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8 de julho de 2009

UM NEOLOGISMO PARA CONTESTAR

Voltou a mania dos diminutivos e, principalmente, aumentativos na fala dos técnicos e jogadores de futebol que dão entrevistas às televisões e às rádios, após os jogos. Agora foi a vez de Cuca, técnico do Flamengo, que disse à equipe do UOL ESPORTE o seguinte:

No segundo tempo, quando a gente conseguiu entender um pouco mais o jogo, aí nós fomos bem melhores. Então, eu acho que o MELHORZINHO do Fluminense no primeiro tempo, não compara o MELHORZÃO que o Flamengo foi no segundo tempo, se bem que isso não vale nada em termos de resultado, apenas fazendo uma análise, até as chances claras de gols que perdemos. O Ricardo Berna esteve bem, o Fluminense jogou bem também, mas num clássico, um resultado de empate mão é ruim. Fica um gostinho ruim porque a gente poderia ter vencido”.

É claro que estamos diante da língua falada, transcrita aqui, só para efeito didático. Sabemos que o registro oral de uma língua qualquer é totalmente diferente do registro escrito, pois lá impera a expressividade súbita e a emoção do falante aflora, a todo o momento, com a fantástica força pujante do idioma, que põe na boca do indivíduo falante as diversas possibilidades de realizações existentes no sistema lingüístico, isto é, na “Langue”, como nos ensina Ferdinand Saussure. Assim, o linguajar de Cuca, no momento da entrevista, expressa a “Parole” do sistema lingüístico português, com todas as características diafásicas, materializando as diferenças entre língua falada e língua escrita, entre o falar solene e o familiar, entre a linguagem corrente e a linguagem burocrática ou oficial, tudo de acordo com a visão e a denominação criada por Eugenio Coseriu.

Mas, voltando àquela mania do brasileiro de colocar tudo que pode no diminutivo ou no aumentativo, principalmente nos esportes de massa, observamos que a forma MELHORZINHO é comum no linguajar familiar e não chama nenhuma atenção. Já não é o caso de MELHORZÃO, que vai surgir por um processo lingüístico inconsciente, chamado “comutação”, criando, por oposição, o termo que a língua, enquanto sistema, enquanto Langue, permite concretizar. Se existe MELHORZINHO, por que não pode existir MELHORZÃO? Se existe JOGADORZINHO, por que não pode existir JOGADORZÃO? Essas construções, aparentemente esdrúxulas, estão na deriva da língua e apresentam forte dose de gramaticalidade. Logo, podem surgir, como surgiu, na criatividade lingüística de Cuca, se bem que muito motivado por entrevistas anteriores de alguns jogadores do Fluminense que disseram que o time das Laranjeiras foi bem MELHORZINHO no primeiro tempo. O neologismo teve sabor de contestação...
ATÉ A PRÓXIMA

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.