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1 de agosto de 2017

UMA TROVA HUMORÍSTICA









O ritmo inspiratório e expiratório do ato da respiração corresponde ao tempo da pronúncia de um verso de redondilha maior, ou heptassílabo, na língua portuguesa. Por isso, existem versos de rendondilha maior que são pronunciados nesse tempo subjetivo, muitas vezes, e que não correspondem aos parâmetros dos pés poéticos de nossa língua. Sabemos que em português há os seguintes pés métricos:

             troqueu ou trocaico: ó – o                                                                                 (ca – sa)
             jambo ou jâmbico: o – ó                                                                                   (can- tar)
             dáctilo ou dactílico: ó – o – o                                                                        (pá – li – do)
             anapesto ou anapéstico: o – o – ó                                                          (per – ce – ber)
             péon primo ou peão primeiro: ó – o – o – o                                         (ví – a – mo – lo)
             péon quarto ou peão quarto: o – o – o – ó                                         (re – vo – lu - ção)

Todos correspondem a vocábulos morfológicos ou a vocábulos fonéticos. Vocábulos morfológicos são as palavras da língua, com mais de uma sílaba. Ex. os substantivos, os adjetivos, os verbos, os advérbios, algumas preposições, algumas conjunções, algumas interjeições. Vocábulos fonéticos são vocábulos morfológicos que aglomerados formam um tipo de pé métrico. Ex. Visconde de Abaeté.
Observe: 1- na pronúncia, houve a queda da preposição DE.  Esse fenômeno é uma haplologia sintática. 2- em seguida, houve, ainda na pronúncia, a formação de um ditongo crescente intervocabular, formado pela última sílaba de VISCONDE e a primeira sílaba de ABAETÉ. /dya/.
É, também, importante salientar que na língua portuguesa não há a possibilidade de existir mais de três sílabas átonas seguidas, sem que uma se torne tônica. Portanto, não existe, em português, o seguinte pé métrico: (- o – o – o – o -), isto é, sequência de três sílabas átonas. Se houver, uma vai se tornar forte, tônica.
Assim, a pronúncia de Visconde de Abaeté será viscondyabaeté, formando dois pés métricos. Um jâmbico (o – ó), vis – com; e outro péon quarto (o – o – o – ó), dya – ba – e – té.    
Na métrica portuguesa os versos de duas a doze sílabas têm nomes especiais, de acordo com o número de sílabas, mas só apresentam cesura fixa rígida os versos decassílabos e alexandrinos, isto é, os de dez e doze sílabas métricas, respectivamente, e alguns outros. Portanto, os chamados versos menores não apresentam necessariamente cesura, isto é, não precisam se enquadrar nos tipos dos pés métricos apresentados acima. Contudo, os pés existem, pois foram adaptados à estrutura fônica da língua portuguesa, que é de ritmo intensivo e não de ritmo quantitativo, como o grego e o latim.  Joaquim Ribeiro dizia que o ritmo é tão presente na língua falada que até os xingamentos são vociferados em redondilha maior...
Isso posto, passemos a examinar, os versos da seguinte trova de Antônio Juraci Siqueira:

Cinco litros entornava!
Nunca vi alguém beber tanto!...
E, quando alguém perguntava,
dizia que era "pro santo".

Trata-se de versos heptassílabos como ocorre nas trovas, um tipo de poema de forma fixa, composto de quatro versos de sete sílabas métricas cada um, com rimas no esquema ABAB.
O que tentaremos ressaltar nessa análise é justamente um fenômeno fonético interessante, que ocorre em versos menores, quanto ao número de sílabas métricas, justamente aqueles que não apresentam cesura fixa. Ocorre que a pronúncia do verso desfaz a cesura que se consubstanciou, não fora propositadamente estabelecida no verso.  Isso ocorreu no segundo verso da trova. “Nunca vi alguém beber tanto”. Se aplicarmos as cesuras, teremos: Um pé anapéstico: NUN – CA - VI  (o – o – ó); um pé jâmbico: AL – GUÉM (o- ó); outro pé jâmbico: BE – BER (o – ó); e um pé trocaico: TAN – TO (ó – o). Mas na leitura, obtém-se sete sílabas métricas, desprezando-se os pés métricos, por força do surgimento de um tritongo, fenômeno fonético intervocabular / vyaw /, caso específico de sinalefa.
Concluindo, diríamos que o verso pode ter sete ou oito sílabas métricas, bastando o leitor focar a leitura, inconscientemente, nos pés métricos ou obedecer ao seu ouvido, buscando o ritmo heptassílabo, vindo do primeiro verso, que possui, indiscutivelmente, sete sílabas métricas, distribuídas pelos três vocábulos morfológicos: cinco, litros, entornava: um numeral, um substantivo e um verbo, todos vocábulos com plena significação semântica.  O terceiro verso da trova apresenta uma conjunção aditiva, que tem o papel fônico de compor a estrutura rítmica, apresentando o quarto e último verso uma sinalefa forçada, para compor, igualmente, o ritmo da redondilha maior.
Esta trova, um tipo de quadra, é uma peça humorística, onde a brincadeira compõe uma estrutura rítmica dentro dos padrões da língua portuguesa. Portanto, vimos que qualquer texto poético, estruturado ritmicamente, isto é, enquadrado dentro de parâmetros e regras de confecção, pode servir de matéria prima para a microanálise estrutural de formas e conteúdos. Trata-se de uma entre outras formas de poema fixo, que nos deu bom exemplo de um tipo de humor: o humor como riso.

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.