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7 de março de 2008

ACROGRAFIA



Existe uma sigla em Portugal que sintetiza, por meio de uma abreviatura, uma locução relacionada à ajuda econômica da União Européia aos países membros. Essa forma de grafia se chama acrografia. Mattoso Câmara Jr. assim se refere a essa particularidade da língua escrita:

“Acrografia é uma grafia em abreviatura, de uma locução por meio das letras iniciais dos vocábulos componentes, que formam em conjunto um nome próprio; ex. REW (Romanisches Etymologisches Wörterbuch) para o “Dicionário Etimológico das Línguas Românicas” de Meyer-Lübke; em português, como nas demais línguas modernas, lança-se mão da acrografia para – títulos de obras, revistas e jornais em citação (ex.: REW), partidos (ex.: ARENA para “Aliança Renovadora Nacional” e MDB para “Movimento Democrático Brasileiro”, departamentos, organizações e até nomes de países (ex.: MEC, para o “Ministério da Educação e Cultura”, no Brasil; ONU para a “Organizaçãodas Nações Unidas”, USA para os “Estados Unidos da América” em sua forma inglesa de United States of América; URSS para a “União das Repúblicas Socialistas Soviéticas”), mais recentementenomes de autores, figuras políticas (MA, para “Machado de Assis”); etc." (Cf. Dicionário de Lingüística e Gramática, Petrópolis, Vozes, 1977, p.40)

Como se vê, a acrografia ou sigla é um recurso muito usado na língua escrita e que serve para economizar letras, abreviando palavras ou expressões extensas. Mas, se observarmos bem, vamos ver que a sigla forma uma nova pequena palavra que entra no vocabulário ativo do falante, podendo confundir o falante-ouvinte. Parece que é o caso da leitura equivocada da abreviatura grega do nome de Cristo, Xpto, que pode significar, entre outras coisas, excelente qualidade, primoroso, magnífico e, também, ungido e Jesus. Sabe-se, também, que das siglas podem derivar palavras, como de PT (Partido dos Trabalhadores) surge petista, o militante, ativista ou adepto do PT.

Pois bem, em Portugal, fixados em lugares públicos de grande circulação de pedestre e veículos, há enormes out-doors com letras garrafais, apresentando a sigla FEDER. Trata-se do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional que se destina a reforçar a coesão econômica e social na União Europeia, através da correção dos desequilíbrios regionais. Esse Fundo financia e promove ajudas diretas aos investimentos realizados nas empresas, a fim de criar emprego duradouro, além de fomentar infra-estruturas ligadas à investigação, à inovação, às telecomunicações, ao ambiente, à energia e aos transportes. Promove ajuda, através de instrumentos financeiros, fundos de capital-de-risco, fundos de desenvolvimento local, etc, apoiando o desenvolvimento local e regional, favorecendo, assim, a cooperação entre as cidades e as regiões. Por tudo isso, percebe-se que esse Fundo é muito importante para o desenvolvimento nacional.
Mas, pergunto:
Precisavam abreviar esse importante Fundo de Desenvolvimento Regional assim? F E D E R coincide com o verbo homógrafo que exala mau cheiro ou causa aborrecimento.
Por outro lado, não podemos nem pensar que nessa sigla FEDER, propositadamente, está embutido o sentido da forma latina foedus, eris “tratado”, “convenção”, “aliança”, sempre muito usado, dando origem a vocábulos como federação, federar-se, federal, federalismo, confederado, confederativo e sentidos amplos como fazer aliados e união.
Cremos que foi mesmo coisa de português, isto é, da língua portuguesa, para não sermos indelicados...
O mais curioso é que, passando-se por um pequeno, mas próspero município de Santa Catarina, entre Guaramirim e Blumenau, justamente na entrada de Massaranduba, encontra-se um enorme cartaz, com grandes letras maiúsculas em vermelho, que traz a mesma forma lingüística FEDER, anunciando uma empresa de construção. Lá, não consegui perceber a acrografia. Será que, por ser uma região colonizada por alemães, esse FEDER não corresponderia a algum sobrenome de família? Tudo é possível!
Tentem decifrar.
Fotografei para não deixar dúvidas sobre o mau gosto do empresário.

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.