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28 de setembro de 2014

Contestação e Cultura



Só acreditaria nesses discursos ideológicos de nossa esquerda idiota e despreparada, se visse nesses falastrões, que criticam tudo que é progresso nessas atuais campanhas eleitorais, significativas críticas sociais, sociológicas, estéticas e históricas, como fizeram nossos artistas do início do século XX, como um Oswald de Andrade ou uma Tarsila do Amaral, servindo-se da arte como forma de contestação. Do contrário, não devem nem podem ser levados a sério.

Então, vejamos:

O Vendedor de Frutas é um óleo sobre tela, de 106  x  83  cm, de 1925, da pintora Tarsila do Amaral, que compôs a síntese do academicismo com as tendências cubistas europeias, mesclando sua temática com assuntos brasílicos, principalmente nos anos 20 e 30, na redescoberta do Brasil, num engajamento teórico do movimento Pau-Brasil e, posteriormente, do movimento antropofágico. Na posição Pau-Brasil, assume o diálogo temático entre o factual e a sua interpretação temática, onde nos mostra a eterna brincadeira entre a cultura europeia e o índio brasileiro; entre o mundo e o Brasil. Já na posição antropofágica, cria uma convivência entre o patriarcado e o matriarcado; entre o mito de plenitude grega da Idade de Ouro e o Pindorama, explicitando a deglutição da Escola pela Selva.  Assim, Tarsila trabalha com o código sinuoso da deformação e com os ângulos geométricos do cubismo, tropicalizando suas figuras irreverentemente caricaturadas.  Nesta composição, O Vendedor de Frutas, Tarsila se posiciona no movimento Pau-Brasil, tanto pela temática abordada, vendedor de frutas de nossa terra, quanto pela sugestão de uma retomada da História do Brasil. O quadro, dentro de certas angulações, projeta as técnicas cubistas, diluídas em ritmos sinuosos, com um cromatismo vivo, predominando acentuadamente a combinação das cores de nossa bandeira. Ao nível da figuração, percebe-se uma das naus portuguesas abarrotadas de frutas tropicais, como o abacaxi, a banana, laranjas, além de um exemplar de nossa fauna, um pássaro verde, misto de tucano e papagaio. O capitão do barco é um mestiço, o marginalizado, a figura principal que domina a tela visualmente. É a valorização da favela sobre a escola, que reflete a cultura herdada, pela projeção, no horizonte, da igreja e da casa-grande, aquém dos palmares. Uma retomada da História, portanto. Retomada que desmitifica o “lado doutor”, repudiado pela caricatura e desproporção. Tudo ocorre num frenético colorido carnavalesco, numa tomada fotográfica do caboclo marginalizado, que posa para a posteridade, chamando para si as atenções da despreocupação burguesa da Belle Époque dos anos de 1925. E isso tudo vai fazer 90 anos. Não se contesta mais com inteligência, como se fazia antigamente. Vamos nos ligar, minha gente ! 



ATÉ A PRÓXIMA

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.