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5 de março de 2007

O BARBEIRO DE ITAJAÍ

Estamos apresentando algumas crônicas de Luiz Cesar Saraiva Feijó, publicadas no jornal português O PROGRESSO DA FOZ, Porto, que constam do livro UMA FLOR AMARELA. O livro reúne 60 trabalhos escolhidos, entre os publicados durante 10 anos de atuação no mensário lusitano.


Meu amigo fantasma me acordou de madrugada exigindo que eu o levasse à grande festa da mariscada em Itajaí. Diga-se de passagem, é a maior festa portuguesa do sul do Brasil. Itajaí é uma cidade portuária ao norte do Estado de Santa Catarina, muito bem cuidada e próspera. A presença de Portugal por toda a região é muito significativa, e uma prova disso, além dessa grande festa de frutos do mar, são os eventos festivos, ligados ao folclore português, que se realizam anualmente na ilha de Santa Catarina, onde fica a capital Florianópolis, que apresenta bem nítida, até os dias de hoje, a marca da colonização açoriana nos casarios, praças, ruas e edifícios magníficos, principalmente no bairro de Santo Antônio de Lisboa.

Mas meu amigo fantasma, um cara que morou em vários castelos, meu acompanhante nas andanças pelas terras lusitanas, e que veio para o Brasil na minha bagagem de mão, não fez por menos, queria ir à festa da mariscada em Itajaí e arrancou-me da cama, bem cedo. Num passe de mágica, roteirizou minhas atividades na caderneta de anotações que deixo em cima da mesinha de cabeceira e anotou tudo. Estava determinado e eu não pude deixar de atendê-lo, mesmo porque já havia pensado em comer algumas sardinhas fritas, regadas a um chope estupidamente gelado, lá no grande pavilhão, destinado aos eventos públicos da bonita e simpática cidade catarinense, o terceiro porto brasileiro.

Pela tardinha já estávamos percorrendo as barracas e escolhendo as iguarias. Sentei-me em uma mesa, pedi uma cerveja bem gelada, uns bolinhos de bacalhau e fiquei observando o pessoal. O povo prestigiava a festa e as bandas de música alegravam a noite que começava e corria rápido. Ficou muito cheio o ambiente e não havia mais lugar para se sentar. Reparei que um senhor de meia idade procurava onde se acomodar e meu fantasmagórico amigo me cutucou, dizendo que conhecia seus antepassados lá de Vila da Feira. Como poderia deixar de acreditar nele, se aquela simpática assombração nunca me dissera nenhuma mentira, até então. Chamei o gajo para se sentar a meu lado. Mas antes, desconfiado, perguntei ao diáfano espectro, mais uma vez, agora baixinho, encurvando a cabeça para baixo, falando com a boca semi-abeta, coberta pela minha mão direita em forma de concha, se o cara era gente boa, mesmo. Meu copo de cerveja deu uma sacolejada, dando sinal positivo.

Conversei durante muito tempo com o Sr. Manoel sobre a festa e a tradição açoriana que domina toda a região do litoral catarinense, desde São Francisco do Sul até Florianópolis. Os vestígios são muito evidentes na culinária e nas edificações simples do povo, ainda não seduzido pela inovação das grandes construtoras, admiradoras do verticalismo habitacional, sinal de lucro fácil e, quase sempre, desrespeito ecológico.

Mas fui verificando que minha companhia não correspondia à alegria das bandas de música e ao giro das danças folclóricas de além mar. Pareceu-me tristonho, principalmente quando me disse que seu negócio não estava indo bem, desde o dia em que cedeu ao ímpeto publicitário e colocou seu anúncio num jornal alternativo que circula na região, O Di@rinho. Perguntei o que ele fazia, ou gerenciava, e qual era o ramo de seu negócio. Disse-me que era barbeiro e tinha um salão na rua Marcílio Dias, no centro da cidade, acrescentando:

- “Coloquei um anúncio no jornal: CORTO CABELO E PINTO. Fiquei quase sem freguês”.

Meu amigo fantasma materializou-se, pegando carona num ectoplasma descuidado e, se já não fosse defunto, diria que quase morreu de rir. Foi demais, pá!

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.