Quantos me visitaram ?

10 de janeiro de 2017

CHOVEU A CÂNTAROS



Um amigo que muito considero por sua formação humanística, além de excelente músico, mestre em prolatar discursos afinados com a ética na política, usou certa vez, em postagem nas redes sociais a expressão “em cântaros”. Meu amigo Eduardo! Essa expressão que você usou "o céu derrama-se em cântaros" é uma metonímia perfeita. Digo-lhe que isto me lembrou uma aula dada, há muitos e muitos anos, num colégio religioso, lá na Rua do Catete. Era o famoso Santo Antônio Maria Zaccaria. CÂNTARO é um nome de origem grega, KANTARÓS. Pena que eu não tenho recursos técnicos para usar aqui aqueles caracteres da língua de Homero, a fim de dar maior credibilidade às minhas elucubrações filológicas. Mas seria: KAPA + ALFA + NI + TAU + ALFA + RÔ + ÓMICRON + SIGMA). Chegou ao português pelo latim CANTHARUS, que significa, entre outras coisas da mesma constelação semântica, vasilha grande de beber, bojuda e com alças; bilha grande; grande cangirão. O que predomina neste significante é o "SEMA" COISA GRANDE. Portanto está nítida a figura de linguagem, conhecida como METONÍMIA, isto é, o emprego, no caso, do continente pelo conteúdo. Pois bem, lembro-me como se fosse hoje. Estava explicando isso a uma turma de 4º ano Ginasial (faz, realmente, muito tempo. Tempo em que o ensino da Língua Portuguesa era, como se dizia, puxado), quando passou pela porta da minha sala o senhor Luís, um empregado fanho, parecendo abobalhado, muito religioso, que se autodesignava IRMÃO. Era o Irmão Luís, que vivia sempre correndo de um lugar para ou outro, conhecidíssimo em toda a escola, desdobrando-se em mil-e-uma atividade. Servia, também, especial e particularmente ao Reitor da instituição, Pe. Vicente Adamo, homem austero, sisudo, classificado mesmo como um bruto e não muito querido pelo corpo docente, além de temido pela garotada de toda aquela conceituada instituição Barnabita de ensino, da cidade do Rio de Janeiro. Levava o apressado Irmão Luís,  numa bandeja ,um jarrão de água gelada para o Reitor, quando, bem em frente à porta da minha sala de aula, levou um escorregão naquele longo e muito bem encerado corredor, estatelando-se no chão com jarra e tudo. A jarra voou pelos ares, naquele ambiente que respirava respeito e atenção de todos os alunos, e entrou como um meteoro em minha sala de aula, indo estilhaçar-se em cacos encharcados de água e gelo por todos os lados, junto ao quadro-negro. Aproveitei a patética cena para a fixação da aprendizagem. Anos mais tarde, em Teresópolis, encontrei numa farmácia, um médico que me reconheceu como seu ex-professor. Disse-me, abraçando-me com carinho e emoção: “METONÍMIA É O EMPREGO DA PARTE PELO TODO E DO CONTINENTE PELO CONTEÚDO. EXEMPLO: CHOVE A CÂNTAROS, COITADO DO IRMÃO LUÍS, FICOU TODO QUEBRADO”. Meu amigo Eduardo, o magistério é a melhor profissão do mundo... depois da de músico....


ATÉ A PRÓXIMA

Nenhum comentário:

Arquivo do blog

Quem sou eu

Minha foto
Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.