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12 de abril de 2018

A BRUXA E O GUAXINIM





Era em Portugal, ano de 1986, precisamente Lisboa. Estava a fazer minha caminhada noturna, depois de um dia cheio de trabalho. Cumpria os deveres de meu semestre sabático, pela UERJ. Empolgado pelas novidades que iam aparecendo na caminhada constante contra os quilinhos adquiridos pelos bacalhaus consumidos, com muito azeite, batatas e bons vinhos, naturalmente. Assim, deixei para trás, sem perceber, a estação de Picoas, que foi ficando cada vez muito longe de meus passos largos e ansiosos em resgatar o figurino esguio de antanho. Quando percebi, havia me distanciado mais de hora e meia, realizando exercícios aeróbicos a passos largos. A residência, na qual um grande amigo me colocara estava ficando muito para trás. Conclusão, o prédio tinha horário rígido para fechar e eu não trouxera a chave do magnífico portão de ferro rendado, em estilo “art nouveau”. Ficaria simplesmente na rua se não retornasse imediatamente e rápido, voando, por assim dizer. A bruxa, que administrava os quartos, alugados à revelia do verdadeiro dono do grande apartamento – um caso de sublocação - não acordaria e não me deixaria entrar nem que recebesse dos céus pedido clemencial. Mas como? Já era tarde e as ruas iluminadas e seguras estavam desertas. Não haviam inventado ainda o telemóvel. Só o Metro me salvaria. Vislumbrei muito longe o farol da primeira carruagem com luz forte e destemida, vindo, superficialmente, em direção à estação que serve ao moderno aeroporto da cidade que Ulisses fundara. Corri para pegar o combóio e procurei a bilheteria. Nada! Tudo deserto, sem viva alma. Tudo livre. Não havia uma só catraca. Essas barreiras, contra (ou a favor) de nossas consciências, ainda não tinham sido inventadas ou, pelo menos, lá instaladas e hoje funcionando às mil maravilhas. Ah! Os telemóveis também não haviam sido inventados! Mas, hoje, meu amigo, como em todo mundo, lá estão eles disseminados, na terrinha e operados pela, vejam só, Companhia de Telefonia  Vodafone. Não pude me conter e disse a um amigo do Brasil, por WhatsApp, recentemente, quando de lá cheguei: “Vodafone é voda”! Botei a mão no bolso e verifiquei que não trouxera um mísero escudo. Estava totalmente desprevenido de moedas e das notas gigantes do dinheiro português de então. O combóio parou e eu entrei. Viajei sozinho na carruagem durante três estações, sem que ninguém entrasse, nem o temido fiscal, fardado como um soldado prussiano dos tempos salazarianos. Cheguei ao prédio onde morava e encontrei os magníficos portões ainda abertos. Graças a Deus a bruxa ressonava alto como um guaxinim embriagado. Custei um pouco a dormir. No dia seguinte acordei com uma enxaqueca terrível, pois só pensava em como poderia ressarcir a Cia de Carris de Lisboa daquela passagem que subtraíra, emergencialmente, com direito a pular uma catraca inexistente, que me deixou, internamente, envergonhado. Dissolvi em um copo d’água uma pastilha a borbulhar, e tudo passou.



ATÉ A PROXIMA

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.