

Extraí do computador o convite para a apresentação do show indicado, que se realizaria numa quarta-feira, às 20 horas, no teatro municipal destas terras de raízes alemãs e me preparei para o espetáculo. Ele me perguntou se conhecia as estórias sobre o Teatro Carlos Gomes que corriam à boca folclórica, desde os longínquos tempos da Segunda Guerra Mundial. Desconhecia. Mas como você é desinformado, replicou cavernosamente  – creio que de propósito – muito mais para chamar atenção ao que iria me contar em seguida, do que para me repreender pela ignorância declarada. E continuou. O teatro é uma réplica do quepe militar do Fuehrer, Adolf Hitler, e tem inúmeras passagens secretas em seu interior, ligando as coxias ao rio Açu, o belo e bestial Itajaí!  Já se chamou Sociedade Teatral Frohsinn e só depois da última grande guerra mundial é que passou a ter esse nome de Carlos Gomes. Fiz cara de incrédulo. Sei lá se há cara que registre isso, mas, a princípio, não acreditei. Então, eu querendo bancar o sabido, perguntei se ele conhecera ou se fora parente ou contraparente da tal família Frohsinn. Respondeu-me com um sorriso esbranquiçado, tendendo para um amarelo debochado e desbotado que Frohsinn não é e nunca fora  nome de nenhuma família. Frohsinn é um substantivo comum, masculino e significa alegria, jovialidade. Portanto, não é um nome de família, como alguém poderia pensar. Em seguida, jogando fumaça fora, para todos os lados com os braços inquietos, disse que se lembrava de uns parentes, por parte de pai, que trabalharam na Sociedade Colonizadora Hanseática, criada em Hamburgo em 1897. Tal Sociedade  iria substituir a organização responsável pela fundação de Joinville. Seus descendentes estariam nessa noite de quarta-feira, para assistirem, também, ao interessante espetáculo musical. Eram descendentes de alemães, portugueses e também muitos italianos. Eu passei de apreensivo a contente, pois senti firmeza em meu amigo branquinho.  Acreditava, mesmo, em tudo que ele dizia, pois os fantasmas estão acima do bem e do mal, como também, por serem criaturas atemporais, vivem numa única dimensão, sem presente, passado ou futuro. Não se sujeitam ao nosso sistema de vida, no qual os acontecimentos, como a nossa fala também, estão sujeitos e colocados na linha do tempo, surgindo uma coisa após outra, na sucessão inexorável do bater dos segundos, milagre que não pode ser repetido neste mundo dos mortais...

Fui ao Teatro Carlos Gomes assistir ao “Sonho de um Cantador” com Deco Dalponte e sua banda. Entrei. Passei a transitar entre o grande público, ainda nos corredores de acesso ao palco e percebi, pelo sotaque do pessoal, que meu amigo  fantasma estava certo. Havia muitos descendentes de alemães e italianos, ali naquela festa que movimentava as atividades culturais de Blumenau. Sons guturais dos descendentes germânicos se misturavam com a doce sonoridade de carcamanos genoveses e de várias outras regiões da grande península do Mediterrâneo. Realmente o show de Deco e sua Banda, Sonho de Cantador, seria aplaudido por todos os seus amigos presentes, de todas as origens, híbridos ítalos-germânicos, portugueses, gaúchos, catarinenses desta e de outras cidades. Deco, cantando, contou sua vida, desde Concórdia, onde nasceu, passando por Marcelino Ramos, município gaúcho onde iniciara sua vida de cantador, até chegar aqui, nesta cidade que o acolheu definitivamente. Não deixou de fazer referências às suas viagens à Europa, quando visitou a Itália de seus antepassados maternos. A Alemanha e a França também ouviram e aplaudiram suas românticas cantigas e seus roques pós-modernos. A presença de Leco, firme e resoluta no palco, contagiou a plateia, principalmente pela animação das vibrantes tarantelas, cantadas por todos os presentes, que aplaudiam os bonitos números apresentados. Sua família, envolvida no espetáculo, serviu para humanizar ainda mais a bonita e bem organizada festa musical, que levou à sociedade blumenauense muita alegria e uma excelente música. Estava tudo perfeito. Pessoas de seu convívio e de sua história de vida foram homenageadas, comovendo todos nós. Seus filhos encantadores extasiaram o público. Tudo estava perfeito, da iluminação ao som ambiente. Das seleções musicais, quase todas de sua autoria, às apresentações dos “miúdos”, que encantaram meu amigo fantasma, nessa noite espetacular, onde conheci mais um monumento dessa encantadora cidade de Blumenau, predestinada ao sucesso pelo vigor de seu povo e pelo trabalho honesto de seus cidadãos.


ATÉ A PRÓXIMA

17 de fevereiro de 2017

TROVAS, TROVINHAS E TROVÕES IV




Tenho lido ultimamente muitos versinhos e poemas interessantes, na produção vibrante de muitos amigos e poetas que surgem, muitas vezes, meteoricamente, nas páginas das Redes Sociais. Muitos trovadores, muitos cronistas, alguns contistas e romancistas aqui na Rede se expressam literariamente, e isso é muito bom.

De todas as formas literárias, que passam por aqui a trova é, indiscutivelmente, a forma fixa de poema mais assídua, muitas vezes bem trabalhada, outras vezes nem tanto, sendo, mesmo assim, a que maior impacto causa aos leitores. Sobre ela tenho falado muito, por ver nesses quatro versos heptassílabos  ou de Redondilha Maior, o verso considerado clássico da lírica occitânica, entre muitas outras coisas, uma síntese de emoção, um soluço de tristeza, um ímpeto de alegria, uma pitada de prazer, uma angústia sofrida e muitos outros segredos da alma e do coração. Vejo temas filosóficos, difíceis de serem sintetizados em tão poucas palavras, inebriando e extasiando nossos sentimentos. Os sentimentos dos amantes do belo.

A trova são dois dísticos que, rimados (abab), completam um pensamento. É uma forma de como o poeta transfigura o mundo em que vive, vendo-o e sentindo-o com os olhos da poesia. Os elementos linguísticos da trova, bem estruturados, fazem predominar a conotação sobre a denotação e traz à cena, como um broto emergindo da terra florida, a função poética da linguagem, que dominará o plano da hermenêutica sígnica da fala.  Fora isso, é tentativa vã de buscar o belo, o que, na realidade, muita gente faz. O fazer poético é para poucos. Não entender isso é deixar a mediocridade prosperar numa seara, onde alguns sabem cuidar bem da terra, outros não, pois, em vez de ará-la suavemente, passam sobre seus prados verdejantes de relva rasteira o trator bruto da referencialidade. Muitos insistem em produzir assim mesmo, simplesmente pela mecânica da produção, aos borbotões, por encomenda, em série, sem dar ouvidos aos acordes musicais - tristes ou alegres -  do coração... Há de se fingir! Há de se transgredir um pouco, pelo menos! Fingir e transgredir como o verdadeiro poeta tenta fazer, tal como Pessoa falou, para que sua criação seja compatível com a forma estética, que intrinsecamente os textos literários precisam ter. Vamos produzir, mas com os cuidados devidos! Um pouco de teoria e estudo sobre a nossa matéria prima, a língua, é essencial e importante. Um pouco de teoria sobre versificação é mais importante, ainda, para não nos comportarmos como o pequeno e ingênuo lavrador que, empolgado pelo prazer do trabalho agrário, envolvido pelo saboroso ambiente telúrico, só consegue colher, em seus campos arados, algumas frutinhas doces e saborosas, mas manchadas pela marca da presença de insetos indesejáveis. Ler e pesquisar sobre o fazer poético também é muito bom.

ATÉ A PRÓXIMA


12 de fevereiro de 2017

SÃO PAULO PROTESTA COM POESIA E NÃO COM PICHAÇÕES

            


Há 95 anos, precisamente, quando se queria protestar, usavam-se formas poéticas para se criarem novas estéticas, que ocupariam os lugares das então já desgastadas. Era assim, mesmo! Há 95 anos, São Paulo usou a poesia para protestar.
Hoje, parece que as classes sociais mais intelectualizadas ainda não se deram conta disso. Sirvo-me de um exemplo bem emblemático. Duas repórteres da prestigiosa Rádio CBN / SP, entrevistando o atual prefeito da capital paulista, se deram mal e caíram no ridículo. Uma delas, querendo colocar o prefeito, João Dória, em saia justa, leu uma nota em que a Rede de Sustentabilidade pediu à Vara da Fazenda Estadual que determinasse a suspensão imediata da remoção dos grafites e das pichações, alegando que o prefeito não tem competência para decidir o que é arte e o que não é arte. Ora, a resposta foi magnífica, pois, segundo João Dória, no Brasil ainda existe justiça inteligente e ela não daria guarida a uma bobagem desse quilate. As duas, a partir daí, nada mais puderam fazer, no sentido de seu propósito inicial, que era, nitidamente, de colocar o prefeito de São Paulo em maus lençóis com seu eleitorado.
Isso serve de introdução para lembrarmos que a cidade de São Paulo e o Brasil estão comemorando nessa semana de 11 a 18 de fevereiro de 2017, 95 anos da Semana de Arte Moderna e a Prefeitura tem de preparar a cidade para essa importante efeméride, limpando, entre outras coisas, seus espaços públicos e privados da sujeira das pichações, que jamais foram arte ou formas de protesto intelectual contra qualquer estética e, muito menos, protesto contra um modo de produção, ou contra qualquer forma discriminada de existência social de minorias excluídas e, também, de maiorias imbecilizadas.
A semana de Arte Moderna, como se sabe, teve início em 1922, com inúmeras comemorações e eventos na cidade de São Paulo, mas o principal deles foi, sem dúvida, o realizado na semana de 11 a 18 de fevereiro, no Teatro Municipal da cidade. É claro que o ambiente já estava preparado, com inúmeros antecedentes, como, para citar apenas dois, a ligação de Ronald de Carvalho a Luís Montalvor para fundar a revista Orpheu, em Portugal, revista a que Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro emprestaram o brilho de seus talentos. O segundo importante antecedente seria a participação de Murilo Araújo, em Carrilhões, com formas poéticas destoantes do simbolismo, numa predisposição para uma nova estética que não tardaria a surgir, corroborando com a tese defendida por Maurice Bowra, em seu livro The Heritage of Simbolism. Mas é claro que a Semana de Arte Moderna deu corpo, sentido e divulgação ao Modernismo Brasileiro, com as figuras de primeiro plano, tendo à frente Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Renato de Almeida, Menotti Del Picchia, Paulo Prado, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, a pintora Anita Malfatti e o pintor Di Cavalcanti, entre outros. Seus temas transformadores e seus postulados giravam em torno da intensa brasilidade, liberdade de pesquisa estética e a adoção do verso livre, liberto das amarras parnasianas. Nesse ambiente nasceu o movimento revolucionário de São Paulo que mexeu para sempre com a visão estética de nossas letras, de nossa música e de nossas artes plásticas em geral, tudo divulgado pelo principal órgão literário, a Revista Klaxcon, que chamou para suas páginas os textos de poetas e de todos os tipos de escritores do Rio de Janeiro, como Manuel Bandeira, Álvaro Moreyra e Ribeiro Couto, entre outros. O escritor Graça Aranha, autor de Canaã, aderiu ao movimento, valorizando-o com o inegável prestígio intelectual de seu nome.                                                    O futurista Oswald de Andrade, que participou intensamente deste espetáculo cultural da cidade paulistana, legou-nos o primitivismo pau-brasil e o antropofagismo, uma diversificação dessa sua inusitada estética, que o caracterizaria como uma das mais importantes figuras modernistas.
Não poderíamos deixar passar essa data tão significativa para a cultura brasileira de um modo geral e, em particular, para a cultura literária que, indiscutivelmente, se separariam das matrizes ancestrais, com diversidades estéticas, mas com uma profunda conscientização de que as rupturas não desagregam, mas unem instâncias do tempo, mostrando que o presente pode se projetar para o futuro, não destruindo o passado, mas retirando dele o que, supostamente, não tem mais valor.  São Paulo protestou, há 95 anos, com poesia e não com pichações.

ATÉ A PRÓXIMA


4 de fevereiro de 2017

A PÁTRIA DOS CARIOCAS




Campeonato carioca era o do meu tempo de criança e adolescente. Eu sempre soube que só é carioca quem nasce na cidade do Rio de Janeiro. Por extensão, qualquer evento nesta cidade maravilhosa é um evento carioca. Então, Campeonato Carioca de Futebol era aquele dos tempos de antanho. Os times? Sim, lembro-me bem de todos. Aliás, havia, sim, uma única exceção. O Canto do Rio de Niterói, que só conseguiu ser campeão do Torneio Início, disputado no Maracanã, num ano perdido, lá na minha saudade de menino. E eu assisti a esse fenômeno! Estava na arquibancada, comendo cachorro-quente, chupando Chica-Bom e tomando Café Pucará... Na Tijuca havia o América Futebol Clube, carinhosamente chamado de Mequinha, ali na Rua Campo Sales, onde meu pai se reunia com muitos abnegados e entusiasmados conselheiros. Na Zona Sul havia os times do Flamengo, do Botafogo, e o meu Fluminense tricolor, um timaço, lá da Rua das Laranjeiras, tricampeão, com Robertinho, Gualter e Haroldo, Pascoal, Telesca e Bigode, Pedro Amorim, Ademir, Simões, Orlando e Rodrigues... No bairro da antiga nobreza dos Orléans e Bragança, podíamos torcer, assistindo aos jogos do São Cristóvão Futebol Clube, o São Cri-Cri, com seu uniforme branquinho, branquinho... Uma beleza! Ali, onde a cidade começa a se afastar, levando um pesado trânsito de caminhões e ônibus para fora de seus limites, fica o Estádio do Vasco da Gama, à sombra de sua famosa colina, detentor do maior estádio da cidade. O subúrbio da Leopoldina, cortado pela Avenida Brasil e caminho de uma estrada de ferro de respeito, torcia pelo Bonsucesso, ou pelo Olaria da Rua Bariri. Na outra linha férrea, o subúrbio da Central do Brasil, na Rua Conselheiro Galvão, está o tricolor suburbano, o Madureira, que sempre foi celeiro de excelentes jogadores. Lá, bem longe, onde se plantava de tudo, num capo enorme, ao pé do maciço da Pedra Branca, o Campo Grande arrebatava emoções e dominava os corações de seus moradores. Era o simpático Campusca, um dos representantes da Zona Oeste da cidade. Mas, alguns poucos quilômetros antes, os trabalhadores da empresa têxtil inglesa, Companhia Progresso Industrial do Brasil, já tinham se organizado e fundado o Bangu Atlético Clube, que nos anos 40 e 50 se destacou na Liga com seus mulatinhos rosados. Quase ia me esquecendo de que a Ilha do Governador também se fazia representar no verdadeiro campeonato carioca de futebol, com a Associação Atlética Portuguesa, a Portuguesa Carioca, que jogava em seu enorme campo dos ventos uivantes... Então, foram esses treze clubes, doze, genuinamente cariocas, que tornaram possível o surgimento daquele glamour tão festejado e cantado em prosa e verso pelos jornalistas esportivos de hoje, que, talvez, nem percebem que o sucesso desse campeonato está lá atrás, nos tempos românticos do velho e violento esporte bretão. Mas, se esse passado não for resgatado, de alguma forma, com a volta desses times envolvidos em competições sucessivas (e como, não cabe aqui e agora comentar), em pouco tempo não sobrará nada para justificar essa formidável qualificação do mais maravilhoso e único campeonato de futebol, realizado na mais linda cidade brasileira: a Cidade Maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro, pátria de todos nós, os cariocas. 

ATÉ A PRÓXIMA

31 de janeiro de 2017

Tecnologia Educacional - A TV na Escola: uma ferramenta pedagógica


O surto desenvolvimentista que assola o Brasil é indiscutível. Como nação, não mais emergente, mas próspera e em pleno progresso científico e tecnológico, em todas as áreas do conhecimento humano, nosso país precisa urgentemente voltar todo o seu potencial criativo para a Educação. Precisamos dela para sermos uma nação desenvolvida, rica e com um povo sadio, instruído e feliz. Todos os esforços destinados à minimização dos óbices educacionais, para serem realidade, dependem da confiança que cada um brasileiro deverá ter em si mesmo e naqueles, que, por força de ofício, são os responsáveis por uma filosofia de vida comunitária, direcionada para a plena formação dos jovens brasileiros. Estes agentes da educação são os professores e a grande instituição sistemática da prática desse desenvolvimento é a Escola.  Parece que a Escola está falida. São muitos os sintomas que mostram a precariedade do psicossocial! Mas o professor também não tem onde se amparar. Está despreparado, preocupado e desempregado. Sua profissão hoje é considerada de alta periculosidade. O mestre afasta-se da Escola. Por quê? A nosso juízo por muitos fatores. Citaremos apenas, alguns.  
Ocorre, há muitos anos, uma profunda defasagem entre o que a nossa Escola oferece e o que o aluno dela espera. Vejam que nós todos já estamos mais do que familiarizados com a máquina, com a Internet, com o Rádio, com o Cinema, com a Televisão. Mas como essas conquistas tecnológicas atingiram a Escola? A Escola foi, praticamente, a última instituição social a ser atingida, muito sutilmente, pela tecnologia dos séculos XX e XXI. O seu discurso não é mais ouvido como transformador e sim, muitas vezes, como fútil consumidor de recursos. A Escola não está mais preparando o aluno para a vida. Existem algumas exceções que deveriam ser multiplicadas. Para elas nossos aplausos. A defasagem que existe entre aquilo que a Escola oferece e o que o aluno dela espera, pensamos nós, que é de duas ordens. A primeira é a falha do professor, o agente da educação, que, quase sempre, desconhece o porquê daquilo que vai ensinar, se é que também conhece plenamente o que vai ensinar. O interesse do aluno está voltado, evidentemente, para os fatos de sua época, e, há necessidade de explicá-los, para que, imediatamente, surja uma comunicação clara, direta e precisa entre ele e o mestre. Ambos têm de falar a mesma linguagem, sem os descompassos provocados por choques de gerações. Falhará o professor de qualquer nível que não assimilar e propagar a filosofia de vida e as diretrizes normativas de um Plano Nacional de Educação, que, talvez não exista! A segunda ordem dessa defasagem está nos meios utilizados para a transmissão da mensagem docente. No que diz respeito aos meios desta transmissão, a Escola Brasileira, de todos os níveis, acha-se fora do compasso do desenvolvimento tecnológico e científico, que podem auxiliar, sobremaneira, o processo ensino-aprendizagem. Sem falar que o professor é sempre um meio presencial, quando poderia se desdobrar em vários meios. Por exemplo, levando suas experiências para a sala de aula. Experiências materializadas em realizações de pesquisas empíricas. Mostrá-las e discuti-las, forçando o surgimento de novas outras, provocadas por seu desempenho ao motivar a turma com tais amostragens, possíveis de serem realizadas por eles, também. O giz, o quadro-negro e o apagador alfabetizaram a maioria dos brasileiros que hoje estão em postos de comando e tomam decisões importantíssimas para o desenvolvimento do Brasil. A comunicação professor-aluno poderia ser executada por métodos e meios mais modernos, como a televisão e o rádio, incidindo sobre quase todos os sentidos. Os alunos observam e, às vezes, compram revistas ilustradíssimas nas bancas de jornal. Mas isso é muito pouco. Há muito mais tecnologias ao redor do aluno fora da Escola do que lá dentro, no exíguo período de tempo em que assiste a aulas, muitas vezes, insuportáveis... Mas a atuação do professor, no sentido de uma comunicação ativa e dinâmica com o aluno, pode suprir, em parte, estas deficiências que proporcionam esta defasagem. Suprirá por suas qualidades intrínsecas, desde que esteja conscientemente imbuído dessas atribuições de educador e orientador, elaborando heuristicamente suas aulas, como exige uma Escola moderna. Surge, agora, outro problema a equacionar: a Atuação Docente. Considera-se a Atuação Docente, propriamente dita, só aquela alicerçada no tripé: formação específicacondições de trabalho e remuneração adequada.
formação específica é-nos dada pelas Faculdades das diversas Universidades, reconhecidas pelo Ministério da Educação e em Cursos de especialização, mestrado e doutorado. Mas para lá vão, também, todas estas defasagens das Escolas de Nível Fundamental e Médio, como num círculo vicioso a se completar.  
As condições de trabalho fazem parte de um complexo político-educacional ou de uma filosofia empresarial.
O terceiro sustentáculo do tripé da Ação Docente é a remuneração adequada, elemento vital à concretização da ação educativa, pois é o que traz a tranquilidade indispensável ao professor, que se torna a mola mestra, o botão de partida de toda essa complicadíssima máquina que impulsiona o progresso do mundo. É sempre oportuno lembrar que vivemos num país cujo modo de produção é o capitalismo. Esse terceiro sustentáculo poderá ser conseguido pela correta aplicação dos dois anteriores, fato que colocará o professor, que assim proceder, com condições reivindicatórias para tanto. 
Assim, Atuação Docente e Desenvolvimento Tecnológico são elementos indispensáveis a uma política educacional endógena, para alavancar o ensino nacional, o que o Brasil, infelizmente, não tem. Esta é a minha visão sobre o ensino no Brasil, resumidamente e de um modo geral. Que venham os comentários.


ATÉ A PRÓXIMA 

23 de janeiro de 2017

FILOLOGIA, FORNO E FOGÃO

Antônio José Chediak, Antônio Houaiss, Luiz Cesar Saraiva Feijó., após reuniaõ da Academia Brasileira de Filologia, UERJ, Rio de Janeiro

Homenagear o saudoso filólogo, Antônio Houaiss (15/10/1915 – 07/03/1999), diplomata de carreira, lexicógrafo, tradutor, esteta, um homem de cultura humanística completa, que soube entender o seu tempo histórico e dele participar harmoniosamente, inclusive na vida pública, como ministro de Estado da Cultura, é um dever de seus pares da Academia Brasileira de Filologia.  Se o antropólogo Claude Lèvi-Strauss recorreu ao preparo de alimentos, isto é, à forma de se cozinhar, para estudar os mitos, e principalmente os mitos indígenas, Antônio Houaiss fez da cozinha o seu passatempo estruturador de fontes constantes de renovação de muitos pensamentos, já que o homem cozinha para refletir suas ideias, na materialidade dos ingredientes, e  não, somente, para se alimentar. Se o famoso antropólogo belga trabalhou com os alimentos e com as práticas culinárias como pano de fundo em seus estudos sobre os mitos indígenas, Antônio Houaisss, de muitas formas, se utilizou das práticas do “bom gourmet” para pensar sobre a forma de se organizar o banquete. É claro que seu nome se imortalizou no campo dos estudos da filologia e da ecdótica. Mas escolhi como tema, para homenagear essa grande figura de nossa cultura humanística, uma de suas paixões: a gastronomia. Sempre escrevo, em meu Blog, nas redes sociais, alguma coisa sobre isso. Vejo, pois tal assunto como uma forma de unir história, filologia e boa comida. É muito interessante conhecer comidas exóticas. Comidas exóticas,  tradicionais e simples que existiam em Portugal, desde o século XV. É mesmo um assunto que encanta e pode ser considerado como muito produtivo. A culinária portuguesa é hoje considerada uma das mais apreciadas no mundo inteiro. Desde a fundação da sua nacionalidade (1143), Portugal vem acumulando os prazeres gastronômicos, baseados em pratos que existiam antes do século XII. Contudo, parece que muita coisa se perdeu no terremoto que destruiu grande parte de Lisboa, em 1755. Talvez tenham se transformado em cinzas muitos livros de mão, relacionados à culinária. Como nos tempos de nossas avós, as receitas gastronômicas eram anotadas em folhas de papel e depois passadas a limpo em cadernos que, guardados com muito cuidado, se transformavam em preciosos segredos materializados em caldos, assados, massas, guisados, frituras de todos os tipos e maravilhosos doces capazes de adoçar, supimpamente, os mais requintados paladares. Todavia, muitos desses segredos culinários estão ainda guardados a sete chaves em mosteiros portugueses, como, por exemplo, nos da cidade de Odivelas que produz, ainda, famosos doces em suas casas de oração, mosteiros seculares e meditativos. Em outras inúmeras casas de oração, como os conventos portugueses, e cito o Convento de Arouca, o Convento de Santa Clara de Guimarães, o de S. Domingos de Elvas, o Convento da Senhora da Conceição de Lagos, o Convento de S. João de Ponta Delgada, nos Açores, o de Sant’ Ana de Coimbra, onde existem, ainda, receitas guardadas em segredo. Receitas que se servem, generosamente, de inúmeros ingredientes interessantes, como, por exemplo, a água de flor de laranjeira, hoje quase em desuso, e muitas outras preciosidades importantes para um exigente apreciador da “haute coisine”. Contudo, muitas dessas iguarias, e seus segredos não resistiram aos cochichos das cozinheiras e as receitas vazaram, chegando ao conhecimento do grande público. Assim, as fórmulas dessas especialidades se transformaram em clássicos, hoje conhecidos, da doçaria sazonal, como a aletria, o pão de ló, além do vetusto e muito apreciado arroz-doce, cuja origem, possivelmente, remete aos mouros, que habitaram o território português, antes da reconquista.
Em Portugal, nos tempos medievais, o povo consumia, basicamente, carnes, peixes, vinhos e cereais, entre eles o trigo, o milho, o centeio, em suas principais refeições.
Como sabemos a nacionalidade portuguesa, fundada por D. Afonso Henriques, data do século XII. Portanto, vamos destacar, aqui, nesta homenagem singela a Antônio Houaiss e aos apreciadores da boa e farta mesa, algo que foi escrito 300 anos depois da fundação do Condado Portucalense, que se notificou por suas gloriosas histórias de lágrimas, sangue e amor e, por que não dizer, também, por muita banha, carnes e aves assadas, inúmeros tipos de bolinhos e muitas massas crocantes. Trata-se de uma especiaria; Pastéis de carne. Sua receita, e a de inúmeros outros pratos da época, isto é, o modo de prepará-los encontra-se em um documento histórico de 600 anos. Trata-se de um texto medieval, retirado da obra editada pelo Instituto Nacional do Livro, MEC, 1963, intitulado UM TRATADO DA COZINHA PORTUGUESA DO SÉCULO XV, cuja edição foi preparada pelo professor Antônio Gomes Filho. Vamos transcrever a leitura diplomática moderna, somente desse primeiro quitute:

PASTÉIS DE CARNE

 Tomem carneiro, alcatra, ou lombo de porco fresco, e uma fatia de toucinho de fumeiro, para dar gosto.
Piquem tudo muito bem. Com cravo, açafrão, pimenta, gengibre, coentro seco, caldo de limão ou de agraço, e com uma colher de manteiga faz-se o refogado, ao qual se deitam a carne e o toucinho picados. Cozinha-se em fogo brando.
Depois de pronto deixa-se esfriar e fazem-se os pastéis, bem recheados; pincele-os com gema de ovo e leve-os a assar em forno quente.
 Do mesmo modo se fazem os pastéis de galinha.
 Os pastéis ficarão mais gostosos, se recheados com carne crua.

 Esse e muitos outros pergaminhos medievais sobre a culinária do século XV, que envolvem temas diferentes, literários e não literários foram estudados, à luz da  ecdótica, por especialistas, como Antônio Gomes Filho, Padre Augusto Magne, A. G. Cunha, Emanuel Pereira Filho, entre tantos outros doutos filólogos brasileiros, muitos deles pertencentes aos quadros da nossa Academia Brasileira de Filologia, e apresentam leituras diplomáticas e modernas, num minucioso trabalho de crítica textual. Um tratado da Cozinha Portuguesa do Século XV chegou até nós, mostrando-nos a vida de então, pulsando nas cozinhas dos castelos, mosteiros, vilas, casas simples, nos campos, nas fazendas e em muitos sítios daquela época quinhentista. Assim, podemos refletir sobre os momentos de pompa e requinte, mas também sobre os momentos de aflição e de angústia, talvez diante de tempos, quem sabe, de terríveis dificuldades e escassez de alimentos. Tempos, muitas vezes, vividos por gente igual a nós, com os mesmos anseios, tentando encontrar na cozinha a satisfação da degustação, como supremo encantamento da vida. Pode-se acreditar que procuravam a todo instante, entre temperos, caldos, pastas e água fervente, articular o pensamento, cozinhando não somente para saciar a fome, mas, para, sobretudo, articular o pensamento. Este pedaço de manuscrito é fantástico porque interessante material filológico, como, por exemplo, os termos "albarada" e "sartãa" ou "sertãa", que equivalem hoje a saco-de-confeitar (aqueles com bicos para decorar bolos) e frigideira, respectivamente. Muitos outros termos, já pertencentes ao vocabulário passivo da nossa língua, em quase completo desuso, lá aparecem, deixando registrado um momento da vida do homem ibérico-peninsular, ao se relacionar com o complexo exercício da culinária. Mostra, ainda, a vida girando em torno do forno e do fogão, chegando a nós através dos escribas e seus grafismos, que mais parecem rabiscos em caracteres arábicos ou garranchos feitos por iniciantes na alfabetização, tentando conseguir escrever.
 Finalmente, recolhemos alguns termos encontrados nesse interessante livro, que trada da cozinha portuguesa do século XV, cujo tema está totalmente ligado a uma das paixões explícitas de Antônio Houaiss, para, numa rápida análise, mostrarmos alguns aspectos de nossa língua, em seu viés diacrônico. Destacamos os seguintes: a) escalfado, esquentado. Part. do verbo latino excalfacere, esquentar; b) albardado, coberto com ovos batidos e depois fritado. Part. do verbo albardar, do ár. al-‘ bardaHa;  c)  alfitete,  massa de farinha com açúcar, ovos, manteiga ou toucinho e vinho, disposta em camadas, sobre as quais se coloca galinha, carneiro etc.; pastelão, queijada. Do ár. al + fitat, bocadinho, migalha; d) almojávena, espécie de bolo ou torta feita com farinha, ovos, açúcar e queijo. Do ár. al-mujabanâ, uma espécie de bolo; e) diacidrão, doce da casca da cidra em compota. Pref. di(a) + cidrão, do lat. cítrea, ae, limoeiro; f) almíscar, substância de odor penetrante e persistente obtida a partir de uma bolsa situada no abdome do almiscareiro macho e usado como fixador em perfumes. Também uma das várias substâncias de odor forte obtida a partir de animais como o boi-almiscarado e a civeta (gato-de-algália ou civeta africana), do ár. al-misk, proveniente do persa musk, testículo; g) codorno (ô), certa variedade de maçã grande e de pera, de origem obscura; h) alféola, massa de açúcar ou melaço, em ponto grosso, tornada branca por manipulação e usada em confeitarias, do ár. al-halaua ou al-halua’, um doce açucarado; i) farte ou farto, variedade de doce em que entram amêndoa,  e açúcar,  regressivo do verbo latino farcio, is, arsi, artum, cire, encher, atulhar, embuchar, engordar, relacionado ao campo semântico da cozinha; j) fartalejo (ê), massa ou espécie de polenta em que entram farinha e queijo, sua origem, talvez, possa se prender a farte  + suf ejo , por influência de artelete; k) sovar (pão sovado, massa sovada), misturar bem a massa do pão. O interessante desse vocábulo que ainda pertence ao vocabulário ativo da língua geral é o sema violência presente nos verbos que poderiam ter dado origem ao vocábulo português. Mas sua origem é controvertida. Corominas diz que o vocábulo comum ao português e ao espanhol (sobar) é de origem incerta, talvez vulgar, a forma verbal subagere, que suplantou a forma verbal latina culta subigo, is, egi, actum, igere, meter de baixo, amansar, subjugar, domar, amansar, apertar, moer, triturar. No caso citado por Corominas, é claro o sema violência. Nascentes diz que a origem pode estar na forma verbal latina hipotética *subagere por subigere (Cf. Corominas), calcado no part. pass. subactum. M. Lübke entende que sovar e sobar remontam a um primeiro tipo sobas = súbagis, súbagit. Já Cortesão deriva a forma portuguesa do espanhol. Mas em todos os casos o sema violência está presente, o que sustenta significativamente todas as hipóteses etimológicas vistas acima; l) biscoito, vocábulo pertencente ao vocabulário ativo da língua geral, é um alimento feito de farinha de trigo, maisena, araruta, polvilho, fubá, etc, misturado a água ou ao leite, com sal ou açúcar, podendo-se acrescentar ovos, fermento, manteiga, outros tipos de gordura e especiarias, castanhas, frutas secas, queijo ralado, chocolate etc , tudo assado no forno. Nascentes deriva do lat. biscoctu, cozido duas vezes; m) maçapão, vocábulo que no século XIV significava o conteúdo de uma caixinha onde havia um bolo de açúcar, amêndoas e água de rosas. Hoje significa bolo de farinha de trigo com amêndoas e açúcar. A. Coelho deriva de massa e pão e grafa com ss. Gonçalves Viana grafa com ç e manda comparar com o esp. Mazápan, com z, equivalente a ç em português. M. Lübke prende a forma napolitana marzapane ao árabe mauthaban, moeda com uma figura de Cristo sentado, que circulava no Levante ao tempo das Cruzadas; n) pão de ló, bolo simples e leve feito de farinha, ovos, açúcar e água. Nascentes, citando G. Viana, diz que este declara a locução de origem obscura. Deonísio da Silva concorda com a controversa origem da expressão, mas sugere uma origem algo interessante e possível. Relaciona com o hebraico Lot, que significa véu. Cobria-se o pão açucarado com véu para que as moscas nele não pousassem. 

BIBLIOGRAFIA

 1- COROMINAS, J. Diccionario Crítico Etimológico de la                  Lengua Castellana, 4 vol., Madri, Editorial Gredos, 1954.
 2- CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2 ed, 1986.
 3- FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, Curitiba, Ed. Positivo, 5. Ed, 2010.
 4- GOMES FILHO, Antônio.  Um Tratado da Cozinha Portuguesa do Século XV, (preparação), Instituto Nacional do Livro, MEC, Rio de Janeiro, 1963. 
 5- NASCENTES, Antenor. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Edição do autor, Rio de Janeiro, Segunda Tiragem do Tomo I, 1955.
 6- SARAIVA, F. R. dos Santos. Dicionário Latino-Português. Belo Horizonte, Livraria Garnier, 2006.


Este texto sairá publicado na Revista da Academia Brasileira de Filologia, 2017.









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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.