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31 de janeiro de 2017

Tecnologia Educacional - A TV na Escola: uma ferramenta pedagógica


O surto desenvolvimentista que assola o Brasil é indiscutível. Como nação, não mais emergente, mas próspera e em pleno progresso científico e tecnológico, em todas as áreas do conhecimento humano, nosso país precisa urgentemente voltar todo o seu potencial criativo para a Educação. Precisamos dela para sermos uma nação desenvolvida, rica e com um povo sadio, instruído e feliz. Todos os esforços destinados à minimização dos óbices educacionais, para serem realidade, dependem da confiança que cada um brasileiro deverá ter em si mesmo e naqueles, que, por força de ofício, são os responsáveis por uma filosofia de vida comunitária, direcionada para a plena formação dos jovens brasileiros. Estes agentes da educação são os professores e a grande instituição sistemática da prática desse desenvolvimento é a Escola.  Parece que a Escola está falida. São muitos os sintomas que mostram a precariedade do psicossocial! Mas o professor também não tem onde se amparar. Está despreparado, preocupado e desempregado. Sua profissão hoje é considerada de alta periculosidade. O mestre afasta-se da Escola. Por quê? A nosso juízo por muitos fatores. Citaremos apenas, alguns.  
Ocorre, há muitos anos, uma profunda defasagem entre o que a nossa Escola oferece e o que o aluno dela espera. Vejam que nós todos já estamos mais do que familiarizados com a máquina, com a Internet, com o Rádio, com o Cinema, com a Televisão. Mas como essas conquistas tecnológicas atingiram a Escola? A Escola foi, praticamente, a última instituição social a ser atingida, muito sutilmente, pela tecnologia dos séculos XX e XXI. O seu discurso não é mais ouvido como transformador e sim, muitas vezes, como fútil consumidor de recursos. A Escola não está mais preparando o aluno para a vida. Existem algumas exceções que deveriam ser multiplicadas. Para elas nossos aplausos. A defasagem que existe entre aquilo que a Escola oferece e o que o aluno dela espera, pensamos nós, que é de duas ordens. A primeira é a falha do professor, o agente da educação, que, quase sempre, desconhece o porquê daquilo que vai ensinar, se é que também conhece plenamente o que vai ensinar. O interesse do aluno está voltado, evidentemente, para os fatos de sua época, e, há necessidade de explicá-los, para que, imediatamente, surja uma comunicação clara, direta e precisa entre ele e o mestre. Ambos têm de falar a mesma linguagem, sem os descompassos provocados por choques de gerações. Falhará o professor de qualquer nível que não assimilar e propagar a filosofia de vida e as diretrizes normativas de um Plano Nacional de Educação, que, talvez não exista! A segunda ordem dessa defasagem está nos meios utilizados para a transmissão da mensagem docente. No que diz respeito aos meios desta transmissão, a Escola Brasileira, de todos os níveis, acha-se fora do compasso do desenvolvimento tecnológico e científico, que podem auxiliar, sobremaneira, o processo ensino-aprendizagem. Sem falar que o professor é sempre um meio presencial, quando poderia se desdobrar em vários meios. Por exemplo, levando suas experiências para a sala de aula. Experiências materializadas em realizações de pesquisas empíricas. Mostrá-las e discuti-las, forçando o surgimento de novas outras, provocadas por seu desempenho ao motivar a turma com tais amostragens, possíveis de serem realizadas por eles, também. O giz, o quadro-negro e o apagador alfabetizaram a maioria dos brasileiros que hoje estão em postos de comando e tomam decisões importantíssimas para o desenvolvimento do Brasil. A comunicação professor-aluno poderia ser executada por métodos e meios mais modernos, como a televisão e o rádio, incidindo sobre quase todos os sentidos. Os alunos observam e, às vezes, compram revistas ilustradíssimas nas bancas de jornal. Mas isso é muito pouco. Há muito mais tecnologias ao redor do aluno fora da Escola do que lá dentro, no exíguo período de tempo em que assiste a aulas, muitas vezes, insuportáveis... Mas a atuação do professor, no sentido de uma comunicação ativa e dinâmica com o aluno, pode suprir, em parte, estas deficiências que proporcionam esta defasagem. Suprirá por suas qualidades intrínsecas, desde que esteja conscientemente imbuído dessas atribuições de educador e orientador, elaborando heuristicamente suas aulas, como exige uma Escola moderna. Surge, agora, outro problema a equacionar: a Atuação Docente. Considera-se a Atuação Docente, propriamente dita, só aquela alicerçada no tripé: formação específicacondições de trabalho e remuneração adequada.
formação específica é-nos dada pelas Faculdades das diversas Universidades, reconhecidas pelo Ministério da Educação e em Cursos de especialização, mestrado e doutorado. Mas para lá vão, também, todas estas defasagens das Escolas de Nível Fundamental e Médio, como num círculo vicioso a se completar.  
As condições de trabalho fazem parte de um complexo político-educacional ou de uma filosofia empresarial.
O terceiro sustentáculo do tripé da Ação Docente é a remuneração adequada, elemento vital à concretização da ação educativa, pois é o que traz a tranquilidade indispensável ao professor, que se torna a mola mestra, o botão de partida de toda essa complicadíssima máquina que impulsiona o progresso do mundo. É sempre oportuno lembrar que vivemos num país cujo modo de produção é o capitalismo. Esse terceiro sustentáculo poderá ser conseguido pela correta aplicação dos dois anteriores, fato que colocará o professor, que assim proceder, com condições reivindicatórias para tanto. 
Assim, Atuação Docente e Desenvolvimento Tecnológico são elementos indispensáveis a uma política educacional endógena, para alavancar o ensino nacional, o que o Brasil, infelizmente, não tem. Esta é a minha visão sobre o ensino no Brasil, resumidamente e de um modo geral. Que venham os comentários.


ATÉ A PRÓXIMA 

23 de janeiro de 2017

FILOLOGIA, FORNO E FOGÃO

Antônio José Chediak, Antônio Houaiss, Luiz Cesar Saraiva Feijó., após reuniaõ da Academia Brasileira de Filologia, UERJ, Rio de Janeiro

Homenagear o saudoso filólogo, Antônio Houaiss (15/10/1915 – 07/03/1999), diplomata de carreira, lexicógrafo, tradutor, esteta, um homem de cultura humanística completa, que soube entender o seu tempo histórico e dele participar harmoniosamente, inclusive na vida pública, como ministro de Estado da Cultura, é um dever de seus pares da Academia Brasileira de Filologia.  Se o antropólogo Claude Lèvi-Strauss recorreu ao preparo de alimentos, isto é, à forma de se cozinhar, para estudar os mitos, e principalmente os mitos indígenas, Antônio Houaiss fez da cozinha o seu passatempo estruturador de fontes constantes de renovação de muitos pensamentos, já que o homem cozinha para refletir suas ideias, na materialidade dos ingredientes, e  não, somente, para se alimentar. Se o famoso antropólogo belga trabalhou com os alimentos e com as práticas culinárias como pano de fundo em seus estudos sobre os mitos indígenas, Antônio Houaisss, de muitas formas, se utilizou das práticas do “bom gourmet” para pensar sobre a forma de se organizar o banquete. É claro que seu nome se imortalizou no campo dos estudos da filologia e da ecdótica. Mas escolhi como tema, para homenagear essa grande figura de nossa cultura humanística, uma de suas paixões: a gastronomia. Sempre escrevo, em meu Blog, nas redes sociais, alguma coisa sobre isso. Vejo, pois tal assunto como uma forma de unir história, filologia e boa comida. É muito interessante conhecer comidas exóticas. Comidas exóticas,  tradicionais e simples que existiam em Portugal, desde o século XV. É mesmo um assunto que encanta e pode ser considerado como muito produtivo. A culinária portuguesa é hoje considerada uma das mais apreciadas no mundo inteiro. Desde a fundação da sua nacionalidade (1143), Portugal vem acumulando os prazeres gastronômicos, baseados em pratos que existiam antes do século XII. Contudo, parece que muita coisa se perdeu no terremoto que destruiu grande parte de Lisboa, em 1755. Talvez tenham se transformado em cinzas muitos livros de mão, relacionados à culinária. Como nos tempos de nossas avós, as receitas gastronômicas eram anotadas em folhas de papel e depois passadas a limpo em cadernos que, guardados com muito cuidado, se transformavam em preciosos segredos materializados em caldos, assados, massas, guisados, frituras de todos os tipos e maravilhosos doces capazes de adoçar, supimpamente, os mais requintados paladares. Todavia, muitos desses segredos culinários estão ainda guardados a sete chaves em mosteiros portugueses, como, por exemplo, nos da cidade de Odivelas que produz, ainda, famosos doces em suas casas de oração, mosteiros seculares e meditativos. Em outras inúmeras casas de oração, como os conventos portugueses, e cito o Convento de Arouca, o Convento de Santa Clara de Guimarães, o de S. Domingos de Elvas, o Convento da Senhora da Conceição de Lagos, o Convento de S. João de Ponta Delgada, nos Açores, o de Sant’ Ana de Coimbra, onde existem, ainda, receitas guardadas em segredo. Receitas que se servem, generosamente, de inúmeros ingredientes interessantes, como, por exemplo, a água de flor de laranjeira, hoje quase em desuso, e muitas outras preciosidades importantes para um exigente apreciador da “haute coisine”. Contudo, muitas dessas iguarias, e seus segredos não resistiram aos cochichos das cozinheiras e as receitas vazaram, chegando ao conhecimento do grande público. Assim, as fórmulas dessas especialidades se transformaram em clássicos, hoje conhecidos, da doçaria sazonal, como a aletria, o pão de ló, além do vetusto e muito apreciado arroz-doce, cuja origem, possivelmente, remete aos mouros, que habitaram o território português, antes da reconquista.
Em Portugal, nos tempos medievais, o povo consumia, basicamente, carnes, peixes, vinhos e cereais, entre eles o trigo, o milho, o centeio, em suas principais refeições.
Como sabemos a nacionalidade portuguesa, fundada por D. Afonso Henriques, data do século XII. Portanto, vamos destacar, aqui, nesta homenagem singela a Antônio Houaiss e aos apreciadores da boa e farta mesa, algo que foi escrito 300 anos depois da fundação do Condado Portucalense, que se notificou por suas gloriosas histórias de lágrimas, sangue e amor e, por que não dizer, também, por muita banha, carnes e aves assadas, inúmeros tipos de bolinhos e muitas massas crocantes. Trata-se de uma especiaria; Pastéis de carne. Sua receita, e a de inúmeros outros pratos da época, isto é, o modo de prepará-los encontra-se em um documento histórico de 600 anos. Trata-se de um texto medieval, retirado da obra editada pelo Instituto Nacional do Livro, MEC, 1963, intitulado UM TRATADO DA COZINHA PORTUGUESA DO SÉCULO XV, cuja edição foi preparada pelo professor Antônio Gomes Filho. Vamos transcrever a leitura diplomática moderna, somente desse primeiro quitute:

PASTÉIS DE CARNE

 Tomem carneiro, alcatra, ou lombo de porco fresco, e uma fatia de toucinho de fumeiro, para dar gosto.
Piquem tudo muito bem. Com cravo, açafrão, pimenta, gengibre, coentro seco, caldo de limão ou de agraço, e com uma colher de manteiga faz-se o refogado, ao qual se deitam a carne e o toucinho picados. Cozinha-se em fogo brando.
Depois de pronto deixa-se esfriar e fazem-se os pastéis, bem recheados; pincele-os com gema de ovo e leve-os a assar em forno quente.
 Do mesmo modo se fazem os pastéis de galinha.
 Os pastéis ficarão mais gostosos, se recheados com carne crua.

 Esse e muitos outros pergaminhos medievais sobre a culinária do século XV, que envolvem temas diferentes, literários e não literários foram estudados, à luz da  ecdótica, por especialistas, como Antônio Gomes Filho, Padre Augusto Magne, A. G. Cunha, Emanuel Pereira Filho, entre tantos outros doutos filólogos brasileiros, muitos deles pertencentes aos quadros da nossa Academia Brasileira de Filologia, e apresentam leituras diplomáticas e modernas, num minucioso trabalho de crítica textual. Um tratado da Cozinha Portuguesa do Século XV chegou até nós, mostrando-nos a vida de então, pulsando nas cozinhas dos castelos, mosteiros, vilas, casas simples, nos campos, nas fazendas e em muitos sítios daquela época quinhentista. Assim, podemos refletir sobre os momentos de pompa e requinte, mas também sobre os momentos de aflição e de angústia, talvez diante de tempos, quem sabe, de terríveis dificuldades e escassez de alimentos. Tempos, muitas vezes, vividos por gente igual a nós, com os mesmos anseios, tentando encontrar na cozinha a satisfação da degustação, como supremo encantamento da vida. Pode-se acreditar que procuravam a todo instante, entre temperos, caldos, pastas e água fervente, articular o pensamento, cozinhando não somente para saciar a fome, mas, para, sobretudo, articular o pensamento. Este pedaço de manuscrito é fantástico porque interessante material filológico, como, por exemplo, os termos "albarada" e "sartãa" ou "sertãa", que equivalem hoje a saco-de-confeitar (aqueles com bicos para decorar bolos) e frigideira, respectivamente. Muitos outros termos, já pertencentes ao vocabulário passivo da nossa língua, em quase completo desuso, lá aparecem, deixando registrado um momento da vida do homem ibérico-peninsular, ao se relacionar com o complexo exercício da culinária. Mostra, ainda, a vida girando em torno do forno e do fogão, chegando a nós através dos escribas e seus grafismos, que mais parecem rabiscos em caracteres arábicos ou garranchos feitos por iniciantes na alfabetização, tentando conseguir escrever.
 Finalmente, recolhemos alguns termos encontrados nesse interessante livro, que trada da cozinha portuguesa do século XV, cujo tema está totalmente ligado a uma das paixões explícitas de Antônio Houaiss, para, numa rápida análise, mostrarmos alguns aspectos de nossa língua, em seu viés diacrônico. Destacamos os seguintes: a) escalfado, esquentado. Part. do verbo latino excalfacere, esquentar; b) albardado, coberto com ovos batidos e depois fritado. Part. do verbo albardar, do ár. al-‘ bardaHa;  c)  alfitete,  massa de farinha com açúcar, ovos, manteiga ou toucinho e vinho, disposta em camadas, sobre as quais se coloca galinha, carneiro etc.; pastelão, queijada. Do ár. al + fitat, bocadinho, migalha; d) almojávena, espécie de bolo ou torta feita com farinha, ovos, açúcar e queijo. Do ár. al-mujabanâ, uma espécie de bolo; e) diacidrão, doce da casca da cidra em compota. Pref. di(a) + cidrão, do lat. cítrea, ae, limoeiro; f) almíscar, substância de odor penetrante e persistente obtida a partir de uma bolsa situada no abdome do almiscareiro macho e usado como fixador em perfumes. Também uma das várias substâncias de odor forte obtida a partir de animais como o boi-almiscarado e a civeta (gato-de-algália ou civeta africana), do ár. al-misk, proveniente do persa musk, testículo; g) codorno (ô), certa variedade de maçã grande e de pera, de origem obscura; h) alféola, massa de açúcar ou melaço, em ponto grosso, tornada branca por manipulação e usada em confeitarias, do ár. al-halaua ou al-halua’, um doce açucarado; i) farte ou farto, variedade de doce em que entram amêndoa,  e açúcar,  regressivo do verbo latino farcio, is, arsi, artum, cire, encher, atulhar, embuchar, engordar, relacionado ao campo semântico da cozinha; j) fartalejo (ê), massa ou espécie de polenta em que entram farinha e queijo, sua origem, talvez, possa se prender a farte  + suf ejo , por influência de artelete; k) sovar (pão sovado, massa sovada), misturar bem a massa do pão. O interessante desse vocábulo que ainda pertence ao vocabulário ativo da língua geral é o sema violência presente nos verbos que poderiam ter dado origem ao vocábulo português. Mas sua origem é controvertida. Corominas diz que o vocábulo comum ao português e ao espanhol (sobar) é de origem incerta, talvez vulgar, a forma verbal subagere, que suplantou a forma verbal latina culta subigo, is, egi, actum, igere, meter de baixo, amansar, subjugar, domar, amansar, apertar, moer, triturar. No caso citado por Corominas, é claro o sema violência. Nascentes diz que a origem pode estar na forma verbal latina hipotética *subagere por subigere (Cf. Corominas), calcado no part. pass. subactum. M. Lübke entende que sovar e sobar remontam a um primeiro tipo sobas = súbagis, súbagit. Já Cortesão deriva a forma portuguesa do espanhol. Mas em todos os casos o sema violência está presente, o que sustenta significativamente todas as hipóteses etimológicas vistas acima; l) biscoito, vocábulo pertencente ao vocabulário ativo da língua geral, é um alimento feito de farinha de trigo, maisena, araruta, polvilho, fubá, etc, misturado a água ou ao leite, com sal ou açúcar, podendo-se acrescentar ovos, fermento, manteiga, outros tipos de gordura e especiarias, castanhas, frutas secas, queijo ralado, chocolate etc , tudo assado no forno. Nascentes deriva do lat. biscoctu, cozido duas vezes; m) maçapão, vocábulo que no século XIV significava o conteúdo de uma caixinha onde havia um bolo de açúcar, amêndoas e água de rosas. Hoje significa bolo de farinha de trigo com amêndoas e açúcar. A. Coelho deriva de massa e pão e grafa com ss. Gonçalves Viana grafa com ç e manda comparar com o esp. Mazápan, com z, equivalente a ç em português. M. Lübke prende a forma napolitana marzapane ao árabe mauthaban, moeda com uma figura de Cristo sentado, que circulava no Levante ao tempo das Cruzadas; n) pão de ló, bolo simples e leve feito de farinha, ovos, açúcar e água. Nascentes, citando G. Viana, diz que este declara a locução de origem obscura. Deonísio da Silva concorda com a controversa origem da expressão, mas sugere uma origem algo interessante e possível. Relaciona com o hebraico Lot, que significa véu. Cobria-se o pão açucarado com véu para que as moscas nele não pousassem. 

BIBLIOGRAFIA

 1- COROMINAS, J. Diccionario Crítico Etimológico de la                  Lengua Castellana, 4 vol., Madri, Editorial Gredos, 1954.
 2- CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2 ed, 1986.
 3- FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, Curitiba, Ed. Positivo, 5. Ed, 2010.
 4- GOMES FILHO, Antônio.  Um Tratado da Cozinha Portuguesa do Século XV, (preparação), Instituto Nacional do Livro, MEC, Rio de Janeiro, 1963. 
 5- NASCENTES, Antenor. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Edição do autor, Rio de Janeiro, Segunda Tiragem do Tomo I, 1955.
 6- SARAIVA, F. R. dos Santos. Dicionário Latino-Português. Belo Horizonte, Livraria Garnier, 2006.


Este texto sairá publicado na Revista da Academia Brasileira de Filologia, 2017.









21 de janeiro de 2017

O ROMÂNTICO NO PARNASIANISMO DE VICENTE DE CARVALHO






A FLOR E A FONTE  

*Vicente de Carvalho

"Deixa-me, fonte!" Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria
Cantava, levando a flor.

"Deixa-me, deixa-me, fonte!"
Dizia a flor a chorar:
"Eu fui nascida no monte...
"Não me leves para o mar."

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

"Ai, balanços do meu galho,
"Balanços do berço meu;
"Ai, claras gotas de orvalho
"Caídas do azul do céu!..."

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

"Adeus, sombra das ramadas,
"Cantigas do rouxinol;
"Ai, festa das madrugadas,
"Doçuras do pôr-do-sol;

 "Carícias das brisas leves
"Que abrem rasgões de luar...
"Fonte, fonte, não me leves,
"Não me leves para o mar!"

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor...

*In Rosa, Rosa de Amor.

            Em primeiro lugar, é bom colocar, mesmo sabendo que a informação nada tem de literário, mas sim de curiosidade, que o bairro carioca de Vicente de Carvalho, na região oeste da cidade do Rio de Janeiro, não tem seu nome ligado ao poeta paulista, de verve parnasiana, com intensa conotação romântica. O nome do bairro se prende ao homônimo Vicente de Carvalho, fazendeiro do lugar que deu nome ao próspero reduto suburbano.
O poeta parnasiano Vicente de Carvalho nasceu em Santos, SP, a 5 de abril de  1866 e faleceu também na bonita praia paulista, em 22 de abril de 1924, vivendo, portanto, 58 anos, dentro da média de vida do brasileiro daquela época. Vicente de Carvalho foi bacharel na Faculdade de Direito de São Paulo SP, atuou como abolicionista, foi redator do Diário de Santos, fundou o Diário da Manhã em Santos e se tornou Deputado Constituinte, participando da Comissão Redatora da Constituinte de 1891. É considerado um dos principais nomes da poesia parnasiana brasileira, juntamente com Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira. Segundo Massaud Moisés, "o culto a Camões, modelo de poesia lírica e de soneto de recorte preciso e discursivo, o gosto do lirismo tradicional, a projeção para o mar e os temas histórico-poéticos, denunciam, em Vicente de Carvalho, um poeta formalmente apegado ao ideário parnasiano". Vicente de Carvalho foi um poeta que aderiu ao parnasianismo aniquilador do sentimento romântico, embora seus versos demonstrem melancolia, emotividade, alguma ironia, sugerindo influência simbolista.  Ainda nas palavras de Massaud Moisés, ele foi "um romântico autêntico", que nem o formalismo parnasiano nem o transcendentalismo simbolista haviam conseguido mudar. Vicente de Carvalho adere ao mar como principal tema de sua lírica, talvez um resquício dos tempos da sua infância em Santos, SP. Foi jornalista e redator do Diário de Santos e fundador do Diário da Manhã, da cidade de Santos. Escreveu para O Estado de S. Paulo e publicou, no fim de sua vida, muitos poemas na revista A Cigarra. Sua obra poética: a) Ardentias, 1885, eminentemente romântica; c) Relicário, 1888; c) Rosa, Rosa de Amor, 1902; d) Poemas e Canções, 1908; e) Versos da Mocidade, 1909. Publicou em prosa Páginas Soltas, 1911 e Luizinha, 1924, uma comédia e alguns contos.  Somente a partir de Relicário se afirma como poeta parnasiano, sem o historicismo e o retorno às origens míticas greco-romanas, que predominou , por exemplo, na conhecida trindade parnasiana: Alberto de Oliveira, Olavo Bilac e Raimundo Correia. Por outro lado, o romantismo em Vicente de Carvalho se faz presente no sentimento vivo da natureza; na visão do mar e das matas tropicais brasileiras; na visão das nossas montanhas e na beleza da mulher, muitas vezes comparando-a com aspectos da natureza, mas numa transfiguração muito mais ideal do que real da realidade circundante. Sua linguagem nesse momento é fácil, corriqueira, familiar, original, sempre mesclando versos curtos, como as redondilhas, com os decassílabos e seus quebrados de seis sílabas, num turbilhão de ritmos sugestivos e criativos. O Eu-lírico do poeta, finalmente, envolve-se com o tema do mar e da água, em alegorias e metáforas reflexivas e meditativas.

Este poema, A flor e a Fonte, do livro Rosa,Rosa de Amor, é composto por oito quadras, estrofes de quatro versos heptassílabos, redondilha maior. O esquema de rimas em todas as estrofes é ABAB. Trata-se de uma história fácil de entender. Numa delicada prosopopeia, duas peças da natureza em confronto. De um lado uma flor. Do outro, as água de uma fonte a correr para o mar, inexoravelmente. Surge, então, o diálogo, pela verve poética do sujeito lírico, narrador onisciente do poema, mas sem ufanismos e pieguices (características românticas), mas traçando objetivamente, uma transfiguração da realidade, numa linha de raciocínio lógico (Vicente de Carvalho era admirador e leitor de A. Comte e Spencer), pois a corrente da fonte não tem como, por sua natureza, atender aos clamores da flor. Flor sem qualificações, adjetivos. Simplesmente uma flor, talvez retratada na frialdade botânica da espécie... Contudo o poeta não consegue separar o sensorial do emotivo e na última estrofe, única vez que a voz do eu-lírico se pronuncia, o poeta, em lamúria sentida, compara sua desgraça à da flor impelida por uma força da natureza, maior do que ela, “numa descida como a da fonte e da flor”, um verdadeiro determinismo, imposto pelo destino das coisas, na visão de mundo do poeta. Além disso, percebe-se no poema vestígios de significantes marcantes do simbolismo romântico em toda a lamúria da flor, carregada pela fonte. A flor pertence à terra, seus galhos são seu berço e as gotas de orvalho são as lágrimas da flor em pranto! Por tudo que se observa no poema A Flor e a Fonte, de Vicente de Carvalho, pode-se dizer que se trata de uma composição parnasiana, que envolve o leitor e o extasia, pela simplicidade e metáforas telúricas, numa nova linguagem, rica em imagens da natureza e eivada de psicologismos. Um parnasianismo bem característico de Vicente de Carvalho, com perfeição de forma (ó), sem se enquadrar na forma (ô) do estilo de época, e com intensa ambição de isso realizar, criando sempre, fazendo-nos meditar na beleza da vida e sonhar com ela.


ATÉ A PRÓXIMA

11 de janeiro de 2017

TROVAS, TROVINHAS E TROVÕES III






“Minha alma no azul se expande...
Parece um sonho sem fim.
Sendo o nosso amor tão grande
Sinto o céu dentro de mim”!
                                                         Autor: João Batista Xavier Oliveira

A análise da trova acima visa encontrar uma relação significativa entre as quatro elucubrações ou pensamentos contidos em cada verso, sustentados pelos respectivos verbos de cada oração.
            Assim, o 1º verso (MINHA ALMA NO AZUL SE EXPANDE) pode ser entendido, de acordo com os significados dos nomes substantivos, verbos e relacionamentos sintáticos, como: Minha alma vai se expandindo no azul do céu. A esse primeiro verso se coordena (se liga) um outro, o 2º, sem que haja entre eles nenhuma dependência sintática. Isto é, um verso não é função sintática do outro. Observem: PARECE UM SONHO SEM FIM. É como se dissessem: “Minha alma no azul se expande” e “isso parece um sonho sem fim”.
Esses dois versos, um dístico, é um pensamento poético, com total e plena estruturação sintática. Com total sentido formal. O sentido formal deve existir em qualquer tipo de escritura, seja ela uma escritura denotativa, seja ela uma escritura conotativa. Quer dizer, tanto o referencial quanto o metafórico devem se estruturar dentro de um modelo linguístico pré-estabelecido. No caso trata-se de se seguir a estrutura da língua portuguesa.  Observem o exemplo: “Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabiá; /As aves que aqui gorjeiam,/ Não gorjeiam como lá.” (Canção do Exílio, Gonçalves Dias). Os dois primeiros versos formam um dístico com sentido complementar, um completa o sentido do outro.  É como se dissesse: O sabiá canta nas palmeiras que existem na minha terra. Da mesma forma os dois últimos versos também se completam. Seria: “Onde estou agora (no exílio, em outras terras) as aves daqui não gorjeiam como as aves que gorjeiam lá na minha terra natal”. Pode-se concluir, dizendo que existe um nexo significativo entre todos os quatro versos da estrofe de Gonçalves Dias. Agora, jamais se poderá dizer que o poético se ausentou da cena descrita naquele texto, pelo fato de que nunca ninguém viu um sabiá cantar empoleirado nas folhas das palmeiras do Maranhão. E mesmo assim, a imaginação inspirou o poeta... Queremos dizer com isso que, nos versos, a poeticidade se constrói com ou sem palavras, com ou sem subjetivismos, mas o sentido poético só se constrói com a ordenação das palavras na frase, obedecendo às estruturas rítmicas e sintáticas da língua. Portanto, se invertêssemos a ordem de aparição dos vocábulos dos quatro primeiros versos da Canção do Exílio, num hipérbato desconcertante, prejudicando totalmente o entendimento do discurso, sem nenhuma gramaticidade ou aceitabilidade, a poesia jamais lá se instalaria. Assim: Tem palmeira terra minha /   Canta onde o Sabiá  / Gorjeiam as aves que aqui / Como não gorjeiam lá. 
Observemos, agora, os dois últimos versos da trova em questão: Sendo o nosso amor tão grande / Sinto o céu dentro de mim.
Esses dois versos estão subordinados um ao outro, numa ordem invertida. O verso Sendo o nosso amor tão grande tem o seu verbo no gerúndio (sendo) o que torna essa oração uma oração reduzida, com valor causal, subordinada, portanto à seguinte, que seria a principal. Correspondendo a esta interpretação: Eu sinto o céu dentro de mim, porque o nosso amor é tão grande. Nesse caso, entenda-se a expressão “tão grande” como equivalente a “muito grande”, não se considerando haver aí uma consequência.
Se formos considerar a existência de uma consequência, a interpretação seria outra. Vejamos esta hipótese. Vamos considerar o verbo SER, na forma de gerúndio, um verbo vicário. Sem significado, só para dar corpo fonético à frase. Portanto, excluído de cena, entender-se-ia assim esse terceiro verso da trova em questão: O nosso amor é tão grande (ração principal) que sinto o céu dentro de mim (oração subordinada consecutiva, pois depende da oração principal, para o conjunto das duas formar sentido).
Parece-nos que esta última interpretação é menos plausível. Ficaremos com a primeira interpretação.
Agora, juntando os quatro versos analisados, dois a dois, verificamos que os dois primeiros estão desconectados, formalmente, dos dois últimos, pois não produzem sentido. Os dois primeiros versos da trova formam um período coordenado, com sentido finito, embora haja uma visão conotativa, poética, metafórica, portanto. Mas as metáforas estão, no nível do significado, perfeitamente estruturadas. Já os dois últimos versos da trova, tomando-se a primeira interpretação, constituem uma estrutura em subordinação, sem liame conceitual com os dois primeiros.

Concluindo, podemos dizer que se entende o que o autor quis dizer, ao se expressar dentro das amarras de um poema fixo como a trova, mas entende-se, por pura intuição, por puro impressionismo, pois neste caso mostrou-se   - e a análise é para isso mesmo – que a grandeza do conteúdo foi tanta, que não coube nas amarras das estruturas linguísticas conhecidas e trabalhadas inconscientemente  pelo poeta. 

ATÉ A PROXIMA

10 de janeiro de 2017

CHOVEU A CÂNTAROS



Um amigo que muito considero por sua formação humanística, além de excelente músico, mestre em prolatar discursos afinados com a ética na política, usou certa vez, em postagem nas redes sociais a expressão “em cântaros”. Meu amigo Eduardo! Essa expressão que você usou "o céu derrama-se em cântaros" é uma metonímia perfeita. Digo-lhe que isto me lembrou uma aula dada, há muitos e muitos anos, num colégio religioso, lá na Rua do Catete. Era o famoso Santo Antônio Maria Zaccaria. CÂNTARO é um nome de origem grega, KANTARÓS. Pena que eu não tenho recursos técnicos para usar aqui aqueles caracteres da língua de Homero, a fim de dar maior credibilidade às minhas elucubrações filológicas. Mas seria: KAPA + ALFA + NI + TAU + ALFA + RÔ + ÓMICRON + SIGMA). Chegou ao português pelo latim CANTHARUS, que significa, entre outras coisas da mesma constelação semântica, vasilha grande de beber, bojuda e com alças; bilha grande; grande cangirão. O que predomina neste significante é o "SEMA" COISA GRANDE. Portanto está nítida a figura de linguagem, conhecida como METONÍMIA, isto é, o emprego, no caso, do continente pelo conteúdo. Pois bem, lembro-me como se fosse hoje. Estava explicando isso a uma turma de 4º ano Ginasial (faz, realmente, muito tempo. Tempo em que o ensino da Língua Portuguesa era, como se dizia, puxado), quando passou pela porta da minha sala o senhor Luís, um empregado fanho, parecendo abobalhado, muito religioso, que se autodesignava IRMÃO. Era o Irmão Luís, que vivia sempre correndo de um lugar para ou outro, conhecidíssimo em toda a escola, desdobrando-se em mil-e-uma atividade. Servia, também, especial e particularmente ao Reitor da instituição, Pe. Vicente Adamo, homem austero, sisudo, classificado mesmo como um bruto e não muito querido pelo corpo docente, além de temido pela garotada de toda aquela conceituada instituição Barnabita de ensino, da cidade do Rio de Janeiro. Levava o apressado Irmão Luís,  numa bandeja ,um jarrão de água gelada para o Reitor, quando, bem em frente à porta da minha sala de aula, levou um escorregão naquele longo e muito bem encerado corredor, estatelando-se no chão com jarra e tudo. A jarra voou pelos ares, naquele ambiente que respirava respeito e atenção de todos os alunos, e entrou como um meteoro em minha sala de aula, indo estilhaçar-se em cacos encharcados de água e gelo por todos os lados, junto ao quadro-negro. Aproveitei a patética cena para a fixação da aprendizagem. Anos mais tarde, em Teresópolis, encontrei numa farmácia, um médico que me reconheceu como seu ex-professor. Disse-me, abraçando-me com carinho e emoção: “METONÍMIA É O EMPREGO DA PARTE PELO TODO E DO CONTINENTE PELO CONTEÚDO. EXEMPLO: CHOVE A CÂNTAROS, COITADO DO IRMÃO LUÍS, FICOU TODO QUEBRADO”. Meu amigo Eduardo, o magistério é a melhor profissão do mundo... depois da de músico....


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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.