Quantos me visitaram ?

7 de novembro de 2008

CORRIDA DE BARATINHA II

Millôr Fernandes, o mais culto e inteligente jornalista (e muitas outras coisas boas a mais) brasileiro em atuação, escreveu essa verdade cristalina (ver embaixo AUTOMOBILISMO), carregada da mais pura verdade, repleta de octanagens, comentando esse tal de esporte chamado de Fórmula 1. Esporte? Que nada! Há alguns anos, publiquei no jornal português da cidade do Porto, O PROGRESSO DA FOZ, uma crônica intitulada CORRIDA DE BARATINHA. Fiquei esperando que algum dos 100 leitores brasileiros (havia 100 brasileiros assinantes daquele mensário aqui no Brasil) dissessem alguma coisa sobre o assunto, apoiando-o ou renegando-o. Que nada! Ou não leram ou deixaram pra lá. É o preço que se paga por não ter estilo... Agora, vibrei com esse texto do Millôr. Bravos! É isso mesmo! Essa tal de Fórmula 1 pode ser uma atividade de pesquisa que procura principalmente o desenvolvimento de tecnologias aplicadas à indústria automobilística ou qualquer coisa parecida, mas esporte não é. Que esporte é esse em que o técnico manda um atleta fingir que perde e outro fingir que ganhou? Millôr foi fundo e disse tudo. Na época, eu fiquei indignado, porque quem deveria pisar no acelerador, pisou na bola...



Vou republicar meu texto de novembro de 2004.



CORRIDA DE BARATINHA


Eu sempre disse que Fórmula 1 não é esporte. É uma atividade de pesquisa que procura principalmente o desenvolvimento de tecnologias aplicadas à indústria automobilística. É uma atividade de aceleração social, mas, não é esporte. Para tanto, precisa de recursos e altos investimentos. Necessita, ainda, de um grande número de pessoas e instituições que lhe proporcionem a divulgação de suas atividades, entre tantas outras coisas. A Fórmula 1 surgiu da prática automobilística das corridas de baratinhas (os carros pareciam charutos com grandes rodas, lembrando baratas, daí a metáfora), como acontecia no passado, há uns cinqüenta anos, mais ou menos. Naquela ocasião, a lisura empolgava o público em eventos emocionantes. Eram outros tempos... Até vidas heróicas eram ceifadas em nome da aventura e do entusiasmo. Tudo dignificava a disputa, envolvendo o vencedor nos louros da lídima e incontestada vitória.

A fórmula 1 evoluiu e conseguiu que multidões de aficionados consumissem seus produtos promocionais, comprando bilhetes para as corridas e muito mais, criando um marketing que funciona e propaga seus espetáculos com grande sucesso. A tecnologia desenvolvimentista, travestida de competição esportiva conseguiu, durante muito tempo, enganar a todos. Mas no domingo 12 de maio de 2002, na Áustria, a máscara caiu. A tal Equipe da Ferrari mandou que Rubinho não mais pisasse no acelerador e, assim, ambos pisaram na bola. Agora, não me venham dizer que Rubinho teria que desobedecer a ordem da chefia. Que ele deveria se insurgir contra um absurdo desse tamanho. Que nada! E seu contrato? E sua conta bancária? Como tudo isso ficaria? Outros dizem que a Fórmula 1 é um esporte individual e não coletivo, portanto Rubinho foi violentado em seu comportamento, em sua forma de conduzir a máquina e a corrida. Meus amigos, como diria João Saldanha, Fórmula 1 não é esporte individual, nem coletivo, porque não é esporte. É experiência. Pesquisa tecnológica aplicada, como já dissemos. Imaginem que, se num campeonato estadual de futebol, aqui no Rio de Janeiro, houvesse, na mesma disputa, um time principal do Flamengo e outro de aspirantes, como se dizia antigamente e, da mesma forma, dois Vascos, dois Fluminenses, dois Botafogos e muito mais. Isso não funcionaria. Não seria competição esportiva; não seria nada.

João Saldanha estava mesmo certo! Ele jamais considerou a Fórmula 1 como esporte, mesmo nos tempos áureos de Nelson Piquet e Ayrton Senna. Uniforme de atleta com bordados de marcas multicoloridas e grifes diversas com vários patrocinadores não pode inspirar seriedade e a competição fica comprometida. Estava certíssimo o saudoso jornalista brasileiro, o realmente técnico. Michael Schumacher e Rubens Barriquello também foram iludidos, pensando que estavam numa equipe promotora de atividades esportivas. Seus contratos – e isso foi dito pelo próprio Rubinho – apresentam termos, pelo menos, contra tudo que se refere à ética esportiva... Deixar um colega de equipe ultrapassá-lo é o mesmo que entregar o jogo no dizer do jargão do futebol, para que outro time possa se tornar campeão. Não. Fórmula 1 não é esporte e não pode ser mais considerada competição séria nessa área. Algo para valer! Mas foi apresentada ao mundo como tal e, por isso, sofre hoje a repreensão de toda a crítica especializada, inclusive dos próprios torcedores da Ferrari.

O mal que esse episódio representou para todos os amantes do automobilismo puro como o de muitos anos atrás, mesmo para os torcedores da Ferrari, para os fãs de Schumacher, de Barriquello e de todos os azes do volante do mundo inteiro, de hoje e de ontem, foi incomensurável, porque abalou os alicerces daquilo que o verdadeiro esporte tem de mais significativo. E vejam que são coisas muito importante como a pureza, a honestidade e a competitividade, acima do bem e do mal. Mas tudo ficou abaixo da mediocridade, sobretudo com a decisão indecente dos dirigentes de uma Scuderie, ávida pelo sucesso a qualquer preço, perseguindo a vitória, às custas da dignidade que deveria envolver qualquer competição esportiva. Fórmula 1 não é, e nuca foi esporte. E as corrida de baratinhas?... Ah! Isso era outra coisa!

Agora, o texto impecável de Millôr Fernandes















Automobilismo


Como a humanidade é feita de patetas – exceto nós dois – babando diante de corrida de automóveis, foi fácil transformar um antigo e emocionante esporte numa papagaiada circense – circo vulgar e mercenário, pura máquina de fazer, e/ou lavar, dinheiro. O escândalo diante da constatação pública dos dois neurônios de Barrichello – e não muitos mais de Schumacher – só fez mostrar quantos tem o cara que vai pra arquibancada ver um zum-zum-zum que passa na sua frente, dentro do qual, o convenceram, vai o Schumacher ou ia o Senna.No auge do endeusamento do Senna eu dizia pros meus amigos, homens-feitos, pais de família!: "Que p... é essa? Vocês nunca viram o Senna correr. Viram Senna no boxe, ou Senna dentro do carro, quer dizer, um pedaço de capacete visto por trás, que pode ser de qualquer um. Isso na tevê. Ao vivo vêem apenas bólidos de brinquedo passando, enquanto, numa tela, numerinhos eletrônicos dizem que o herói João está um milésimo de segundo na frente do herói Joaquim. Vibração!". Mas houve um tempo. Me lembro de ir de automóvel – as estradas não eram como as de hoje, enfrentá-las, isso sim, era uma aventura – até São Paulo, nos primórdios de Interlagos, pra ver uma corrida ainda emocionante. Porque emocionante mesmo era, muito antes disso, a corrida da Niemeyer, com toda a razão chamada Trampolim do Diabo.Era o espetáculo. Você via passar, na sua frente, cara a cara, através dos anos, um Irineu Correia, um barão de Tefé, um Pintacuda, um Chico Landi. Em pessoa, não eletrônicos, e, vocês não vão acreditar, sem patrocinador.E você estava ali, junto, ocasionalmente protegido por meia dúzia de sacos de areia. Você também arriscava a vida. Espectador radical.No canal do Leblon, de repente, um carro explodia, voava – quem foi, Irineu Correia? – pruma fotografia impressionante que saía em página inteira no Diário da Noite, um jornal verde que tinha sete edições diárias. Radical, como esporte – e como jornalismo –, é isso aí, ô meus! Agora até a emoção dos acidentes é forjada – o herói vale muito dinheiro.
Na maior parte das derrapagens ou batidas não morre, nem mesmo se fere, ninguém. A proteção ao corredor é quase perfeita. No acidente com Piquet ele quase perdeu os pés porque essa parte do corpo é praticamente impossível de ser protegida. E o acidente com Senna foi... um acidente. Um pneu que sobe e cai sobre a cabeça do piloto. Não vai se repetir.Hoje morar em Viracopos, debaixo da ponte aérea, é mais radical do que pilotar uma Ferrari. E uma disputa de skate também é muito mais perigosa, portanto mais emocionante, do que qualquer Fórmula 1. Esteticamente, então, nem se fala.E skate você também vê com os próprios olhos, não precisa de eletrônica pra dizer quem foi o melhor. Nem precisa ler o contrato.



ATÉ A PRÓXIMA





Um comentário:

Anônimo disse...

Anônimo disse...
Prezado Professor Feijó,

Seu texto é excelente assim como do Millôr.

Fórmula 1 nunca foi esporte! Prefiro ficar com a recordação de um tempo em que não vivi.

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009


Maria Cristina de G. L. Pedroso

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

Arquivo do blog

Quem sou eu

Minha foto
Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.