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13 de setembro de 2006

TERMOS INTERESSANTES DO FUTEBOL


Sílvio Luiz, jornalista, radialista, comentarista e ex-árbitro de futebol é um dos maiores criadores de termos e expressões futebolísticas, quando narra e comenta jogos de futebol, no rádio e na televisão brasileira. Sua criação vocabular é intensa. A criatividade vocabular de Sílvio Luís, a nosso juízo, está relacionada à sua maneira de ver e sentir o futebol, muito mais relacionado ao prazer do que à lei e à ordem. Dentro das quatro linhas do campo de jogo, como árbitro, conduzia sempre as partidas com o rigor da “International Board” e, por ter estado lado a lado com os jogadores, percebeu não só as suas preocupações, mas também a grande alegria e a intensa satisfação que tinham em jogar. Viu o prazer lúdico predominar sobre o trabalho forçado, ou o primeiro superar o segundo.

Sílvio Luiz relaciona termos e expressões da língua geral com os lances das partidas, sempre numa linguagem metafórica, lírica, expressiva e muito bem humorada. Suas criações lingüísticas são muito numerosas. Vamos apresentar ao nosso leitor algumas delas.

ROSQUEAR - De ROSCA + EAR. A expressão DE ROSCA, muito usada pelos locutores e comentaristas paulistas (“Deu de rosca”) significa, na gíria do futebol “dar um chute na bola com incrível efeito”. Assim: “Rosqueou a pelota”. ROSQUEAR é chutar, com efeito. A bola segue uma trajetória, girando muito, em torno de seu eixo, logo, com muito efeito, desenhando traçado espiralado, em forma de rosca.
AZULEJOU (= trabalhou bem a jogada);
ATRÁS DO TOCO (= jogador impedido);
AZEDOU O MOLHO (= fez uma bobagem);
AZEITOU (= suavizou);
APERTA QUE ELE GEME (= marca duro que ele solta a bola);
ARRUMOU A COZINHA (= acertar a grande área);
BIOMBO (= barreira);
BACOBUFO NO CATEREFOFO (= briga, confusão);
BALANÇAR (= preparar-se para arremesso lateral);
DE CIMA DO CORETO (= de longe);
CARRAPETA (= calcanhar);
CAJARANA (= trave vertical);
EU VIIIIIII ! (= eu vi mesmo - alongamento da sílaba -vi-);
EMBAIXO DA SAIA (= impedido);
FUNGA NO CANGOTE DELE (= fique bem junto dele, por trás);
MALANDRO (= jogador esperto);
NHACA (=azar);
NO GOGÓ DA EMA (= lá no alto);

NO BURACO DA FECHADURA (= o goleiro olhando pelo meio da barreira);

OLHA O LADRÃO! (= tem adversário atrás);
OLHO NO LANCE (= prestemos atenção!);
O QUE É QUE EU VOU DIZER LÁ EM CASA? (= qual a desculpa? Não tem desculpa!);

PELO AMOR DOS MEUS FILHINHOS! (= valha-me, Deus!);

PELAS BARBAS DO PROFETA! (= que coisa extraordinária ou miraculosa aconteceu!);
PENACHO (= cabeça);
QUASE QUE A PERIQUITA CANTA (= quase que foi gol);
QUEIMOU O FILME (= deu azar);
RODAPÉ (= a parte inferior da trave vertical);
SUJOU O AVENTAL (= fez uma bobagem);
VEM DE LACRE ABERTO (= vem descendo em velocidade).

Qualquer situação desviante, na linguagem dos comunicadores esportivos, como é o caso de Sílvio Luiz, criando termos e expressões vocabulares, apresenta características individuais, entendidas como sociológicas. Então, ele, autor de todo esse universo metafórico, estará, somente, se desviando de uma norma de sobriedade geral, que não se encontra na maioria dos outros locutores e comentaristas esportivos. Contudo, não há nada que diga que essa prática seja correta ou incorreta. Ela somente não é própria do seu grupo de equivalentes, mas é sua e ele não está impondo, aos demais, nenhum modelo a ser seguido ou imitado.

12 de setembro de 2006

TODOS GOSTAM DE FUTEBOL



O nosso Blog é do Sul, da Bola e das Letras

TODOS GOSTAM DE FUTEBOL



LUIZ CESAR SARAIVA FEIJÓ


Por que todos os povos deste planeta gostam de futebol? Talvez porque o futebol, além de ser uma linguagem gestual, fácil de ser decodificada, é, acima de tudo, uma grande metalinguagem. Isso significa que o seu significado ou sentido é explicado por seus próprios movimentos, entendidos por quase todos, independentemente de classe social, cultural ou econômica. E, por isso mesmo, pode ser analisado por inúmeros discursos de várias áreas do campo social, como o da psicologia, da lingüística, da história, da sociologia, da antropologia, da filosofia, da comunicação, do direito, da medicina, da literatura e muitos outros, por mais distantes que parecem, como o discurso da economia, como veremos ao fim desse artigo, quando sustentamos que o futebol não é afetado por qualquer tipo de ideologia. Portanto, podemos dizer que o expectador, o torcedor, o jogador, enfim, todos entendem o que vêem, mesmo não sabendo exatamente as regras do jogo. Com essa visão, pode-se e deve-se enquadrar o futebol na categoria de esporte redundante. Tentem entender o xadrez ou qualquer jogo de cartas, como o “truco”, que dizem ser caboclo e ingênuo! Tentem entender, de imediato, o chamado futebol americano. Ou o golfe, jogado em um ambiente quase sempre paradisíaco... mas com poucos jogadores. Não é tão fácil como entender o futebol. No xadrez, o expectador, sem nenhum conhecimento prévio a respeito desse jogo, vai demorar muito para compreender os movimentos das peças e seu objetivo final. O xadrez não é um jogo redundante. O expectador inocente não é capaz de saber o nome das peças, mesmo daquelas cuja aparência poderia denunciar seus nomes.

Por outro lado, quem assiste a um jogo ou a uma partida de futebol percebe logo que há uma perseguição constante de um objetivo: colocar a bola dentro das redes que envolvem as balizas por trás, utilizando todas as partes do corpo, menos as mãos. Quem investe com a bola ou sem ela no sentido de umas das duas balizas é um “atacante”, porque ataca (eis mais uma vez a redundância). Quem “defende” seu espaço é o defensor. Quem defende a bola com as mãos é um único privilegiado, o goleiro, o golquíper, o arqueiro. Isso tudo é muito óbvio. Muito redundante. Isso significa que o ato da comunicação é automático. Esse automatismo, exemplificando, funciona da mesma forma, quando alguém responde “alô” a uma chamada telefônica. Essa resposta é automática. A redundância está associada ao automatismo, no relacionamento emissor-receptor. Portanto, cremos que a redundância parece ser o principal elemento desse jogo chamado futebol, capaz de torná-lo compreendido por qualquer um, e isso irá determinar sua popularidade em qualquer lugar onde seja praticado. O futebol, assim mesmo, sendo profissão para muitos, é, também, jogo, esporte, prazer, recreação, passa-tempo, distração, descontração, exercício... e benefício.

Por tudo isso, pode-se afirmar categoricamente que o futebol encanta as multidões. Excita platéias de todas as classes sociais, em qualquer país do mundo. Exerce uma pressão constante sobre as emoções de todos aqueles que dele tomam conhecimento.

Esse fenômeno intriga tanto os intelectuais como os homens mais simples do povo. Por quê ? Continuamos com a indagação inicial.

No dia 10 de junho de 2006, durante a semana que marcou o início da Copa do Mundo, no canal 40 “Globo News”, da Sky, o apresentador e repórter, William Waak, em seu programa “Globo News Painel”, entrevistando os filósofos, Denis Rosenfild, professor de Filosofia da UFRS, José Arthur Gianotti, da USP-CEBRAP e Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia da UNICAMP, propôs que os renomados intelectuais tecessem considerações sobre o fenômeno futebolístico planetário. Iniciou sua mediação, instigando a inteligência de seus convidados, com uma afirmação da revista alemã SPIEGEL, onde se lia que “no futebol, ser inteligente não ajuda nem atrapalha” (Eis aí a presença da redundância, mais uma vez. Só que dando ao contexto uma conotação nihilista...). É claro que convidados, a partir daí, começaram a tecer os mais variados comentários sobre o futebol, todos enfocando esse jogo por diversas formas, mostrando eles que “futebol é colaboração”, “solidariedade”, “forma de fazer amigos”, chegando, mesmo, a tecerem comentários sobre “futebol como religião”. William Waak fazia interessantes considerações sobre este esporte, classificado pelos comentaristas presentes como esporte de massas, sem nenhuma dúvida. O apresentador ainda tentava tirar dos intelectuais os argumentos que poderiam sustentar suas colocações a respeito da relação entre “futebol e política”. Até “futebol como religião” foi discutido pelos eméritos filósofos. Realmente, ligar futebol à religião lembrou-me a perífrase que muitos radialistas diziam, sem nenhuma preocupação intelectual, motivados unicamente pelo poético da linguagem - isso há muito tempo - que o estádio do Maracanã era o “templo do futebol”...



Muitas outras televisões abertas ou a cabo realizaram programas nessa linha, envolvendo esporte e cultura, e esses acontecimentos midiáticos serviram para ratificar a importância do futebol como o mais fabuloso esporte de massas do planeta. São numerosos, também, os livros publicados e lançados no mercado, nessa época de Copa do Mundo, estando nossas livrarias repletas de exemplares novos que falam do futebol como alguma coisa bem diferente de um simples e agradável jogo de bola.

Com a presente análise, tenta-se, mais uma vez, ampliar considerações a respeito do fenômeno futebol, possível de ser explicado e entendido por inúmeros discursos de saber.



Para tanto, alguns itens devem ser listados, e com eles tentar-se-á responder à pergunta que abre esses comentários, isto é, “por que todos os povos do planeta gostam de futebol?” É claro que as respostas iniciais merecem mais detalhamento, pois a proposta dos primeiros parágrafos foi a de preparar o leitor para um “tira-gosto”, um jogo preliminar, como acontecia nos campeonatos estaduais de futebol, antigamente disputado em muitas capitais, por exemplo. Sabe-se, de antemão, que um ou dois motivos apresentados não podem explicar essa paixão planetária pelo futebol. Trata-se, portanto, da combinação de quase todos esses aspectos, que vamos continuar apresentando e analisando.

Todos os povos do mundo gostam de futebol. Poderíamos sustentar, inicialmente, essa afirmação, dizendo que nesse esporte, o corpo todo se move, num exercício aeróbico constante, gostoso de se praticar. Salta-se, corre-se, cabeceia-se, arremessa-se a bola com as mão nas cobranças de laterais. O goleiro se atira de encontro à bola, utiliza as mãos para defendê-la. O jogador observa os movimentos corporais de seus companheiros e de seus adversários, e todos têm uma visão extraordinária de um balé, singelo, nos dribles desconcertantes, nas “firulas” acrobáticas e na coreografia da armação de um contra-ataque fulminante. O futebol mistura os fundamentos do atletismo e da ginástica com o do balé. Tudo isso pode estar presente dentro do campo de jogo, como nas arrancadas dos jogadores com a bola em direção à meta adversária. Os saltos a grandes distâncias para as cabeçadas ou o lançamento da bola, com as mãos, pelo goleiro, dando uma saída de jogo são movimentos de muita plástica e sua prática dá prazer ao corpo e à mente.

Uma outra visão dessa prática desportiva está ligada ao local onde é praticado: campos gramados, a céu aberto. O espaço onde o jogo se desenrola é agradável e a presença do relvado aumenta a vontade de participar, de atuar, de correr, e, ao mesmo tempo, nos proporciona uma inconsciente e relaxante sinestesia, unindo percepções sensórias distintas, como a visão (a cor da relva) e o olfato (o aroma da relva), relaxando o espírito e excitando o corpo, ao verde perfume da grama. O contato com a natureza é benéfico à mente e até treinar, por obrigação profissional, é bom! O futebol por ser um esporte praticado ao ar livre é mais chamativo do que muitos outros. Todos gostam disso.

Se observarmos as condições necessárias para que alguém jogue futebol, vamos ver que este é um dos únicos esportes que democratiza o corpo, isto é, jogadores de diferentes estaturas podem competir com idênticas chances de êxito. Isso não acontece com o basquete, com o vôlei, tênis e natação onde, nessas práticas esportivas, a estatura dos atletas definem as partidas, podendo-se dizer que o tamanho do competidor é um grande documento.


Desde os tempos do futebol de várzea e do início dos campeonatos estaduais, como se pode encontrar nas crônicas citadinas de Lima Barreto, por exemplo, o futebol sempre empolgou e sacudiu as torcidas, provocando, inclusive, muitos tumultos de ruas e, por isso mesmo, incomodou realmente. Mas a empolgação é uma sensação gostosa, pois se trata de uma animação extrema. Essa empolgação se dá pelas táticas e estratégias exercitadas. Táticas e estratégias de ataque, de defesa e, principalmente, de envolvimento do adversário pelas atividades dos jogadores do meio-campo.

Todos sabem que o futebol é jogado com 22 jogadores em campo. Onze de cada lado. Isso indica um jogo de equipe, articulado em conjunto, para se alcançar o objetivo final, que é marcar o gol. Os jogadores praticam essa prática esportiva uniformizados e isso dá às partidas tom de espetáculo, que caracterizaríamos como show, alegrando o ambiente e regalando a vista.

Pensamos que o prazer lúdico desse esporte está também na execução dos movimentos dos atletas, pois o futebol é o único jogo coletivo com muitos jogadores em campo, onde somente um jogador tem o direito de colocar a mão na bola, a qualquer hora, dentro de um espaço a ele reservado. Os demais, só podem colocar os pés e a cabeça na bola. Com as duas mãos, qualquer jogador cobra o lateral. Isso é muito significativo para o raciocínio rápido do atleta em campo e proporciona grande satisfação ao ser executado.

A bola do jogo não é grande nem pequena. É proporcional a qualquer tipo físico de atletas. A visão da bola do jogo pelo expectador das arquibancadas é sempre muito boa, não deixando nenhuma falsa interpretação das jogadas. Isso agrada, pois todos se orientam perfeitamente dentro do espaço onde o jogo é realizado. O tamanho da bola, no jogo de futebol, parece mais um ingrediente significativo para despertar o gosto por esse esporte. A bola não é tão grande como a do basquete, nem tão pequena como a do tênis e a do golfe. Isso pode não parecer pertinente, mas, se observarmos bem, veremos que seu tamanho e peso são ideais para que o atleta a carregue com os pés, cabeceie com firmeza e o goleiro a defenda, inclusive encaixando-a ao peito. É importante lembrar que a bola é um objeto da arte circense e toda criança, desde a mais tenra idade, já brincou com ela. É, pois, um objeto predestinado a levar às massas as alegrias do futebol. E com mais requinte, às platéias que apreciam ao futebol-arte.

Em outra dimensão, percebe-se que o futebol tem uma interessante característica que o aponta como uma prática esportiva imune a ideologias. Tal característica é a paixão clubística, que afasta, pelo seu subjetivismo, a razão, que poderia caracterizar uma espécie de luta interna no campo de jogo, pelo comando da equipe, estendendo-se ao clube, inclusive. O que vemos ocorrer nas agremiações futebolísticas, como entidades esportivas, é uma política de mando e comando, nada caracterizado como ideologia, sistema de crenças característico de um grupo ou uma classe. Tampouco sistema de crenças ilusórias, contrastando com o conhecimento verdadeiro ou científico. Muito menos como processo da produção de significados e idéias. Se o futebol foi taxado de “o ópio do povo” por Cláudio D. Shikida e Pery Francisco Assis Shikida, professores de Ciências Econômicas do IBMEC de Minas Gerais, no artigo que ambos assinam, intitulado “É o Futebol o Ópio do Povo? Uma Abordagem Econômica Preliminar” (Ibmec MG Working Paper – WP19, 2004), é porque percebeu-se que o conteúdo ideológico está na relação entre o Futebol e o Estado e não intrinsecamente nele. A visão dos economistas citados está relacionada com o formidável fenômeno social que é o futebol, pertencendo a quase todas as áreas do social, por isso mesmo, como já dissemos, considerado como uma grande metalinguagem, que tem e pode ser estudado por todos os discursos de saber da área a que está inscrito. Portanto, não se pode estranhar que tenha sido estudado por investigadores universitários da área econômica.

O futebol é neutro, em relação a problemáticas extracampo, e atrai um considerável público, que, este sim, pode ser objeto de manipulação. Já para as torcidas e para os praticantes, esse esporte não se compromete com políticas partidárias, por exemplo. Muitos poucos dirigentes foram eleitos pela torcida dos clubes que dirigiam. Os campeonatos interclubes, nacionais e internacionais, ficam blindados, quanto à impregnação de ideologias alienígenas, discriminações raciais, econômicas, e ações belicosas. Sobre esta característica do futebol, o Professor de ética e filosofia da Unicamp, Roberto Romano, participante do programa da “Globo News” a que nos referimos anteriormente, evocando o pensador búlgaro, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, Ellias Canetti, afirmou que o futebol não se enquadra nas categorias de “massa de fuga”, nem “massa de vingança”, teoria desenvolvida pelo autor de Massa e Poder, 1960, pois este esporte, absolutamente, e, somente em casos especialíssimos, jamais concentra em si mesmo a necessidade de se deslocar para outras áreas sociais, disputando prestígio e mando com outros seguimentos da sociedade.

Finalmente, numa Copa do Mundo de futebol, como a que aconteceu na Alemanha, no mês de junho, de 2006, pôde-se perfeitamente observar a empolgação que esse esporte proporcionou e proporciona, atraindo o gosto e a simpatia de milhões de pessoas, dentro e fora dos estádios, quando se apresentou como excepcional elemento para o surgimento da colaboração e da solidariedade entre os equivalentes e, basicamente, um dos maiores agentes formadores de amigos e de verdadeiros cidadãos.
























9 de setembro de 2006

GANÂNCIA E GANHANÇA








LUIZ CESAR SARAIVA FEIJÓ

Há alguns dias fiz um negócio com umas economias esquecidas no antigo Fundo 157 e, comentando o fato numa roda de amigos, referi-me a ele, dizendo-lhes que havia obtido, com a transação, “uma boa ganhaça”!. Olharam para mim parecendo que queriam criticar ou o negócio, ou a palavra empregada. O negócio, não poderiam criticar, porque fora absolutamente honesto. Então, não restara dúvida de que a crítica se direcionava para aquele vocábulo não muito usado. Mas o momento passou sem nenhuma intervenção dos amigos e os dias seguiram rigorosamente a rotina muito agradável da vida de um aposentado. Marcamos novo encontro para continuarmos o bate-papo, no feriado prolongado de sete de setembro.
Ainda neste ano de 2006 vamos ter mais alguns outros feriadões, para encher as cidades turísticas de quase todo o país. Em outubro, o dia 12, que honra Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil, cairá numa quinta-feira e a criançada vai, certamente, pedir ao papai para “cascar fora”, como dizem meus netos... Elas merecem, pois é também o seu dia. Em novembro, o dia 15, que comemora cento e dezessete anos da Proclamação da República, será numa quarta-feira. O Natal, comemorando o nascimento de Cristo numa segunda-feira, vai ser festejado por todos os povos cristãos, reunindo suas famílias para meditação sobre os pecados do mundo. Na ocasião, seria muito oportuno apontar um dos maiores pecados que assolam nossa sociedade: a ganância. O que é a ganância? É o desejo ou ambição de ganho, de lucro e, por extensão, ambição exacerbada de ganho fácil ou ilícito.
Mas, por que a ganância insiste em se localizar no centro desta crônica? Parece sem sentido, mas foi porque fiquei horrorizado com o trânsito dessa simpática cidade, onde moro, depois de me reunir com aqueles mesmos amigos num barzinho, nem muito longe, nem muito perto do centro da cidade. Percebi, então que Balneário Camboriú é um exemplo de como uma estrutura municipal se deteriora aos poucos, baixando a qualidade de vida. A cidade que possui uma orla marítima de pouco mais de seis quilômetros, com a avenida litorânea muito estreita, tem os mais altos prédios de toda Santa Catarina, impedindo, inclusive, a projeção do sol sobre suas areias. Elas não são branquinhas como desejávamos, às vezes bem sujas e com muito mau cheiro, fruto de um saneamento precário e de um esgoto público nem sempre bem tratado, embora saibamos que há um esforço para minimizar tudo isso por parte das autoridades da Prefeitura. Toda a praia principal da cidade recebe, ainda, a imundice de dois rios em seus limites norte e sul. Mas esse relaxamento público acontece em todos os cantos desse pobre Brasil, despreparado para o progresso, por falta de projetos governamentais em todas as áreas, tanto no âmbito municipal, como estadual e, principalmente, no federal.
Com os feriados prolongados e nas férias de verão a cidade enche e a irritação vai tomando conta dos residentes fixos e de muitos visitantes, que não conseguem se locomover nas estreitas ruas e vielas da cidade, com pouca infra-estrutura para receber, como recebe tanta gente durante as férias eventuais ou tradicionais de fim de ano. Há poucos anos atrás não se percebia muito esse desconforto, mas atualmente o caos está se instalando e, pelo andar da carruagem, parece que vai ficar por muito tempo. O principal foco de crescimento da cidade está na construção civil, há poucos meses alvo da Polícia Federal, que prendeu alguns chefões do narcotráfico, proprietários de apartamentos e carros superluxuosos, indicadores de lavagem de dinheiro no comércio e na indústria locais. Isso não é bom para saúde da cidade, vista como centro de lazer, principalmente, pelos interioranos do oeste e dos curitibanos que fogem do frio e da umidade da capital das araucárias, para virem se refestelar nos bares, restaurantes, boates, camelódromos, lojas comerciais de todos os tipos que, diga-se de passagem, dão ao balneário uma sofisticação muito interessante. Mas a confusão estabelecida no trânsito, nos supermercados, nos postos de gasolina, nas padarias, nos açougues, pizzarias e casas lotéricas, quando chega um feriado prolongado, é, como vimos, muito desagradável e pode afastar o turista. É, também, o resultado do crescimento desordenado da cidade, motivado, a nosso juízo, basicamente, pela ganância. E não me venham dizer que ganância é palavra introduzida em nosso idioma, tendo como origem a língua de los hermanos argentinos, porque, se isso é um fato real, verdade também é que eles só estão aparecendo por aqui, aos bandos, no início do verão. Hoje, pelas crises sucessivas em seu país, não mais invadem estas plagas, como antigamente. Lucro é bom e necessário à vida capitalista, mas ganância não é uma boa! Que tal voltarmos à forma vernácula para atenuar o significado nefasto deste vocábulo e praticarmos honestamente, como cidadãos, uma boa ganhança?

7 de setembro de 2006

A CULTURA NO FUTEBOL





O futebol já produziu e ainda produz uma série de textos que ocupam lugar de destaque nas Letras e Artes. Nas Letras, encontramos romances, contos, crônicas e poesias. Nas Artes, basicamente no cinema e no teatro, o futebol nos apresenta enredos interessantíssimos e representações memoráveis. Como centro da atenção dos estudos superiores, são muitas as Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado que foram procurar no futebol subsídios para o desenvolvimento de pensamentos incrivelmente diversificados e diluídos na grande metalinguagem desse esporte de massas que apaixona, produz e reproduz o ethos da coletividade brasileira.

Em nosso livro BALANÇANDO O VÉU DA NOIVA, apresentamos algumas obras nas quais o futebol está presente. Muitas são raras por estarem esgotadas, há anos. E, para que o leitor desse BLOG possa ter idéia da produtividade desse tema, listamos algumas que julgamos mais interessantes. Assim:

Romances:

1- O queijo de Minas ou história de um nó cego, 1906, 1907, de Monteiro Lobato e Godofredo Rangel;

2- Água mãe, Rio de Janeiro, 1941, de José Lins do Rego;

3- Os interesses da companhia, 1942, de Gilberto Amado;

4- Informação ao Crucificado, de Carlos Heitor Cony;

5- O espelho partido, Tomo I, de Marques Rebelo;

6- Memórias do Olimpic, 1944, de Marques Rebelo;

7- Sentimento esportivo, 1965, de Marques Rebelo;

8- Campeões do Mundo, 1958, de Marques Rebelo;

9- Passagem dos inocentes, 1963, de Dalcídio Jurandir;

10- Romance do futebol (Na realidade, uma história do futebol), de Mário Filho;

11- Flô, o melhor goleiro do mundo, 1940, de Thomaz Mazzoni, SP, Edição do autor.


Contos:

1- A doença do Antunes, de Lima Barreto;

2- Herói !, in Revista Careta, 1922 e no volume Coisas do reino do Jambom (Obras Completas), de Lima Barreto;

3- O 22 do Marajó, de Monteiro Lobato;

4- Gaetaninho, in Brás, Bexiga e Barra Funda, 1927, de Antônio de Alcântara Machado;

5- Corinthians 2 x Palestra 1, in Brás, Bexiga e Barra Funda, 1927, de Alcântara Machado;

6- O defunto inaugural, in, Histórias reunidas, de Aníbal Machado;

7- Jaguaré, de Breno Aciole;

8- Esperança F.C. , de Orígenes Lessa;

9- De tarde e domingo, 1943, de Dias da Costa;

10- Nuvem bárbara, de Edilberto Coutinho;

11- Um negro vai à forra, de Edilberto Coutinho;

12- Sangue na praça, de Edilberto Coutinho;

13- Maracanã, adeus, de Edilberto Coutinho;

14- Os jogos, de Edilberto Coutinho;

15- A grande partida, de Sílvio de Castro;

16- O torcedor, in Vidas inquietas, 1943, de Paulo Coelho Neto;

17- Largo da Palma, de Vasconcelos Maia.



Teatro:

1- Futebol em família, de Silveira Sampaio e Arnaldo Faro;

2- Torcida em família, de Thomaz Mazzoni;

3- Chapetuba Futebol Clube, 1959, de Oduvaldo Viana Filho;

4- O gol da tia Candoca, de Artur Maia;

5- Heleno, Gilda, 1994, de Edilberto Coutinho.


Literatura infanto-juvenil:

1- Campeão de futebol, Belo Horizonte, 1939, de Vicente Guimarães, o Vovô Felício;

2- Futebol dos animais, RJ, 1940, de Francisco Acquarone;

3- Todo esse lance que rola, RJ, 1994, de Maurício Murad.


Cinema:

1- Futebol em Família (1940), com Arnaldo Amaral, Dircinha Batista, Ítala Ferreira, Renato Murce e Jaime Costa.


2- Barbosa, filme de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo (Diretores), com Antônio Fagundes, Pedro Santos, Zé Vítor Castiel, Ariel Nehring e Barbosa no elenco.

3- Boleiros: Era Uma Vez o Futebol. filme de Ugo Giorgetti (Diretor), com Adriano Stuart, André Abujamra, Cássio Gabus Mendes, Cazé Peccini, Denise Fraga, Flávio Migliaccio, Lima Duarte e Marisa Orth no elenco.

4- Futebol Nacional, filme de Artur Taira e José Nuno Pimentel (Diretores), com Duarte Gomes, Bruno Paixão e Vítor Pereira no elenco.

5- Asa Branca - Um Sonho Brasileiro, filme de Djalma Limongi Batista (Diretor), com Edson Celulari, Eva Wilma e Walmor Chagas.

6- Uma História de Futebol (1998). Curta metragem (20 minutos) de Paulo Machline (Diretor). Roteiro de Paulo Machline, José Roberto Torero e Maurício Arruda.

7- Pelé, O Atleta do Século, filme de Paulo Massaini.

8- Isto é Pelé (1974), filme de Eduardo Escorel (Edição), Luiz Carlos Barreto (Supervisão), Paulo Mendes Campos (Texto).

9- Os Trapalhões e o Rei do Futebol (1986), filme de Carlos Manga (Diretor), com José Lewgoy, Luiza Brunet, Pelé e Os Trapalhões.

10- Uma Aventura de Zico, (1999), filme de Antônio Carlos Fontoura (Direção), com Betty Erthal, César Filho, Eri Johnson, Jonas Bloach e Zico.

11- Garrincha, Alegria do Povo (1963), filme de Joaquim Pedro de Andrade. Primeiro filme documentário brasileiro sobre um esportista, mostrando cenas clássicas das Copas do Mundo de 1958 e 1962.

12- Futebol, um filme de A. Fontes, João Moreira Salles e Rudi Lagermann (Direção e Produção).

13- O Corintiano, um filme de Mazzaroppi.

14- Todos os Corações do Mundo (1995). Murilo Salles (Diretor). Produção de Leonardo Gryner, Calos Roberto Osório e Sérgio Villela. Adaptação para a versão brasileira de Armando Nogueira. Narração de Antônio Grassi. Assistente de Direção: Vicente Amorim.

15- Any givens sunday-EUA (Um domingo qualquer), filme de Oliver Stone (Diretor), com Al Pacino, Cameron Diaz, Dennis Quaid, James Woods, Jamie Foxx, Ll Cool J, Mattheew Modine, Charlton Heston, Aaron Eckhart, Tonny D’Amato e Joock Rooney no elenco.

16- My summer with DES (Tudo pelo futebol), comédia inglesa de 1998, filme de Simon Curtis (Diretor), com Neil Monissey e Rachel Weisr.

17- A Copa (1999). Um filme de Khyentse Norbu. Co-produção entre Butão e Austrália. No elenco, monges budistas e o garoto Orgyen (Jamyang Lodro), admirador de Ronaldinho. O filme gira em torno da Copa do Mundo de 1998 e da final França e Brasil.


Contribuições históricas:

1- Copa Rio Branco de 1932, de Mário Filho;

2- Histórias do Flamengo, de Mário Filho;

3- O negro no futebol brasileiro, de Mário Filho;

4- Copa do Mundo de 1962, de Mário Filho;

5- Viagem em torno de Pelé, de Mário Filho;

6- O Brasil na Taça do Mundo (1932), Thomaz Mazzoni.

7- Problemas e aspectos do nosso futebol, de Thomaz Mazzoni;

8- História do futebol no Brasil (de 1894 a 1950), de Thomaz Mazzoni;

9- O Brasil no Campeonato sul-americano de futebol, de Thomaz Mazzoni;

10- O futebol no Brasil, de Anatole Rosenfeld;

11- O jovem deve saber tudo sobre o futebol, de João Saldanha;

12- Os subterrâneos do futebol, de João Saldanha;

13- Torcedores de ontem e de hoje, de João Antero de Carvalho;

14- Epopéia na Suécia, de José de Ávila;

15- O pontapé inicial: memória do futebol brasileiro (1894 - 1933), de Waldenir Caldas.

Teses de Doutorado e Dissertações de Mestrado:

1- A língua em jogo: futebol X imprensa, de Maria do Carmo L. Oliveira Fernández, Mestrado em Letras, PUC-RJ, 1973.

2- Os gênios da pelota, 1980, de Ricardo Benzaquen de Araújo, Rio de Janeiro, (UFRJ), Museu Nacional;

3- Futebol, malandragem e identidade, 1994, de Antônio Jorge G. Soares, Mestrado em Sociologia, UFES;

4- O Rio corre para o Maracanã, de Gisella de Araújo Moura, hoje publicada pela FGV, 1998.

5- O futebol brasileiro: Instituição zerro, de Simone L. Guedes, UFRJ/ Museu Nacional/PPGAS, 1977.

6- Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro, 1902-1938, de Leonardo Affonso de Miranda Pereira, Unicamp, 1999 (Tese de Doutorado em História Social).

7- Futebol de fábrica em São Paulo, de Fátima Martin R. Ferreira Antunes, FFLCH, Universidade de São Paulo, Mestrado em Sociologia, 1992.

8- Imigração e futebol: o caso Palestra Itália, de José Renato de Campos Araújo, Mestrado em Sociologia, IFCH, Unicamp, 1996.

9- Resistência e rendição: a gênese do Sport Club Corinthians Paulista e o futebol oficial em São Paulo, de Plínio José Labriola Negreiros, Mestrado em História, PUC de São Paulo, 1992.


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6 de setembro de 2006

UM LIVRO CLÁSSICO PARA QUEM CURTE A LINGUAGEM DO FUTEBOL




BALANÇANDO O VÉU DA NOIVA

a dramática linguagem figurada do futebol

Autor: LUIZ CESAR SARAIVA FEIJÓ
Editora: Sociedade Brasileira de Língua e Literatura
Rio de Janeiro, 2002.
Páginas: 280. Tamanho: 23 x 16.
Distribuição para o sul do país: Livrarias Curitiba (Livrarias Catarinense).

PEDIDOS PARA (47) 3363- 0132 - Fax: (47) 3363-0161.

CONTATO: Envie um E-mail pelo SITE www.professorfeijo.com


São mais de 400 verbetes, termos e expressões do futebol brasileiro e português, recolhidos de jornais, revistas, rádios e televisões do Brasil. Os comentários atendem ao ponto de vista dos conteúdos gramaticais, filológicos, lingüísticos, sociológicos e de comunicação. Trata-se de um estudo sobre a linguagem do futebol. Mostra-se o que acontece com a língua portuguesa, quando ela serve para relatar as partidas desse nosso mais popular esporte. Mostra-se, ainda, como os profissionais da imprensa - locutores, comentaristas, jornalistas, repórteres e demais agentes da produção dos espetáculos esportivos de massa - falam, criam e empregam termos e expressões ligados ao futebol.

Tenta-se explicar o porquê desta linguagem figurada tão abundante no Brasil e pouco pródiga em Portugal.

Estudam-se os estrangeirismos, termos importados de outros sistemas lingüísticos, com visão moderna da questão, sem qualquer ranço purista, não comprometendo o estilo de muitos locutores e comentaristas que narram partidas de futebol, pelo rádio ou televisão.

O livro é um estudo sobre a linguagem do futebol, do ponto de vista da criação verbal, procurando explicar certas falas especiais e gírias.

Há um capítulo dedicado a explicações de alguns termos específicos da gramática, todos assinalados de forma bem nítida, no corpo da obra.

Vasta bibliografia geral e sobre o futebol encerra o livro.
Alguns termos e expressões:

Futebol brasileiro:

À BANGU - ABRIR AS PERNAS - ARMANDINHO - ARQUIBALDO - BAD BOY - BALANÇAR O VÉU DA NOIVA - BANCÁRIOS - CAMA DE GATO - EMBAIXADA - ENCAÇAPAR - GANDULA - GATOS PINGADOS - GERALDINOS - GOL - LINHA BURRA - MORTE SÚBITA - OXO - PELADA SCOUT - ROSQUEAR - SOPRADOR DE APITO - SÚMULA - TIME COPEIRO - ZONA DO AGRIÃO.

Futebol português:

À ALTURA DOS PERGAMINHOS - ALTO RISCO - APANHA-BOLAS - BALNEÁRIO - BANCADA - BATE-CU - CAMISOLA - CARTOLINA - CHAPELADA - COM RÉGUA E ESQUADRO - DERBY - EQUIPA - FAZER O GOSTO AO PÉ - FICAR NAS COVAS - FORA-DE-JOGO - FUTEBÓIS - GABRIÉIS - GOLO - MILHO - NO LAVAR DOS CESTOS - PONTAPÉ-BANANA - PONTAPÉ-DE-BALIZA - PONTAPÉ-DE-CANTO - PONTAPÉ-DE-MOINHO - QUATRO GOLOS SEM RESPOSTA - REMATE - RESERVISTA - RELVADO - TOMBA-GIGANTES - TRINCO - UNIDADES.

5 de setembro de 2006

FUTEBOL, FRIO E CHOCOLATE

A última rodada do brasileirão foi marcada pelas baixas
temperaturas no Sul e Sudeste, além de muitos gols. Santos e Botafogo despacharam seus adversários, aplicando um gostoso, e suculento CHOCOLATE
no Palmeiras e Atlético Paranaense, respectivamente.
Mas o que é, na gíria do futebol brasileiro, dar, levar, aplicar ou ganhar um CHOCOLATE ?

Reproduzimos aqui, do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Antenor Nascentes, o verbete CHOCOLATE, porque a origem desse nome é muito interessante e a referida obra está, há muito tempo, esgotada, o que torna difícil o acesso a esta parte dos estudos lingüísticos.

"Da língua asteca nauatle. Lenz diz que as bebidas preparadas entre os antigos mexicanos eram muitas. Molina dá, entre outras, cacauatl (cacau + água) e xocoatl (bebida feita com milho fermentado). O étimo proposto por Eufêmio Mendoza é xocoatl, que é de milho e não de cacau. Provavelmente, como pensa Lentz, ter-se-á confundido xocoatl com cacauatl e o l intervocálico será devido a outras formações parecidas, como pocolatl, pinolatl. Del Castillo, Mexicanismos, 75, apoiando-se na autoridade de Cecilio A. Robelo, deriva de xocoatl, de xococ, azedo, e atl, água. A primeira citação do vocábulo é de 1640; está em d’Acosta História Indiarum, IV, XXII, 271".

Então, observem as nossas conclusões.

Na gíria do futebol, dar um chocolate é vencer com muita facilidade por goleada ou aplicar uma surra, um baile no adversário. Muitas vezes não há explicações para o aproveitamento de termos e expressões da língua geral nas diversas linguagens especiais. Na do futebol, o termo CHOCOLATE parece que adquiriu esses sentidos por ser esta bebida servida em ocasiões especiais, como em festas, reuniões íntimas, em lanchonetes de fino trato, além de ser, também, um alimento muito gostoso. Criança adora bombom de chocolate e comendo chocolate em barra fica toda lambuzada. Isso nos leva para o campo semântico da alegria, da festa, da farra, da comemoração e do prazer. CHO-CO-LA-TE é, ainda, uma palavra com significativo corpo fonético, prestando-se a inúmeras gozações, quando suas sílabas são articuladas pausadamente pelos comentaristas esportivos.

3 de setembro de 2006

O ÔNUS

O nosso Blog é do Sul, da Bola e das Letras

Algumas vezes apresentamos ao leitor textos para curtição, reflexão e análise. Hoje vamos publicar uma crônica do cotidiano, cujo tema é do conhecimento de todos que lidam com os famigerados cartões bancários de crédito .

A crônica se chama
O Ônus


Luiz César Saraiva Feijó


Recebi minha fatura do cartão de crédito do banco do Brasil, bem próximo do dia de pagar a conta. Estava mesmo ansioso, pois gastara muito naquele mês em que viajei ao Rio de Janeiro. Foi lendo a bendita fatura que encontrei uma maneira, nunca antes testada, de recordar o passado. Pensava que isso só acontecia com as fotografias dos álbuns de família ou com as que a gente encontra dentro de gavetas cheias de cacarecos.
A informatização dos bancos está mesmo sensacional! Eles apresentam o débito com dia, mês e ano, além do nome da cidade onde a compra foi efetuada. Esse procedimento lembrou-me outras formas de cobrança, como, por exemplo, a planilha dos escritórios de contabilidade, espalhados por toda parte, apresentando os gastos a seus clientes. Mas os bancos estão demais! Agora, eles dizem também os nomes dos estabelecimentos onde a compra foi efetivada, e destacam, em colunas bem organizadas pelos programas da rede Windows, os nomes genéricos do tipo de consumo ocorrido, como, por exemplo, restaurantes, farmácias, supermercados, mala direta e muitos outros. Isso, inegavelmente, facilita a conferência do usuário do cartão de crédito, pois o cara vai se lembrando rapidinho de onde torrou a grana fácil, fácil...
Foi nesse momento de conferência que me vieram à mente quase todas as lembranças dos bons momentos de minha visita ao Rio de Janeiro. Conheço muito bem a Cidade Maravilhosa, pois sou carioca da gema, nascido na Lapa, nos bons tempos em que a cidade era só encanto, com uma qualidade de vida invejável e cheia de amor pra dar... Mas de lá já saí, há uns dez anos e vim para o Sul, depois de me aposentar. Assim, obedecendo ao poeta quando diz que “quem é do mar não enjoa”, sempre que posso vou à terrinha para ver minha gente humilde nas calçadas suburbanas, tentando imitar novamente outro poeta-cantor. Mas numa visita dessas, nem sempre acontecem coisas espetaculares, pois a gente se gripa, tem um torcicolo, dá uma topada numa pedra do caminho... E isso tudo eu fui relembrando enquanto via a minha despesa nos bares e restaurantes. Que maravilha! Como foi sensacional aquela reunião no Costa Brava! Que espetáculo o pôr do sol no Recanto do Arpoador, com chopinho estupidamente gelado, refrescando o calor e a alma da gente, num verão que insistia em ficar para sempre nas praias cariocas! Mas também revivi a mesma dor nas costas que me levou a gastar uma grana na Farmácia Rabelo, comprando um remédio errado. E depois outro certo, até a danada ir totalmente embora! Bem, nos supermercados gastei muito com picanha, carvão, cerveja, lingüiça, sal grosso, refrigerante e mais mil outras coisinhas para aquele encontro com os amigos da velha-guarda. Fiz questão de recebê-los no clube ao qual ainda pertenço. Revivi todos aquelas histórias antigas, contadas pelos amigos reunidos em torno do magnífico filé-mal-passado, regado a chope e caipirinha. Continuando a percorrer com o dedo as linhas da fatura, senti-me envolvido pelo perfume francês que ela fingiu não querer, momentaneamente, alegando que a despesa do dia já tinha sido muito grande, mas não resistiu à fragrância do Minotaure, de Paloma Picasso, nem à do Light Blue, da Dolce Gabbana. Tudo conferia com minha memória e agradava o meu coração...
Porém, quase na última linha, antes do pagamento à proteção do cartão – coisa quase insignificante – mas muito estranha, chamou minha atenção. Lá estava, na coluna Compras Parceladas, um débito de alguns reais, referentes a gastos com o jornal O Globo. Aí fiquei tonto mesmo, porque aquilo fez com que voltasse à realidade dos custos operacionais que minha conta iria sofrer em poucas horas, assim que o vencimento da fatura se verificasse, pois o débito em conta corrente não perdoa nenhum cristão! De fato, não me lembrava de ter feito naquela data nenhum negócio com o conhecidíssimo e importante veículo de comunicação do Rio de Janeiro.
Liguei para o 0800 do Banco do Brasil e fiz minha reclamação. Fui muito bem atendido e minha solicitação foi registrada com um número de nove dígitos, ao qual eu deveria me referir, quando procurasse saber a solução daquele problema, um lançamento a débito de que não me lembrava, por mais que me esforçasse. Ao desligar o telefone, percebi, dentro de minha carteira de documentos, com a qual viajo, uma papeleta amarela que registrava o texto de um anúncio feito por telefone e colocado no jornal O Globo, no dia oito do mês passado. Pronto! Lembrei-me. Não fora para mim e sim para um amigo que estava precisando. Tornei a ligar para o 0800 do Banco, repeti todo aquele ritual cibernético e consegui dar baixa na minha consulta, pois já sabia do que se tratava. Então, perguntei à atendente - as conhecidas telefonistas de telemarketing - se aquele procedimento havia ou não gerado, para mim, algum ônus. A atendente, sem saber o que responder, falava coisas absurdas, sem o menor sentido. Repetia como robô uma cantilena estranha, dizendo que o Banco tem inúmeros procedimentos para ajudar seus clientes... Coisas sem nenhum sentido. Percebi que o ruído estava no significado do vocábulo “ônus”. Indaguei: -Você sabe o que é ônus? E ela respondia: “-Senhor, sua consulta foi registrada, o Banco do Brasil agradece!. E eu, insistia. Você sabe ou não sabe o que a palavra ônus significa? Cheguei a perguntar o seu grau de instrução. –“Tenho o segundo grau completo – respondeu, e voltava com a cantilena anterior. Eu fui me irritando, mas penalizei-me da rapariga. Concluí que o segundo grau está mesmo precisando de uma grande revisão. O segundo, o primeiro e o terceiro graus. Todos. Tudo. Toda a Educação. Mas eu queria mesmo é saber se estas consultas geram ou não algum encargo. Pedi que ela perguntasse a um superior hierárquico e a resposta veio assim: “-Senhor, nada será cobrado pela consulta, mas se tem ônus ninguém aqui sabe dizer. O Banco do Brasil agradece a sua ligação e tenha uma boa tarde”.

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.