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18 de outubro de 2010

UM ESTRANHO PAÍS


Ela se considera brasileira como seus pais, mas seus avós não. Eles são polacos, vieram bem jovens da Poláquia para o interior de Santa Catarina. Muitas moças por aqui têm a pele muito clara. Sua família é assim. Seu marido e dois filhos, um casalzinho muito educado. Os guris também são de pele branquinha e com algumas sardas, cabelos loiros, olhos claros, com um tom azulado. Os pais os chamam de polaquinhos. Todos se dizem descendentes de polacos. Todos os branquelas, por estas bandas, se dizem polacos, mesmo tendo descendência italiana ou alemã. Mas, o que é polaco? Ela insiste em dizer que é o homem que nasce na Poláquia. A mulher que nasce lá, é polaca, mas eu sei que tem gente que fala que polaca é quem já foi mulher de vida fácil, mulher dama, prostituta. Tento saber de onde vem esse conhecimento de minha auxiliar de serviços caseiros e me convenço de que seus estudos foram bem feitos, embora ela tivesse estudado em escolas públicas de bairros pobres da periferia de sua pequena cidade natal, no interior de Santa Catarina. Puro preconceito? Talvez.
Ela sempre me pede para corrigir seu português estropiado por convivências, o que lhe coloca na boca cabeludos vícios de linguagem. Diz sempre que não gostaria que as crianças ficassem ouvindo os pais falando errado dentro de casa, por isso, quando termina seu horário, sai lá de casa vai à escola, onde os dois filhos estudam para conversar com as professoras. Eterna vigilância. Na semana passada o marido, homem calmo e desconfiado, recebeu um recenseador do IBGE e a custo informou que tinha algumas terras herdadas do pai, onde “pranta calípito”. Planta o quê, senhor? Seu grau de instrução? O que é isso? Seus estudos, senhor! Só tirei a primeira série.
Mas quem organiza as finanças da casa é ela, sua mulher. Casamento na Igreja Pentecostal de Nova Vida e no cartório. Uma mulher muito inteligente e curiosa. Aprender é com ela mesma!
Quando arruma minha biblioteca, afastando os livros uns dos outros para observar se há algum sinal de cupim nas prateleiras, me surpreende com perguntas gulosas de saber, e pega, interessada, o livrão grosso, para saber como se escrevem certas palavras, que têm aqueles sons chiados, da minha fala carioca.
Ela aprendeu comigo que não existe nenhum país chamado Poláquia, mas, de vez em quando escorrega e solta um "Poláquia". Também não soube explicar ao marido que insistia em dizer que ainda iria conhecer a terra natal de sua mãe e de sua nona, lá na Poláquia. Marido, sua mãe e sua avó não são polacas, elas são brasileiras! São polacas só na cor. Confusão para ele.
Um dia eu dei uma de professor de antigamente. Venha cá, menina! Escute aí! Polaco é um adjetivo masculino ou pode ser também um substantivo masculino, pertencente ou relativo à Polônia. Pode ser o natural ou habitante da Polônia. O mesmo que polonês, termo muito usado aqui no Brasil, e desde o fim do século XIX prevalece essa denominação, principalmente nos compostos gentílicos formados por polono-, como em “polono-russo”. Antes era "polaco-russo". Está entendendo? Ela coça a cabeça e franze a face, esticando a boca horizontalmente. Com os olhos arregalados corre para pegar um lápis e papel. O senhor quer repetir isso? Sua vontade de aprender é surpreendente. Anotava e aprendia. Então, completei a aula de sociolingüística, dizendo que o termo POLACA está sendo usado, hoje, aqui entre nós, como gentílico feminino de qualquer região dos imigrantes europeus, vindos ou não da Polônia, inclusive muitos alemães. Uma forma de gíria. POLACO ou POLONÊS são nomes ou adjetivos relativos à República da Polônia, tanto quanto o idioma lá falado. Portanto, no feminino é POLACA e POLONESA. No plural, POLACAS e POLONESAS, entendeu? Agora fiquei empolgado! Vai escutando aí! Então, menina, me diga por que você está usando POLÁQUIA em vez de POLÔNIA, para designar a terra de seus antepassados? Não sei, não, senhor! Mas fala mais que eu aprendo.
Veja. Isso ocorre, devido a uma formação natural de alguns fenômenos da linguagem. Um desses fenômenos se chama analogia e é o principal. Há muitas identidades sonoras entre inúmeros nomes de países, de onde vieram famílias e mais famílias para o Brasil. Além disso, veja que em POLÁQUIA o –A- é tônico, é forte, e aparece também na palavra POLACA. Já em POLÔNIA, encontramos –O- e não –A-, o que dificulta a compreensão da origem dessa palavra. Depois, a terminação –IA- já é encontrada no final de nomes de outros países, formando rimas como TURQUIA, ESLOVÁQUIA, ITÁLIA, GRÉCIA, SUÉCIA, FINLÂNDIA, ALBÂNIA, ÁUSTRIA, BULGÁRIA, RÚSSIA, ARGÉLIA e muito mais. Está entendendo? Mais ou menos, e gesticulou com a mão direita, querendo dizer mais ou menos. É claro que essa analogia é puramente sonora - continuie - pois o sufixo –IA-, dos nomes desses países parece ser o mesmo de POLÁQUIA, que você fala, formador de substantivos, mas nem sempre com a mesma origem, alternando, ora entre o latim e o grego, como, por exemplo, pode-se dizer que é grego e não latino, nos substantivos próprios, ITÁLIA e GRÉCIA. O senhor sabe grego? Calma, preste atenção! As origens se confundem e se fundem em um só sufixo, com este som -IA-. Ah! Que o senhor falou bonito, isso falou, mesmo!
Essa história toda de POLÁQUIA mostra como se pode formular uma hipótese etimológica, baseada em fatos linguísticos reais, quando a deriva da língua corre frouxa, e tudo isso surgiu pela criatividade vocabular de minha humilde, sincera, honesta e inteligente auxiliar de serviços caseiros.
Hoje, ela não trabalha mais lá em casa. Fez concurso público para merendeira escolar da prefeitura e passou com um notão!

ATÉ A PRÓXIMA

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.