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15 de março de 2007

O KITSCH

Vamos apresentar alguma coisa sobre o KITSCH, para você recordar ou se servir de nossas informações para seus trabalhos escolares. Se valer a pena, sirva-se, à vontade!



KITSCH é um termo empregado por E. Morin, em L'Esprit du Temps.




* Corresponde a uma função social.
* Relaciona-se a uma época da gênese estética.
* Relaciona-se, ainda, a um estilo de arte.



KITSCH pode ser considerado, ainda, como uma dimensão do objeto, relacionado com o ser.

O termo KITSCH apareceu, primeiramente, em Munique e se prende ao alemão KITSCHENVERKITSCHEN significa enganar (numa venda, numa transação). Logo, uma negação do autêntico.


KITSCH é uma obra mal executada.”Secreção artística na venda e comércio, na sociedade burguesa”. Observe as quinquilharias dos camelôs.


KITSCH está ligado à arte, à Indústria Cultural. Este termo tanto pode ser adjetivo, como substantivo.



KITSCH é a antiarte. A cada manifestação da arte corresponderá um surgimento KITSCH. É a instalação do homem no mundo da Arte. É a esterilização do subversivo.


Há em todo KITSCH o gosto do consumidor. É sempre bom lembrar que a estética se localiza na ótica do receptor.

O KITSCH está ligado a uma situação da sociedade. Ao acesso da influência das classes dominantes ao mundo da ARTE.

O KITSCH se revela claramente na civilização burguesa.

O OBJETO E O KITSCH

O B J E T O - É um elemento que nos cerca. Dado primário do contacto do indivíduo com o mundo.

A civilização industrial do Ocidente é caracterizada pela fabricação de objetos.

Nesta civilização fervilham os objetos, basicamente, porque:
a) desenvolve a tendência de aquisitividade;
b) desenvolve a multiplicidade;
c) desenvolve o consumo.

O Objeto pode propiciar a criação de um status social. O “homo faber” consome mais objetos do que os fabrica.

Todo objeto é portador de FORMA. Observem as canetas, os automóveis, os telefones etc. Todo objeto pode ser percebido pela psicologia gestáltica (Gestalt).


A existência do objeto é uma mensagem. O objeto é uma mensagem. Veja como funciona: o EMISSOR (criador, vendedor do objeto) >>>>>> MENSAGEM (o objeto) >>>>>> RECEPTOR (a particularidade).

Pode-se dizer que o objeto possui MORFEMAS. O Objeto é COMUNICAÇÃO. (Cf. Marshall McLuhann: "o meio é a mensagem"). A Produção em massa de objetos transforma a comunicação em comunicação de massa.

OBJETO COMO MODO DE COMUNICAÇÃO

1- Será portador de formas. É o ponto de vista do criador que estará em jogo. Ex: Torneiras curvas, retas etc. Lembrem-se: "os olhos vêem, o tato percebe".

2- Existe um contacto que o homem mantém com os objetos. Ex: Observe como o homem trata os objetos nas lojas, em casa, nos supermercados, nas feiras livres, nos shoppings etc.

3- Há um contacto humano interindividual. Ex: Observe que muitos de nós, em vez de enviarmos cartas ou telegramas ou darmos telefonemas, enviamos um objeto (buquê de flores ou jóias) a pessoas especiais, em dias especiais. Isto significa que utilizamos, através de objetos, mensagens simbólicas. Aí o objeto é personalizado, mais pelo seu remetente do que pelo seu criador.

4- O objeto é ocasião de contacto humano. Ex: Para se obter um objeto, manuseá-lo, mesmo, o homem se relaciona com os seus semelhantes, na ida a uma loja, a um outro ponto de comércio qualquer, como nas feiras livres, nos magazines etc.

5- Pode ficar estabelecida uma sociologia dos objetos. Isto se dá quando invocamos a idéia de coleção. Exposições, amostras, arranjos etc. Tal comportamento leva o homem a estudar uma massa de objetos.

O QUE É UM OBJETO?

ETIMOLOGIA. Vem do Latim OBJECTUM (ob-jacere) = lançado contra. Coisa existente fora de nós, com a característica de que se oferece à vista e afeta os sentidos.

FILOSOFIA. Aquilo que é pensado e se opõe ao ser pensante (sujeito - sub-jacere = lançado por baixo).

ESPECIFICIDADES

a) O objeto resiste ao indivíduo e tem características materiais.

b) Na nossa civilização, o objeto não é quase nada do mundo da natureza. Ex. Uma pedra não é objeto (falta-lhe função social. Se tiver, aí já é considerada como objeto). Um pássaro não é objeto (o mesmo caso da pedra ).

c) Objeto tem uma característica passiva e fabricada. É produto do homo-faber, portanto, fabricado pelo homem e que este deve assumir ou manipular. Mais ainda. É o produto de uma civilização industrial, logo, será um elemento do mundo exterior. Ex: Caneta esferográfica, isqueiro, ferro de passa roupa etc.

d) O objeto é caracterizado por suas dimensões. É inferior à escala do homem. Nem mais, nem menos. Superior ao milímetro e inferior a 86/140 cm, segundo Modulor. Assim, uma bactéria não é considerado objeto. Nem um Transatlântico também não é um objeto.

e) O Objeto tem uma característica passiva e será sempre submetido à vontade do homem. Isso quer dizer que ele pode ser manipulado.

O OBJETO KITSCH

Define-se por uma alteração em sua funcionalidade. Ex. A caixa de música; O suporte de bolo; O suporte da árvore de Natal; O isqueiro; O cinzeiro; A imagem (ícone pingüim) que enfeita a geladeira etc. Os objetos kitsch funcionam e decoram. Apresentam um acréscimo suplementar. Quem acrescenta é o intermediário, não é o criador do objeto primitivo. Nos exemplos acima, a caixa de música serve para guardar outros menores objetos, mas sua funcionalidade foi alterada. Ele serve, agora, para o deleite e para enfeitar, também. O suporte de bolo pode servir para muitas outra coisas, inclusive para ficar sem nenhum bolo em cima, “enfeitando” uma mesa. O suporte da árvore de Natal, pode servir, do mesmo modo, para suportar outras coisas e até “enfeitar” um ambiente. O isqueiro em cima de uma mesa de escritório pode servir de decoração, mesmo que o seu dono não seja fumante. Do mesmo modo funciona o cinzeiro. O pingüim da geladeira tenta lembrar o frio...mas o pingüim não está dentro e sim fora, logo funciona, também, como informação e como “enfeite”.

CARACTERÍSTICAS GERAIS DO KITSCH

1- Universalidade;
2- Valor burguês;
3- Processo de produção;

4- Atua: a) na literatura; b) no mobiliário; c) na decoração; d) na música; e) nas artes, em geral.

5- Arte de viver do homem médio, cidadão da prosperidade.
6- Abundância na sobriedade (volume e quantidade).
7- Identidade com o rococó.


OBSERVEM ESSES EXEMPLOS DE KITSCH. TENTEM UMA PEQUENA ANÁLISE SOBRE ELES. VEJAM O QUE SÃO. O QUE REPRESENTAM. COMO PODEM SER DEFINIDOS.



















SE HOUVER ALGUMA DÚVIDA, ENTRE EM CONTATO CONOSCO.

GOSTARAM?

14 de março de 2007

TERMOS DO FUTEBOL EM PORTUGAL


Em 1998 publiquei pela Sociedade Brasileira de Língua e Literatura, Rio de Janeiro,
BRASIL X PORTUGAL, UM DERBY LINGÜÍSTICO.
Toda a pesquisa foi feita em terras lusitanas, quando fui para lá, oficialmente credenciado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde lecionava, cumprindo os rituais de um semestre sabático. Retornando ao Brasil dei formato de livro à pesquisa de campo. Assim, vou apresentar, agora, nesse espaço cultural alguns comentários sobre a linguagem do futebol português, observada nos estádios, junto ao povo; nos jornais; nas revistas especializadas; nas rádios e nos canais de televisão.

Se você estiver interessado em adquiri-lo, entre em contato pelo endereço eletrônico lcfeijo@uol.com.br.



À ALTURA DOS PERGAMINHOS


Henrique Botequilha, jornalista do jornal O Semanário, de Lisboa, diz que essa expressão é usada "quando uma equipa de grande reputação joga bem" . Assim, o futebol é visto como arte nobre. Trata-se de uma visão elitizante do jogo. A expressão "à altura dos pergaminhos" é de conotação erudita, e está associada à respeitabilidade, à dignidade, à nobreza, à história. Diz-se assim, quando se quer fazer um comentário a uma equipe de grande reputação, que obteve ou deveria obter bom resultado e não se poderia dela esperar outra coisa que não fosse a de jogar um futebol de primeira qualidade. Mas nem todos os ouvintes ou leitores entendem o significado dessa expressão, principalmente se não forem aficionados do futebol. Pudemos comprovar isso, em Portugal, ao realizarmos pequena enquete com algumas pessoas, todas de nível superior, mas sem ligação nenhuma com o futebol. Pedimos que nos dessem os significados de alguns termos ou expressões tiradas dos jornais especializados ou ouvidas em transmissões de rádio, como foi o caso de "à altura dos pergaminhos". Ninguém soube os sentidos dos termos ou expressões. Podemos concluir que estamos diante de uma expressão não entendida por todas as pessoas do mesmo grupo social, caracterizando-se diferentes repertórios lingüísticos dentro do grupo, o que vale dizer, caracterizando o diastraticismo, pois formas diastráticas são diferentes falares num único ambiente sócio-cultural.


BOLA É REDONDA


Na gíria do futebol brasileiro existe a expressão "jogar uma bola redonda", que significa jogar muito bem. Em Portugal a expressão a bola é redonda é usada para uma advertência, na véspera do jogo. As frases ou os ditos populares mostram que a advertência fica sempre bem marcada com breves definições ou afirmações óbvias, como: "O mundo gira"; "Todos os rios correm pro mar"; "Quem planta vento, colhe tempestade" e muitas outras. A bola é redonda tem o significado de advertir, dizendo-se que tudo pode acontecer, pois a bola é redonda... e rola igualmente para os dois times que se confrontam. A bola pode rolar para um lado ou para o outro. Qualquer um dos times pode vencer. "A bola é redonda, sabes?" Corresponde, no Brasil, a: "o vento que venta lá, venta cá" ou ainda, "o risco que corre o pau, corre o machado" , outras, entre várias frases feitas, portadoras do sema advertência.


ACROBÁTICO


"Gesto de um jogador particularmente vistoso; esgalhado com acrobacia", como define Henrique Botequilha. Vistoso deverá ser o gesto e não o jogador. Se for o contrário estaremos diante de uma hipálage. Um jogador vistoso pode não ser acrobático. Assim, pode-se ver no termo acrobático, adjetivo relacionado a gesto, um vocábulo relacionado ao sema CIRCO, onde existem espetáculos tão maravilhosos como os do futebol.



ACUTILÂNCIA


Neologismo formal. Não está dicionarizado. É termo empregado nos comentário das partidas de futebol, em Portugal, por locutores e comentaristas de rádio, televisão e jornais especializados. "Um momento do jogo em que uma equipa está mais forte do que a outra". "Determinação; mais perigo; mais agressividade; a equipa está com mais ênfase em algum setor", segundo Henrique Botequilha, ACUTILÂNCIA refere-se à agressão com o cutelo. Pode ser que esteja aí o sentido deste neologismo, pois ACUTILAR é dar cutiladas em; é golpear. Por sua vez, ACUTILAR é corruptela de ACUTELAR, de cutelo. Se uma equipe está mais agressiva do que a outra, a mais agressiva ataca com muita veemência e fica mais forte do que a outra. Mais um termo do campo semântico da violência.


ADEPTOS

São os torcedores. Adepto, do latim adeptu, aquele que é iniciado nos dogmas da ciência. Quem, após uma iniciação, passa a ser partidário de uma religião. No futebol, a idéia é a mesma, mas não precisa iniciação...

ADJUNTO

É o auxiliar técnico. O futebol foi buscar, talvez, na linguagem acadêmica este termo. Auxiliar, Adjunto, Titular são termos empregados no âmbito do magistério superior.



ALA DIREITA


Expressão política, aproveitada na linguagem relacionada aos comentários de partidas de futebol, em Portugal, pela crítica esportiva, encontrada nos periódicos especializados. Quanto a este procedimento, é oportuno citar parte do artigo Os tempos negros da censura, de Carlos Miranda: "O Baptista Bastos admite que nós, os desportivos, também resistimos um bocado, com o uso de metáforas, que normalíssimas no sector desportivo, ganhavam outro aspecto, quando interpretadas num segundo sentido. E citou exemplos: ‘Como a palavra vermelho estava (e está, queira ou não) associada à Esquerda, muitos de nós (mas nem todos, repito) usávamo-la, habitualmente nos títulos dos relatos de futebol onde participava o Benfica. Assim por exemplo: ‘Os vermelhos esmagam a inércia de..., ou ‘Vermelha é a cor da vitória’ ou ainda: ‘Força, vermelhos!’, com ponto de exclamação e tudo". Outro caso: ‘O dia do Operário’. A censura não leu e não gostou. Tratava-se do Operário Futebol Clube. (A Bola, 22/09/85, p.36).

ALTO-RISCO

"Um Benfica-Porto é um jogo de alto-risco; desafio de grande tensão, possível de bofetadas", nas palavras de H.B. Um jogo de alto-risco é aquele em que pode haver confronto entre as torcidas, dentro dos estádios, resultando sérias conseqüências pelas atitudes agressivas e beligerantes dos espectadores. Está ligado à violência fora e dentro do gramado onde o jogo de futebol se desenrola. Esta expressão está presente também fora da linguagem dos esportes, como pode-se observar nos comentários jornalísticos que focalizam temas como a síndrome do HIV, por exemplo. Em Portugal não se usa o termo AIDS. Lá o termo usado é SIDA, Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. Parece que a trajetória da expressão ALTO-RISCO foi de fora para dentro da linguagem dos esportes de massa, que a acolheu. Um caso de migração da língua comum para a linguagem do futebol.



ÂNGULO

"Figura formada por dois semiplanos com as mesmas origens, possíveis de serem encontrados nas balizas" (HB). Este termo também é muito usado pelos locutores e comentaristas de futebol no Brasil. "Foi no ângulo", "bem no ângulo", "a bola entrou bem no ângulo" são expressões muito ouvidas. Trata-se de um raro momento lingüístico em que a denotação predomina na linguagem especial do futebol. Contudo, não se pode deixar de ver neste termo um certo saber matemático, escamoteado nas frases acima apresentadas. Observe-se que a forma popular, no Brasil, onde a coruja dorme é muito usada.


APANHA-BOLAS

Substantivo masculino. Mais um termo formado por analitismo. Corresponde ao termo gandula aqui no Brasil. Mais um caso de formação analítica (forma composta de duas ou mais palavras) de termos ligados ao futebol, em Portugal. No Brasil, muitos termos estrangeiros do futebol surgem por sintetismo, quando se adaptam à fonética da língua portuguesa. É o caso de córner = escanteio, em Portugal, pontapé-de-canto; kick-off = saída, em Portugal, pontapé-de-saída; shoot = chute, em Portugal, pontapé-na-bola ou, também, chuto; off-side = impedimento, em Portugal, fora-de-jogo; goal-keeper = goleiro, em Portugal, guarda-meta, guarda-redes; penalty = pênalti, em Portugal, grande-penalidade ou, também, penálti.




ATIRA-SE PARA A PISCINA



Expressão da gíria do futebol português. Diz-se quando o jogador atacante, dentro da área do adversário, lança-se ao chão para simular a falta máxima (o pênalti), como se estivesse a mergulhar na piscina, mesmo sendo barrado legalmente. Metáfora plástica. "...vai passar; atira-se para a piscina..." (RTP, Canal 1, jogo FC Porto 0 X 1 Panathinaikos, 1995).

BALNEÁRIO

É o vestuário. "...tiro-o e ponho-o conforme a disposição, mas, nos jogos, fica no balneário..." (Entrevista de Dominguez, jogador do Sporting e da Seleção Portuguesa, dada a Magalhães dos Santos, em A Bola, 23/09/95, p. 37). José Dominguez é chamado pela crônica esportiva de "Speed" Dominguez, pela sua velocidade em campo. Tanto em Portugal, como no Brasil, esta prática é comum. No Brasil, o jogador do Fluminense (1995) Waldeir era chamado de "The flash", pelo mesmo motivo.




BANCADA




Substantivo feminino. De Banco + ada. É a arquibancada de um estádio de futebol. Bancada e arquibancada significam a mesma coisa, tanto no Brasil como em Portugal. Lá, o uso esportivo escolheu bancada, aqui, escolheu arquibancada, o que não quer dizer que não se possa usar bancada. Rubens Braga, na cônica A EQUIPE, de 1952, diz: "Nós todos envergando essas cores sagradas; e no coração, dentro do peito, cada um tinha uma namorada na bancada". Em Portugal também se ouve na voz de muitos locutores de rádio e televisão o termo arquibancada, mas o mais comum é bancada. "...até porque o nervosismo entrou no relvado através das bancadas, onde os adeptos vimaranenses foram mostrando o seu desagrado" (A Bola, 29/10/95, p.14). Vimaranense é adjetivo de dois gêneros. Significa de, ou pertencente, ou relativo, ou natural, ou habitante de Guimarães, cidade do norte de Portugal.
Gostaram? Vamos continuar apresentando os termos do futebol português, comentados sob vários aspectos, mas, basicamente, o lingüístico.

8 de março de 2007

O ATO SÊMICO: RESUMO E DICAS






E M I O L O G I A

Você que é estudante de Comunicação Social e quer se aprimorar nos estudos da Teoria da Comunicação ou se é estudante de Letras e se interessa por Semiologia, Lingüística ou Semiótica, ou se você é apenas uma pessoa interessada nos estudos da linguagem de um modo geral, estamos disponibilizando nesse BLOGGER vários artigos nossos, resumos e resenhas sobre os discursos que falam do signo. Hoje apresentamos um resumo sobre o Ato Sêmico. Se isso lhe interessar, esteja à vontade para interagir conosco e bom proveito.

SOBRE O ATO SÊMICO


Vida Social - Interação, recorrência, participação, compartilhar nossas emoções.

Colaboração - Deve-se dar a conhecer ao outro o que se passa em nós, isto é, o nosso estado de consciência.

Nosso estado de consciência não pode ser conhecido ou percebido pelo outro. Não posso transportá-lo para o outro. Por raciocínio, posso reconstruir o que se passa, em parte, na consciência do outro.

Observem:

1- Vejo uma criança pulando para alcançar um objeto. Por lembrar-me que já fiz o mesmo e como era para pegar um objeto, deduzo que este é o desejo daquela criança.

2- Quando vejo um cão agitar o rabo, digo que ele está alegre, pois sempre que lhe faço festas nesses animais eles assim se comportam. Tudo isso são interpretações.

Estas interpretações deram origem à idéia de uma linguagem natural.

Essa Linguagem Natural não pode ser assimilada à fala. A criança e o cão não deram a conhecer seu estado de consciência. Foi tudo interpretado por mim. Não tiveram a intenção de me dar a conhecer seu estado de consciência. Eles não se comunicaram comigo. Não houve comunicação. Foi tudo por mim interpretado. A “Linguagem Natural” será, quando muito, um índice, pois ÍNDICE é interpretação. É ver a causa do que se observa. É o diagnóstico do médico. Ex:

1- As flores de gelo - índice de geada;
2- Céu escuro - índice de tempestade;
3- Multidão correndo para um veículo - índice de um acidente de trânsito;
4- Fumaça na floresta - índice de incêndio.

Índice = Linguagem Natural. Todos estes índices têm uma significação, mas eles não querem se comunicar comigo.



Leonard Bloomfield

Já a fala é um ato de negociação. Lembrem-se do exemplo Jack e Jill de L. Bloomfield, a base da colaboração e do trabalho.

Se o cão ou alguém manifestou um desejo, isto não é involuntário. É um meio a serviço de uma vontade. É o caso da historinha de Jack e Jill, onde os sons produzidos por Jill representam um ato social.

Os gestos.

1- Comunicação – Ocorre quando, junto com palavras ou não, eu informo ao outro o meu comportamento psicológico ou o meu estado de consciência. Trata-se de algo consciente; um meio consciente.

2- Índices – Observem que gestos, como coçar a cabeça, dar socos na mesa e muitas outras coisas semelhantes são meras interpretações. Eu adivinho o efeito.

Fato Semiológico

Se alguém compreende a significação de uma frase como abra a janela ou a significação de uma placa de trânsito é porque “adivinhou” a intenção, implícita no meio.

Logo, interpretar efeitos leva-nos ao conceito de índices.
Interpretar meios leva-nos ao conceito de fato semiológico.

O fato semiológico é um ato de comunicação e constitui uma RELAÇÃO SOCIAL.

Modalidade

O ato de comunicação se observa melhor num caráter chamado modalidade.

A modalidade se desenvolve melhor e ao máximo nas línguas, pois a língua é um meio de relação social.

Toda e qualquer língua apresenta 4 caracteres de modalidade.

Numa língua qualquer, as frases podem possuir 4 caracteres de modalidade:


1- Afirmativas – Servem para informar alguém;
2- Interrogativas – Servem para interrogar alguém;
3- Imperativas – Servem para dar ordens a alguém ou tomar alguém por testemunha de meu desejo. Ex: "Veja que eu não estou brincando!”.
4- Optativas – Servem para exprimir o meu desejo a alguém. Ex: “Quero que saias". (Isto pode ocorrer através da entoação ou da ordem das palavras na frase).

Sinalização rodoviária: 2 caracteres de modalidade:

1- INJUNÇÕES – São obrigações: Placas azuis. Proibições: Placas redondas, brancas e vermelhas.
2- INFORMAÇÕES – Através de triângulos que mostram os perigos e retângulos que mostram várias outras situações.

Há código de comunicação com apenas 1 caráter de modalidade. (essa modalidade não indica o código) Por ex. Código matemático ou químico ou código de sino de igreja ou código de toque de clarim do exército.

O que existem são símbolos matemáticos, químicos, cartográficos (modalidade só afirmativa); símbolos musicais dos sinos e símbolos musicais dos toques de clarim (modalidade só imperativa).

A modalidade é um caráter que indica um fato psicológico e um gênero de relação social que o falante estabelece com o ouvinte, sob um ponto de vista semiológico.

A modalidade tem caráter social.

1- INDICA UM FATO PSICOLÓGICO (Ponto de vista subjetivo) Ex. Os modos verbais.

Modos: formas pelas quais é indicada a atitude do falante com relação ao processo verbal.

Modo indicativo - Atitude de realidade: compro, comprava, comprei, (comprarei?), (compraria?).

Modo subjuntivo - Atitude de hipótese: compre, comprasse, comprar.

Modo imperativo - Atitude de ordem (ordenar): compra, comprai.



2- INDICA UM GÊNERO DE RELAÇÃO SOCIAL QUE O FALANTE ESTABELECE COM O OUVINTE (Ponto de vista semiológico) Ex. Quando quero saber se meu irmão está em casa, posso perguntar:

a) - interrogando - Meu irmão está em casa?
b) - afirmando - Desejo saber se meu irmão está em casa.
c) - ordenando - Diga-me se meu irmão está em casa.
d) - desejando - Ah! Se eu pudesse saber se meu irmão está em casa!

Observe que do PONTO DE VISTA PSICOLÓGICO o falante exprime sempre o mesmo desejo. Logo, O PONTO DE VISTA PSICOLÓGICO não permite distinguir as modalidades.

Mas do PONTO DE VISTA SEMIOLÓGICO a diferença é grande. Cada modalidade corresponde ao desejo de se estabelecer uma relação social particular. É a modalidade que indica o gênero de relação social que o falante estabelece com seu ouvinte.

Observe:

a) interrogando...................... Função social do filósofo;
b) afirmando.......................... Função social do cientista;
c) ordenando.......................... Função social do poder material, do ditador;
d) desejando.......................... Função social do poeta.



Charles Sanders Peirce




O estudo dos signos, pois, apresenta duas tendências:

A Primeira, baseada na visão de Peirce, privilegiando a sua classificação dos signos em ícones, índices e símbolos, fica independente em relação à Lingüística. O ramo norte-americano de Peirce denomina-se Semiótica.

A Segunda liga-se aos estudos lingüísticos, que empresta o seu modelo aos demais sistema de signos. O ramo europeu de Eric Buyssens, de Saussure, denomina-se Semiologia.

Eric Buyssens


Atualmente existem duas grandes abordagens:

Uma tem como preocupação as particularidades semióticas de inúmeras linguagens e sistemas formalizados, inúmeros sistemas de signos. Este ramo está ligado aos discursos científicos do universo físico-natural, como a matemática, a lógica simbólica, a cibernética etc. Estamos diante dos estudos do campo da
Semiótica.
Ferdinad de Saussure


Outra tem como preocupação as particularidades e especificidades dos discursos de saber, que são os discursos científicos do universo cultural, ligados às diversas teorias psicológicas do signo. Estes estudos podem ser encontrados nos trabalhos de Charles W. Morris, de Jacques Lacan, de Roland Barthes e outros. Estamos diante dos estudos do campo da Semiologia.
Charles W. Morris



Contudo, esta oposição de nomenclatura, semiótica X semiologia, não é rigidamente seguida, pois o próprio Morris estabeleceu um esquema tridimensional para a Semiótica:

1- A dimensão sintática que trata da relação dos signos com os outros signos;
2- A dimensão semântica que trata da relação dos signos com os referentes;
3-
A relação pragmática que trata da relação dos signos com os usuários.
Roland Barthes


Roland Barthes, um dos mais produtivos teóricos da semiologia, nos últimos anos de sua vida, atuou criticamente neste campo, tentando fazer a leitura do social, através dos conceitos psicanalíticos do grande teórico francês da psicanálise freudiana, Jacques Lacan, dedicando-se às análises das mais variadas manifestações da comunicação de massa, dos fatos publicitários, da moda, da música, da fotografia e do mito, chegando a inverter a relação saussuriana, afirmando que a Semiologia é uma parte da Lingüística.


7 de março de 2007

C O M U N I C A Ç Ã O & L I N G U A G E M


Abelardo CHACRINHA Barbosa, o maior conunicador do Brasil do século XX, nunca freqüentou uma Universidade. (1916-1988)

AS FUNÇÕES DA LINGUAGEM


Segundo Roman Jakobson, cada elemento do processo da comunicação humana determina uma diferente função da linguagem. Não se encontram mensagens verbais que preencham uma única função. A estrutura verbal de uma mensagem depende da função predominante.
FUNÇÃO REFERENCIAL – É a mais importante. Então, observa-se o referente como predominante, isto é, a significação é privilegiada. Esta função está centrada no contexto ou referente. Ex. Qualquer informação objetiva, como neste texto: O escritor e teórico da comunicação Marshall McLuhan morreu no dia 31 de dezembro de 1980, em sua residência, aos 69 anos.
FUNÇÃO CONATIVA – O destinatário ou receptor é o elemento básico. Esta função está orientada para o receptor. São expressões mais significativas os vocativos e os imperativos. Ex. Fale, amor, que eu a ajudarei!
FUNÇÃO EMOTIVA – É centrada no emissor ou remetente da mensagem. Visa a uma expressão direta da atitude de quem fala em relação àquilo de que está falando. Mostra a impressão de certa emoção, verdadeira ou simulada. Indica os estados de alma, a atitude de alguém diante de um fato qualquer. Representa uma exteriorização psíquica. Ex. Que dia lindo! Ai, que saudade da Amélia, aquilo, sim, é que era mulher!
FUNÇÃO FÁTICA – Procura estabelecer o contato, a comunicação que parece perdida, atraindo a atenção do destinatário ou receptor. Há predominância do canal, isto é, está centrada no canal. Ex. Alô, ouça-me com atenção, queridinha! Escutem-me todos! Está observando bem, figura talentosa!
FUNÇÃO METALINGÜÍSTICA – Predominância do código, isto é, está centrada no código. É o código explicando o próprio código. A mensagem é explicada em (ou com) outras palavras, a fim de ser entendida pelo destinatário ou receptor. É a linguagem das explicações e das definições. Ex. Picassiano? Sim, pertencente ou relativo ao pintor espanhol Pablo Picasso. Chama-se quimbundo ao indivíduo dos quimbundos, indígenas bantos de Angola. E esta definição de “casamento”, proposta pelo Barão de Itararé:
O médico afirma: É uma enfermidade que começa com um aumento de temperatura e termina com calafrios. O físico: É o encontro de duas forças opostas, uma positiva e outra negativa, do qual resulta uma terceira força, mas que, em geral, é a que manda. O banqueiro: O matrimônio é uma boa transação quando é garantida por um bom patrimônio.
FUNÇÃO POÉTICA – O enfoque da mensagem por ela mesma, isto é, ocorre quando a mensagem explora os recursos da retórica, com metáforas, metonímias etc. Não é encontrada apenas nos escritores. “Qualquer tentativa de reduzir a esfera da função poética à poesia ou de confinar a poesia à função poética seria uma simplificação excessiva e enganadora”, diz Jakobson. Ex. “Entre de sola na escola” – Propaganda de um calçado. (rima interna: sola x escola). Entrar de sola = entrar firme, pra valer. Entrar de sola = entrar com sapatos.
“Se o seu negócio é a vista, nós vendemos a prazo” – Propaganda de uma ótica. (Houve uma espécie de duplo sentido, ambigüidade, até um trocadilho).
“Tua beleza incendiará os navios no mar.
Tua beleza incendiará as florestas.
Tua beleza tem um gosto de morte.
Tua beleza tem uma tristeza de aurora "
. (A.F. Schmidt)

O psicólogo alemão Karl Bühler, em sua obra Sprachtheori, em 1934, foi quem primeiro tratou do estudo das funções da linguagem, designando três possibilidades:

1-A representativa. Predomínio da informação sobre a realidade, sobre o mundo objetivo que nos cerca (corresponde à REFERENCIAL de R. Jakobson);
2- A expressiva. Predomina o remetente ou emissor da mensagem (corresponde à EMOTIVA de R. Jakobson);
3-A apelativa. É centrada no destinatário ou receptor e corresponde à CONATIVA de R. Jakobson.

Vejam que a grande função da linguagem na sociedade humana é a COMUNICAÇÃO, que se realizará por um ato de vontade tácita, isto é, intencionalmente.
E quantos comunicadores nunca ouviram falar dessas coisas que estamos apresentando agora!
Contudo, como a comunicação humana se realiza basicamente pela linguagem articulada do código lingüístico, as funções da linguagem estudadas pelo lingüista do Círculo Lingüístico de Praga, Roman Jakobson (foto maior), têm aplicação importantíssima nos discursos e textos jornalísticos, poéticos e de publicidade. Há, todavia, uma tendência atual de separar apenas duas funções da linguagem humana: a REFERENCIAL (ou cognitiva) e a INTERACIONAL (ou pragmática). Esta última procura “compreender o estudo da língua como meio de ação, de atuação sobre os ouvintes ou leitores. Leva em conta os interlocutores e o contexto de situação” (Carvalho & Souza, Compreensão e produção de textos. Rio de Janeiro, Libro, 1984).

5 de março de 2007

O BARBEIRO DE ITAJAÍ

Estamos apresentando algumas crônicas de Luiz Cesar Saraiva Feijó, publicadas no jornal português O PROGRESSO DA FOZ, Porto, que constam do livro UMA FLOR AMARELA. O livro reúne 60 trabalhos escolhidos, entre os publicados durante 10 anos de atuação no mensário lusitano.


Meu amigo fantasma me acordou de madrugada exigindo que eu o levasse à grande festa da mariscada em Itajaí. Diga-se de passagem, é a maior festa portuguesa do sul do Brasil. Itajaí é uma cidade portuária ao norte do Estado de Santa Catarina, muito bem cuidada e próspera. A presença de Portugal por toda a região é muito significativa, e uma prova disso, além dessa grande festa de frutos do mar, são os eventos festivos, ligados ao folclore português, que se realizam anualmente na ilha de Santa Catarina, onde fica a capital Florianópolis, que apresenta bem nítida, até os dias de hoje, a marca da colonização açoriana nos casarios, praças, ruas e edifícios magníficos, principalmente no bairro de Santo Antônio de Lisboa.

Mas meu amigo fantasma, um cara que morou em vários castelos, meu acompanhante nas andanças pelas terras lusitanas, e que veio para o Brasil na minha bagagem de mão, não fez por menos, queria ir à festa da mariscada em Itajaí e arrancou-me da cama, bem cedo. Num passe de mágica, roteirizou minhas atividades na caderneta de anotações que deixo em cima da mesinha de cabeceira e anotou tudo. Estava determinado e eu não pude deixar de atendê-lo, mesmo porque já havia pensado em comer algumas sardinhas fritas, regadas a um chope estupidamente gelado, lá no grande pavilhão, destinado aos eventos públicos da bonita e simpática cidade catarinense, o terceiro porto brasileiro.

Pela tardinha já estávamos percorrendo as barracas e escolhendo as iguarias. Sentei-me em uma mesa, pedi uma cerveja bem gelada, uns bolinhos de bacalhau e fiquei observando o pessoal. O povo prestigiava a festa e as bandas de música alegravam a noite que começava e corria rápido. Ficou muito cheio o ambiente e não havia mais lugar para se sentar. Reparei que um senhor de meia idade procurava onde se acomodar e meu fantasmagórico amigo me cutucou, dizendo que conhecia seus antepassados lá de Vila da Feira. Como poderia deixar de acreditar nele, se aquela simpática assombração nunca me dissera nenhuma mentira, até então. Chamei o gajo para se sentar a meu lado. Mas antes, desconfiado, perguntei ao diáfano espectro, mais uma vez, agora baixinho, encurvando a cabeça para baixo, falando com a boca semi-abeta, coberta pela minha mão direita em forma de concha, se o cara era gente boa, mesmo. Meu copo de cerveja deu uma sacolejada, dando sinal positivo.

Conversei durante muito tempo com o Sr. Manoel sobre a festa e a tradição açoriana que domina toda a região do litoral catarinense, desde São Francisco do Sul até Florianópolis. Os vestígios são muito evidentes na culinária e nas edificações simples do povo, ainda não seduzido pela inovação das grandes construtoras, admiradoras do verticalismo habitacional, sinal de lucro fácil e, quase sempre, desrespeito ecológico.

Mas fui verificando que minha companhia não correspondia à alegria das bandas de música e ao giro das danças folclóricas de além mar. Pareceu-me tristonho, principalmente quando me disse que seu negócio não estava indo bem, desde o dia em que cedeu ao ímpeto publicitário e colocou seu anúncio num jornal alternativo que circula na região, O Di@rinho. Perguntei o que ele fazia, ou gerenciava, e qual era o ramo de seu negócio. Disse-me que era barbeiro e tinha um salão na rua Marcílio Dias, no centro da cidade, acrescentando:

- “Coloquei um anúncio no jornal: CORTO CABELO E PINTO. Fiquei quase sem freguês”.

Meu amigo fantasma materializou-se, pegando carona num ectoplasma descuidado e, se já não fosse defunto, diria que quase morreu de rir. Foi demais, pá!

1 de março de 2007

PARABÉNS, RIO DE JANEIRO 442

RIO SONHO*

O Gigante Adormecido da Barra da Tijuca
engoliu o sol dos cariocas.
Anoiteceu na Guanabara.
A vida faiscou nos vales
nas montanhas
nas favelas
nas praças
ruas
e boates.

Acenderem-se velas nas encruzilhadas
e as praias refletiram coloridos.
O Cristo fechou os olhos
e adormeceu.
(Seu sono divino abençoou
a cidade do Corcovado)
A natureza zelou o seu repouso.
As ondas cantaram cantigas de roda
dos tempos da corte portuguesa.
Fez-se silêncio de largo do Boticário...

E o Rio de Matacavalos
da rua da Vala
do largo do Paço
dos negros nas ruas
do caxangá
vencia os séculos
Crescia...
Crescia...
Crescia...

Buzinas longínquas
Soavam
como
sinos
da Glória que olham
o mar acimentado.
E o vento soprou da entrada da barra
assoviando no Pão de Açúcar.

No meio da noite
ligeiro ligeiro
o morro desceu
desceu pra sambar
sambou a favela
cuíca pandeiro
mulata dengosa
garota cheirosa
mexendo ligeiro
o corpo faceiro
queimando todinho
pelo sol que já vem.

Voaram andorinhas sonolentas
que moram na Catedral.
Roncou o motor
chegou do subúrbio um trem da Central.
Apitou o navio
nas águas que viram caravelas.
Caravelas de Portugal.

Marcharam os soldados
de Estácio de Sá.
Fragatas guerreiras
canoas de índios
Tamoios Tupis de olhos azuis.

E o Rio reinou
reinou e sonhou
foi majestade
foi imperador.
Dançou nos salões
iluminados da corte.

Ao som da metralha
fez história
com glória
para o porvir.
Escreveu seu nome no livro da liberdade
e amou.

Cresceu com o amor
libertou os escravos
e cantou a marcha triunfal
das grandes nações.

Dos índios das praias
aos bravos soldados
dos campos da Europa
se orgulha do filho forte...

Na ponta de terra

de Copacabana
banhada por mar
alteia-se a tribo
de nobres guerreiros
da forte nação.

-Eu te abençôo, pedaço de terra
esverdeada
em campo de areia.
Surja com o sol de cada dia
a tua felicidade, Rio-Cidade
Rio-Sonho

Sonho de um Deus petrificado
no alto do monte
eternamente
pregando o Sermão da
Bem-aventurança...

O sol iluminou o mundo encantado
e o Cristo acordou feliz
porque sonhou quatrocentos e quarenta e dois anos
de Cidade Maravilhosa.
*Poema escrito por Luiz Cesar Saraiva Feijó, há 42 anos, para homenagear o Rio de Janeiro quatrocentão.

A LÍNGUA PORTUGUESA E O FUTEBOL - II

M E T O N Í M I A

Metonímia - Em sentido lato, isto é, em sentido amplo, “é a figura de linguagem que consiste na ampliação do âmbito de significação de uma palavra ou expressão, partindo de uma relação objetiva entre a significação própria e a figurada. Com esta definição, a metonímia abrange a sinédoque” (Cf. Mattoso Câmara Jr., Op. Cit., 1999, p.167). Um exemplo. Cem cabeças de gado. Stricto sensu, isto é, no sentido mais limitado, as principais relações na metonímia são: a) lugar pelo produto; b) causa pelo efeito; c) matéria pelo objeto; d) marca pelo objeto; e) sinal pela coisa significada; f) abstrato pelo concreto; g) autor pela obra; h) continente pelo conteúdo. No futebol, quer dizer, nos textos que falam do futebol, podemos encontrar muitas situações em que a METOMÍNIA se faz presente. Vamos exemplificar com alguns termos, como: BANCO - BANDEIRINHA - BARBANTE - BICO e muito mais. Vejam lá.

1- BANCO - Significa todos os jogadores reservas que ficam sentados no banco e estão aptos a jogar. Guarda uma noção de plural o que, talvez, justifique a frase dita, um dia, por um técnico de futebol: - “O banco do meu time são de jogadores excelentes”. Ouvem-se, ainda, sem relação ao que foi dito antes, expressões como: “Qual é o banco do Fluminense?”; “Romário está no banco?”. Termo usado, por metonímia, na linguagem esportiva em geral.

2- BANDEIRINHA - Auxiliar de arbitragem nas partidas de futebol, que assinala as faltas, impedimentos, laterais, levantando uma pequena bandeira (vermelha ou amarela ou quadriculada em vermelho e amarelo). Atualmente envia um sinal eletrônico, recebido pelo árbitro, chamando a sua atenção para algo mais sério, que por ventura aconteça. BANDEIRINHA é substantivo comum, masculino ou feminino, pois já há mulheres nessa função de auxílio aos árbitros. O diminutivo é afetivo. BANDEIRA e BANDEIRINHA são casos de metonímia. Atualmente, muitos locutores e comentaristas esportivos, principalmente os que trabalham nas emissoras de televisão, empregam a expressão auxiliar da arbitragem, uma forma de falar, que mostra como a linguagem do futebol está se sofisticando, infelizmente. Existe, também o termo BANDEIRINHA (só subst. fem.) com valor denotativo, sem nenhuma metáfora ou linguagem figurada. Trata-se de uma pequena bandeira, mesmo. Pura denotação. É a bandeirinha pregada na parte superior das estacas, fincadas no chão, nos ângulos retos da figura geométrica retangular, que delineia o campo, onde se pratica o jogo futebol.

3- BARBANTE - Nome que se dá às redes que envolvem as balizas. Como as redes são feitas de corda de náilon, espécie de fibra têxtil sintética e parecem com barbante, que é feito com algodão, fica registrada a metonímia: a matéria pelo objeto. Ouve-se: “Foi no barbante”. Usa-se, também, com o mesmo sentido, o termo “filó”.

4 - BICO - No futebol é usado em expressões como: “Deu de bico”, “Bicão pra cima” etc. Caso de sinédoque: parte pelo todo. BICO refere-se à parte frontal da chuteira, o calçado especial para a prática do futebol. BICÃO: BICO + suf. ão. No basquete, as expressões “Deu bico” e “No bico” significam que a bola lançada em direção à cesta bateu no aro e voltou para ser disputada. Neste caso não ocorre metonímia.

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.