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1 de maio de 2015

ALGUMAS PROPOSTAS CONCEITUAIS DA LINGUÍSTICA





 


Você, certamente, já ouviu falar em ciência da linguagem, não é mesmo? Pois é. Esse estudo é desempenhado pela linguística. Mattoso Câmara Jr., um dos maiores estudiosos brasileiros dessa matéria, diz que a Linguística é a ciência que estuda a linguagem humana, mas considerada na base da sua manifestação como língua. Aí já surgem dois termos parecidos que devem ser explicados, pois linguagem é uma coisa e língua é outra. A Linguagem é a faculdade que o homem tem de exprimir seus estados mentais por meio de um sistema de sinais, chamado Língua, constituído esse sistema por sons vocais. Logo, Língua é um sistema de sons vocais por que se processa numa comunidade humana o uso da Linguagem. Essa é a lição inicial do grande mestre Joaquim Mattoso Câmara Jr., meu saudoso professor e colega na Academia Brasileira de Filologia.
Para se estudar o fenômeno linguístico temos de conhecer alguns conceitos básicos dessa ciência, relativamente nova, surgida no início do século XX, com Ferdinand de Saussure.

Então, vamos ver alguns desses conceitos.

Signo linguístico – Signo é um sinal (do latim signum). Na comunicação, é um elemento que contém um significado, um sentido e nos transmite algo. Lato sensu, o signo abrange muitos sinais, linguísticos e não-linguísticos. Na Linguística moderna, envolvida pela Semiologia saussuriana (Ferdinand de Saussure), o signo linguístico será o relacionamento recorrente entre uma imagem acústica (chamada significante) e um conceito (chamado significado). Assim, o significante CASA /KAZA/ relaciona-se ao significado HABITAÇÃO, arbitrariamente, isto é, não existirá nenhuma relação lógica de ordem interna no significante /KAZA/ que implique um significado como este de HABITAÇÃO. Isto quer dizer, em outras palavras, que o somatório dos fonemas (sons) K + A + Z + A não se relacionam logicamente com o conceito HABITAÇÃO. Saussure diz, portanto, que o SIGNO LINGUÍSTICO é arbitrário. Contudo, este mesmo SIGNO LINGUÍSTICO é motivado, o que significa dizer que, no grupo social de indivíduos falantes-ouvintes, agrupados por um mesmo sistema linguístico (mesma língua), este sinal passa a ser interpretado por todos como UM TIPO DE HABITAÇÃO,  variando sua especificidade, de indivíduo para indivíduo, de acordo com, pode-se dizer, a história de suas vidas coletivas (vida social: a vida de cada um). Assim, um favelado brasileiro irá chamar seu BARRACO de CASA; um magnata burguês chamará seu PALACETE de CASA e assim por diante. Para ir mais longe: Ferdinand de Saussure, Curso de linguística geral, São Paulo, 4ª ed., Cultrix, 1972; Mamoel Pinto Ribeiro, Nova Gramática da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Ed. Metáfora, 2000; Castelar de Carvalho, Para compreender Saussure, Petrópolis, Vozes, 1997; Eric Buyssens, Semiologia e comunicação linguística, São Paulo, Cultrix, 1974; Mattoso Câmara Jr., Princípios de linguística geral, 3ª ed., Rio de Janeiro, Acadêmica, 1959; Roland Barthes, Elementos de semiologia, São Paulo, Cultrix, 1971. Luiz Cesar Saraiva Feijó, A linguagem dos esportes de massa e a gíria no futebol, Rio de Janeiro, UERJ/Tempo Brasileiro, 1994. Ver. (59- CUCA, p. 91) – (147- PEIXINHO, p. 122).

Sintagma – De acordo com Ferdinand de Saussure, é a combinação de formas mínimas numa unidade linguística, combinação na cadeia da fala. É, também, um conjunto binário, em que um elemento determinante cria um elo de subordinação com outro elemento, que é determinado. Para ir mais longe: Ferdinand de Saussure, Curso de linguística geral, São Paulo, Cultrix, 1972; Mattoso Câmara Jr., DLG, 1999; Manoel Pinto Ribeiro, Nova Gramática..., 2000. Luiz Cesar Saraiva Feijó, A linguagem dos esportes de massa e a gíria no futebol, Rio de Janeiro, UERJ/Tempo Brasileiro, 1994. Ver. (25- BATE-PRONTO, p.80) - (133- MEIO DA RUA, p. 117) – (49- CIDADELA, p. 88) - (104- GOL, p. 107) – (132- MEIO-CAMPISTA, p. 116) – (191- TIJOLO, p. 138) Ainda de Luiz Cesar Saraiva Feijó, Brasil X Portugal, um derby linguístico, Rio de Janeiro, IBLL, 1998, ver (60- FAZER O GOSTO AO PÉ, p. 118) – (95- PASSE RASGADO, p. 138) – (117- REMATAR COM A CANELEIRA, p. 146).

Paradigma – É um modelo. Em linguística é o modelo seguido por qualquer representação do sistema da língua. Assim, há um paradigma para a conjugação ou declinação gramatical de uma determinada língua. Em português, por exemplo, o infinitivo em –ar é o paradigma verbal da 1ª conjugação.

Sincronia – Termo de Ferdinand de Saussure que designa a captação dos fatos de uma língua num determinado instante de sua história. Tomemos o exemplo do verbo COMER. Sincronicamente seu radical é COM; sua vogal temática de 2ª conjugação é E; o R é desinência de infinitivo.

Diacronia – Termo de Ferdinand de Saussure que designa a transmissão de uma língua de geração a geração, através do tempo, sofrendo alterações e evoluindo. É o estudo da história da língua. Tomemos o mesmo exemplo visto acima. O verbo COMER veio do latim COMEDERE. Logo, COM é prefixo; ED é radical; ERE é desinência verbal de 2ª conjugação.

Langue – Termo da lingüística saussuriana. É a língua como sistema; abstrata; imóvel; reacionária; social. É como se falar da LÍNGUA PORTUGUESA como uma estrutura abstrata, repleta de uma organização criada pelo discurso do especialista pesquisador. Não é a LÍNGUA PORTUGUESA que se fala; que se ouve na boca do indivíduo falante-ouvinte.

Parole - Termo da linguística saussuriana. É a língua no seu dinamismo falado; criativa; concreta; individual. É o que se fala e o que se ouve quando nos comunicamos concretamente com nosso interlocutor.

Dupla articulação da língua: fonema e morfema – Conceitos da linguística saussuriana desenvolvidos por André Martinet. A dupla articulação é o que distingue a linguagem humana da linguagem animal. Está baseada em dois momentos distintos de análise linguística:
a) Primeira Articulação: um significante relaciona-se a um significado, tanto do mundo do homem, quanto do mundo gramatical. Obteremos elementos mínimos sob esta ótica. Tomemos por exemplo a análise, neste nível, do vocábulo MENINAS. Este vocábulo, então, comporta esta primeira análise: MENIN = radical; A = desinência de gênero; S = desinência de número. MENIN será um SEMANTEMA, pois é um SIGNIFICANTE com um significado do mundo do homem, isto é, significa CRIANÇA. -A é desinência do gênero feminino, portanto um elemento puramente gramatical, logo será um MORFEMA. Assim, também será MORFEMA a desinência de plural -S, pois tem significado puramente gramatical. Assim, não é mais possível analisar (separar) partes do vocábulo MENINAS, de outra forma, que não essa, sem relacionarmos o que foi separado (significante), atribuindo-lhe um significado. Se o fizermos de outra forma, tudo perderá o sentido. Vejam: Se separo assim: ME – NINAS, perguntamos. Se ME é um significante, qual o seu significado? Da mesma forma NINAS. O que é NINAS?
b) Segunda Articulação – Separa-se o vocábulo em seus segmentos mínimos sonoros, sem preocupação em encontrar um significado, tanto do mundo do homem quanto do mundo da gramática para o que for separado. Assim: MENINAS. /M/ - /E/ - /N/ - /I/ - /N/ - /A/ - /S/. Não há possibilidade de separação desses sons destacados em unidades menores. Logo, estes sons são mínimos e indivisíveis, portanto são FONEMAS.

Se você gostou da apresentação didática dessa iniciação aos estudos linguísticos, manifeste-se, que continuaremos falando de muitos outros conceitos saussurianos.

ATÉ A PRÓXIMA  

2 comentários:

Thereza Pires disse...

Não é um simples texto,Professor,é uma aula !
Aguardo a continuação!
Saudações tricolores, apesar de nosso time não merecer muito..
Thereza

Professor Feijó disse...

Obrigado, Thereza, vou falar mais sobre isso. às vezes pode servir para alguma coisa... Esforço-me. Agora, o nosso FLU está parecendo um timeco, né? Ficou sem a UNIMED, adoeceu...

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.