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29 de maio de 2016

VERSEJAR É PRECISO, MAS É DIFÍCIL






“Presença no firmamento
em noite clara, estrelada:
– É o amor de Deus que, atento,
nos guarda na madrugada”.



Atendendo a um consulente que me pediu uma explicação sobre incoerência lírica, escolhi um exemplo de equívoco conceitual em poesia,  para mostrar esta situação. Um equívoco conceitual ocorre, por exemplo, na trova acima, premiada em concurso literário, colhida na revista da UBT, dezembro de 2015, incluída entre as Líricas e Filosóficas. O equívoco conceitual leva a uma  incoerência lírica, pois o lirismo fica prejudicado em sua plena realização. 
Este equívoco conceitual diz respeito ao sentido que os dois primeiros versos da trova citada, in caput, deveriam conter, para a conclusão surgir nos dois últimos versos da trova. E é assim que esse tipo de gênero lírico popular funciona.

Os dois primeiros versos da trova transcrita não propõem nada e os dois últimos tentam concluir o que não foi proposto.

Senão, vejamos: “Presença no firmamento / em noite clara, estrelada:”

     Presença do quê, ou de quem? A função denotativa da linguagem, de acordo com o texto, está predominando sobre a função conotativa, sem constituir uma ilação entre o concreto e o abstrato, material com o qual o sujeito lírico trabalha, para arquitetar uma subjetividade, através do código linguístico, explicitando o poético. Portanto o poético se fez excludente.

 E mais, os dois últimos versos, que na realidade representam um dístico, são uma resposta, percebida pelos diacríticos formais, dois pontos e travessão, que os estruturam como tal. Sendo respostas, os dois primeiros versos deveriam funcionar como a indagação. Isso não ocorreu. Logo a falta de uma proposição e da esperada conclusão  prejudicam o fazer poético e proporcionam um falso lirismo. Incoerência lírica.
Por outro lado, a nosso juízo, e já nos afastando de um equívoco conceitual, mas imbricado com a forma de se escandir um verso, é importante salientar que não só a contagem silábica deve ser levada em conta, mas também a indicação que o autor faz, com elementos diacríticos, no caso as vírgulas, indicando a pausa na leitura, para justificar um aposto, ou uma qualificação, ou um predicativo, para dar sentido à frase, pois nunca o aspecto fonológico poderá suplantar o semântico, devendo os dois conviver harmoniosamente, no plano da formatação dos gêneros poéticos.

Eis as dificuldades, o mistério e a beleza do versejar. Assim sendo, a sinalefa /kya/, resultante de “que atento” (3º verso) pode ser possível, mas teria de se adequar à estrutura semântica, isto é, ao sentido que o autor quis dar ao verso. Portanto, se estes dois últimos versos fossem realmente a resposta de alguma indagação poética, o aspecto semântico só se presentificaria, se o leitor obedecesse ao ritmo imposto pela pontuação, que o próprio autor definiu com as vírgulas. Seria assim, numa metalinguagem crítica: Isto é o amor de Deus, o qual Deus, sempre atento a tudo, nos guarda e nos protege na madrugada. Versejar é preciso, mas é difícil...



ATÉ A PRÓXIMA




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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.