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30 de agosto de 2018

O LIVRO SÓLIDO DE WENTH FILHO






A poesia de Ernesto Wenth Filho enquadra-se no que se convencionou chamar de produção poética contemporânea, que são os textos em verso ou prosa poética, surgidos a partir de 1945. Seu último livro, lançado recentemente em 2017, pela MJ Editorial, Balneário Camboriú, em 2017, traz no título da “capa” e da “quarta de capa” o título do livro, é claro, mas trata-se, também, de um poema. O poema-título SÓLIDO. Do que se trata?  Trata-se do nome do livro que se consubstancia como poema, cuja produção denuncia a manipulação da linguagem. Isso se dá pela captação da sensibilidade poética que vai buscar na realidade do referencial linguístico o significado cultural do termo SÓLIDO, assim: “Que dificilmente se deixa destruir por uma força externa; que tem fundamento real, seguro; digno de confiança, incontestável; firme, sério, duradouro; resistente”. E acrescentamos nós: todas as constelações semânticas advindas desses significados primitivos, que vão se multiplicar no “receptor-leitor” e em seu repertório.

A visão espelhada do esboço original da capa e a capa acabada é uma viagem que o leitor faz, antes mesmo de folhear as primeiras páginas desse último livro de Ernesto Wenth Filho. Essa forma original de produzir um texto poético é, na verdade, uma forma de linguagem, pois seus significantes, que adquirem significados motivados no real, fazem com que surja uma comparação inconsciente, no entendimento do receptor dessas novas mensagens codificadas, incorporando-as a seu repertório, a fim de ver nesse conjunto de signos, que é o texto produzido, uma forma expressiva, com novos significados, portanto, uma forma poética, com nova linguagem. Assim, passamos a caracterizar como poema, uma forma de linguagem, e o texto em questão, o é, por tudo que foi considerado e porque, acima de tudo, recria a linguagem articulada, recriando, com ela, uma nova maneira de se ver um mundo transfigurado.

A linguagem poética de Ernesto Wenth Filho está projetada para ser cantada em ritmos alucinantes da musicalidade muito próxima do ritmo do rock (p. 38), pois a referencialidade soprepuja a conotatividade de seus enunciados. Isso, contudo, não tira de cena a poesia contida em seus textos, como exemplificam os versos dos pequenos poema de seus textos, visualmente destacados entre sinais gráficos de grandes aspas. Aliás, funcionando dentro do contexto de SÓLIDO como verdadeiros grafemas, pois colocam significativamente em destaque uma outra forma de dizer o poético.

Sua linguagem mais referencial, portanto, convive, dividindo espaço com a suavidade das formas adjetivadas, que são, realmente, em menor número do que as substantivas, mas não desmerecendo o conjunto, que se sustenta por vários outros predicados, inerentes ao processo de criação poética.
Assim, a poesia de Ernesto Wenth Filho, neste seu livro SÓLIDO está relacionada com a descrição da realidade circundante e trabalha com diversos tipos de textos, incluindo a prosa poética narrativa-reflexiva (p. 8, 58).

Sua estrofação apresenta os seguintes segmentos: dísticos: (p. 65); tercetos (p. 29, 74); quadras (p. 14, 16, 38, 62, 72, 75); quintilha: (p. 70); estrofação mista de quadras e sextilhas (p. 6); estrofação mista de tercetos, quadras e dísticos (p.10); poemas de estrofação mista bem variada (p. 12, 18, 20, 22, 24, 26, 28, 30, 32, 34, 36, 40, 41, 43, 46, 48, 50, 52, 56, 64, 66, 68, 69, 71). Todos os seus poemas se compõem de versos modernos, com e sem rimas, sem métrica, mas com certo ritmo, nessas estruturas bem diversificadas de estrofes.

Finalmente, temos certeza que, futuramente, as obras poéticas de Wenth Filho, nos brindarão, plenamente, com poemas sequenciais, seguindo aquela linha inicial, quando inovou, desconstruindo o figurativo tradicional, em Só – LIDO, para construir uma nova forma de se ver o mundo, transfigurado pelo dialogismo da linguagem, com suas inúmeras possibilidades de leitura.


ATÉ A PRÓXIMA


23 de agosto de 2018

UMA VIAGEM A UM JARDIM DE QUASE 100 ANOS




Há, praticamente cem anos, Ribeiro Couto escreveu alguns dos mais significativos poemas de sua lírica intimista, nevoenta e com prenúncios modernistas. A publicação se deu alguns anos depois. Refiro-me ao livro O Jardim das Confidências, publicado por Monteiro Lobato & Cia., São Paulo, em 1921 e que teve uma tiragem de mil exemplares. Foi sua estreia como poeta. Foram versos escritos entre a adolescência e a idade em que o rapaz está pronto para amar, sem saber que todo o amor inclui o sofrimento, parodiando, romanticamente o poeta português, Guerra Junqueiro.

    A cena se estende pela cidade de São Paulo nas primeiras décadas do século XX.  Uma cidade cheia de glamour e de barões do café. Palacetes e jardins, dentro e fora das casas. A elegância dos transeuntes e o charme dos primeiros automóveis importados pela Ford dão um toque de aristocracia à pacata e quase bucólica capital do histórico Estado brasileiro.
São Paulo, nessa época, era um espaço repleto de novidades culturais e começava a despontar para o progresso: non ducor, duco.

      Em 1955, morei, durante um ano, na capital paulista e ainda tive a oportunidade de ver uma cidade de raros encantos em suas ruas, praças, avenidas e bairros residenciais com seus floridos jardins. Encantei-me, muito antes de Caetano Veloso, com o cruzamento das avenidas Ipiranga e São João, repleto de restaurantes - lembro-me do Restaurante Leão – espargindo o guloso perfume de seus sanduíches e pizzas, misturado a um cheiro diferente da gasolina, queimada pelos automóveis que passavam por aquelas esquinas de deselegâncias, que tocariam, anos depois (1978), o coração do poeta cantor. Sofri com a garoa fina e fria, quando caía nas imensas chácaras por onde passava a pé e também de bonde, querendo ir para Santo Amaro. Meu coração sentia - eu bem sei- a explosão de uma invisível emoção inconsciente de um EU adolescente que se viu envolvido pela penumbra da serra, num contraste com o mar do Rio de Janeiro, minha terra natal. Era a diferença entre o sol do Rio e a chuvinha fina paulistana. Com Ribeiro Couto deve ter acontecido o mesmo. De Santos do sol e do mar, do calor do Rio, onde se formou em Direito (1919), para um retorno à sombra dos dias cinzentos de São Paulo, deve ter sido um contraste imenso e significativo e que o marcaria, sem dúvida alguma, despertando no artista o EU melancólico, encontrado nos Jardins das Confidências.

        Em 1921 saiu seu primeiro livro de poesias e Manuel Bandeira não economizou palavras de elogio ao poeta, praticamente um jovem adolescente e tímido. “Este livro é, em todos os sentidos, uma obra-prima: no seu feitio, como na sua essência espiritual”, dizia Bandeira, que viria a ser o mais clássico dos poetas modernista, em sua crônica “Apologia de um Poeta”, escrita no jornal carioca O DIA, de 9 de outubro de 1921.

    Quando eu morava em Jacarepaguá frequentava, nas férias escolares, um grêmio cultural, fundado por um ex-aluno do Colégio Militar/RJ, que não seguiu a carreira das armas. Optou pelas letras, pela poesia e pela filosofia. Lembro-me que foi numa das primeiras reuniões do “GCMA” (Grêmio Cultural Machado de Assis) que eu conheci um professor de Língua Portuguesa no início de sua carreira. Esse professor fora convidado para presidir uma reunião festiva, num sábado à tarde, quando seria lido e aprovado o Estatuto daquela agremiação, idealizada por jovens estudantes e que deveria divulgar e estimular a prosa e a poesia na região oeste da cidade do Rio de Janeiro. Belíssima pretensão! Esse professor era Evanildo Bechara, meu mestre, hoje meu amigo, meu filólogo preferido, como digo na intimidade. Evanildo Bechara pertence, atualmente, à Academia Brasileira de Letras e é Presidente de Honra da Academia Brasileira de Filologia, de cujos quadros, com muito orgulho, faço parte. Lá, naquele humilde e incipiente refúgio cultural, frequentado por jovens deslumbrados pelas letras em prosa e verso, homenageava-se também, em ocasiões festivas, poetas de nossa literatura, recitando-se seus poemas e falando-se de sua história de vida. Então, o presidente daquele humilde e longínquo grêmio, talvez, e, com certeza, hoje desaparecido, ofuscado pela fantasmagórica névoa do esquecimento, homenageou naquele sábado de minha distante juventude o poeta Ribeiro Couto, lendo o poema O Desconhecido, de O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS.

Quem é esse que está, sob a lâmpada morta, / Infantil a chorar debruçado na mesa?

     Foi o meu primeiro contato com o poeta. O “penumbrismo” em sua poesia me instigava, da mesma forma como mexia com minha imaginação a morbidez impressionista muito presente em sua poesia, envolta numa melancolia explícita e num erotismo velado. Eu vinha de um ambiente familiar muito comprometido com o parnasianismo, tanto na tentativa estética de compreender o belo, quanto nas atitudes apolíneas de comportamento social, cobrando, sempre, minha família de mim a busca pela perfeição.... Meu avô materno, tios e um tio-avô foram amigos de Olavo Bilac e admiravam sua poesia, do mesmo modo a de Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, Théophile Gautier, Leconte de Lisle e Théodore de Banvi. Minha tia, Leopoldina Saraiva, era professora de francês e poetisa premiada. Moravam todos numa bonita quinta, uma construção no estilo neoclássico, repleta de arabescos externos, predominando em seu interior quadros e estatuetas com motivos e figuras, representando passagens da mitologia grega. Não aderi a esse estilo de vida, portanto não abracei a estética parnasiana. Já o simbolismo e o impressionismo, trazendo, quase sempre, embutidos em si os mistérios do mórbido penumbrismo, mexeu com o meu EU adolescente e eu poderia, agora, envolvido pelo espírito poético de Ribeiro Couto, dizer que aquele simbolismo impressionista muito me marcou, ficando tudo isso, para sempre, impregnado em minhas ilusões e pretensões literárias. 

     Ribeiro Couto estreou na poesia (1921) um ano antes da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo. Sua mensagem poética se apresenta envolvida em uma atmosfera simbolista, reagindo flagrantemente ao ambiente parnasiano, que no dizer de Ronald de Carvalho “estava saturado de girândolas, de fumaradas espessas, de fogos e labaredas alterosas”. Mas a poesia de Ribeiro Couto, nesse seu livro de estreia é, basicamente, uma poesia de transição, no início do século XX. Iria, contudo, pouco se modificar. Em O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS há uma poesia de sombra, silêncio, mansuetude e noturnismo. O mesmo ocorreu com a poesia de Ronald de Carvalho, que apontaria um novo movimento intimista que surgia, ao analisar esse primeiro livro de Ribeiro Couto. Deu a esse movimento intimista o nome de “penumbrismo”, no artigo intitulado Poesia da Penumbra. Esse sentimento intimista e penumbrista, percebido por Ronald de Carvalho, já se sentira também na obra de Mário Pederneiras. A esse período da história de nossa literatura, quando autores se lançam na direção de uma vanguarda e novos estilos esperam o combate e cantam e agonizam, às vezes, em campo aberto, dá-se o nome de “sincretismo”. Vejamos o que diz Afrânio Coutinho:

Fenômeno facilmente observado na evolução da história literária, é o que se verifica nos períodos de transição ou zonas intermediárias: o aparecimento de escritores e poetas de valor incontestado, em cujas obras se infiltram tendências de escolas antagônicas, chocam-se princípios que se contradizem, sentimentos e emoções que se contrariam. E isso porque são atingidos pelas influências e reflexos do fim e do princípio de escolas que se sucedem. Sofrem tais escritores e poetas de uma inconsciência literária, tão compreensível e perdoável, que em nada lhes desmerece o valor global da obra”.  (In, A Literatura no Brasil, Vol. III, Tomo 1, p. 311).

    Está, portanto, localizada a obra de Ribeiro Couto, O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, dentro desse período sincretista que atravessou a poesia brasileira, antes de se afirmar nas novas estéticas, que não tardariam a surgir.

  Então, a poesia de Ribeiro Couto, tão entusiasticamente apresentada por Bandeira, como vimos no início, só iria ser inserida no Modernismo, depois de uma insistente crítica embasada nas modernas teorias literárias, por parte de estudiosos, que perceberam que não se tratava de um poeta menor dentro do movimento que aflorou em 1922. Seus companheiros, poetas naquele momento de transição estética dos anos 20, principalmente Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade vão com ele manter uma viva troca de ideias, através de uma profícua correspondência, mostrando visões estéticas muito diferentes, mas sem deixarem de reconhecer o valor significativo da poesia de Ribeiro Couto. Sobre o livro que hoje tem quase 100 anos, diz Vera Lins, doutora em Letras pela UFRJ e professora de Teoria da Literatura:

O olhar é forma de conhecimento, contemplação produtiva que faz o sujeito perambular como vagabundo, andarilho que vê e ouve a cidade. Assim aparece o EU lírico nos primeiros livros de Ribeiro Couto, revelando um imaginário próximo a Baudelaire e aos simbolistas. É com vagos olhos de passante que percorre as ruas do Rio e de São Paulo, fixando luz, cores, objetos e pessoas em O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, POEMETOS DE TERNURA E MELANCOLIA E UM HOMEM NA MULTIDÃO”. (In, Ribeiro Couto, uma questão de olhar. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa.)

O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS é dedicado à cidade de São Paulo, “às suas manhãs nevoentas de sol frouxo”. Poemas de adolescente ferido pela volúpia de amores, que são recriados e transfigurados em uma atmosfera de meios tons, de penumbra, de sombras, de névoas, de disfarçado erotismo em um ambiente que retrata motivos simples do dia-a-dia, temáticas que desenvolvem um motivo central, que é o sentimento de paz, embora a alma sofra como sofre a alma de todos os poetas...

  Um ano depois do lançamento de O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, em 1922, realiza-se, no Teatro Municipal da cidade de São Paulo, a Semana de Arte Moderna. Foram três noites de apresentações de recitais, conferências, declamações, grupos de artista e intelectuais tentando mostrar as novas concepções e tendências estéticas de arte. Abaixo a “ars gratia artis” dos parnasianos! O objetivo era a destruição das velhas formas artísticas na literatura, na música e nas artes plásticas. Os organizadores procuravam apresentar e discutir os princípios da chamada arte moderna. Pairavam, também, sobre os participantes muitas dúvidas a respeito do que se estava querendo contestar. Um dos mais representativos intelectuais do movimento, Oswald de Andrade, num esforço de síntese, afirma: "Não sabemos o que queremos. Mas sabemos o que não queremos." A cidade se dividiu entre os futuristas (renovadores) e os passadistas (conservadores).

    Em 1922, o escritor Graça Aranha (1868-1931), que pretendia romper com o  passado, aderiu abertamente à Semana da Arte Moderna, criando uma cisão na fechada e reacionária Academia Brasileira de Letras, defendida por seu líder, o escritor Coelho Neto (1866-1934). Essa contenda entre opiniões estéticas diferentes criou uma das maiores polêmicas acadêmicas, como há muito tempo não se via.        

    O público aplaudia as manifestações contestatórias por uma nova estética, tanto  vindas de um primeiro equivocado discurso de Graça Aranha como das leituras de textos vanguardistas de Mário de Andrade, Menotti del Picchia e Oswald de Andrade.  Mas a grande sensação do evento foi Ronald de Carvalho, na segunda noite, quando ele leu o poema “Os Sapos” de Manuel Bandeira que, por motivo de saúde, não pode comparecer. O poema fora uma irônica crítica endereçada aos ideais parnasianos e ao seu grande e principal representante, Olavo Bilac, que ainda era cultivado pela maioria do público, uns poucos privilegiados com o conhecimento teórico da estética dominante na época. A reação foi estrondosa. Vaias, gritos, batidas de guarda-chuva nas cadeiras e poltronas, um alvoroço total, até a sessão ser interrompida. E a gritaria no interior do Teatro Municipal não parava: FOI! NÃO FOI! FOI! NÃO FOI! Citando Sergius Gonzaga, pode-se dizer que “metaforicamente, com sua iconoclastia pesada, o poema delimita o fim de uma época cultural”.

   Mário de Andrade, um dos principais teóricos do movimento modernista, sintetiza os propósitos dessa nova articulação cultural, como uma forma de legar às gerações futuras os frutos que colherão, a partir das sementes agora lançadas nos palcos da Semana de 1922, isto é, a estabilização de uma consciência criadora nacional, preocupada em expressar a realidade brasileira; a atualização intelectual com as vanguardas europeias e o direito permanente de pesquisa e criação estética. 

   Ribeiro Couto participou da Semana de 22 e sua contribuição para a vida literária de então seria este seu O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, muito distante, é verdade, do rompimento total com o passado estético, mas com uma forma envolvente de montar um novo ritmo, lento, é verdade, mas suave como toda sua poesia. Revalorizou, então, o verso alexandrino, desgastado pelo soar sistemático das cesuras parnasianas. Seus versos possuem o doce ritmo da chuva fina que molha sem encharcar:

“A chuva fina molha a paisagem lá fora. / O dia está cinzento e longo.... Um longo! ”

É a poesia da impressão e da intensificação, do momento diáfano que não se repete nunca:

“Tem-se a vaga impressão de que o dia demora”.

“Parece que morreu a vida. / Parece que morreu a vida / Na velha praça adormecida”.

Uma visão impressionista do mundo que o cerca e o motiva:

“Tenho uma sensação tonta e maravilhosa / De estar vagando no ar, leve como uma pluma”.


Dando preferência ao verso alexandrino, em seu primeiro livro de poesia, Ribeiro Couto, em compasso quaternário, no poema “No Cais”, repete as estruturas métricas, proporcionando a continuidade e a duração da ação:  

“Olhando o mar, olhando o mar, olhando o mar...”

     Segundo Manuel Bandeira, analisando esse mesmo poema, “No Cais”, diz que “os pobres de poesia, aqueles que só conseguem perceber as realidades objetivas não conseguirão compreender as imaginações férteis, pois elas ganham sentido mais alto, alongam-se em perspectivas mais fundas, quando não se transmudam a realidades astrais”. No poema “No Cais, a realidade subjetiva do abraço dado à mulher, foi o pequenino Suave Milagre da poesia”, continua Bandeira, após ouvir de um crítico e poeta que tal abraço é um absurdo num mundo de duras realidades. Bandeira continua analisando os versos de O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, mostrando que a forma de emoção e sugestão provém muito da musicalidade neles contida.

    Esse recurso formal de repetição das estruturas métricas, aliado a sucessivas tentativas rítmicas de polifonia, em versos alexandrinos de compasso ternário, dão evidentemente, à poesia de Ribeiro Couto uma imensa musicalidade, já percebida pela análise de Rodrigo Melo Franco, logo após a publicação de O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, quando assinala que “todas as poesias de Ribeiro Couto são canções”.

    Manoel Bandeira, em sua Apologia de um poeta, aqui citada, no início desse trabalho, disse, em 1921, o que a Vera Lins percebeu, ao analisar a obra de Ribeiro Couto, em seu trabalho, já citado também, datado de 1997. Lá está, no poema “Mascarada” o subjetivismo elaborado, responsável por refazer todas as realidades objetivas do poeta. Assim, a poesia de Ribeiro Couto, poeta intimista, quase “flâneur” nesses versos, se caracteriza por uma forma subjetiva de mostrar a realidade através de seu olhar, que também é uma forma de conhecimento para a contemplação produtiva, pois é perambulando e observando que, segundo Bandeira, consegue Ribeiro Couto ser arguto e cínico. É necessário conferir:

Mascarada

“Passastes a sorrir, frívolas Colombinas,
A sorrir.... Para mim? Eu entre a multidão,
Eu também vos lancei confete e serpentinas...

Em torno a multidão agitava pandeiros.
A berrar, toda a praça era uma aclamação.
“Bravos! ” E eu via rir vossos olhos brejeiros.

Fostes passando.... Tive uma fina tristeza.
Perdido, o meu olhar errava sobre vós...
Seria Momo o deus do amor? Ah! Que incerteza!

E ao desaparecer da linda mascarada,
Entre ruflos e o guizalhar dos dominós,
Levei ao rosto a minha mão: voltou molhada...
Seria Momo o deus do amor? Pobre de nós!

Ribeiro Couto em seu livro de estreia, como nos seguintes, tem preferência pelo verso alexandrino, expressando-se ainda em versos curtos de oito sílabas e seu quebrado de quatro. Em O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS adota versos alexandrino, decassílabo e octossílabo. Sua poesia é espontânea e suave, realizada sob uma atmosfera de sonho e devaneio, de sombras e umidade. Constrói com o simbolismo da lâmpada o seu campo semântico, ligado à imagem do brilho nas trevas, imagens antitéticas que envolvem grande número dos poemas de seu primeiro livro, desenvolvendo com essas temáticas o seu Leitmotiv. Sua mensagem poética se realiza nessa simbologia através de metáforas animistas, numa visão impressionista da realidade fugitiva:

“Sobre a mesa de estudo, a lâmpada adormece”.

“A lâmpada é a melhor companheira que existe / Para as horas do desespero que esmorece.../ Tua recordação é uma lâmpada triste...”

“A luz da vela, amarelada e meio morta”

“A lâmpada vermelha esfuminha o teto”

“Lá na sala uma lâmpada sozinha”

“Quem é esse que está, sob a lâmpada morta”

“Ao centro a lâmpada cochila”

“A lâmpada evoca em vigília...”

“E o mortiço clarão da lâmpada quieta”.

A sedução pela luz mortiça da lamparina atinge seu auge no poema:

O Desconhecido

Quem é esse que está, sob a lâmpada morta,
Infantil, a chorar debruçado na mesa?
Olá, rapaz, que tens? Conta.... Contar conforta.
E em tua boca eu sinto estrangulada, presa,
A confissão que assim, sob a lâmpada morta,
Entre livros, terá mais tristeza, tristeza...

Pões os olhos em mim: pobres olhos molhados
Em que o pranto desceu como um véu vermelho.
Conta o que tens.... Enxuga os olhos desgraçados...
E ele chorava para mim, dentro do espelho.

O poeta cria um cenário simples. Tudo é simples. A mesa é simples. A lâmpada é simples. Simples é também a atitude infantil da personagem. Mas o engenhoso “set”, onde o poema se realiza é complexo. Estamos diante de uma variação cenográfica da tela de Velásquez, As Meninas, onde os retratados (em Velásquez são dois, os reis de Espanha) só são conhecidos pelo reflexo do espelho. Todos os olhares são para os retratados, mesmo o olhar do autor, tanto no poema quanto na pintura e lá, por motivos óbvios. A realidade se consubstancia pela imagem especular, que é destorcida e invertida e, enquanto linguagem, tenta reprimir o real. O diálogo se estabelece no poema entre o EU lírico e a castração do sujeito. A fala é interditada no sujeito e a melancolia aflora. Lá, em As Meninas, Velásquez desponta radiante como criador e como criatura, pois se retrata também. No poema O Desconhecido, Ribeiro Couto se ressente de identidade e não se encontra. A pergunta do criador fica sem resposta, pois a fala da criatura foi interditada pela castração do desejo. A resposta foi o pranto. Poderia ser o riso?

     O primeiro livro de Ribeiro Couto nos traz uma poesia sensorial repleta de imagens plásticas, ressaltadas por um vocabulário táctil que demonstra a ansiedade adolescente de tocar, de ver com as mãos, precipitando uma temática sensualista, que o acompanhará até seu último livro de poemas, LONGE (1961). Tudo, neste primeiro livro, está envolvido por um erotismo disfarçado, levando a seu espírito uma sensação de paz e de êxtase amoroso. Pode-se isso observar com muita nitidez no poema “O Desejo da Mão” e nos dois versos que seguem: “Esse perfume espalha mãos cheias de afago” e “Vozes quentes de lavadeiras”, onde as sinestesias envolvendo o tato atestam a percepção da realidade através dos sentidos que se interpenetram. A temática sensualista ainda é desenvolvida em versos como: “Sentindo as mãos geladas de abandono”; “Apertando-lhes as mãos murmuro intimamente”; “O teu olhar amigo, as tuas mãos amantes...” e em muitos outros.

    Não poderíamos deixar de assinalar em O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS a  presença da temática da morte, que surge motivada pela enfermidade que se abateu sobre o poeta. Esta temática, embora apresente aspecto destoante e até mesmo antitético, em relação ao Leitmotiv, é por isso mesmo, elemento de contraste que ressalta o motivo central e que pertence a uma estrutura condutora de todo o EU lírico da poesia de Ribeiro Couto. Assim, encontramos no poema “Noite Monótona de um Poeta Enfermo” esta temática desenvolvida, juntamente com a evocação dos cuidados maternos, onde a presença da mãe do poeta aparece aureolada como doce anjo-da-guarda. Mais tarde, a figura de sua mãe se precipitará em uma profunda nostalgia. “Todo o rumor que, lá fora / Chega a meu quarto de doente”.

    Ribeiro Couto em toda a sua obra poética utiliza-se de recursos formais que serão explorados, mais tarde, pelo romancista e contista. O principal recurso formal, a nosso ver, é a técnica do monólogo e do diálogo. Neste seu primeiro livro de poesia essa técnica já se faz notar. Pensamos que já estão ali os primeiros diálogos e monólogos poéticos que aparecerão no seu romance “Cabocla”.

   Sobre os versos de O JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, é interessante assinalar a observação de Carlos Drummond de Andrade, que vê na obra a presença dos temas do cotidiano, envolvidos por um lirismo muito pessoal, além da tristeza e da melancolia. Drummond, em carta, iria dizer que o amigo é o Casimiro de Abreu do Romantismo: “Você, Ribeiro Couto, ficará em nossa poesia com uma nota muito pessoal de lirismo, como ficou o Casimiro de Abreu (peço que não se zangue), como ficará o Manuel (Bandeira), poetas dissidentes, como dizem os profissionais da alegria, mas que encontram sempre repercussão”. Ribeiro Couto lhe responde, concordando.

    A poesia de Ribeiro Couto, em toda a sua obra e principalmente em seu livro de estreia foi toda mansa, sem gestos, sem exaltações. Com tormentos, é verdade, mas com o dom de falar alto.

   Muito mais tarde, quarenta anos depois, com versos maduros, Ribeiro Couto irá exprimir a saudade de seu povo e de sua terra, no livro LONGE, publicado em 1961, pela Editora Civilização Brasileira, no Rio de Janeiro. Lá estão os versos que soluçam tristeza, amor, paixão, à semelhança de um Catulo da Paixão Cearense e de um João Cabral de Melo Neto. Mas isso fica para outra oportunidade.


ATÉ A PRÓXIMA




21 de agosto de 2018

CRUZ E SOUSA E SUAS ALITERAÇÕES




Falar sobre Cruz e Sousa é falar sobre o maior poeta do Simbolismo Brasileiro. Serei breve e simples, mais para manter vivo os registros  de crítica literária, que nessas minhas páginas da rede social faço, com certa periodicidade, do que para dar à poesia simbolista do autor de Broquéis, um trabalho crítico de grande valor, pois para tanto, faltam-me engenho e arte. De qualquer forma, peço a paciência do leitor, porque o tema é novo. Tentarei, então, apresentar uma pequena análise crítica de sua poesia, focando um determinado viés de sua construção poética, entre inúmeros outros possíveis. Aqui, uma análise fônica.

Todo texto ou escritura denuncia algo. É só procurar com as lentes da microanálise. Com o artifício da análise estilística pode-se mostrar por dentro a alma de um poeta. Vamos, então, procurar as combinações dos fonemas que estruturam os versos, proporcionando as mais significativas formas expressivas de um texto poético. Mas tudo isso na estrutura da investigação latente do texto. E como atingimos o latente? Através de análises especiais. Analisar é separar as partes do todo, é um processo de deslocamentos de inúmeras partes do discurso, pois há muitos conteúdos que se prendem ao texto, à sua estrutura fônica, à sua estrutura mórfica, à sua estrutura sintática e tudo isso pode denunciar, ou melhor, pode explicar um estilo ou um sentido estilístico, algo que se localiza muito além do literário. Traumas de vida podem ou não aparecer nos textos de um autor. Vicissitudes de uma existência inteira, carregada de infortúnios e desgraças, além de características de uma etnia, impregnadas na ”langue”, por exemplo, podem marcar a “parole” poética de um poeta, e seu discurso evoluirá esteticamente, consubstanciando-se, assim, o artístico. Já a arte, contudo, será o resultado da observação dessa materialização pelo receptor, uma vez que é nele que está centrada a mensagem transfiguradora da realidade. Com esse espírito investigativo, fomos encontrar em Joaquim Ribeiro, no seu livro Estética da Língua Portuguesa, uma hipótese sobre a possibilidade de ter sido a poesia de Cruz e Sousa influenciada linguisticamente por suas origens, isto é, por uma herança étnica: a língua Banto, africana. Para tal, no Capítulo V dessa preciosa obra, o autor nos brinda com um artigo intitulado Vestígio da Concordância Banto no Estilo de Cruz e Souza, onde o ilustre filólogo, que ocupou a Cadeira 33 da Academia Brasileira de Filologia, da qual muito me orgulho de também pertencer, afirma que “não será desarrazoado modificar, em certos casos, a velha definição buffoniana. O estilo muitas vezes é mais do que o homem. O estilo é a raça, com o equipamento cultural”.

Acredito que Joaquim Ribeiro esteja correto, pois é impossível separar Cruz e Sousa de sua herança étnica. Se assim aceitarmos essa colocação, podemos dizer que há elementos bem significativamente raciais na poesia e na prosa de nosso maior poeta simbolista.  

O autor da Estética da Língua Portuguesa procurou na linguagem poética de Cruz e Sousa alguma coisa a mais em seu estilo que traísse sua ascendência racial. O que mais chamou a atenção do insigne pesquisador foi a abundância das aliterações, recurso que Cruz e Sousa usa e delas abusa.  As aliterações são formas de se construir as frases, os versos, os parágrafos, enfim, um texto com a repetição da mesma consoante inicial, no sentido de tentar quebrar a arbitrariedade do signo linguístico, quando teremos uma forma imitativa ideal e nunca real, ou quando se tem a proposta de obtermos formas lúdicas, onde os sons repetidos nos diversos vocábulos proporcionam uma enorme sonoridade e musicalidade ao texto, sempre evocando, sempre sugerindo. Quando a repetição dos fonemas iniciais dos vocábulos se dá por variação cognata, ou quando os fonemas repetidos são homorgânicos, ocorre o fenômeno conhecido na estilística fonética como coliteração. Aliás, as variações consonânticas de fonemas, que dão ao verso um ritmo significativo e ímpar, foram estudadas no verso moderno, muito tempo depois de Cruz e Sousa, por dois grandes autores, um norte-americano, Kenneth  Burke,  e outro brasileiro, Oswaldino Marques.
Joaquim Ribeiro vê nas aliterações dos textos de Cruz e Sousa “uma sobrevivência de cunho racial, vestígio de uma concordância aliterativa, própria  das línguas bantos”.  O linguista e filólogo pesquisador se vale dos estudos sobre a língua Banto, realizados por Bentley, conceituado africanólogo, para mostrar que os bantos da África possuíam uma primitiva gramática, cuja concordância aliterativa é um fato significativo de sua estrutura fraseológica, portanto um traço linguístico pertinente, pois estabelece uma oposição significativa.

Observemos o exemplo apresentado por  Bentley:

O matadi mama mampembe mampewa i mam mama twamwene”.
O prefixo  -ma- que aparece no substantivo  -matadi- aparece obrigatoriamente nos adjetivos, verbos e pronomes que ao substantivo se referem: mama, mampembe, mama etc.
João Ribeiro, o grande historiador, folclorista, filólogo e erudito homem  dos temas humanísticos, da Academia Brasileira de Letras e pai de Joaquim Ribeiro, aponta reminiscências dessa sintaxe também no linguajar dos antigos escravos aqui no Brasil, em situações como:

Z’ êre z’mandou z’dizê” = Ele mandou dizer.
Acrescentamos nós que, igualmente, encontramos essa forma de falar, com idêntica sintaxe, nos terreiros de candomblé. Assim:
Z’ êre é mi z’fio” = Ele é meu filho, no linguajar de muitos pais-de-santo, que ainda hoje existem na Bahia e em diversos outros Estados brasileiros.

 Em Santa Catarina, mais precisamente no vale do rio Camboriú, de acordo com o historiador e folclorista Isaque de Borba Corrêa, em seu livro Poranduba Papa-Siri, ano 2000, apresenta-nos os seguintes falares de negros da região, em suas festivas cantigas:
“Já jivou, jinêga, jinão tenho jibatêra” =  Já vou, nega, não tenho batera.
Jiondistá meu jifacão, ondistá meu facão ?  /  Caiu lá na jabobêra, caiu lá na jabobêra!” = Onde está o meu facão, onde está o meu facão? / Caiu lá na aboboreira, caiu lá na aboboreira!
Jecaldo de cana, jefrutas, jebananas” = Caldo de cana, frutas e bananas.

Lembramos ainda, que línguas em formação, historicamente apresentam fenômeno parecido, na mesma linha fonética e até fonológica, como é o caso do  Latim, que na antiquíssima inscrição da “fíbula prenestina”, deixou gravada a inscrição: MANIOS FEFACIT NUMOSIOI = Manios fez para Numósio. O fenômeno fonético e, neste caso, também fonológico, pois aponta para uma marca morfológica, diferenciadora de tempo verbal se chama reduplicação, uma repetição da sílaba inicial do verbo, com variação vocálica, marcando o pretérito perfeito (FEFACIT), o que não deixa de ser uma forma de aliteração interna.

Observa-se, outrossim, que a linguagem tautológica infantil, primitiva por excelência, em relação à história do sujeito falante, é, em muitos casos, reduplicativa e aliterativa.

Mas voltando aos versos de Cruz e Sousa, podemos neles ver essa tendência aliterativa da língua dos bantos, sendo que na poesia do vate catarinense, isso ocorre exclusivamente em forma de um recurso estilístico.

Vejamos algumas concordâncias aliterativas em Cruz e Sousa:

“Vozes veladas, veludosas vozes,
volúpias de violões, vozes veladas,
vagam nos velhos, vórtices velozes
dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas... “                                    
(In, “Poesias”, 189);

“ricos e raros resplandesceram” 
(In, “Poesias”, 43);

“a cor cantava-me nos olhos” 
(In, “Prosa”, 426);

ALITERAÇÃO DE SUBSTANTIVOS E ADJETIVOS EM SUBORDINAÇÃO

“mole e morna melopéia” (In “Poesia”, 195);
“tantálica tentação de seus braços tentaculosos” (In, Poesia”, 194);
“verde, viva e viçosa vegetação dos vergeis virgens” (In, Poesia”, 145);
“pomos pomposos de pasmo sensibilizantes” (In, Poesia”, 391);
“finos frascos facetados” (In, Poesia”, 125);
“força  fina e fria” (In, Poesia”, 26);
“brusco e bronco biombo” (In, Poesia”, 94);
“soberbos e solenes soberanos” (In, Poesia”, 28);
“raras rosas” (In, Poesia”, 157).

Joaquim Ribeiro sustenta, portanto, de maneira inédita, que se o vate catarinense “não tivesse “background” racial para explicar essas sobrevivências, naturalmente interpretaríamos a predominância de aliterações em seu estilo como puro virtuosismo expressional” (a expressão foi por nós sublinhada).

A aliteração ocorre em inúmeros outros poetas simbolistas e neles, sem a presença do sangue africano em suas veias, não podemos seguir por esse mesmo caminho. É o caso, por exemplo, de Alphonsus de Guimaraens e todos os demais simbolistas. Ninguém antes de Joaquim Ribeiro abordou tal hipótese numa análise estilística, nem mesmo Antônio de Pádua, que escreveu o melhor ensaio até hoje publicado, a nosso juízo, sobre o estilo de Cruz e Sousa. Muitos repetem seus versos aliterados sem imaginar o poder que uma análise desse tipo tem, para tentar esclarecer os mistérios literários da poesia e, mais ainda, os mistérios quase impenetráveis do belo.

Ficam, então, registrados aqui estes comentários, em forma de crítica literária, sobre um fenômeno fonético, a aliteração, na poesia lírica de Cruz e Sousa, alçado à majestosa galeria dos poetas simbolistas do século XIX, ocupando, sem dúvida alguma, lugar de destaque muito especial junto à plêiade dos maiores simbolistas de todos os tempos, ao lado de Mallarmé, Baudelaire, Valéry, Verlaine e do alemão Stefan George.

(Esse tema foi motivo de uma palestra proferida pelo autor, na Prefeitura da cidade catarinense de Camboriú,  em homenagem  ao sesquicentenário de nascimento do poeta Cruz e Sousa, novembro de 2011)

ATÉ A PRÓXIMA


7 de agosto de 2018

DIANTE E ALÉM DA PEDRA FURADA



Como fazia muito calor no vale do Itajaí, onde atualmente estou morando, resolvi subir ao planalto catarinense para respirar aquele ar fresco das redondezas de Lages, Urubici e Urupema. Há muito tempo não ia para aquelas bandas.
Mesmo nas amenas relvas da baixada do centro do município de Urubici, onde me hospedei, o calor ainda era intenso e o céu azul, quase sem nuvens, deixava o sol à vontade para reinar, fervendo, sobre as nossas cabeças. A paisagem esverdeada da mata fechada, ao fundo da cidade, era convite certo para um passeio até ao alto da Serra Geral, onde no Parque Nacional de São Joaquim, poderia contemplar do Morro da Igreja, a fantástica formação geológica, conhecida como a Pedra Furada, praticamente encimando a região habitada mais alta de Santa Catarina.  Ali inicia um desfiladeiro impressionante, imenso, recoberto por todos os tons de verde, despencando em direção ao infinito. É um mar de araucárias, ipês, jequitibás, aroeiras, carvalhos, caúnas, pinheiros-bravos, araçás e xaxins de tirar o fôlego de todos os visitantes que não se cansam de fotogravar aquele quadro primoroso, pintado pelo Criador.
Mas num piscar de olhos tudo muda a nosso redor, pois uma neblina envolvente, vinda das profundezas das grotas e grotões, precipícios profundíssimos a nossos pés, sobe com um vento bem frio e cobre aquela paisagem estonteante, envolvendo-nos numa fumaça branca que não deixa mais ninguém ver nada, nem a um palmo do nariz.
Senti um arrepio percorrer minha espinha de alto a baixo. Pronto. Ele voltara de um longo período de ausência. Aproveitou-se do ambiente esfumaçado, materializando-se sorridente ao meu lado, tentando me dar um gelado abraço. Já fazia muito frio. Dirigimo-nos para o meu carro e pusemo-nos a conversar.
Trouxe-me alvissareiras notícias, pois mesmo ausente, podia saber do que me afligia, de como estava minha saúde, como e em que trabalhava ultimamente, enfim, sabia tudo sobre mim, desde que retornou, há cinco anos, a Portugal. Como já estivera comigo por estas regiões do Planalto Catarinense, nessa mesma época de verão e não me encontrando no litoral, nem nas várzeas dos vales, partiu para cá em seu voo mágico e me localizou com facilidade por estas bandas, com as quais muito nos identificamos.
Disse-me que encontrara, em um castelo de Braga, com uma santa alma que conhecia meus antepassados, aliás, de família distintíssima, singela e nobre. Como pode isso? Não entendi, a princípio, esses antagônicos significados. Mas meu querido amigo fantasma, já conhecido de meus leitores, muitas vezes se expressa com vocábulos modernos, mas com sentidos de sua época, lá pelas eras medievais ou de alguns séculos atrás. Realmente, era isso! Singelo de singulus, sem complexidades, puro, desprovido de enfeites, único. Fiquei curioso e disse-lhe que queria ouvir com toda atenção essa história contada a ele por aquela alma penada que vagava pelos castelos bracarenses.
O sol, em seu declínio, manchou de nácar o denso nevoeiro. Descemos a serra emocionados, eu pelo esplendor daqueles instantes, onde pude sentir a força da natureza dentro de mim, aumentando o prazer de viver, e meu amigo fantasma por me encontrar ainda com forças, para constantemente viajar e planejar aventuras.  Fomos para o hotel dormir. No dia seguinte, meu amigo estava mais radiante do que nunca. Alegre e falador. Disse-me que eu teria de rumar para as terras de meus bisavós, pois descobrira o sítio onde eu poderia encontrar os vestígios materiais da fantástica história de minha família, marcada pela fortíssima personalidade e peripécias de meu bisavô, um Corrêa do Norte de Portugal. É claro que a curiosidade tomou conta de mim e já fui arrumando a pequena mochila com minhas bermudas e camisetas de verão que estavam espalhadas pelo quarto. Tinha de partir da pequenina cidade serrana, para chegar cedo na capital, a tempo de comprar as passagens para o Porto, pois aquela santa, singela e nobre alma de Braga havia dado a meu amigo do outro mundo indicações preciosas a respeito das origens de minha família, que eu sabia portuguesa, mas de onde? Era do Norte. Talvez do Porto. Talvez por ali perto. Claro que vou te levar novamente na minha bagagem de mão, meu branquíssimo amigo! Como iria deixá-lo vagar pelo éter rarefeito e gelado desse nosso mundo físico, mesmo pelo breve período de tempo dos voos magnificamente mágicos dos bons e leais fantasmas! Disse-lhe isso, pois percebi que ele queria viajar comigo e mesmo empacotado, poderia ir me adiantando muitas importantes informações.
Resolvi tudo com a agência de viagem de minha preferência e partimos para a mui heroica cidade da resistência. Durante mais de nove horas de voo, meu amigo enfumaçado, foi me contando as peripécias guerreiras de D. Pedro IV, o nosso D. Pedro I, Imperador do Brasil e rei-soldado, que lutou no cerco do Porto contra as sandices do poder absoluto de seu irmão, Miguel. Ajudado pelos ingleses que invadiram Portugal pelo Algarve, ganhou a guerra, mas sucumbiu à terrível tuberculose, deixando seu coração guardado na igreja da Lapa, na linda cidade banhada pelo Douro.
Fui ouvindo, sobressaltado pela turbulência da aeronave as histórias da luta entre os dois reis irmãos, Pedro, o liberal e Miguel, o absolutista. Meu amigo empacotado na minha pequena valise de mão, murmurou, até bem alto:
- D. Pedro IV morrera em 1834, em Lisboa, no mesmo ano em que o seu trisavô nascia no Porto. Seu bisavô nasceria vinte anos depois e sua avó Emília, em 1885. Vocês estão ligados ao Porto e ao Norte de Portugal por uma história tão fabulosa quanto a que vos contei, mas não de guerras e sim de amor.
Disse-me isso com naturalidade e encanto. Percebi que coisas muito boas estavam por acontecer.

ATÉ A PRÓXIMA

5 de julho de 2018

AS CRÔNICAS QUE ROLAM PELAS PRAÇAS E RUAS DO FACE.




Carlos Augusto Corrêa é um andarilho das letras. Ou melhor, um escritor que anda pelas ruas dos diversos bairros da cidade do Rio de Janeiro, sempre escrevendo, anotando e observando os mínimos detalhes da vida que pulsa nas calçadas, no asfalto, nas portarias dos prédios, nos transeuntes e até, talvez, no interior dos apartamentos. Sua imaginação também procura sempre no burburinho das praças, do comércio das lojas, supermercados e livrarias um tema para ser transfigurado e transformado em texto de fina e sutil escritura. E Carlos Augusto vai botando tudo no Face, na sua Página do Face, Chão de Praça, num estilo frugal, mas ao mesmo tempo jornalístico, sempre passando, com sutileza, pela pontuação poética, que no final é o que vai sustentar sua prosa, muitas vezes saudosista. Suas crônicas e minicrônicas, pode-se dizer, contam, também, a história dos becos, ruas, praças e vielas de sua cidade natal, em tom ufanista, principalmente quando confronta realidades bem diferentes da cidade de seu tempo de menino e rapaz, com a atual superpovoada São Sebastião, maravilhosamente surgida no antigamente. Numa linguagem coloquial (...e sempre que podia mandava uma e outra crônica.), poética (alma que só tenho de abraçar) repleta de neologismos (eteceteraeletronicamente) e com muito boas sacadas (as tardes também deviam ser festejadas – não boquiabertos) Carlos Augusto Corrêa vai colorindo as palavras com as cores se seu estilo jornalístico curto de contar estórias, como em O Menino Sírio, numa metanarrativa, uma vez que as vozes consagradas de Carlos Drummond de Andrade e Chico Buarque de Holanda servem de pano de fundo e contraponto à tragédia que tirou a vida do pequeno Aylan Kurdi. A sua maneira pessoal de ver, sentir e interpretar os acontecimentos que surgem na REDE, diariamente, poetisa esses acontecimentos, em estilo híbrido, também de repórter sempre a tento a tudo. “Nem sua mãe e os demais que morreram naquele barco afundando”. A ação verbal continuada é que dá à narrativa a profunda dramaticidade literária, característica do estilo vibrante do autor. As notícias no Face proporcionam uma crítica direta, muitas vezes misturadas a uma crítica velada, verificada, por exemplo, em Desejo Instintivo, onde o uso da metalinguagem garante ao texto a atenção para o fato: “Esquecendo um pouco esse clima quase irrespirável da vida política no país, assisti há pouco aqui no Face a um vídeo em que uma criança novinha acaricia no colo um bebê; “Que me perdoem os unilaterais, os que veem um lado da vida só escrevendo sobre temas contundentes, mas quando vejo uma cena semelhante parece que a paz acorda em mim”. (o itálico é nosso, para ressaltar) Assim, Carlos Augusto vai trabalhando seu texto, com foco nessa magnífica plataforma midiática que é o Facebook, retirando do universo circundante o referencial, sempre transformando fatos em conceitos e transformando notícias em formas agradáveis de leitura. Preocupam-no, sobremaneira, os temas sociais que vêm embutidos nos noticiários da REDE. Assim,  o espírito sagaz do cronista vai transformando os acontecimentos denotativos em interessantíssimas metáforas políticas (“Bem-aventurados os sádicos de espírito, porque deles será o reino de Auschwitz!”), para que a ideologização dos acontecimentos transfigurados em poesia, minimizem a dor do Real, sempre uma visão do trabalho, pela ótica política dos acontecimentos: “Em minha infância eu via as lavadeiras pra cá, pra lá trazendo a vida pesada na cabeça”.  Carlos Augusto em alguns momentos constrói um discurso engajado politicamente, através da desconstrução do tecido social, diferentemente da maioria dos discursos políticos, surgidos em jornais e revistas, que são referenciais. O seu texto é bem feito, com engenho e arte, pois a ideologização   -  e o que não é ideológico nesse mundo? –  dos acontecimentos, transfigurados em poesia, minimiza aquele Real roubado à dor do mundo. E com textos curtos, sempre do interesse de quem viaja pelo Face, combinados com a formatação visual dessa plataforma, Carlos Augusto Corrêa vai escrevendo suas crônicas gostosas, em bate-papos informais, com personagens interessantes, numa festa literária que atrai o leitor para as 126 páginas desse seu livro, UM CRONISTA PELAS RUAS DO FACE (Chão de Praça 1), lançado pela Editora Dissonnarte, em 2017, que o leitor ávido por boas narrativas, pode, atualizando-se, deliciar-se, com toda a certeza.

ATÉ A PRÓXIMA


8 de junho de 2018

UM MIMO DE LIVRINHO







O livrinho de Maria José Lima Toledo – permita-me usar aqui o diminutivo afetivo – é um encanto! Não é o primeiro. É o sétimo. Dela já falei em outras ocasiões. Maria José é minha amiga, há muitos anos. Somos unidos por amizades e admirações. Seu livrinho TEMPO DE MUDANÇA são pequeninas e breves histórias de personagens, quase reais, muito bem trabalhadas, com perfis magníficos, parecendo que foram retiradas, pela mágica competência da autora, de vetustos compêndios escolares da História Universal de um Carl Grimberg. Em todos os perfis encontramos a mudança, o Leitmotiv, de sua narrativa, que está explícita numa poética citação, logo nas primeiras páginas dessas preciosas narrativas: “A expectativa de mudança é a razão da vida do sonhador”. A cultura histórica e geográfica de Maria José brinda-nos com as localizações de instituições, de povos com seus costumes, de cidades com seus edifícios e casarios, que, indiscutivelmente, atraem a nossa atenção para o  que está, em seu entorno, sempre nos envolvendo, dinamicamente. Assim, passamos a conhecer sítios e personagens, figuras como um Frederico Rosental, engenheiro que reencontra a magia do amor sincero, muito distante da nevoenta São Paulo. Ficamos boquiabertos com o destino da funcionária pública, Mia. Assustamo-nos com o excêntrico poeta Willian Pater, que passa do lirismo para uma perigosa e assombrosa contravenção mercantilista e vem a óbito tragicamente. Maria José apresenta, ainda, o Professor universitário belga, Jefferson Halley, um mestre perfeito na administração pedagógica, que reformula os conceitos didáticos da famosíssima Sorbonne. Talvez esteja aí projetado, no perfil acadêmico da personagem belga, o fantástico poder didático da autora, professora magnífica que foi, em todos os níveis, no exercido do magistério, em instituições exemplares e de referência, no Rio de Janeiro.  E o que falar do fantástico Dr. Christopher Kresley? Bacharel em Direito, depois juiz do Supremo Tribunal grego, nomeado por concurso, como deveria ser aqui no Brasil, em vez de termos esses comprometidos senhores de toga amassada, indicados por Presidentes corruptos... Mas, em todas as histórias de vida das personagens que habitam seu livrinho, o Rafael Toledo foi a que mais diretamente explicitou – e conseguiu – a vontade de se tornar outra pessoa, mesmo ao fim da vida, isto é depois de aposentado. Por fim, a última personagem retrata a própria autora, transfigurada em Hannah, trazendo-nos reminiscências, sentidos de vida, colocando-se no espaço-tempo da sempre renovação de tudo, com muito afeto e esperança. Hannah é a personificação da poesia que existe dentro dessa Maria José, educadora de múltiplas e inúmeras experiências, muitas reais, mas aqui, no último e cabalístico Capítulo 7, imaginárias. São experiências que fazem todo o sentido. Todas elas, com a verossimilhança necessária à urdidura de qualquer narrativa literária. São cenas passadas na cidade norte-americana de Willoughby, Ohio, Condado de Lake, que podem, magicamente ocorrer em Washington, cidade onde a autora viveu, por dois anos e meio, a poesia de uma grande experiência transformadora. Os textos do livrinho de Maria José, TEMPO DE MUDANÇA, são separados, uns dos outros, por suas pinturas, acrílicos sobre telas, magníficas abstrações, como: Círculos; Sol e Mar; Explosão; Traços; Clone; Pôr do Sol; Olho Grego; O Voo e Arco Íris. Minha amiga Maria José Lima de Toledo Sanches Figueiredo, nome que nobres princesas adorariam possuir, é uma criatura incrível:professora, escritora, poeta, atriz e pintora. Nem todos têm o privilégio de conhecer pessoas assim.  

ATÉ BREVE


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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.