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9 de julho de 2017

Um divertido passeio linguístico







Sangão é um município catarinense a 18 km de Tubarão, na costa central do Estado, cortado pela BR 101. Também é um bairro do município de Criciúma.  Parece ser aumentativo de SANGA, subst. fem., rio pequeno, com pouca água; riacho. Mas pode ser voçoroca (do tupi). Então, SANGÃO seria um grande rio pequeno ou um grande pequeno rio. E mais, nesse município catarinense existe um bairro chamado SANGÃOZINHO. Seria, assim, um pequeno grande rio pequeno. Que coisa! Pensam que acabou? Tem mais. Lá, nesse bairro, existe o SANGÃOZINHO FUTEBOL CLUBE. Tentem pronunciar esse nome: parece que é SÃO GÃOZINHO. Um nome de santo. Pois é. Esse fenômeno fonético ocorre porque o ditongo nasal se evidencia no sintagma que possui extenso corpo fonético. Já isso não ocorre em SANGÃO, de reduzido corpo fonético.
O interessante é que, além da produtividade desse substantivo, a possível etimologia de SANGA estaria no Quicongo, uma língua banta, de Angola, África. Os escravos traficados trouxeram esse nome para o Brasil. E mais. No sul, onde a influência africana no vocabulário de nossa língua é menor do que no Sudeste, o vocábulo SANGA é de uso corriqueiro e até de uso poético. “Água de Sanga” é um bem construído livro de poesia de Colmar Duarte, lá de Uruguaiana, quase um poeta argentino... Abro um parêntese aqui para dizer que nos pampas junto às fronteiras, é comum se ouvir dizer que o povo rio-grandense é um povo miscigenado. É verdade,  mas lá, se diz que essa miscigenação foi entre o europeu (português e espanhol) e o índio. Não falam do negro. E SANGA é nome de origem africana, muito usado e produtivo, como vimos. Já o termo correspondente, VOÇOROCA, que é tupi, é pouco usado ou quase nunca empregado. Já no Paraná, esse termo é mais ouvido. Há até uma grande represa que fornece água potável para Curitiba que se chama Represa Voçoroca. Os termos tupis ocupam grande parte da onomástica catarinense e foi muito bem estudada por Lino João Dell’Antonio, no livro “Nomes Indígenas dos Municípios Catarinenses: significado e origem”. A tese desse autor é interessantíssima, pois o mesmo afirma que, sendo o índio nômade, ele marcava os lugares especiais com termos realmente significativos. Explico melhor. Em Santa Catarina qualquer rio é cheio de capivara. Então, um lugar ou um rio se chamar Capivari não acrescentaria absolutamente nada à orientação de ninguém. É interessante, pois, a análise – hipótese linguística - que o autor faz, também, da origem de LAGES, cidade importante no centro do planalto catarinense, aplicando sua teoria às origens do nome de LAGES, que diz ser uma corrupção linguística de “hayé” e significa atalho, uma referência ao atalho das Tijucas, feito por Cristóvão Pereira de Abreu, em 1733. Finalmente, aceitamos sua argumentação final, quando diz que muitos nomes de lugares foram dados pelo homem branco, utilizando termos da língua tupi.          
Tudo isso é fruto de anotações que faço em minhas viagens, quando tento observar as construções linguísticas de nosso povo e seus outros muitos comportamentos sociais. Procuro juntar essas observações em uma espécie de redação ou crônica-de-viagem, misturando curiosidades linguísticas com as mais diversas práticas esportivas, e entre elas o futebol, pois ele sempre está presente na vida simples, que corre junto às estradas por onde passo.
Assim, conversando na frente do SANGÃOZINHO FUTEBOL CLUBE com a rapaziada de plantão, nesses tempos de futebol nacional, onde Santa Catarina até já colocou quatro clubes para disputar a primeira divisão do campeonato brasileiro, resolvi saber alguma coisa sobre esse time de várzea. Disseram-me que tem poucos anos. Três ou quatro, mas já possui um terreiro para seus treinos e jogos: SANGÃOZINHO  X  VISITANTES estava escrito na entrada do campo, anunciando o próximo jogo.
Mas para finalizar, já que estamos falando de futebol, essa grande metalinguagem sociológica, não posso deixar de registrar aquela inusitada entrevista de um jovem repórter da Rádio Poti, do Rio Grande do Norte, que fora conversar, no fim da partida, com o jogador Dirran, do Clube Atlético Potengi, que perdeu para o Potyguar, da segunda divisão do campeonato do Rio Grande do Norte, no, então, famoso estádio Machadão. Embora seu time tivesse sido derrotado, Dirran foi considerado o craque do jogo.
REPÓRTER - “Você tem parentes na França? E esse seu nome é de origem francesa?”
DIRRAN -  “Não sinhô, meu apelido é CU de Rã, mas como num pode falar na rádio… então, eles abrevéia”.

ATÉ A PRÓXIMA

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.