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22 de dezembro de 2016

TROVAS, TROVINHAS E TROVÕES – Versão II



Recebi as trovas selecionadas do importante, criativo e inédito concurso de trovas para serem etiquetadas nos ônibus de Balneário Camboriú, que teve como tema a natureza ,de um modo geral.
O projeto de autoria da escritora Eliana Jimenez é muito criativo e interessante, pois faz pensar sobre a necessidade de se cuidar do meio ambiente, hoje muito maltratado, por falta de educação e ignorância de todos aqueles que praticam atos que degrada nossas praias, mares, lagos e lagoas. Não é só o indivíduo despreparado que degrada a natureza, muitas vezes sem consciência do que faz, por pura ignorância. São,também empresas, de todos os tipos, que poluem o meio ambiente, em nome de uma ganância destruidora de paisagens belas e do solos produtores.
Contudo, no que diz respeito a concursos como este em questão, chamo a atenção, especificamente, para a falta de cuidado que teve a produção do projeto da escritora Eliana Gimenez, na sua fase de escolhas das produções literárias classificadas como vencedoras, pois nas 18 trovas que me chegaram às mãos, pude observar, a grosso modo – num olhar  rápido e despretensioso – 6 impropriedades, a maioria relacionada ao código linguístico da língua portuguesa mal usado.Uma pena! Vejamos:
      1) que, na caçada a riqueza” – Autor A.A.de Assis, Maringá-PR. Comentário: falta o sinal diacrítico, acento grave no –a- em “à riqueza”;
     2) morrendo de poluição” – Angélica Vilela dos Santos – Taubaté-SP. Comentário: O vocábulo “poluição”, na trova em questão não comporta o fenômeno fonético intravocabular chamado de sinérese, pois a última sílaba /ção/ é tônica, prejudicando a contagem métrica;
    3) Deixe à gerações futuras”. Comentário: Erro gravíssimo no emprego do acento grave na vogal –a-. Deveria ser grafado “a gerações”. Por se tratar de assunto de nível bem elementar, declino de maiores comentários;
      4) nem sempre os ventos socorrem / as asas desesperadas / dos passarinhos, .....” Comentário: Será que há ventos que socorrem passarinhos? A liberdade de imaginação poética atinge o ridículo...;
        5) Você que lê estes versos / nas ruas desta cidade / não deixe nas mãos de perversos / a biodiversidade” . Plácido Amaral – Caicó – RN. Comentário: O terceiro verso está, como se diz na gíria da crítica comezinha, de pé quebrado, isto é, possui 8 sílabas métricas. Vejamos:  /não1/ dei2/xe3/nas4/mãos5/de6/per7/ver8/sos;
       6) Ganancia” é terra ferida”. Reovaldo Paulichi – Atibaia – SP. Comentário: Ganância é palavra proparoxítona e como tal, será acentuada em sua sílaba tônica. Elementar, também, meu caro produtor!
      A melhor trova do inédito concurso, a nosso juízo é a de José Ouverner – Pindamonhangana – SP.
“Mãe natureza”! – Eis o nome
de quem em nome do amor,
gera o fruto e estanca a fome
do seu próprio predador! “

Comentário rápido: Trabalha com jogo de palavras e de ideias, empregando metáforas antitéticas.

Assim, essas trovas estarão constantemente sendo lidas pelos transeuntes e passageiros dos ônibus de Balneário Camboriú, podendo cada erro ser alvo da crítica feroz do leitor culto e atento aos fatos da estética e do uso culto da língua portuguesa. Um projeto tão interessante como este mereceria um controle de qualidade, para que, passando pela bela praia de Balneário Camboriú, não morresse nela...  

ATÉ A PRÓXIMA

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.