Quantos me visitaram ?

2 de agosto de 2007

SOBRE O TERMO DEGRAVAÇÃO






“A degravação dos diálogos dos últimos momentos do vôo,

divulgada ontem pela CPI do Apagão Aéreo,

mostra indícios de ao menos duas dessas falhas”

(Karla Correia, in JB ONLINE, 2 de agosto de 2007)


Meu amigo Ivan, além de competentíssimo cirurgião, PhD em neurologia, com tese defendida na USP e com vários cursos de especialização na Alemanha, é um apaixonado pela língua portuguesa, expressão de nossa cultura e pátria de nós todos, brasileiros, portugueses, africanos, asiáticos e até norte-americanos do Havaí, para quem não sabia... (Se mais terra houvera, lá chegara, já dissera Camões) Pois bem! O rapaz ficou angustiado por não ter conseguido encontrar uma explicação para o que lia, num texto sobre o caos aéreo que nos aterroriza e que enlutou o país.

No texto da jornalista Karla Correia, que abre essas considerações, o termo DEGRAVAÇÃO pode causar espanto àqueles que não estão acostumados a encontrar, aqui e ali, e até, muitas vezes, na linguagem jornalística, neologismos os mais estranhos. Alguns até interessantes, outros completamente dispensáveis. Mas não é só na linguagem jornalística que vamos encontrar essa forma de aumentar o léxico da língua. Aliás, o léxico de uma língua se amplia por inúmeros processos de formação de palavras, e o neologismo é um deles. Mas, voltando aos comentários, tenho observado que as linguagens que mais apresentam esse tipo de criação vocabular são as dos discursos políticos, onde muitas coisas acontecem e surgem como expressividade. O problema é que, como já dissemos, há coisinhas e mais coisinhas que não são muito expressivas... Quando um candidato a um cargo público, não muito letrado, ou completamente ignorante de seu idioma pátrio, se dirige, do alto do palanque, ao seu público, pode criar termos inusitados, além, é claro, de estropiar a regência e a concordância verbais e nominais do pobre idioma. Isso é muito comum, hoje em dia. Um político com um microfone nas mãos, em ambiente aberto ou fechado, é um perigo incomensurável para a nossa sintaxe. Estão lembrados do famigerado IMEXÍVEL do ex-ministro Rogério Magri? Ele havia dito, um dia, que seu chefe era "imexível". Pois bem, com esse caso de criação vocabular o ministro passou para a história e o seu chefe sumiu nos subterrâneos do anonimato, mostrando que chefe, na política, é mais para receber D.A.S. do que para exercer comando, mando e controle sobre as coisas da “res publica”. IMEXÍVEL segue a deriva da língua, obedecendo ao processo de formação de palavras, por meio de prefixação, como "intocável", "inegociável", "ilegível" etc. Pronto, meu caro amigo Ivan, o “palavrão” foi resgatado e está fagueiro, freqüentado as listas dos regenerados... Agora vejamos o tal vocábulo DEGRAVAÇÃO. Pelo que se pode entender, no contexto em que foi empregado, o diálogo entre os pilotos e a Torre de Comando foi gravado (houve uma gravação) na Caixa Preta do Airbus da TAM, talvez numa codificação especial, diferente da de um simples gravador de uso comum. Codificação é o ato ou efeito de codificar, que significa construir mensagens segundo um código acessível ao destinatário, escolhendo os sinais ou signos correspondentes ao conteúdo da mensagem na ordem correta e introduzindo-os no canal. Estão, portanto, apresentados alguns elementos básicos do processo da comunicação: a mensagem; o código; o canal. Já o processo de tradução do que foi codificado será a decodificação, isto é, a conversão da mensagem codificada em linguagem inteligível. Isso só para ficarmos nessa introdução à Teoria da Comunicação, dentro do esquema de Shannon & Weaver. Mas que parte da palavra DECODIFICAÇÃO deu a idéia de TRADUÇÃO, de retirar a codificação realizada? Claro que foi o prefixo DE. O mesmo caso em: DECIFRAR (DE + CIFRAR). Muitas vezes o prefixo DES é usado em lugar de DE. Meu querido e saudoso Mestre, Sílvio Elia, grande filólogo da língua portuguesa, preferia DESCODIFICAÇÃO a DECODIFICAÇÃO. Quando usamos o verbo GRAVAR, indicando marcar, imprimir, empregamos como antônimo o verbo DESGRAVAR, isto é, desfazer a gravação. DEGRAVAÇÃO é isso, meu amigo, um neologismo formado dentro da deriva da língua, faltando somente o uso e o registro desse uso. Não se desespere, pois a nossa língua, a todo instante, está nos pregando cada susto! E não são só certos tipos de políticos apedeutas de Brasília que poluem nossa língua! O novo ministro da Defesa, homem culto, de voz impostada e doutor nas leis maiores, também tropeçou no SOB e tacou um baita e indisfarçável SOBRE, falando ao Jornal Nacional. Vocês perceberam? Mas o que eu queria mesmo era criar um neologismo gigantesco, daqueles que nunca mais deixasse de ser usado e ficasse eternamente ecoando nas nossas mentes... Sabem qual seria? DESLULARIZAR. Vamos, minha gente, vamos DESLULARIZAR o Brasil!

11 comentários:

Eduardo disse...

Caro professor,

Nesse caso o termo DEGRAVAÇÃO significa TRANSCRIÇÃO. É muito usado em eventos e em publicidade com esse sentido.

Professor Feijó disse...

Prezado Eduardo.
Agradeço sua atenção à leitura de meus textos. escritos sem nenhuma pretensão de serem infalíveis. Mas nesse caso de DEGRAVAÇÃO, creio que é mesmo um neologismo. A significação é essa mesmo: transcição, tradução do que foi gravado. Partindo de um mote, tento tecer comentários nessa área da lingüística e da filologia. Obrigado pela sua participação nessa conversa filológica.

Alisson disse...

Viva nossa língua viva!

Leandro disse...

Prezado Eduardo,
Degravação nesse sentido, pode não se tratar necessariamente de algo gravado criptografado ou codificado, mesmo que seja uma gravação normal, como a de uma escuta telefônica por exemplo, degravá-la significa passar para o papel, em forma de diálogo, tudo o que foi gravado.
Sou policial, e trabalho com degravação de escutas de quebra de sigilo, significa apenas passasr para o papel, não é necessário que essas informações estejam codificadas

Oneide disse...

Catei no google e vim parar aqui. Tô estudando processo civil e essa palavra aparece muito na parte sobre audiências - "o juízo deprecado poderá ficar dispensado da incumbência da degravação da audiência, com a transcrição dos depoimentos e a juntada do CD aos autos" CHAAAAAAAATO!!! hehehehe

Anônimo disse...

Trabalho em uma empresa que faz degravação, transcrição, etc. Precisando de alguma coisa estamos as ordens.

www.infrax.com.br

Fabricio Licks disse...

Meus caros. Faço um apelo para que parem de divagar sobre algo tão absurdo. Gravar significa marcar, estampar, imprimir ou riscar, sendo a degravação, ou desgravação, o ato desfazer os verbos anteriores. A utilização do termo degravação como sinônimo de transcrição é uma aberração de linguagem, termo chulo e vulgar. Quando a linguagem se transfere de uma forma para outra tendo como meio um interlocutor, ocorre uma transcrição. Tal termo foi adaptado à nossa brilhante linguagem jurídica com o objetivo de dar suporte técnico as gravações feitas em fita magnética e depois transcritas para a linguagem escrita. Não é brilhante? Um prodígio jurista deve ter pensado: se o som entra no gravador e dizemos que ele foi gravado, por lógica, quando ele sai é degravado. Brilhante! E quem anota o que ouve faz o que? Professor Feijó, tradução e transcrição não são sinônimos. Na transcrição teremos a mesma língua, porém outra forma de linguagem. Já na tradução, teremos outra língua, na mesma forma, ou não. Obrigado pela atenção e parem de inventar as palavras, isso é coisa de adolescente em bate-papo de internet.

Professor Feijó disse...

Meu caro, usei o vocábulo TRADUÇÃO dentro do Processo físico da Comunicação. Agora, fora desse contexto, Fabrício, você está com toda razão. Mas aqui vale o contexto de minhas mal traçadas linhas...
Um abraço do Feijó.

Anônimo disse...

Degravação: transcrição executada por um servidor público. Possui fé pública.

Transcrição: transcrição executada por qualquer pessoa. Não possui fé pública.

David disse...

Sobre o último comentário, apenas discordo num ponto. Realmente, qualquer pessoa pode fazer uma transcrição, porém um perito, seja arquivista, biblioteconomista, museólogo etc, com especialização em paleografia e diplomática, pode fazer a transcrição de documentos, que perante a justiça terão fé pública.

Anônimo disse...

Nelson Azevedo Jobim nunca foi doutor ele é BACHAREL em direito.

Quem sou eu

Minha foto
Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.