Quantos me visitaram ?

11 de junho de 2016

NO DIA DE LUÍS DE CAMÕES



NO DIA DE LUÍS DE CAMÕES

No dia 10 de junho, quando lembramos a morte de Luís de Camões, comemoramos também o dia da Língua Portuguesa. Nada mais justo do que dedicar esse dia à nossa língua materna, o português, língua em que Camões cantou os feitos heroicos do povo português, em sua memorável epopeia, Os Lusíadas, publicado em vida do autor, em 1572 (bico do pelicano para a esquerda). Mas Camões também foi poeta lírico. Deixou-nos uma obra significativa, composta por poemas esparsos, como sonetos, odes, canções, tercetos, sextinas, oitavas, écoglas e redondilhas em estado de absoluta dispersão manuscrita e impressa. Não há autógrafos da lírica de Camões. Até 1968, quando de sua morte prematura, Emmanuel Pereira Filho, até então o maior crítico da lira camoniana, dizia que “a revisão crítica da poesia lírica de Camões hoje se impõe como inadiável e terá de começar necessariamente pelo enfoque de sua problemática textual”. Depois de nos deixar tão precocemente, assumiu seu lugar na incansável busca do estabelecimento do CORPUS LÍRICO DO POETA, o Professor Leodegário A. de Azevedo Filho, que desde o final dos anos 60, até 2011, portanto durante mais de 40 anos trabalhou para dar ao mundo da ecdótica uma forma de solução para o estabelecimento de um corpus mínimo da lírica do nosso maior poeta, Luís de Camões. Emmanuel Pereira Filho lutou com todas as suas forças para salvar do esquecimento tudo o que Camões houvera deixado no campo do lirismo poético e tentou estabelecer o CÂNONE LÍRICO, isto é, a totalidade dos poemas que verdadeiramente sejam de Luís de Camões. Numa época em que o material a seguir para a impressão era de difícil realização, imaginamos como seriam os incipientes livros que surgiam. Eram de dois tipos. Os chamados LIVROS DE MÃO (manuscritos) e os IMPRESSOS. Emmanuel dizia que o CÂNONE LÍRICO de Camões não deve nem pode ser compreendido como todos os poemas que Camões, por acaso, tivesse escrito, mas sim como o conjunto de dados que possa dar uma norma ou um rumo de como Camões seja como poeta lírico. Assim, chega-se ao seu conceito de CÂNONE. Isso estabelecido deduzir-se-á que tenhamos de levantar um conjunto de textos com suas principais características estilísticas; esse conjunto deverá ser selecionado baseado em elementos documentais; essa seleção será orientada por um método rigorosíssimo, com total probabilidade de os poemas serem do autor; esse conjunto não seria um ÍNDICE CANÔNICO (acabado), mas um ÍNDICE BÁSICO DE AUTORIA; e finalmente, Emmanuel Pereira Filho termina elencando os pré-requisitos, para se instaurar o CÂNONE LÍRICO DE CAMÕES: diz ele: “o estabelecimento crítico de cada texto terá de ser feito isoladamente, pois a heterogeneidade da tradição documental e o desconhecimento das fontes originais e mesmo arquetípicas assim o exigem, fazendo com que seja uma falha de critério ecdótico qualquer tentativa de fixá-los em conjunto”.
Então, seguindo os caminhos abertos por Emmanuel Pereira Filho, Leodegário A. de Azevedo Filho irá estabelecer este CÂNONE DA LÍRICA DE CAMÕES, com um árduo trabalho que durou quase meio século, no campo do saber da crítica textual. Assim, Leodegário, meu professor na UERJ, meu orientador nas minhas pesquisas acadêmicas e institucionais, meu compadre e grande amigo atingiu seu objetivo, com muito mais rigor ainda, deixando, contudo, inconclusa a sua magnífica obra, editada pela Casa da Moeda de Portugal, atingindo o número expressivo de 9 volumes com mais de oitocentas páginas cada um. Hoje não se pode realizar nenhum trabalho científico, crítico-literário, sobre a obra lírica de Camões sem se referir às metodologias desses trabalhos importantíssimos que realizaram esses dois pesquisadores brasileiros no campo da ecdótica e da crítica textual nesta área específica. 
Para que os senhores tenham um pequeno conhecimento dessa gigantesca contribuição aos estudos camonianos, mostraremos, como exemplo, um trabalho de análise textual num soneto, decididamente, de Camões, segundo os critérios do duplo testemunho quinhentista incontroverso e com apoio em manuscritos, estudados pelo Professor Leodegário.
Antes, gostaria de salientar, para maior entendimento e clareza, que os primeiros passos dados pelo pesquisador nessa investigação de tamanha envergadura foram no sentido de se delimitar o CORPUS LÍRICO DO POETA no amplo e caótico universo textual que sempre fora ou não atribuído a Camões, com ou sem motivos; com ou sem razões. É importante salientar, também, que não existe nenhum autógrafo da lírica de Camões e o que dele nos chegou até hoje são textos dispersos, manuscritos (trabalho de escribas) ou impressos. Somente três poemas foram publicados em vida do poeta, embora haja duas edições da sua lírica no século XVI, ambas póstumas: a de 1595 (RHYTHMAS) e a de 1598 (RIMAS): RH e RI, portanto.
Há uma longa história sobre os editores dessas obras, e essa história é importantíssima para uma completa visão sobre o assunto, o que não vou a isso me referir agora, por absoluta falta de tempo e para não cansar esse auditório. Mas tanto em RH, como em RI estão as origens da primeira tradição textual impressa, vinda dos cancioneiros manuscritos. Esses manuscritos reproduzem por vezes, outros já perdidos, mas conservam a tradição, mesmo, muitas vezes, partindo de cópias apógrafas. Assim, só resta à Crítica Textual, a alternativa de reconstruir o seu protótipo ou arquétipo com base nos cancioneiros manuscritos. A caça a cancioneiros quinhentistas perdidos faz parte do trabalho abnegado dos exegetas, dos que trabalham com os textos antigos em geral. Para poder concluir aqui essa singela apresentação a respeito do fantástico trabalho do Prof. Leodegário sobre a Lírica de  Camões, mostraremos um exemplo de como funciona uma análise textual e mostraremos que sua lírica está minada pelo espírito Maneirista, pela ascensão da dúvida em sua visão de mudança do mundo de sua época (renascimento). Mostrar que sua lírica está minada pelo dualismo conceitual, portanto conflitual, da vido do homem pré-barroco, na dolorosa tensão entre a carne e o espirito, envolvendo-o o descontentamento ou desconcerto do mundo, que inquietam a lírica dos poetas desta fase. Poderemos mostrar que sua lírica está minada também pelo conceito platônico de IDEIA que se harmoniza com o conceito apriorístico de forma. Para entendermos os textos líricos camonianos desta época não podemos esquecer que o Homem de então resulta do binômio CORPO / ALMA e que, a partir, de padrões renascentistas de gêneros clássicos, a poesia lírica de Camões se exprimirá em termos maneiristas, em relação ao amor e à esperança perdida.

Segue o soneto:

Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo deste corpo descontente,
repousa tu nos Ceos eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde sobiste,
memória deste mundo se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
algua  cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

pede a Deos, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo dos meus olhos te levou.

Fontes quinhentistas: PR – 10; CrB – 31; LF – 8v; M – 12; E – 36v; RH – 4v; RI -5v.
Fonte básica: LF – 8v.
ABREVIATURAS
PR – “Índice” do Cancioneiro do Padre Pedro Ribeiro.
CrB – Cancioneiro de Cristóvão Borges.
LF – Cancioneiro de Luís Franco Correa.
M – Cancioneiro de Madrid.
E – Cancioneiro da Biblioteca do Escorial.
RH – Rhythmas, primeira edição, de 1595.
RI – Rimas, segunda edição, de 1598.

 NOTA: O "u" da palavra "algua" recebe um til (~). Não foi possível grafar com esse sinal indicador da nasalidade, por motivos técnicos

ANÁLISE TEXTUAL DE LEODEGÁRIO A. DE AZEVEDO FILHO

"A tradição impressa, a partir do segundo verso (tão cedo deste corpo descontente), uniformizou o uso da palavra VIDA, empobrecendo o vocábulo do soneto: “tão cedo desta vida descontente”. Muito provavelmente, entretanto, aí se tem o CORPO e não a VIDA, como se tem MUNDO no sexto verso e não VIDA (memória deste mundo se consente). O substantivo CORPO, em sentido filosófico-religioso, refere-se à matéria de que todos somos constituídos, em oposição à alma, nossa parte imaterial. A partir do Maneirismo, começa a desarticular-se a harmonia clássica existente entre os dois termos do binômio CORPO e ALMA, numa tensão que iria chegar às últimas consequências no Barroco".

ATÉ A PRÓXIMA

8 de junho de 2016

VERSO & PROSA





Li, há pouco tempo, algo que me fez refletir sobre os aedos gregos, suas músicas e seus poemas. Realmente, o que mais me impressionou foi o pancronismo contido no texto, pois poesia, filosofia e o material de trabalho de poetas e filósofos se misturavam, nos tempos dourados da Grécia antiga.

Em matéria literária, a imaginação sempre precede a reflexão. Assim sendo, o verso surge bem à frente da prosa, em todas as literaturas. Não poderia ser diferente com a mais antiga das civilizações, que legou ao ocidente, via Roma, as suas pujantes e significativas formas estéticas: a civilização grega. Entre o profícuo pulsar da poesia (em verso, pois retorna, enquanto a prosa continua) e o surgimento efetivo da prosa grega, há um período de aproximadamente trezentos anos. Se a poesia grega deu asas à imaginação ciclópica, a prosa dos gregos proporcionou, com exclusividade, o surgimento do pensamento filosófico e científico. Escrevi, certa vez, que o rádio moderno, em determinadas situações, exerce a função de oráculo, junto ao ouvinte crédulo, pelo discurso produzido à distância e em prosa, através de um narrador que transmite acontecimentos formidáveis. E é tão forte esta narrativa mágica que o ouvinte lhe dá total crédito, mesmo que, in presentia, seja testemunha ocular dos acontecimentos que se desenrolam à sua frente, pois a ansiedade de ouvir supera a obrigatoriedade de ver, isto porque a voz do outro, a do oráculo, é a expressão da suprema verdade, minimizando magicamente o entendimento do receptor, que se vê impossibilitado de maximizar sua capacidade reflexiva (Ver: A linguagem dos esportes de massa, Rio de Janeiro, UERJ/Tempo Brasileiro, 1994, p. 54). Com o passar do tempo, o oráculo grego deixou de dialogar em verso, obrigando os consulentes a se comunicarem em prosa. Portanto a linguagem da razão suplantou, pontualmente, a linguagem da emoção e assim seguiram os acontecimentos históricos. A prosa no lugar da poesia comandou, a partir deste momento, a comunicação interpessoal e também as múltiplas interpretações do mundo circundante, na voz dos filósofos, pedagogos e historiógrafos.

O termo verso, em grego “stícsos”, veio, portanto, antes da prosa, e era estruturado, na língua grega, de acordo com certas medidas  – e eram muitas -  ,sempre constituído em “pés” ou medidas, que se pautavam pela quantidade e não pela intensidade das sílabas. Isto significa que uma sílaba longa, por exemplo, correspondia ao dobro de uma sílaba breve. Já nas línguas de ritmo intensivo, como o português, as sílabas de um verso se caracterizam pela predominância de uma sílaba sobre a outra, significando que uma é fraca e a que predomina sobre ela é forte. Isto ocorre num determinado grupo de força, quando não pode haver uma sequência de três sílabas fracas, chamadas átonas, sem que uma delas se torne forte, chamada tônica. Não existe, portanto, na língua portuguesa, que é de ritmo intensivo e não quantitativo mais de três sílabas fracas, átonas, seguidas, sem que uma se torne forte, tônica. São raros os casos de três sílabas fracas seguidas, como no exemplo: “dé-ra-mos-lo”, forma verbal do verbo DAR mais a forma pronominal LO. Assim, pode-se, também, afirmar que os versos gregos, dos séculos V e seguintes, antes de Cristo, constituídos pelas epopeias (– épe -), pelo lirismo (– méle-) e pelo elegíaco ( –elegueia),  não apresentavam RIMAS, pois seu ritmo era marcado por modelos de oscilação quantitativa, chamadas “pés”, como dissemos acima.

Já as RIMAS foram introduzidas nos versos das línguas românicas ou neolatinas depois de o latim vulgar ou romance, no caso do português, estar disseminado pelas terras do antigo Condado Portucalense, no século XII e já neste mesmo século surgiu a “Cantiga da Guarvaia”. Portanto, afirmar-se que os antigos poetas gregos, sucessores da poesia de Píndaro, foram os inventores da RIMA para que a poesia pudesse se harmonizar e se equilibrar é uma forma poética de exegese, só para o acalanto das almas românticas, funcionando mesmo como metapoesia... Mas isso é bom, porque nos faz refletir sobre o pretérito da arte poética.


ATÉ A PRÓXIMA


31 de maio de 2016

A TROVA






Lendo com atenção o folheto, Boletim Nacional, que recebo mensalmente da União Brasileira de Trovadores, presidida por Domitilla B. Beltrame, chamou minha atenção a matéria de Dalva Ventura, articulista do Jornal A VOZ DA SERRA, de Nova Friburgo, RJ, um excerto de seu artigo intitulado “Rodolpho Abbud, uma rara unanimidade”, artigo este que foi publicado em 30 de janeiro de 2009 e agora adaptado e atualizado por JB Xavier. Também mereceu minha atenção o texto de A.A. de Assis sobre “O Prestígio da Trova”. Achei realmente interessante, não que alguém ainda tenha dúvida se esta forma lírica de versejar seja ou não um significativo gênero literário. Claro que o é. Em seu texto, A.A. de Assis fez referência a duas grandes figuras do cenário cultural, relacionadas aos estudos a que me dedico: a Literatura e a Filologia. O articulista, poeta e exímio trovador, pertencente à União Brasileira de Trovadores, mostrando o prestígio da trova, transcreve um pequeno trecho da segunda parte do discurso de recepção a Adelmar Tavares, na Academia Brasileira de Letras, pelo acadêmico, o filólogo, Laudelino Freire, intitulada  A Trova.

Transcrevemos o texto completo de Laudelino Freire:
                
 “Tanto que surgiu, revelou-se a trova poesia rigorosa na técnica, na rima e sonoridade rítmica. Aperfeiçoou-se na beleza dos temas, na agudeza dos conceitos e na harmonia das palavras. Cultivaram-na finos espíritos entre nobres e burgueses, reis, damas e monges, e foi nesse ambiente de aristocracia que se desenvolveu até chegar à perfeição, sem se desvestir da nobreza das suas origens,

                Da antiga província romana, onde nasceu para a nossa língua, emigrou como alva flor, para, perfumando a ate noutros meios, entreabrir-se asos brincos da fantasia.

Modo natural e simples de poetar, é a expressão mais espontânea dos sentimentos que o amor inspira. Será sempre, por isso, poesia do coração, na qual apenas entra a arte para enfeitá-la com as pompas da forma, que, apurada e perfeita, só pensamos encontrar nos vates, em quem, delindo-se a imaginação, a métrica artificiosa supre os primores da originalidade e do sentimento” (Apud, CAMPOS, Humberto de. Antologia da Academia Brasileira de Letras. Trinta anos de discursos acadêmicos: 1897-1927, W.M. Jackson Inc, Editores, Rio de Janeiro, S.Paulo, Porto Alegre, 1958, p. 431) .


Assim, percebe-se que a trova é uma composição eminentemente romântica, aliás como Laudelino Freire a considera, na primeira parte de sua saudação ao novo acadêmico, quando tece considerações à obra de Adelmar Tavares, considerando-a guardiã de significativos ingredientes românticos.

Isto posto, passaremos a algumas e poucas considerações que considero importantíssimas sobre esta tão curta composição poética.

Para que quatros versos heptassílabos sejam considerados uma trova, é necessário, primeiramente, que haja rimas entre eles. As rimas de uma trova deverão existir, rimando o primeiro verso com o terceiro e o segundo com o quarto.

A trova, este poema de quatro versos e de sete sílabas cada um, caracterizará uma estrutura formal, em simetria rígida, mantendo um coerente paralelismo semântico entre os dois dísticos que a formam. Aliás, o verso de sete sílabas, também chamado de heptassílabo ou redondilha maior é o mais popular da lírica portuguesa, correspondendo à plena espiração do ato da respiração. Joaquim Ribeiro dizia que até os xingamentos são efetuados em redondilha maior... Assim é que, com esses paralelismos e simetrias conclusivos, os grandes poetas versejaram e versejam suas trovas. 

Por fim, as trovas devem exercer o fascínio pelo belo, explorando o lirismo romântico  contido nos temas que abordam, podendo, entretanto, ressaltar aspectos filosóficos e, por desvio de abordagem, o aspecto humorístico.

Mas, para que essa receita funcione, seu autor deverá trabalhar com as várias funções da linguagem, privilegiando o conotativo sobre o denotativo, onde a metáfora, mãe de todas as figuras de linguagem se fará presente, emocionando, transfigurando a realidade e criando novas formas significativas.

Eis a receita para se alcançar o belo. Fácil? Diga SIM aquele que nunca sofreu para encaixar tudo isso em quatro linhas rítmicas que transgridem o mais significativo de todos os códigos da vida: código da linguagem.  


ATÉ A PRÓXIMA

29 de maio de 2016

VERSEJAR É PRECISO, MAS É DIFÍCIL






“Presença no firmamento
em noite clara, estrelada:
– É o amor de Deus que, atento,
nos guarda na madrugada”.



Atendendo a um consulente que me pediu uma explicação sobre incoerência lírica, escolhi um exemplo de equívoco conceitual em poesia,  para mostrar esta situação. Um equívoco conceitual ocorre, por exemplo, na trova acima, premiada em concurso literário, colhida na revista da UBT, dezembro de 2015, incluída entre as Líricas e Filosóficas. O equívoco conceitual leva a uma  incoerência lírica, pois o lirismo fica prejudicado em sua plena realização. 
Este equívoco conceitual diz respeito ao sentido que os dois primeiros versos da trova citada, in caput, deveriam conter, para a conclusão surgir nos dois últimos versos da trova. E é assim que esse tipo de gênero lírico popular funciona.

Os dois primeiros versos da trova transcrita não propõem nada e os dois últimos tentam concluir o que não foi proposto.

Senão, vejamos: “Presença no firmamento / em noite clara, estrelada:”

     Presença do quê, ou de quem? A função denotativa da linguagem, de acordo com o texto, está predominando sobre a função conotativa, sem constituir uma ilação entre o concreto e o abstrato, material com o qual o sujeito lírico trabalha, para arquitetar uma subjetividade, através do código linguístico, explicitando o poético. Portanto o poético se fez excludente.

 E mais, os dois últimos versos, que na realidade representam um dístico, são uma resposta, percebida pelos diacríticos formais, dois pontos e travessão, que os estruturam como tal. Sendo respostas, os dois primeiros versos deveriam funcionar como a indagação. Isso não ocorreu. Logo a falta de uma proposição e da esperada conclusão  prejudicam o fazer poético e proporcionam um falso lirismo. Incoerência lírica.
Por outro lado, a nosso juízo, e já nos afastando de um equívoco conceitual, mas imbricado com a forma de se escandir um verso, é importante salientar que não só a contagem silábica deve ser levada em conta, mas também a indicação que o autor faz, com elementos diacríticos, no caso as vírgulas, indicando a pausa na leitura, para justificar um aposto, ou uma qualificação, ou um predicativo, para dar sentido à frase, pois nunca o aspecto fonológico poderá suplantar o semântico, devendo os dois conviver harmoniosamente, no plano da formatação dos gêneros poéticos.

Eis as dificuldades, o mistério e a beleza do versejar. Assim sendo, a sinalefa /kya/, resultante de “que atento” (3º verso) pode ser possível, mas teria de se adequar à estrutura semântica, isto é, ao sentido que o autor quis dar ao verso. Portanto, se estes dois últimos versos fossem realmente a resposta de alguma indagação poética, o aspecto semântico só se presentificaria, se o leitor obedecesse ao ritmo imposto pela pontuação, que o próprio autor definiu com as vírgulas. Seria assim, numa metalinguagem crítica: Isto é o amor de Deus, o qual Deus, sempre atento a tudo, nos guarda e nos protege na madrugada. Versejar é preciso, mas é difícil...



ATÉ A PRÓXIMA




Powered By Blogger

Arquivo do blog

Quem sou eu

Minha foto
Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.