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22 de março de 2009

VERGONHOSA DEMOCRATIZAÇÃO







Quatro meses depois das chuvas que desabaram sobre Blumenau e região, destruindo ruas, casas e ceifando a vida de muita gente, a cidade ainda reclama pela atuação do poder público que se omite e não realiza seu dever de socorro às populações atingidas. O Jornal de Santa Catarina, de 21 e 22 de março deste ano de 2009, apresenta uma matéria que, se de um lado mostra a força e a perseverança dos cidadãos blumenauenses na reconstrução, com seu próprio esforço, por outro lado mostra também o descaso, a insensibilidade dos governantes, sua falta de visão política, na fraca gestão, na relaxada atuação, no seu péssimo comprometimento com a “res publica”, no abandono aos pobres e ricos. No abandono ao povo em geral. Uma total falta de respeito aos contribuintes, que já estão há quatro meses sofrendo. O Estado não se fez totalmente presente para reparar os danos causados pela natureza que destruiu uma cidade encantadora como Blumenau. Não me venham dizer que ainda não houve tempo para terminar todos os reparos. Num país sério, com um poder público honesto, competente e profissional, isso já estaria sanado. Pelo menos os estragos materiais, porque os estragos continuam na deteriorização da credibilidade dos políticos. Infelizmente essa verdade está corroborada por sociólogos, mestres e doutores entrevistados pelo Jornal de Santa Catarina, na reportagem a que me referi. Como estava passando uns dias em Blumenau, sempre pesquisando sobre as linguagens desviantes, aproveitei para fotografar as casas que foram totalmente destruídas numa avalanche incrível, documentada na época, pelas câmaras amadoras de vizinhos e tudo transmitido pelo Jornal Nacional da rede Globo de Televisão, comovendo o Brasil que se consternou e respondeu –presente - ajudando ao máximo. Eram residências de classe média alta, bem perto do centro da cidade, de gente de alguma posse, mas estão do mesmo jeito até hoje, tudo sem solução, servindo de ponto turístico, pois, com o meu, eram, hoje de manhã, seis carros parados em frente, fotografando a tragédia de quatro meses atrás. Mas uma coisa ficou bem claro. A vergonhosa democratização do abandono aos contribuintes infortunados, pobres e ricos. Uma vergonha. Acorda, povo brasileiro!

ATÉ BREVE.


11 de março de 2009

UMA FIGURA E UM SORVETE

Estou em Porto Alegre desde domingo, dia 8 de março. Vim a passeio, desde Gramado, e aproveitei para visitar um grande amigo que, depois de se aposentar no Rio de Janeiro, está dando aulas – na sua especialidade - trabalhando nessa capital bonita e alegre, porto importante do último Estado da Federação, cortado pelas estradas federais, vindas dos Estados ao norte. Meu amigo é especialista em Literatura Portuguesa e um dos maiores conhecedores da teoria psicanalítica de base freudiana e lacaniana em nosso país. A recepção foi espetacular. Almoços, passeios pelos principais pontos turísticos da cidade, encontros com gente importante da sociedade porto-alegrense e até com folclóricas figuras, dignas ou fugidas dos filmes de Frederico Fellini. Falar dos respeitáveis doutores, que ele me apresentou ou falar das distintas damas e dos conhecidos com quem se encontrava, nos finos restaurantes, narrar os encontros com todos os que privam da sua intimidade não causaria nenhum impacto nos meus leitores, pois seria tão redundante quanto falar da sagaz inteligência de meu extrovertido amigo. Mas ele é diferente mesmo! Portanto, não poderia deixar de ter me apresentado àquela interessantíssima figura com quem se encontrou dentro do chique shopping Moinhos de Vento. Disse-me que se tratava de um tal Ricardinho, fazendeiro, homem rico, mas mal resolvido das idéias, completamente pirado, doidão, pois seu pai não concordou que ele fosse jogador de futebol profissional do Internacional. O cara era mesmo muito estranho, gordo e barrigudo, desajeitado, mal vestido para frequentar lugar tão sofisticado como aquele em que nos encontrávamos. Falamos algumas bobagens, despedimo-nos e deixamos para trás aquela sombra frustrada de um craque da bola, que mergulhou profundamente no seu pensado desejo e se presentificou no imaginário como fantasia delirante de uma esquisofrenia manifesta, deixando para trás o real, expectro irremediavelmente interditado e reprimido por alucinações latentes... Aí, meu amigo e eu fomos tomar um sorvete porque estava fazendo um calor dos diabos.


ATÉ A PRÓXIMA



3 de março de 2009

TRABALHO DE SÍSIFO DIFERENTE


Vi um homem carregando enorme embrulho, quase o dobro do seu tamanho. O coitado levava-o à cabeça e o trambolho afundava-lhe o pescoço. A cena lembrou-me um caso que ouvi, conversando com o Luiz Fernando, simpático e eficiente gerente de Relacionamento da Agência Lages do Banco do Brasil. Fui até ele para pedir ajuda, pois havia esquecido em casa o cartão de acesso à minha conta e estava em Lages, a caminho de Gramado, como sempre faço depois que termina a alta temporada turística. Tudo fica mais vazio e as coisas fluem com muito mais prazer, pois a agitação, que toma conta de todo mundo, começa a descansar, voltando as coisas para os seus devidos lugares. Uma beleza! Depois de alguns minutos de conversa com o Luiz Fernando, dizendo-lhe o que fazia, como eram os meus BLOGs, de que temas tratavam, ele me disse que há uma revista chamada BB.Com, onde o banco resgata as mais diversas ocorrências sérias, dentro ou não das atividades de crédito ou pecuniárias, divertidas umas, constrangedoras outras, mas todas verídicas. Enfim, uma publicação que resgata a história da vida bancária dos municípios e regiões de todo o Brasil. Mas, voltemos à cena inusitada do início dessa crônica. Aquilo me lembrou as peripécias, registradas na tal revista, por que passou um cliente do Banco do Brasil, muito conhecido na região de Lages, nos anos 60, cidadão que deu ao banco muito lucro, pois sempre foi salvo pela agência com empréstimos para pagar rapidamente as contas de encrencas e mais encrencas, sempre envolvido com "rabos de saias". O sujeito era galanteador emérito, frequentador da próspera sociedade lageana da época, e soltava as asas, na ocasião, para uma senhora, muito conhecida, mas muito mal casada e, por isso mesmo, correspondia aos galanteios do Dom Juan das regiões serranas catarinenses. Um belo dia recebeu o sinal verde da desesperada senhora, ávida por carinhos e pelo relacionamento carnal com o homem, que haveria de reabilitá-la para os verdadeiros prazeres da vida. Na carta que recebeu, a dama dizia que numa segunda-feira tal - era inverno - , o marido viajaria. Assim, estava tudo preparado para que seu fervente amor explodisse na tarde gelada da verde e bela cidade serrana. Mas frisava com as palavras sublinhadas que se alguma coisa desse errado na hora era só dizer ser ele um pretendente à compra de um sofá, à venda já há algum tempo. Tudo combinado. O homem foi, bateu palmas ao portão. O marido, alto, forte, mal-encarado, todo vestido de preto, perguntou o que o cidadão queria. Nosso herói engasgou, mas viu logo que alguma coisa estava errada. Respondeu que veio ver o sofá. Entrou examinou a sala com olhos ariscos, pegou naquela coisa enorme e feia, mediu com os pés o tamanho do móvel e perguntou quanto custava. Saiu rapidamente dizendo que voltaria, caso decidisse comprá-lo. Voltou, depois de novo sinal verde. Agora parecia que tudo estava em ordem e ele se deliciaria com aquela brancura de mulher, fruto verde de seus desejos. Outra decepção. O marido também não viajara, sabe-se lá por quê... Depois de ouvir as palmas ao portão e vendo o mesmo homem que em sua casa estivera, pegou-o pelo braço, introduzi-o na sala e perguntou se trouxera o dinheiro. Sim, vou comprá-lo e levá-lo agora mesmo comigo. Mas o senhor veio a pé, disse o marido. Não há nenhuma condução lá fora! Aí, nosso picaresco Don Juan, percebendo a besteira que havia dito e, para se livrar de tão embaraçada situação, pagou o preço combinado na primeira visita, pediu uma ajudinha e colocou aquela monstruosa peça vermelha na cabeça, iniciando a subida da rua em ladeira, com o pescoço enterrado no ombro já todo torto. Então, iniciou um percurso incrível, sem destino e objetivo, rua a fora, subida a cima. Um verdadeiro "Trabalho de Sísifo", que o salvou de uma terrível surra.

ATÉ A PRÓXIMA

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.