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11 de janeiro de 2017

TROVAS, TROVINHAS E TROVÕES III






“Minha alma no azul se expande...
Parece um sonho sem fim.
Sendo o nosso amor tão grande
Sinto o céu dentro de mim”!
                                                         Autor: João Batista Xavier Oliveira

A análise da trova acima visa encontrar uma relação significativa entre as quatro elucubrações ou pensamentos contidos em cada verso, sustentados pelos respectivos verbos de cada oração.
            Assim, o 1º verso (MINHA ALMA NO AZUL SE EXPANDE) pode ser entendido, de acordo com os significados dos nomes substantivos, verbos e relacionamentos sintáticos, como: Minha alma vai se expandindo no azul do céu. A esse primeiro verso se coordena (se liga) um outro, o 2º, sem que haja entre eles nenhuma dependência sintática. Isto é, um verso não é função sintática do outro. Observem: PARECE UM SONHO SEM FIM. É como se dissessem: “Minha alma no azul se expande” e “isso parece um sonho sem fim”.
Esses dois versos, um dístico, é um pensamento poético, com total e plena estruturação sintática. Com total sentido formal. O sentido formal deve existir em qualquer tipo de escritura, seja ela uma escritura denotativa, seja ela uma escritura conotativa. Quer dizer, tanto o referencial quanto o metafórico devem se estruturar dentro de um modelo linguístico pré-estabelecido. No caso trata-se de se seguir a estrutura da língua portuguesa.  Observem o exemplo: “Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabiá; /As aves que aqui gorjeiam,/ Não gorjeiam como lá.” (Canção do Exílio, Gonçalves Dias). Os dois primeiros versos formam um dístico com sentido complementar, um completa o sentido do outro.  É como se dissesse: O sabiá canta nas palmeiras que existem na minha terra. Da mesma forma os dois últimos versos também se completam. Seria: “Onde estou agora (no exílio, em outras terras) as aves daqui não gorjeiam como as aves que gorjeiam lá na minha terra natal”. Pode-se concluir, dizendo que existe um nexo significativo entre todos os quatro versos da estrofe de Gonçalves Dias. Agora, jamais se poderá dizer que o poético se ausentou da cena descrita naquele texto, pelo fato de que nunca ninguém viu um sabiá cantar empoleirado nas folhas das palmeiras do Maranhão. E mesmo assim, a imaginação inspirou o poeta... Queremos dizer com isso que, nos versos, a poeticidade se constrói com ou sem palavras, com ou sem subjetivismos, mas o sentido poético só se constrói com a ordenação das palavras na frase, obedecendo às estruturas rítmicas e sintáticas da língua. Portanto, se invertêssemos a ordem de aparição dos vocábulos dos quatro primeiros versos da Canção do Exílio, num hipérbato desconcertante, prejudicando totalmente o entendimento do discurso, sem nenhuma gramaticidade ou aceitabilidade, a poesia jamais lá se instalaria. Assim: Tem palmeira terra minha /   Canta onde o Sabiá  / Gorjeiam as aves que aqui / Como não gorjeiam lá. 
Observemos, agora, os dois últimos versos da trova em questão: Sendo o nosso amor tão grande / Sinto o céu dentro de mim.
Esses dois versos estão subordinados um ao outro, numa ordem invertida. O verso Sendo o nosso amor tão grande tem o seu verbo no gerúndio (sendo) o que torna essa oração uma oração reduzida, com valor causal, subordinada, portanto à seguinte, que seria a principal. Correspondendo a esta interpretação: Eu sinto o céu dentro de mim, porque o nosso amor é tão grande. Nesse caso, entenda-se a expressão “tão grande” como equivalente a “muito grande”, não se considerando haver aí uma consequência.
Se formos considerar a existência de uma consequência, a interpretação seria outra. Vejamos esta hipótese. Vamos considerar o verbo SER, na forma de gerúndio, um verbo vicário. Sem significado, só para dar corpo fonético à frase. Portanto, excluído de cena, entender-se-ia assim esse terceiro verso da trova em questão: O nosso amor é tão grande (ração principal) que sinto o céu dentro de mim (oração subordinada consecutiva, pois depende da oração principal, para o conjunto das duas formar sentido).
Parece-nos que esta última interpretação é menos plausível. Ficaremos com a primeira interpretação.
Agora, juntando os quatro versos analisados, dois a dois, verificamos que os dois primeiros estão desconectados, formalmente, dos dois últimos, pois não produzem sentido. Os dois primeiros versos da trova formam um período coordenado, com sentido finito, embora haja uma visão conotativa, poética, metafórica, portanto. Mas as metáforas estão, no nível do significado, perfeitamente estruturadas. Já os dois últimos versos da trova, tomando-se a primeira interpretação, constituem uma estrutura em subordinação, sem liame conceitual com os dois primeiros.

Concluindo, podemos dizer que se entende o que o autor quis dizer, ao se expressar dentro das amarras de um poema fixo como a trova, mas entende-se, por pura intuição, por puro impressionismo, pois neste caso mostrou-se   - e a análise é para isso mesmo – que a grandeza do conteúdo foi tanta, que não coube nas amarras das estruturas linguísticas conhecidas e trabalhadas inconscientemente  pelo poeta. 

ATÉ A PROXIMA

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.