Quantos me visitaram ?

7 de junho de 2017

DE SANTA CATARINA PARA O CAIS FAROUX




-I-
É muito bom andar pelo planalto catarinense, visitando as cidades de seu entorno. São várias. A maior é Lages e creio que a menor seja Ponte Alta, às margens da BR 116, a 16 km de Corrêa Pinto. Por aquelas bandas já estive com meu amigo fantasma. Lembro-me bem que ele se apaixonara perdidamente por uma alma penada que vagava por um casarão abandonado, ao lado de um posto de gasolina... Registrei em uma crônica do passado. Pois é, a pequenina cidade não mudou nada, desde aquela época. Voltara agora lá, para comprar uma abóbora redonda, própria para assar com os camarões, que eu trouxe do Mercado Público de Florianópolis. Seria a minha contribuição para a festinha, no sítio de um amigo, em São José do Cerrito, bem perto de Ponte Alta, que é considerada, por sua grande produção, a Capital Estadual da Moranga. Tudo conspirava para que as coisas saíssem o mais certo possível, quando o meu amigo fantasma me veio com essa. Porque eu tinha porque tinha de viajar com ele naquela hora para muito longe dali, pois tinha algo que me mostrar em outros sítios muito distantes e que era de meu interesse, e sabia que era coisa que eu estava querendo ver e saber há muito tempo, e já estávamos atrasados, eu tinha de sair daquela região o mais rápido possível... Não parava mais de falar! Tomei um baita susto. Argumentei que deixaríamos para depois da festinha de meu amigo catarinense; ficaria a viagem inesperada para o dia seguinte, pois tinha me comprometido com o grupo de levar um quitute e tudo mais. Responsabilidade é responsabilidade! Mas meu amigo estava irredutível. Queria me levar para outro lugar, alegando que eu não me arrependeria e não havia tempo a perder. Argumentei, então, com ar professoral, que o tempo dele, que vivia na eternidade, era diferente do meu, pobre mortal. Nós aqui na Terra estamos envolvidos por um sistema de significação diferente do dele. Nosso sistema de vida está na linha da sucessão contínua dos acontecimentos, uns depois dos outros e assim vai. Ele tinha de entender que o sistema simbólico dos mortais não é compatível com o dos santos e muito menos com o dos fantasmas. Quando alguma coisa interfere, dizemos que aconteceu um milagre. Disse-lhe que nem sabia por que convivia com aquele estado atípico de relacionamento, com gente do outro mundo, com uma outra ordenação das coisas. Aí meu amigo se zangou. Não sou gente. Sou fantasma, e seu amigo! Espargiu uma nuvem branquinha e apitou como se fosse uma Maria Fumaça derrapando nos trilhos, querendo subir a serra e sumiu. Parece é que desceu para o litoral ou, quem sabe, se recolheu para meditar sobre o que havia escutado de mim, a respeito de nossa existência no real. Voltei ao hotel com a minha abóbora. Em cima da cama havia um bilhete úmido. Estava escrito: Fui para o Rio de Janeiro.

- II -
Como meu amigo fantasma, numa pirraça de criança mal-educada, havia me deixado no planalto central de Santa Catarina, com uma abóbora na mão e, encima da cama do hotel onde me hospedara, um seco, ou melhor, um úmido bilhete, dizendo que tinha ida para o Rio de Janeiro, respirei fundo e segui para aquela festinha lá, em São José do Cerrito, bem perto de Ponte Alta, a tal capital das abóboras. Estava tudo muito bom. Todos apreciaram o meu prato de camarão, mas me retirei cedo, pois meu amigo fantasma tinha me tirado do sério. Acho que o pessoal percebeu que havia alguma coisa comigo. Bem, ele me dissera que havia descoberto algo de meu interesse e partira para o Rio de Janeiro, onde, talvez me esperasse para voltarmos a conversar. Não titubeei, no dia seguinte já estava pousando no Aeroporto internacional Antônio Carlos Jobim, o Galeão, na ilha de mesmo nome, dentro da Baía da Guanabara. Então foi só esperar pelo seu aparecimento. O Rio pegava fogo e olha que estávamos no início do outono. Assim, nada melhor para se refrescar do que um gostoso banho de mar. À noite fiquei num barzinho honesto e distinto, com uma variedade enorme de batidas, que caíram muito bem com os tira-gostos e músicas do repertório impecável de Martinho da Vila, que mesmo sem estar presente animou aquelas horas de sadio lazer e meditação. Sim. O que seria que meu amigo do outro mundo queria me mostra? Acordei no dia seguinte sem nenhuma dor de cabeça, mas fiquei me remoendo por dentro, preocupado com o que aquela assombração portuguesa iria me aprontar. Ele não apareceu. Passaram-se três dias e três noites... Fui  a uma lavanderia deixar minhas poucas peças de roupa para poder usá-las limpas e cheirosas. Pronto, lá dentro, no meio de alguns alvos lençóis, estendidos num varal, destinado a secar a roupa de cama de uma pousada das redondezas, apareceu a margarida! - Vim atrás de você e já estou aqui na Cidade Maravilhosa há quatro dias. Disse-lhe sério, esperando sua reação. - “Antes de ir para Santa Catarina passei por alguns segundos no século XIX, lá perto de minha casa, em Braga, e soube que um antepassado seu, aliás um parente ou melhor, um já desencarnado ser, que viria a ser seu bisavô estava pronto para se casar”. Confesso que se não soubesse que estava me relacionando com um fantasma, uma criatura que vivia num espaço-tempo diferente do nosso, jamais daria atenção àquelas estranhas palavras. Meu amigo passava do meu presente para o passado de meus antepassados, num sacolejar de fumaça ou num estalar de dedos se os tivesse rígidos.  Seu tempo dependia do espaço em que construía sua presença com os mortais. Talvez consiga explicar melhor. Comigo, em Santa Catarina, no planalto onde há alguns dias estava, em São José do Cerrito, na tal festa de um amigo, ele conseguia entender tudo que tinha se passado nos arredores daqueles sítios, desde a eternidade, ou melhor, desde sempre. Confuso, não? Mas é isso mesmo. Veja, quando estive com essa criatura lá nas regiões minhotas, em Portugal, ele também conseguira saber de tudo que lá acontecera, desde sempre comigo e com todos, ali, naqueles espaços. Sabia de tudo que acontecera com meus parentes do passado, responsáveis pela minha existência no futuro. Parece que deu para entender. Pois bem, agora, no Rio de Janeiro ele está sabendo de muito mais coisas sobre mim. Foi logo botando para fora. -"Sua gente passou por aqui, desembarcando no Cais Faroux, em 1887. Seu bisavô, sua bisavó e sua avó, um neném magrinho. Tinha dois aninhos". Sabem para onde foram, perguntei muito espantado. – “Para as serras! Para as serras! Vamos para lá também”!

ATÉ A PRÓXIMA

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.