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17 de dezembro de 2008

UM EQUÍVOCO MACHADIANO



Voltei a Gramado, para desfrutar, mais uma vez, das belezas naturais do sítio brasileiro de Papai-Noel e da amizade de muitos amigos que por lá fiz, no decorrer de mais de cinco anos, pois levo meus netos aos festejos natalinos, magnificamente ensaiados, colorindo nossas almas com a luminosidade da esperança e da paz. Fiquei por lá uns cinco dias. Em Gramado sempre encontro muitos amigos, mas quem me botou a par das novidades gramadenses foi o Osório, sempre simpático e alegre, na recepção do Hotel do SESC, onde me hospedo. Assim, envolvido por esse espírito de confraternização, descansava pela manhã, lendo os jornais na portaria, quando me deparei com um artigo que me tirou do sério e me indignou profundamente.
No Correio do Povo de 16 de dezembro de 2008, li com os olhos muito arregalados a coluna de um tal Juremir Machado da Silva, cujo título era CHEGA DE MACHADO. A princípio, pensei que fosse referência a ele mesmo, pois poderia ser uma crônica sobre o estigma de seu sobrenome, uma arma para derrubar que carregava desde o nascimento, abatendo tudo e todos que se lhe apresentassem à frente, desde sua infância, talvez não muito bem resolvida. Mas não era isso! Tratava-se mesmo do Machado de Assis da nossa literatura. O artigo tinha esse nome, incrédulo leitor: CHEGA DE MACHADO DE ASSIS. Tratava-se de um chato da literatura brasileira, um brega de estilo maçante que ninguém mais lê, muito menos os estrangeiros. Esse articulista chega mesmo a pregar a prática iconoclasta entre os brasileiros, para "machadear" os escritores de estilo ultrapassado. Fiquei pasmado com o que ia lendo, sempre pensando encontrar um momento em que tudo se esclareceria a favor de uma técnica de narração, quem sabe, igual ao trabalho pedagógico conhecido como insucesso inicial, motivando o aluno para futuras reflexões críticas no processo ensino-aprendizagem. Não se tratava de nada disso, também! O cara era mesmo contra Machado de Assis e sua obra, para ele ultrapassada e desconhecida de muitos estrangeiros. Cita o desconhecimento de Machado de Assis por Umberto Eco. Chama os romances machadianos da fase romântica de brega, inclusive sua poesia, culminando por abominar a minissérie, Capitu, da Globo. Depois de muitas sandices e, quem sabe, algum remorso, termina seu triste comentário dizendo que gosta de Machado de Assis, mas que já era hora de se parar com as comemorações do centenário de sua morte. Será que o Correio do Povo de Porto Alegre não tem colaborador mais preparado no setor literário, capaz de perceber as diversas fases de nossa literatura e não misturar as características históricas do romantismo e do realismo, deixando, assim, de entender essas etapas dos estilos de época, passagens para uma nova representação de textos supra-realistas? É claro que esse equívoco machadiano de Juremir já se encontrava no Machado articulista do Correio do Povo, desde o seu nascimento. Assim, prezado leitor, não me julgues pela ira e nem pelo gesto antiético, mas pelo horror à mediocridade.
Até Lages.

2 comentários:

Thereza Pires disse...

Inacreditável...
Mostra bem o nível dos articulistas pseudo intelectuais.Sapato nele.Professor!
Thereza

Moita disse...

Caro Professor

Preste atenção numa coisa simples que acontece há séculos. O jornalista não entende de nada e escreve sobre tudo. Ele se ampara na medíocre concepção que o povo acredita no jornal. E aí ele, despreparado, escreve sobre qualquer coisa que lhe dá na telha.

Sou Engenheiro Agrônomo, ecologista e poeta bissexto. rsss

Outro dia li as maiores aberrações sobre a Transposição do São Francisco e improvisei o soneto seguinte:

Quando leio sobre a transposição
do famoso Rio São Francisco,
muita gente avalia o seu risco
com aparente acuidade e precisão

Teorias absurdas surgirão
dos verdes e histéricos ambientais,
jornalistas opinando, é demais!
Fomentando tremenda confusão

O que se passa, de fato, é leviano.
A imprensa irresponsável ou por engano,
deixando a população atoleimada

É que sempre apareça um abelhudo.
O jornalista fala sobre quase tudo,
mas entende quase tudo sobre nada.

Moita

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.