Quantos me visitaram ?

1 de junho de 2019

UMA RECENSÃO À GUISA DE PREFÁCIO OU VICE-VERSA: UMA VIDA ALEGRE DE AMOR E POESIA





Alegria” é o terceiro livro do poeta Ayrton Bento Mafra. Antes, havia publicado “Amor em Evidência”, 2009 e “Reflexões”, 2015. Nos três livros desse extraordinário poeta catarinense, que surge sem alarde, sem grandes anunciações, sem uma conhecida editora a lhe apresentar ao mundo literário e à crítica especializada, estão reunidos mais de mil poemas, em forma de sonetos e sextilhas, todos dentro dos rígidos padrões da arte poética. Ayrton não se esqueceu de contemplar, em “Alegria”, o poema moderno. Seu texto modernista não é radical, não desrespeita os ditames gramaticais nem se transforma em enigmas indecifráveis. Volta-se para o cotidiano, com um vocabulário sem nenhuma pompa, num aproveitamento poético da linguagem espontânea, construindo versos livres de rimas, com estrofações, as mais variadas possíveis. Todas essas publicações, que vieram a lume, foram preparadas por pessoas de seu convívio diário, seus parentes mais próximos, filhos e, principalmente, sua esposa. Assim sendo, senti-me extremamente horado ao receber o convite para preparar uma introdução a esse seu terceiro livro, “Alegria”, que, realmente, é um hino ao amor e ao próximo, pois o título contagia.... Seus familiares e amigos mais chegados, sensíveis ao formidável impacto estético que os seus versos lhes proporcionaram, foram os editores dessa terceira publicação. Eles não só permitiram que a pródiga e agradabilíssima produção poética de Ayrton Mafra fosse apreciada publicamente, como ofereceram à crítica literária especializada um magnífico material, para o surgimento de significativas análises e microanálises literárias, que, certamente, colocarão o nome de Ayrton Mafra ao lado dos mais significativos poetas brasileiros.
Como é sabido, toda e qualquer obra de arte está sempre centrada na ótica do receptor e, por conseguinte, somente quando o atingir, como destinatário final, estarão as mensagens poéticas, no caso os poemas de Ayrton Mafra, poeta catarinense da pequena, mas próspera e bucólica Ilhota, prontas para os mais significativos e diferentes estudos críticos especializados. Então, chegou o momento. Três livros já estão à disposição do leitor sensível ao belo.
Não pretendemos, aqui e agora, desenvolver uma teoria sobre o retorno do metro clássico na poesia moderna, mas e somente iniciar um movimento para chamar a atenção dos estudiosos a respeito de uma grande voz poética que trabalha, sim, o verso clássico com o rigor que lhe é exigido, e que não o aprisiona nas amarras parnasianas, mas o torna deliciosamente agradável aos ouvidos, suavizando o ritmo alucinado das cesuras métricas, com um conteúdo variadíssimo de temas que levam-nos a refletir sobre a vida e o comezinho do dia-a-dia, deixando-nos envolver pela harmonia rítmica, compassadamente estruturada na singela beleza de suas rimas. Assim essa voz poética, uma das mais significativas desse pós-modernismo sincrético, lega-nos, com a publicação desses seus três volumosos e preciosos livros, um texto poético denso, sem excessos e obediente às mais rígidas estruturas da arte poética.
O terceiro livro de Ayrton Mafra, “Alegria”, apresenta três tipos de poemas: o soneto, a sextilha e o poema livre na concepção modernista. Nesse novo livro, o poeta continua privilegiando o amor e a natureza, como os grandes temas centrais de sua obra. Portanto, o Leitmotif, responsável pelo desenvolvimento de seu eu-lírico, muitas vezes intimista, leva-o a ver e a sentir, de maneira peculiar, o mundo que o cerca, através de ritmos expressivos, mas vigorosos, tanto nos sonetos como nas sextilhas. O livro inicia com o soneto que dá nome à obra, numa ode à vida. É uma homenagem à poesia, que sustenta alegremente seu viver. Para o poeta, a poesia é um bálsamo ao seu sofrimento, que se apresenta latente, nunca manifesto, e que surge, muitas vezes, por antíteses, implícito, aqui, no último verso do primeiro quarteto, onde vocábulos fonéticos, por exemplo, significativamente representativos da vida como alegria, que suplanta tudo, surgem (botapra cimasustenta – vida - alimenta): “que me bota pra cima, me sustenta”, e nos dois últimos versos do segundo quarteto:   ainda me dá vida, me alimenta, / levanta o meu astral dia após dia”. Estruturalmente, neste soneto, composto todo por versos decassílabos heroicos, com o esquema de rimas abba – baab – ccb – ddb – , as duas quadras são a proposição temática e os dois tercetos a conclusão, chegando-se, ao décimo quarto, o último verso, à chave de ouro do soneto, uma perfeita e completa semantização da proposta inicial.

ALEGRIA

Bem viva, mais e mais se implementa
em mim, duma maneira luzidia,
essa coisa chamada de alegria
que me bota pra cima, me sustenta.

Constantemente, em minha companhia,
é ela quem, à flor dos meus setenta,
ainda me dá vida, me alimenta,
levanta o meu astral dia após dia.

Eu sinto, de maneira enorme, imensa,
que ela simplesmente é a presença,
presença que, demais, se evidencia

bonita, importantíssima, constante,
preciosa como a gema do brilhante,
brilhante como a luz da poesia”.

            Não é nossa intenção realizar, com o presente comentário, uma análise estilística desse novo livro de Ayrton Mafra, nem de alguns de seus poemas, isoladamente, mas pretendemos, isto sim, tentar mostrar o valor intrínseco de suas produções, pinçando do conjunto dessa significativa obra poética, que agora o leitor tem em mãos, alguns dos mais interessantes e significativos artifícios técnicos de que o poeta lança mão, para construir seu texto lírico. Tentaremos, simplesmente, ressaltar em seus sonetos, sextilhas e demais poemas, aquilo que, a nosso juízo, é o condutor de seu lirismo, o amor à vida, fator de transfiguração de uma realidade só sua, íntima, mas que, ao mesmo tempo, é plural, pois tudo que sensibiliza o poeta é fruto de observações no ambiente circundante, onde pessoas interagem. Assim, o poeta se transporta para o outro, com o qual está comprometido socialmente.

            Formalmente, para materializar suas pretensões poéticas, Ayrton recorre a inúmeras formas de criação, sendo o enjambement uma delas em especial e com a qual trabalha magistralmente. Essa partição da frase de um verso, sem respeitar as fronteiras claras do sintagma, colocando um termo do sintagma no verso anterior e o restante no verso seguinte, impulsiona o ritmo da leitura e cria o efeito de coesão, união, muitas vezes, do fundo à forma [ó]. O poema ALEGRIA apresenta esse artifício no primeiro verso. Observem: “Bem viva, mais e mais se implementa / em mim, duma maneira luzidia...” O enjambement se apresenta às centenas, em toda a obra, cada um com suas interpretações subjetivas, mas consistentes, criando formas expressivas, que vão dar ao conjunto mais beleza e nos causa encantamento, personificando um ritmo próprio.

            Outro artifício muito empregado pelo poeta de “Alegria” é a maneira de construir as frases. Muitas vezes o poeta desloca termos de uma oração, ou orações de um período. Esses deslocamentos, ou hipérbatos, oferecem ao contexto a possibilidade de outras interpretações, ou melhor dizendo, fazem com que haja a possibilidade de se ler o latente, aquilo que está escondido no pensamento do poeta e que uma simples inversão sintática demonstra manifestamente. Assim, no soneto A ARTE VERDADEIRA, pode-se ler: “a mente ser, dos versos, a rendeira” (ser a mente a rendeira dos versos).  Aliás, esse hipérbato é combinado, muitas vezes com um outro artifício, um cruzamento morfológico. Esse artifício, ou figura de construção, também muito usado por Ayrton, se chama quiasmo, uma maneira bimembre de construir períodos, em que os elementos mórficos se cruzam em “X”, realçando sonora e semanticamente as frases do período envolvidas. Observem, ainda no mesmo soneto: “O que me encanta mesmo é, certamente, / os versos feitos renda pela mente; / a mente ser, dos versos, a rendeira” (mente  X  mente). No soneto A OBRA FICA, o quiasmo se apresenta no primeiro terceto e pelo cruzamento dos significantes morfológicos a ideia desenvolvida cresce e se presentifica com toda a sua força significativa. Observem: “Sim, deixa quando morre, na verdade, / beleza rica de eternidade; / eternidade, de beleza rica”.  Mas é no soneto           que transcrevemos, em seguida, que o poeta, mais sensivelmente se utiliza do quiasmo e, ao mesmo tempo, mistura inúmeros movimentos rítmicos sinuosos, verdadeiras ondas de plurissignificações cognatas, com vocábulos que estendem e distendem suas sílabas, em expressivas sinéreses e diéreses, observadas nas rimas das duas quadras deste belo poema, construindo, com isso, os precisos decassílabos com suas cesuras heroicas. Observemos:
  


CONVIVENDO

Aqui, neste convívio harmonioso,
na nossa relação homem/mulher,
eu vejo quanto és um ser precioso,
eu vejo quanto sou um ser qualquer.

Afirmo, sob um tom bem ruidoso,
com toda a nitidez que se requer:
Tu és um ser humano grandioso
e eu nem sombra tua sou sequer.

No nosso conviver humano é quando
me sinto mais e mais te contemplando,
me sinto mais e mais um contemplado.

No nosso conviver interessante,
te vejo muito mais apaixonante,
me vejo muito mais apaixonado.


Em todos os poemas encontramos inúmeros artifícios, tanto na construção sintática, quanto na forma de elaborar o pensamento. São enjambements, hipérbatos, anáforas, quiasmos, hipálages, antítese, um enorme número de fenômenos da estilística, muitas vezes num só poema, como exemplifica o soneto AMARRANDO O SOL, numa temática mitológica grandiloquente, falando sobre os povos incas da América do Sul. Hipérbatos, anáfora e enjambement surgem neste, podemos dizer, um dos mais bem elaborados sonetos, quanto à morfologia e estrutura sintática empregadas, com inúmeras e nítidas características parnasianas, onde o Sol corresponde ao Prazer, sendo o quarto verso o único decassílabo sáfico, construindo o próprio ritmo do alegre milagre da vida. Transcrevo-o para o leitor visualizar estas observações:

AMARRANDO O SOL

Tal como os incas, numa grande lida,
em mim, em meu espírito, em meu ser,
quero amarrar o sol... O do prazer,
o da alegria de curtir a vida.

Pra que, ficando, em mim, possa manter
do espírito, na pedra esculpida,
bem preso, amarrado e sem saída,
o sol da alegria de viver.

O povo inca, gente culta e brava,
ter o sol amarrado, mais buscava,
prendê-lo sobre a pedra, mais queria.

Eu, como os incas, numa ação ousada,
do espírito, na pedra entalhada,
quero amarrar o sol... O da alegria!
            
Quanto aos tipos de poemas utilizados, como já dissemos, predomina o soneto clássico, em versos decassílabos, predominando os heroicos, e alguns estruturados em versos alexandrinos, clássicos e modernos, com uma variedade enorme de esquema de rimas, predominando, no geral, o esquema de estrofes: abba  baab  ccd  eed .

As sextilhas são compostas por versos alexandrinos clássicos, perfeitos, com o seu quebrado de 6 sílabas, muitas vezes um hemistíquio, num esquema de rimas aabccb, variando as palavras rimadas nas sucessivas estrofes de cada poema. Variam, também, o número de sextilhas em cada poema apresentado.

Os versos livres, em poemas modernos, são soltos, desestruturados, mas com o mesmo vigor significativo do poetar nas estruturas clássicas e tradicionais.

O condutor lírico de sua imagética continua sendo o amor à mulher amada, o amor à vida e o amor a tudo que o empolga. Raramente, e só por antítese, o poeta estrutura seus versos fora dessa linha, condutora do eu-lírico, que desenvolve seu universo intimista e sofisticadamente singelo. Exemplo disso, podemos encontrar no soneto A RAIVA, quando o poeta em tom discursivo, atropelando a sintaxe métrica, em expressivo enjambement, traz o amor à cena, por oposição, por antítese, portanto, estando o título, apenas, ressaltando o contrário. Com esse ardil estilístico, o poeta exorcizará o mal na chave de ouro do soneto: “não se deve ter raiva de ninguém”.

Já havia dito, analisando estilisticamente o seu soneto, IPÊ-AMARELO, de seu primeiro livro, “Amor em Evidência”, que as diversificadas estruturas métricas, em seus sonetos, lembram os ritmos, em quiasmo, do autor paraibano de EU E OUTRAS POESIAS, longe das metáforas e das comparações encontradas nos versos de IDEALISMO, poema mórbido de Augusto dos Anjos. Todos os sonetos de Ayrton Mafra são, com raríssimas exceções, em versos decassílabos heroicos, o metro das epopeias, o metro das grandes emoções. Contudo, é com essa força rítmica, com seus quiasmos e suas inversões sintáticas, que Ayrton Mafra irá exaltar o amor e a mulher amada, pois em sua obra poética não existe o amor falso das hetairas, dos sibaritas, das Messalinas e de Sardanapalo...

Ayrton exalta o amor sem o padecimento da dúvida, da rejeição, da amargura, afastando-se do drama barroco do sofrimento, do mal do amor do século XVI, que, negado, ou impossível de ser alcançado, levava os poetas ao desencanto e ao definhamento. Sua poesia é um canto de louvor à felicidade, que invade seu ser e o eu-lírico explode em manifestações rítmicas de todos os tipos, utilizando-se de inúmeros recursos poéticos constantemente nos versos de Arte Maior. E serão, justamente esses hipérbatos, enjambements, condicionantes metafóricos líricos que alongarão a amplitude de suas manifestações românticas. Ayrton Mafra é um poeta romântico pelo sensualismo velado que se manifesta timidamente em sua poesia (AMOR QUER ATITUDES); por seu vocabulário simples ao declarar-se à mulher amada, expressando toda sua felicidade em amar, exemplificado no último terceto do soneto AMO-TE MAIS isso exemplifica: “Te amo e vou dizer, feliz da vida, / que, agora, meu amor, minha querida, / te amo muito mais do que te amei”. Seus versos explicitam o romantismo através de inúmeras metáforas ligadas à natureza como fonte da beleza, recheadas de sinestesias, metáforas evocativas, sempre dignificando a figura da mulher ideal, personificada em sua amada esposa (APAIXONADO – AS FLORES). Seus versos cantam como um singelo menestrel e registram formas expressivas que bem poderiam integrar o patrimônio imaterial de um novo lirismo poético, considerado o amor como lenimento, embora “ainda como um fogo muito forte; / agora, bem mais forte e bem mais vivo! ” (AGORA, MUITO MAIS) e não como um amor contraditório, enquanto sofrimento. A poesia é sublime por parecer impenetrável, pois é só observar o que dissera sobre o amor o nosso poeta maior: “Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer” (Luís de Camões). 

Assim, o tema do amor, combinado com a alegria e o prazer,  é uma constante na obra de Ayrton Bento Mafra, bem como a religiosidade, o pagão versus o profano, o carnal, a mistura de todas as tendência hedonistas, porque somos humanos, porque temos alma, porque é a alma que nos diferencia dos demais animais e nos coloca em outro plano simbólico... Todos esses assuntos perpassam seus poemas, muitos também dedicados a familiares, a pequenas coisas e lembranças, a figuras históricas, enfim, a tudo que o poeta vê e sente, por mais abstrato que seja, observando sempre e reagindo ao mundo, com a força das informações adquiridas, responsáveis pela formação de seu repertório.  

Pode-se dizer, ainda, que em “Alegria”, encontramos muitos poemas que se apresentam como verdadeiros cromos visuais, numa sinestesia transformadora, que dá às suas composições a qualidade necessária, para que as mesmas se coloquem entre as mais significativas formas de versos de Arte Maior de nossa literatura. A obra poética de Ayrton Mafra é magnífica e imensa. Ela está muito além das amarras e dos carimbos declaratórios dos estilos de Época, porque é universal, enquanto expressão do mais profundo sentimento humano: o amor. Se é parnasiana, quanto à forma, ou se é romântica quanto ao fundo, o fato é que Fundo e Forma se adequam, num frenesi rítmico, estrutural e conceitual, a ponto de nos comover, envolvendo-nos, com sua fantástica técnica de nos apresentar o belo e tudo aquilo de que não somos capazes de transfigurar. Só ao poeta é dado o direito de transgressão. Da transgressão que cria, que produz novas formas, formas expressivas com novos significados. O poeta diz o não-dito e aceitar essa nova concepção da sua realidade é aceitar o poeta em toda a sua magicidade. Ler suas criações é se resignar a contemplar silenciosamente a expressão do belo, extasiando-se diante da beleza, que nos envolve emocionalmente. Sua poesia está à espera de um estudo crítico isento de pruridos estéticos e preconceituosos. Que se apresentem os mais eruditos da crítica pura!

Para analisar uma obra tão densa quanto extensa, além de se exigir do crítico literário engenho e arte, precisa-se definir o seu lugar de nascimento, que parece não ser aqui e agora. Nesse momento resignemo-nos somente em nos deleitarmos com esses magníficos versos de meu amigo Ayrton Mafra, um poeta perfeito, um ser humano excepcional. Foi, portanto, com imenso prazer que li e tentei preparar o caminho para que a sua obra seja estudada por especialistas, pois se trata de um dos mais significativos poetas da região do Vale do Itajaí que, com seus versos em ritmo clássico, surpreende nosso espírito e nos acalanta com a doce e fabulosa “Alegria” desse seu terceiro livro de poemas que, como ele mesmo disse, ao fim do primeiro soneto, é “preciosa como a gema do brilhante  /  brilhante como a luz da poesia”.  


ATÉ A PRÓXIMA
































8 de maio de 2019

MISTÉRIOS


- MISTÉRIOS -



Realmente existimos porque nossas vidas dependem de companhias. Não se pode entender o homem isolado, em solidão. Somos uma espécie social e dependemos do outro. Só por ficção e na ficção, o homem vive isolado.
Não vou contrariar, agora, os mais significativos doutores das ciências sociais e muitos entusiasmados psicólogos das mais avançadas linhas francesas, de viés psicanalítico, pois deixei os grandes centros em que atuava no meio de verdadeiras multidões, vivendo em ambientes repletos das mais instigantes e significativas figuras, que pretensamente interagiam comigo, para vir para o campo, para juntar-me aos cantos dos pássaros e aos mugidos do bom gado gordo, que pasta nas relvas dos campos. Mas sinto-me, hoje, como já me sentia outrora, solitário, muitas vezes. Aposentado, escolhi a paz da cidade do interior, rodeada de fazendas, com suas imensas voçorocas dentro de íngremes terrenos, transformados em pastos de poucos bois e muitos cupinzeiros.
Mas faz parte da vida envelhecer. Não um envelhecer sem propósitos, como estação terminal de uma breve viagem, mas um envelhecer com um significado robusto que justifique a alegria de se sentir útil, nem que seja para se lamentar em missivas tristes, às vezes indecifráveis, sem estilo e, possivelmente, até sem destinatário. O importante é conviver, interagindo com o próximo de qualquer forma, pois a solidão é amedrontadora e poucos sabem como lidar com ela.
Às vezes sozinho, nessas regiões isoladas, ela – a solidão –  me inspira e me faz pensar que sou mais forte do que realmente o outro pensa que não sou. Ficar livre da mesquinhez do meu vizinho não é uma boa? Não ser prejulgado por cabecinhas ridículas e presunçosas não é uma dádiva? Para me aliviar das confusões mentais que embaralham as muitas reflexões que faço, quando pretendo criar um texto mais requintado, escrever um poema, ou simplesmente fazer um rol das necessidades comezinhas para as compras da venda, refugio-me sempre em meu quarto de leitura. Lá produzo com satisfação, sozinho, boca calada e pensamento falante. É a solidão produtiva e benfazeja.
Mas há outra, mais amedrontadora, até doentia. Fujamos dessa. A vida exige multiplicidades de atitudes e clama por muitos outros tipos de alegria e êxtase. Realmente não somos uma ilha. Temos um compromisso atávico com a multiplicidade de acontecimentos que nos fazem pessoas sociais. Vivendo, aprendi a afastar todo o tormento que nos isola e que nos aprisiona. Mas aprendi, por outro lado, a viver a talvez gostosa dualidade barroca, que projeta a alegria de viver em grupo de equivalentes e recrimina o pluralismo, restringindo a aglomeração, tudo, muitas vezes, por pura incompreensão dos fatos, ou por se estar limitado a adquirir repertórios mais sofisticados. Mesmo agora um tanto isolado, procuro sempre alguém para confirmar se estou vivo mesmo.
Mas a vida de quem já muito viveu é mesmo misteriosa, quando criadora de situações dicotômicas. Para que ela seja digna tem de ser entendida e respeitada pelo outro. Todos nós temos de saber conviver com esse burburinho especial que alucina, porque encanta, mas que também mata, porque deprime. Saber viver nesses limites é um mistério e é para poucos. Devemos nos preparar para vivermos em grandes grupos e também em regiões de pouca densidade demográfica. É bom experimentar tudo, sem esquecer que a vida exige e reclama por atenção. Mas em todas as situações, todos nós gostamos de ser úteis. “Só o homem valoriza a utilidade! ”. Li isso num jornalzinho que circulava num asilo para idosos, ao visitar um parente de meu pai que lá só ficava sentado...  e nunca mais esqueci.  Os mistérios da vida não foram explicados nas escolas regulares, por onde todos nós passamos, quando estudamos os mercantilismos; os socialismos; os positivismos; os estruturalismos; os revisionismos e todos os demais ISMOS possíveis e imaginários de nossa alucinada cultura clássica, enquanto ciência. Esses mistérios, os mistérios da vida, pertencem a um outro sistema simbólico, não se iludam!
Numa tarde nevoenta de oração, na igrejinha da cidade interiorana em que agora vivo, lembrei-me da visita que fiz, há muitos anos, à românica ou muito mais antiga Catedral da Sé, em Braga. Lá, depois de percorrer os silenciosos corredores de pedras escuras, com artes de todas as épocas, penduradas nas paredes descascadas, perguntei ao solitário guia como os corpos de dois bispos do século XVII, lá enterrados, estavam ainda intactos. Aquele cansado funcionário, já idoso, de aparência frágil, com rugas profundas em seu rosto macilento e triste, que morava só, num pequeno cômodo, anexo à catedral, depois de duas horas rodopiando comigo por púlpitos e pedras, repetindo mecanicamente todas aquelas estórias escritas nas etiquetas coladas às vitrines dos suntuosos monumentos do interior sagrado daquele templo bracarense, respondeu-me, sentindo-se útil, pela única vez em que eu o solicitei, que aquilo representava um mistério de Deus. E transformando-se, agora alegre e feliz, gritava contente, cumprindo sua missão de guia: - “Mistérios de Deus. Mistérios de Deus! ”

21 de dezembro de 2018

UMA CASA AMARELA QUE PARECIA MAL-ASSOMBRADA




Imaginem uma menina de 10 anos publicando um livro para outras crianças também de 10 anos. Que coisa maravilhosa! Agora, imaginem que essa criança de 10 anos tem um avô que comenta os livros que muita gente escreve e também publica livros para gente grande, de todas as idades, inclusive para crianças de 10 anos.  Pois é! Acabo de receber um presentão de Natal: o livrinho de minha neta, Alice Queiroga Feijó, chamado A CASA MAL-ASSOMBRADA. Foi muita emoção, pois não moramos na mesma cidade e não acompanho, portanto, o dia-a-dia dessa encantadora criança, já com lançamento de livro marcado para muito breve, numa noite de autógrafos.
Mas minha netinha não me engana, não! Lendo sua obra, A CASA MAL-ASSOMBRADA, percebi que ela é de uma criatividade espantosa, pois colocou na fantasia a realidade. Explico melhor, porque sei que ela lerá esses comentários no Blog de seu avô, onde sempre apresento críticas literárias e variadíssimos tipos de textos, às vezes até poesias... Alice e seus pais, Ana e Luiz, meu filho, moram hoje, numa linda casa toda pintadinha de amarelo, que ficou por longo tempo abandonada, numa rua muito movimentada e conhecida, num bonito bairro da cidade do Rio de janeiro. Ela sempre ouvia seus pais dizerem que, um dia, toda a família ainda ira morar naquela casa. Mas a casa estava muito feia, com a pintura toda descascada, precisando de uma boa reforma. Parecia uma casa mal-assombrada, não é minha queridinha Alice? É assim mesmo o processo da criação. A gente mistura tudo que existe com o que gostaríamos que existisse, damos a nossa opinião, colocamos o nosso tempero, que é a maneira de se contar a história, e criamos algo que vai influenciar o ouvinte, no seu caso, agora, quem estiver lendo o seu livro.
Queridinha, fiquei muito contente, feliz e orgulhoso com o que você escreveu no seu primeiro livrinho, pois você seguiu direitinho a receita para agradar o leitor. Você situou a casa, falou sobre ela e preparou um plano para desvendar um mistério. Pronto, Alice! A história ficou maravilhosa! Meus parabéns!
Viu, queridinha, como o vovô sabe tudo!

ATÉ A PRÓXIMA

31 de outubro de 2018

COMO UMA PESQUISA ARQUEOLÓGICA, MAS LITERÁRIA TAMBÉM



            O PROGRESSO DA FOZ, grupo cultural, desde 1978, acaba de publicar a obra CANTAREIRA 61, A Casa de Raul Brandão, de autoria de Joaquim Pinto da Silva. Trata-se de uma pesquisa com lastro em farta documentação iconográfica, excertos cartoriais, como escrituras e registros de imóveis, plantas arquitetônicas de construções, as mais variadas possíveis, retidas às prefeituras do entorno da cidade do Porto, além de textos das obras notáveis de Raul Brandão, entre elas “Os Pescadores” e os contos de “História do Batel Vae com Deus e da sua Companha”. A importância de onde nasceu e cresceu um escritor existe, na razão direta em que a sociedade da época, com todas as suas dimensões, físicas e imateriais, por exemplo, seja retratada na obra, com alusões aos acontecimentos relevantes surgidos naqueles espaços circundantes, que um dia pertenceram à vida pujante de indivíduos simples como nós, que lá desempenharam seus papéis de personagens importantes, mas desprovidos de historicidade. Enfim, serve, para, como disse o autor do livro, CANTAREIRA 61, que o leitor tem agora a possibilidade de folhear: “para encontramos elementos de índole social e local que nos ajudam a construir uma história, uma paisagem da sociedade urbana de seu tempo”. Raul Brandão foi um escritor português, que viveu nos séculos XIX e XX, famoso pelo realismo das suas descrições e pelo lirismo da linguagem retratando a vida simples do entorno da Foz do Rio Douro, encontrando o mar.  Escreveu, entre outras obras, Humus, Os pobres, Memórias (2 volumes), Impressões e Paisagens, sendo que seu principal livro é, incontestavelmente, Os pescadores. História do Batel Vae com Deus e da sua Companha, são escritos que, mais tarde deram origem à obra maior, Os pescadores. A tese de Joaquim Pinto da Silva é de que Raul Brandão não nasceu e viveu a maior parte de sua vida no local onde tradicionalmente lhe atribuem. Para tal, debruçou-se sobre o farto material descrito acima e como um arqueólogo debruçou-se sobre os caminhos da Cantareira, removendo as camadas do tempo e escreveu sua tese. Vale a pena conferir. Pelos textos citados na pesquisa, o leitor pode tomar conhecimento da força da escrituração de Raul Brandão. O trabalho de Joaquim Pinto da Silva traz esses textos à cena, oferecendo-nos a possibilidade de sentir a força poética de seu texto, descrevendo a vida, os costumes e as atividades dos pescadores, daquela época, numa sociedade dependente da pujança do mar que invade a foz do Douro: “Um dia lança-se a nossa catraia ao mar. Os calafates, com estopa embreada, tomam-lhe as juntas de pinheiro por pintar. Alguns homens dão-lhe uma mão de piche, e um desenha-lhe nas tábuas do costado: Senhora dos Navegantes. Chega da Póvoa o Manuel Serrão, homem de poucas falas e calças de lona branca, e talha-lhe a vela estendida na areia. Corta-se o mastro do pinheiral do Lage. O senhor abade – toca o sino – asperge-a de água benta, e a companha, com os barretes na mão e fatos de ver a Deus, espera o último latim para a lançar sobre roletes ensebados pela lingueta abaixo”. Sempre são interessantíssimas suas observações sobre os conteúdos dos textos que consubstanciam a longa e fundamentada pesquisa, porque Joaquim Pinto da Silva, além de produtor cultural é professor de Língua e Literatura Portuguesa, aplicando seus conhecimentos nesse trabalho de investigação, sustentado por procedimentos inerentes à linguística textual. O autor mostra, assim, que domina, com argúcia, técnica e sensibilidade a leitura crítica dos documentos, que estão a provar o que sustenta e, ao mesmo tempo, encanta o leitor com um texto irreparável, suave e gostoso de ler. É exemplificativo a nota “António Luís”, publicada em 15 de setembro de 1902, de O Século, Revista Literária Scientifica e Artistica, dirigida por Eduardo Schwalbach Luci, apud, Vasco Rosa, in “A Pedra ainda Espera Das Flor, Dispersos”, Quetzal, fevereirode 2013, pág. 293. Transcrevemos todas essas informações para mostra como é seguro o trabalho de Joaquim Pinto da Silva, nessa pesquisa que mistura inúmeras facetas de seu plurifacetado repertório cultural. Esta investigação é técnica, mas suavizada pela sensibilidade poética de seu autor que tira da referencialidade o seu peso, suavizando-a com a languidez da prosa poética. Como dissemos, trata-se de um trabalho importantíssimo esse, o de buscar o lugar verdadeiro onde nasceu, viveu e circulou Raul Brandão. Só por isso estaria justificado tal hercúleo trabalho de pesquisa. Mas há mais nessa empreitada. Há a exegese das múltiplas investigações, pois as mesmas, como foi aqui mostrado, remetem o leitor para um intertexto subjacente, diretamente relacionado à cultura, que pertence ao geral do conhecimento humano. Trata-se, portanto, de um precioso trabalho, realizado por Joaquim Pinto da Silva, uma espécie de escavação arqueológica do tipo impactante, como a escavação de Schliemann, que desenterrou Troia pela leitura homérica.

ATÉ A PRÓXIMA

17 de outubro de 2018

A SOLIDÃO




Somos todos indivíduos que só existimos porque nossas vidas dependem de companhias. Não se pode entender o homem isolado em sua amedrontadora solidão. Somos sociais. Dependemos do outro. Só por ficção e na ficção, o homem vive isolado. 
Reflexões sociológicas, antropológicas, psicológicas, psicanalíticas à parte, contrariando todos os textos teóricos de Marx, Durkheim, Weber, Claude Lévi-Strauss, Freud e Lacan, por mais que o meio em que vivo esteja repleto das mais instigantes e significativas figuras, que pretensamente interagem comigo, sinto-me, muitas vezes solitário.
A solidão é amedrontadora, mas sei conviver com ela. Ela, muitas vezes me inspira e me faz pensar que sou mais forte do que realmente o outro pensa que não sou. Ficar livre da mesquinhez do meu vizinho não é uma boa? Não ser prejulgado por cabecinhas ridículas e presunçosas não é uma dádiva? Para me aliviar das confusões mentais que embaralham as muitas reflexões que faço, quando pretendo criar um texto mais requintado, escrever um poema, ou simplesmente fazer um rol das necessidades comezinhas para as compras do supermercado, refugio-me sempre no minúsculo e ridículo quartinho de leitura de meu reflexivo apartamento. Lá produzo com satisfação, sozinho, boca calada e pensamento falante. É a solidão produtiva e benfazeja.
Mas a vida exige multiplicidades de atitudes e clama por muitos outros tipos de alegria e êxtase. Realmente não somos uma ilha. Temos um compromisso atávico com a multiplicidade de acontecimentos que nos fazem pessoas sociais. Pessoas comprometidas com, também, todos os sentimentos, os mais variados possíveis, inerentes ao ser humano, que interage para ser, e reage à solidão. Então também aprendi a afastar esse tormento que nos isola e que nos aprisiona. Aprendi a viver nessa dualidade barroca, gostosa, que projeta a alegria de viver em grupo e recrimina o pluralismo, restringindo a aglomeração, tudo, muitas vezes, talvez, por pura incompreensão dos fatos ou por se estar limitado a adquirir repertórios mais sofisticados. 
Mas a vida é assim mesmo, misteriosa e incrivelmente criadora de situações dicotômicas. Saber conviver com esse burburinho especial que alucina, porque encanta (a alegria encanta, mesmo), mas que, também, deprime e mata (a solidão é um terrível assassino), é para poucos. Esses mistérios não foram explicados nas escolas regulares por onde todos nós passamos, quando estudamos os mercantilismos; os socialismos; os positivismos; os estruturalismos; os revisionismos e todos os demais ISMOS possíveis e imaginários de nossa alucinada cultura clássica, enquanto ciência. Esses mistérios pertencem à escola da vida. Pertencem a outro sistema simbólico.
Um dia, visitando a românica ou muito mais antiga Catedral da Sé, em Braga, perguntei ao solitário guia como os corpos de dois bispos do século XVII, lá enterrados, estavam ainda intactos. Aquele estranho funcionário, de aparência frágil, com rugas profundas em seu rosto macilento e triste, que morava sem família num pequeno cômodo, anexo à catedral, depois de duas horas rodopiando por púlpitos e pedras, repetindo mecanicamente todas aquelas estórias escritas nas etiquetas coladas às vitrines dos suntuosos monumentos do interior do sagrado templo bracarense, respondeu-me que aqueles corpos intactos por mais de duzentos anos representavam um mistério de Deus. E transformando-se, alegre e feliz, quase que gritava: “Mistérios de Deus. Mistérios de Deus! ”

ATÉ A PRÓXIMA
  



4 de outubro de 2018

UMA FORMA GENÉRICA DE VERBO



A 35ª Oktoberfest começou ontem, mas a chuva impediu a realização do desfile que abre as festividades dessa que é a maior festa da cerveja fora da Alemanha. Ela é realizada, aqui, em Blumenau, no início do mês de outubro, do dia 3 ao dia 21.

O plano B dos organizadores foi executado dentro dos vastos salões do Parque Vila Germânica. Lá estavam os principais meios de comunicação do Vale do Itajaí e uma repórter da NST, afiliada da Rede Globo, em Santa Catarina, depois do desfile interno terminar, mas ainda durante a festança animada, que iria varar a madrugada, perguntou a um jovem como ele estava se sentindo. O rapaz entrevistado, de boa aparência, fantasiado de “Fritz”, muito alegre e sorridente, respondeu:

- A gente foi “surpreso” pela chuva.

Realmente, no horário do desfile de abertura, lá pelas 17 horas, caiu um aguaceiro danado na cidade de Blumenau. Ninguém esperava por isso, mesmo com algumas nuvens negras ainda no céu, depois mesmo de alguns pinguinhos sem nenhuma pretensão.... Até um solzinho pálido havia saído lá pelo meio da tarde, dando muita confiança aos patrocinadores de que mais um belo desfile alegórico, tradicional na abertura dessa festividade, iria acontecer. O povo esperava assistir a ele com muita sede e disposição para entornar cerveja de graça, goela abaixo. Mas não foi isso o que aconteceu. Caiu chuva para desanimar. Mas o plano B solucionou o problema e o desfile foi transferido para dentro daqueles enormes salões. Lá, com a festa bombando, a repórter fez a redundante pergunta ao nosso “Fritz” e obteve a tal esquisitíssima resposta. É claro que todos os telespectadores entenderam o que foi dito pelo rapaz, que não falou em alemão, não. Respondeu em nossa língua, mesmo. Ele quis dizer que todos que estavam esperando pelo desfile foram surpreendidos pela chuva intensa, que desabou naquela hora. Mas por que o rapaz disse “surpreso”, em vez de surpreendido?

Bem, ainda tem uma coisinha antes de tentar explicar isso. Ele usou o termo A GENTE, uma expressão composta por duas palavras (a – gente), uma espécie de pronome pessoal, correspondente a “nós”, mas que se refere à 3ª pessoa do discurso. Então, esse pronome pessoal A GENTE leva o verbo para a 3ª pessoa, no caso, singular. Assim: A gente foi “surpreso”....... E ainda se incluiu na concordância, pois disse “foi surpreso”, usando a forma no masculino, utilizando-se, ainda, da voz passiva... Agora vamos para o “surpreso”.

Nós pensamos rápido. As palavras que vão vestir nossos pensamentos, materializando-os com bonitas letras e seus sutis acentos, já estão prontinhas para entrar em cena. O Rapaz, ao responder à repórter da Globo regional, já tinha pensado na chuvarada que atrapalhou o desfile e nada foi mostrado ao público, como as formidáveis máquinas de servir Chopp, muito criativas e engraçadas, que a cada ano aparecem modificadas e mais engraçadas.... Mas o rapaz tinha de colocar, também, as famigeradas palavras, para dizer que ninguém esperava pelo temporal que desabou. Aí é que a porca torceu o rabo.  O cara sabia que a chuva pegou todo mundo de surpresa. Sabia que todo mundo ficou triste com o fato de a chuva ter prejudicado o desfile. Sabia, também, que foi uma surpresa geral para todos.... Mas cadê as palavras? As danadas não saiam.... Onde elas estariam? A surpresa é que dominava o pensamento do rapaz. O negócio foi a surpresa! Foi uma grande surpresa essa chuva danada! Eu fiquei surpreso, pensou lá no fundo de sua cabeça, já encharcada com as mais saborosas cervejas artesanais! É isso mesmo! Todos ficaram surpresos. Mas eu sei que existe o verbo SURPREENDER, pensava o rapaz vestido de alemão Fritz, já meio bêbado! Eu sei que o verbo é esse. Mas minha cabeça não está funcionando bem! Como eu coloco esse verbo aí nessa minha frase? Meu Deus! Socooooorrro! No entanto, naquela confusão mental, a palavra mais significativa que representou tudo aquilo foi SURPRESA, sem dúvida alguma. Então, simplesmente, ela se adaptou à forma verbal do verbo SURPREENDER. Não saiu o FUI SURPREENDIDO, mas saiu o seu genérico: “fui surpreso”. Afinal, não existem as formas PRESO ou PRENDIDO, de PRENDER e também SUSPENSO ou SUSPENDIDO, de SUSPENDER? Por que não pode existir e ser usada a forma “surpreso”, que me veio claramente à cabeça? Claro! Vou emprega-la. É ela mesma! E o rapaz, vestido de “Fritz”, meio bêbado e bem-apessoado, soltou essa “pérola linguística“, com um sorriso repleto do melhor lúpulo e da mais recatada e distinta cevada: - A gente foi “surpreso” pela chuva.

 ATÉ A PRÓXIMA


30 de agosto de 2018

O LIVRO SÓLIDO DE WENTH FILHO






A poesia de Ernesto Wenth Filho enquadra-se no que se convencionou chamar de produção poética contemporânea, que são os textos em verso ou prosa poética, surgidos a partir de 1945. Seu último livro, lançado recentemente em 2017, pela MJ Editorial, Balneário Camboriú, em 2017, traz no título da “capa” e da “quarta de capa” o título do livro, é claro, mas trata-se, também, de um poema. O poema-título SÓLIDO. Do que se trata?  Trata-se do nome do livro que se consubstancia como poema, cuja produção denuncia a manipulação da linguagem. Isso se dá pela captação da sensibilidade poética que vai buscar na realidade do referencial linguístico o significado cultural do termo SÓLIDO, assim: “Que dificilmente se deixa destruir por uma força externa; que tem fundamento real, seguro; digno de confiança, incontestável; firme, sério, duradouro; resistente”. E acrescentamos nós: todas as constelações semânticas advindas desses significados primitivos, que vão se multiplicar no “receptor-leitor” e em seu repertório.

A visão espelhada do esboço original da capa e a capa acabada é uma viagem que o leitor faz, antes mesmo de folhear as primeiras páginas desse último livro de Ernesto Wenth Filho. Essa forma original de produzir um texto poético é, na verdade, uma forma de linguagem, pois seus significantes, que adquirem significados motivados no real, fazem com que surja uma comparação inconsciente, no entendimento do receptor dessas novas mensagens codificadas, incorporando-as a seu repertório, a fim de ver nesse conjunto de signos, que é o texto produzido, uma forma expressiva, com novos significados, portanto, uma forma poética, com nova linguagem. Assim, passamos a caracterizar como poema, uma forma de linguagem, e o texto em questão, o é, por tudo que foi considerado e porque, acima de tudo, recria a linguagem articulada, recriando, com ela, uma nova maneira de se ver um mundo transfigurado.

A linguagem poética de Ernesto Wenth Filho está projetada para ser cantada em ritmos alucinantes da musicalidade muito próxima do ritmo do rock (p. 38), pois a referencialidade soprepuja a conotatividade de seus enunciados. Isso, contudo, não tira de cena a poesia contida em seus textos, como exemplificam os versos dos pequenos poema de seus textos, visualmente destacados entre sinais gráficos de grandes aspas. Aliás, funcionando dentro do contexto de SÓLIDO como verdadeiros grafemas, pois colocam significativamente em destaque uma outra forma de dizer o poético.

Sua linguagem mais referencial, portanto, convive, dividindo espaço com a suavidade das formas adjetivadas, que são, realmente, em menor número do que as substantivas, mas não desmerecendo o conjunto, que se sustenta por vários outros predicados, inerentes ao processo de criação poética.
Assim, a poesia de Ernesto Wenth Filho, neste seu livro SÓLIDO está relacionada com a descrição da realidade circundante e trabalha com diversos tipos de textos, incluindo a prosa poética narrativa-reflexiva (p. 8, 58).

Sua estrofação apresenta os seguintes segmentos: dísticos: (p. 65); tercetos (p. 29, 74); quadras (p. 14, 16, 38, 62, 72, 75); quintilha: (p. 70); estrofação mista de quadras e sextilhas (p. 6); estrofação mista de tercetos, quadras e dísticos (p.10); poemas de estrofação mista bem variada (p. 12, 18, 20, 22, 24, 26, 28, 30, 32, 34, 36, 40, 41, 43, 46, 48, 50, 52, 56, 64, 66, 68, 69, 71). Todos os seus poemas se compõem de versos modernos, com e sem rimas, sem métrica, mas com certo ritmo, nessas estruturas bem diversificadas de estrofes.

Finalmente, temos certeza que, futuramente, as obras poéticas de Wenth Filho, nos brindarão, plenamente, com poemas sequenciais, seguindo aquela linha inicial, quando inovou, desconstruindo o figurativo tradicional, em Só – LIDO, para construir uma nova forma de se ver o mundo, transfigurado pelo dialogismo da linguagem, com suas inúmeras possibilidades de leitura.


ATÉ A PRÓXIMA


Powered By Blogger

Arquivo do blog

Quem sou eu

Minha foto
Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.