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2 de julho de 2010

D E S E S T A B I L I Z A Ç Ã O

Quem é pobre não se desequilibra, haja vista o sofrido povo nordestino que passa por secas e enxurradas, por descasos das autoridades públicas e por ataques de bandidos aos sofridos flagelados de todo tipo. Quem é pobre não se desequilibra nem se desespera. O pobre está sempre se referindo a um outro sistema simbólico para tentar explicar suas vicissitudes, pedindo a Deus e ao “Padim Padi Ciço” uma interferência a fim de que não o faça sofrer mais e botar sua vida nos trilhos. Quem é pobre se resigna com as coisas adversas e não se desespera, pelo contrário, não ameaça ninguém nem dá ponta-pé nos outros, nem murro nos postes ou no chão, de cabeça baixa. Quem é pobre acha até que tudo é o desejo do Onipotente, o responsável pela privação e provação, quando perde casa, gado, plantação e até seus entes queridos, mas não se desequilibra. Quem é pobre tenta encontrar um caminho mais curto, mas difícil, para sair da pobreza, mesmo não tendo quase nenhuma opção para isso. Então, o pobre, em sua maioria absoluta, vai tentar ser jogador de futebol. Aí, com muita sorte e também esforço ele vence, sai da caatinga, da favela (agora chamada de comunidade), das cidadezinhas tristes e sem graça nenhuma do interior do Brasil e vai, às vezes, sem passar pelos grandes centros das capitais, diretamente para o exterior. Vai para a Europa. Vai para o Real Madrid, para o Barcelona, para o Milan, para o Benfica, para o Manchester United, para o Arsenal, para o Paris de Saint-Germain, para o fim do mundo, para as Arábias, para os Emirados e Sultanatos do Islã. Então, esses meninos jogadores de futebol se tornam ricos e só voltam ao Brasil, para a Granja Comary, em Teresópolis, para servirem à Seleção Brasileira. Tornam-se canarinhos ricos, verde de dólar e amarelo de camisa cheia de propaganda. Dizem que esses jogadores, oriundos da pobreza, se transformam e passam a ter um sistema emocional compatível com sua nova posição de craque, de estrela pop, de “enfant gâté” de treinadores e de cartolas do futebol nacional e internacional. Mas onde está o equilíbrio emocional? Não existe, porque ao se tornarem ricos, com sua vida estabilizada, seu parentes próximos todos com a vida ajeitadinha, tudo cem por cento organizado e resolvido materialmente, perdem o equilíbrio emocional que devem manter dentro de uma competição, porque já têm muito e pensam que podem fazer o que lhes vem à cabeça, do charminho aos pisões desleais e criminosos, prejudicando toda equipe. De mais a mais pensam que se fizerem alguma besteira nada têm a perder. Estão pouco ligando para essa de autocontrole. Se conseguiram vencer a miséria, a fome e a morte súbita no agreste interiorano ou no fundo do nordeste brasileiro, pensam ser jogadores de futebol que desequilibram tudo e todos, não se importando com as dificuldades de um jogo decisivo, por exemplo. Admitem para si mesmos que a vitória chegará a qualquer momento, mas não estão preparados para o pior. Chegando esse pior, na forma de um fantasma ou na forma de um acidente em campo, se descontrolam e assim se comportam porque são ricos, ganham muito, mas muito mesmo, e quem quiser que prepare justificativas de toda sorte para explicar as suas inconsequências. O pobre não se desequilibra. Os ricaços de nossa Seleção Brasileira de Futebol, sim. Com isso tudo ficamos muito tristes, mas o Brasil pode até ter um lucrozinho (e que sirva de lição, mesmo), porque, tenho certeza, muitas outras crônicas vão aparecer centradas na soberba de alguns de nossos jogadores, para corrigir de vez todos esses erros desconcertantes na formação de um eleco que não reside mais aqui, nem nas grandes cidades, nem na caatinga e agreste nordestinos e, muito menos, nas favelas e alagados dos pauls lamacentos, há muito tempo.





ATÉ A PRÓXIMA

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.