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29 de julho de 2010

O PORTUGUÊS VULGAR


Durante esses anos que estou no sul do Brasil, cinco em Curitiba, Paraná, e seis em Balneário Camboriú, Santa Catarina, venho observando que nesses sítios a Língua Portuguesa está se transformando em “português vulgar”, como aconteceu com o latim na Península Ibérica, após o desmoronamento do Império Romano. Aqui em Santa Catarina o falar regional até parece um caçanje do Português. Há muitos e muitos anos atrás, na Península Ibérica ocupada pelos romanos, as instituições, marcas e símbolos de uma sociedade, entre elas a Escola, se esfacelaram, com a invasão visigótica, deixando o “romance”, entregue à sua própria deriva. Desse "romance", o latim vulgar modificado, falado então, surgiram, aos poucos, as diversas línguas neolatinas, nos diferentes espaços por onde vicejou a cultura do povo romano, colonizador da ibérica península. Como uma repetição histórica, a língua portuguesa, grosso modo, está se transformando, sem que os mesmos fatores externos que atuaram no "romance" peninsular, isso é verdade, se presentifiquem nessas plagas sulinas do território brasileiro. Mas as instituições sociais aqui estão em completa decadência e isso é um sinal de alarme. É só observar como a Escola está atuando na formação integral do cidadão. O Poder Legislativo está engessado pelo Executivo e seus representantes são, com raríssimas exceções, pessoas desqualificadas para o exercício do cargo, bem como despreparadas intelectualmente, sem dizer que muitos estão penalizados pela justiça, recorrendo de todas as formas legais ou não, para se livrar da Lei da “Ficha Suja”. Reconhecemos, no entanto, que muitas instituições culturais, de ensino formal ou de ensino assistemático, além de grande parcela da sociedade comprometida com tecnologias de ponta, como a internet, por exemplo, estão se esforçando para melhorar esse quadro terrível da cultura atual brasileira. Mas voltando às observações sobre o falar inculto que se generaliza nas principais cidades do sul do país, tenho observado que não se dá mais importância ao falar escorreito, ao emprego do registro culto da língua portuguesa, mesmo em situações onde isso seria exigido. Nas salas de aula de universidades, principalmente as particulares; nas salas dos professores das escolas; nas Câmaras de Vereadores; nas instituições culturas; nas reuniões dos Conselhos Tutelares e em muitos outros lugares e em inúmeras outras situações em que se exige o falar culto, a língua culta não é mais utilizada e os vícios de linguagem de todos os tipos grassam, desrespeitando as mais comezinhas regras gramaticais. É muito comum ouvir concordâncias erradas, plurais não sigmáticos, regências estropiadas, verbos conjugados erroneamente e muito mais. No falar menos rígido, isto é, no uso da linguagem familiar pode-se até relevar muita coisa, mas não a troca da vogal temática –A- dos verbos da primeira conjugação pela vogal -E-, numa troca que soa como uma martelada nos ouvidos da gente, por dissimilações, onde a sincronia imita a diacronia dos primórdios de nossa hitória linguística. Assim, é comum ouvir-se “Nós compremos isso muito barato”; “Nós falemos”; “Nós abusemos” etc., sem falar que o –S- da desinência número-pessoal, -mos- nunca é pronunciado. Isso já caracteriza a linguagem popular e ela está penetrando, cada vez mais rápido, no espaço de outros falares, sem que ninguém denuncie essa invasão e as autoridades educacionais tomem providência. Há, também, a má conjugação dos verbos INTERVIR, HAVER impessoal, FAZER no sentido de passar o tempo ou no de indicar a temperatura, além do emprego da voz passiva pronominal, como no caso de ALUGA- CASAS em vez de ALUGAM-SE CASAS, Nisso tudo muita gente com razoável nível de escolaridade, às vezes, escorrega, mas a preocupação surge porque não percebemos a vontade de mudar. Os falantes não se importam em se reciclar, em se especializar, em estudar, talvez pelo simples motivo de que não sabem que transgridem a norma gramatical. Aliás, a gramática não é bem vista em quase todas as classes sociais da região, muito mais interessadas na praticidade da vida, alegando que a língua portuguesa é muito difícil e que a toda hora estão se realizando reformas ortográficas, que só servem para piorar tudo. Por aí, se vê que a Escola está falhando de algum modo. Quando a internet exige rapidez na comunicação escrita, o usuário, por exemplo, tecla vc, significando você. Isso é razoável para quem sabe escrever você por extenso. De tanto escrever vc no lugar de você, fica-se sem saber que as palavras oxítonas terminadas em –a-, -é-, -ê-, -ó-, -ô- são acentuadas, por exemplo. Lembro-me de um fato ocorrido comigo numa turma de miúdos, creio que hoje seria uma Quita ou Sexta Série. A mãe de uma aluna veio me interpelar, dizendo que considerei errada a palavra caju que a filha marcara na prova mensal com acento agudo no –u-. Ela tentou provar que a filha havia escrito a palavra CAJU com acento agugo no –u- de forma correta. Para tanto, levou para me mostrar uma lata de doce de caju, comprada em um supermercado. Lá estava a palavra caju acentuada assim: cajú. Percebe-se que a referência dessa mãe, dessa família, talvez da toda sua comunidade, fosse o supermercado ou a fábrica de doce, em vez da ESCOLA. E a televisão tem alguma coisa com isso? Tem, sim, senhor! Programas como Soletrando e alguns outros contemporizam a mediocridade, mas é muito pouco. Umas das funções da televisão – são cinco – é a de informar. Mas nunca deformar. E como deforma... E a publicidade tem alguma coisa a ver com isso? Tem, sim, senhor! Quando mostra o erro; quando apresenta o desvio; quando insiste no errado, através da função persuasiva da linguagem. Mas sobre isso ainda vou falar futuramente. Portanto, se, por um lado o linguista encontra nesses acontecimentos um prato cheio para pesquisar, para descrever os fenômenos da língua, enquanto ”langue” e “parole”, por outro lado é entristecedor ver a nossa língua portuguesa ser aviltada, vilipendiada, estropiada, por pura falta de conhecimentos específicos e pela falta, principalmente, de uma política séria e objetiva para a cultura e para a educação. Mas, convenhamos, o que se poderia esperar desse país que teve durante oito anos um governo, cujo chefe foi o mais popular e representativo apedeuta nacional?

ATÉ A PRÓXIMA

13 de julho de 2010

FALTA DE EDUCAÇÃO

Tornou-se uma prática irritante, dentro dos bancos de todo o país, você ser atendido por gerentes e seus auxiliares de um modo muito estranho, para não dizer com total falta de educação. Trato lhano e educado não é jogar mesuras de um lado para o outro dentro do ambiente de trabalho e dar risinhos amarelos, tentando encobrir a chatice de um emprego estafante e mal remunerado, como esse de atendente bancário. Não é só isso, não! Ser educado, como minha mãe me ensinou, é dar toda a atenção a todos, principalmente aos aos mais velhos; aos menos informados; aos necessitados e, principalmente, às visitas. O cliente de um banco que vai pedir informações ao gerente de uma agência é uma visita. Lá em casa, eu, quando recebo alguém, jamais atendo a um telefonema e muito menos fico batendo papo com quem me procura por telefone ou por qualquer outro meio de comunicação interpessoal, mesmo que o assunto seja importantíssimo. Para isso deve-se ter um mínimo de inteligência e algum expediente, para contornarmos a situação, sem melindrar ninguém, muito menos a nossa visita. Pois bem, fui conversar, na segunda-feira passada, com a gerência do Banco Itaú, na Avenida Brasil, da bonita cidade de Balneário Camboriú e minha conversa foi interrompida mais de três vezes pela funcionária, atendendo chamados telefônicos, deixando-me perdido em meu raciocínio, pois tentava respostas para assuntos financeiros que não dominava. E mais! A pobrezinha da auxiliar de gerente fez com que eu digitasse várias vezes minha senha, sem nenhum resultado, pois sempre atendia ao toque estridente do telefone, o que me tirava a concentrarão e a paciência. A bronca foi inevitável. O gerente, ao lado, disse que eram normas e obrigação de todos os atendentes prestarem informações, tanto presenciais como à distância, por telefone. É, parece até escola moderna com os famigerados Cursos por Teleconferência. Isso, francamente, não é uma forma polida de se prestar serviço! E como eu não estava matriculado naquela escola de Cursos à Distância, embora fosse "aluno-cliente" há mais de 25 anos daquele banco escolar, fui à “secretaria” e pedi meu “boletim” para desligamento, pois existem muitos outros estabelecimentos do gênero aqui nessa bonita cidade onde moro. Se todos os clientes mal atendidos tomassem a atitude que tomei, na hora, em bom e alto som, todos os serviços de repartições públicas ou privadas dariam um salto fantástico de qualidade. Por enquanto, quem pulou para um outro BANCO fui eu.

ATÉ A PRÓXIMA

2 de julho de 2010

D E S E S T A B I L I Z A Ç Ã O

Quem é pobre não se desequilibra, haja vista o sofrido povo nordestino que passa por secas e enxurradas, por descasos das autoridades públicas e por ataques de bandidos aos sofridos flagelados de todo tipo. Quem é pobre não se desequilibra nem se desespera. O pobre está sempre se referindo a um outro sistema simbólico para tentar explicar suas vicissitudes, pedindo a Deus e ao “Padim Padi Ciço” uma interferência a fim de que não o faça sofrer mais e botar sua vida nos trilhos. Quem é pobre se resigna com as coisas adversas e não se desespera, pelo contrário, não ameaça ninguém nem dá ponta-pé nos outros, nem murro nos postes ou no chão, de cabeça baixa. Quem é pobre acha até que tudo é o desejo do Onipotente, o responsável pela privação e provação, quando perde casa, gado, plantação e até seus entes queridos, mas não se desequilibra. Quem é pobre tenta encontrar um caminho mais curto, mas difícil, para sair da pobreza, mesmo não tendo quase nenhuma opção para isso. Então, o pobre, em sua maioria absoluta, vai tentar ser jogador de futebol. Aí, com muita sorte e também esforço ele vence, sai da caatinga, da favela (agora chamada de comunidade), das cidadezinhas tristes e sem graça nenhuma do interior do Brasil e vai, às vezes, sem passar pelos grandes centros das capitais, diretamente para o exterior. Vai para a Europa. Vai para o Real Madrid, para o Barcelona, para o Milan, para o Benfica, para o Manchester United, para o Arsenal, para o Paris de Saint-Germain, para o fim do mundo, para as Arábias, para os Emirados e Sultanatos do Islã. Então, esses meninos jogadores de futebol se tornam ricos e só voltam ao Brasil, para a Granja Comary, em Teresópolis, para servirem à Seleção Brasileira. Tornam-se canarinhos ricos, verde de dólar e amarelo de camisa cheia de propaganda. Dizem que esses jogadores, oriundos da pobreza, se transformam e passam a ter um sistema emocional compatível com sua nova posição de craque, de estrela pop, de “enfant gâté” de treinadores e de cartolas do futebol nacional e internacional. Mas onde está o equilíbrio emocional? Não existe, porque ao se tornarem ricos, com sua vida estabilizada, seu parentes próximos todos com a vida ajeitadinha, tudo cem por cento organizado e resolvido materialmente, perdem o equilíbrio emocional que devem manter dentro de uma competição, porque já têm muito e pensam que podem fazer o que lhes vem à cabeça, do charminho aos pisões desleais e criminosos, prejudicando toda equipe. De mais a mais pensam que se fizerem alguma besteira nada têm a perder. Estão pouco ligando para essa de autocontrole. Se conseguiram vencer a miséria, a fome e a morte súbita no agreste interiorano ou no fundo do nordeste brasileiro, pensam ser jogadores de futebol que desequilibram tudo e todos, não se importando com as dificuldades de um jogo decisivo, por exemplo. Admitem para si mesmos que a vitória chegará a qualquer momento, mas não estão preparados para o pior. Chegando esse pior, na forma de um fantasma ou na forma de um acidente em campo, se descontrolam e assim se comportam porque são ricos, ganham muito, mas muito mesmo, e quem quiser que prepare justificativas de toda sorte para explicar as suas inconsequências. O pobre não se desequilibra. Os ricaços de nossa Seleção Brasileira de Futebol, sim. Com isso tudo ficamos muito tristes, mas o Brasil pode até ter um lucrozinho (e que sirva de lição, mesmo), porque, tenho certeza, muitas outras crônicas vão aparecer centradas na soberba de alguns de nossos jogadores, para corrigir de vez todos esses erros desconcertantes na formação de um eleco que não reside mais aqui, nem nas grandes cidades, nem na caatinga e agreste nordestinos e, muito menos, nas favelas e alagados dos pauls lamacentos, há muito tempo.





ATÉ A PRÓXIMA

28 de junho de 2010

ACADEMIAS E INDÚSTRIA CULTURAL

Hoje é tudo pop. A cultura dita superior, se já existiu, não existe mais. A Escola de Frankfourt também ficou no passado. Walter Benjamin, em seus significativos textos e, principalmente, em “A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica”, parece que não mais se sustenta, pois baseava-se somente na maravilha gutembértica e na fotografia. Reproduziam-se cópias de produtos artísticos, que só aqueles de maior repertório e poder aquisitivo poderiam ver, ler, sentir e com elas se extasiavam. Abastecia-se assim um mercado específico e popularizava-se a arte. Essa indústria cultural de então ainda continua, mas hoje, com menos produtividade e mais intensamente se vale de outros meios, como a internet, para produzir e criar cópias de cantores e dançarinos, de Elvis Presley a Michael Jackson, por exemplo. A produzidíssima e pop Lady Gaga, de furor e frenesi alucinantes, deixa a galera em campo aberto ou atrás dos monitores de cristal líquido ululando histericamente. Ela é padrão de arte pop, sem dúvida alguma, produzida pelos “mass-media” dos tempos modernos. Nos quartos adolescentes lá estão antenados nos vídeos do You Tube rapazinhos muito mais preocupados com o rebolado do que com a condição de reprovado nas provas do Enem, assistindo a toda forma de manifestação eletrônica popular de arte, porque a arte continua instigando as mentes produtivas e, como a estética está centrada na ótica do receptor, ela, a arte continua tendo sua produção e sua apreciação tão viva como sempre foi, pois, ainda, segundo Walter Benjamin, “uma das principais tarefas da arte sempre foi criar um interesse que ainda não conseguiu satisfazer totalmente”.
Mas não é só o alucinante ritmo dos festivais do “Rock in Rio” de exportação que alucina a mente da juventude. É tudo que magicamente pode ser tocado, jogado e deleita. Contudo, não é só a juventude que acessa o mundo cibernético da internet. Todos nós nos servimos desse veículo para nos aperfeiçoarmos, graduarmos, pós-graduarmos, tornarmos doutores, isto é, para nos aculturarmos, aumentando nosso repertório, pesquisando e criando, servindo-nos do feed-back da rede mundial da informação, para crescermos na escala social. Abundam os Cursos à distância nas Universidades particulares de todo o país, verdadeiras fábricas de possíveis desempregados e de riqueza fácil para os investidores. Mas, a bem da verdade, a internet também propiciou uma forma de muitos e importantes cursos universitários existirem, não mais como presenciais, mas somente à distância, como os Cursos de Letras e de Pedagogia e isso está ocorrendo principalmente nas cidades do interior do Brasil, talvez por falta de interesse ou por falta do retorno do capital investido nesses estudos. De qualquer forma, a tecnologia está aí, também, nos ajudando a todos a formar uma ciber-enciclopédia e nós passamos de pesquisadores a informantes, num pingue-pongue cultural interativo wikipediano, jamais pensado pelas mais brilhantes mentes arthurclarkianas da ficção científica. Todas as manifestações culturais estão afetadas pela magia dos buscadores da Web. Nada é mais privilégio dos poderosos e ricos segmentos sociais. Estamos diante da inclusão digital avassaladora e irreversível. Hoje, se há indivíduos interessados em alguma coisa, podem se reunir e formar associações, clubes, museus, conselhos, sociedades, sindicatos, condomínios, escolas e academias literárias que substituem plenamente as arcádias dos séculos 17 e 18. Tudo registrado, com estatuto, diretoria e objetivos claros a alcançar, umas se baseando nas outras, sucessivamente, adquirindo o respeito da comunidade onde estão inseridas. Muito comum é a publicação de obras pertencentes às mais variadas formas culturais de expressão, como CDs, VTs, livros, retratando as artes cênicas, musicais e literárias. Bandas de música se formam nas garagens das casas da classe média e se apresentam ao público Global, em extasiantes programas de tevês, comandados por gordos que emagrecem artificialmente e por gordos que não conseguem emagrecer e se ufanam de carregar suas simpáticas calorias. Tudo isso fruto da ciência e da tecnologia, também de ponta, ao alcance de todos. Esses animadores culturais e "talk shows" falam sobre tudo e mostram tudo, do mais sério ao mais bizarro. Desempenhar o papel de artista é desempenhar uma função social como qualquer outra, embora a literatura tenha uma função diferente de outras formas estéticas. Ela é transgressora, como atesta a própria poesia, transmitida por mensagens raras, onde o emissor e o receptor possuem repertórios diferentes. Essa prática ou esse exercício se darão nos espaços públicos ou privados, que deverão ser bem organizados, definidos, respeitados e frenquentados por todos aqueles, atraídos e atingidos pelas raricidades das mensagens pictóricas, poéticas, teatrais, literárias de um modo geral. Antes, os espaços culturais, constituídos por Academias Literárias, por exemplo, só existiam, ocupados por privilegiados, enclausurados em prédios neoclássicos, nas principais cidades do país, quase sempre frequentada por uma elite soberba, “qui était rempli de soi-mme”. A vida social, percebendo o surgimento de um novo modo de ver e sentir a cultura cria os lugares certos para a sua produção e reprodução, assim como seus agentes. Multiplicam-se os estúdios de gravação de áudio e de vídeo, acelerando e propiciando o surgimento de empreendimentos comerciais como as TVs Corporativas, as TVs Educativas, as TVs Escolas, as Rádios Comunitárias, as Radioescolas e muito mais. São tantos esses empreendimentos, em quantidade e qualidade que muitos ficam à margem da Lei e se instalam como “piratas” nas comunidades mais carentes. Essa pirataria invade tudo na indústria cultural, dos CDs aos livros, na inocente, mas irresponsável, reprodução via xerox das páginas dos compêndios, nas escolas e nas universidades. As fábricas de livros se multiplicam com inovações tecnológicas setoriais, a exemplo dos convênios entre a Xerox do Brasil e o SENAI, possibilitando a publicação de obras do cidadão comum, do cidadão-massa, que existe, mas não tem rosto, só números e traços nas pesquisas de opinião, desencadeadas por Institutos especializados. Então, o professor sem editor, o poeta sem suporte mercadológico e sem rima, o pesquisador preocupado com seu objeto investigado, tendo a única certeza de que a ciência pertence ao geral e não ao particular, todos se tornam escritores e, assim, crescem e passam a ser mais respeitados no espectro social, despertando, em cada cidadão, um poder, suposto saber. Desta forma, o teatro, o cinema, a música, a pintura, a literatura e todas as formas sincréticas de expressão artística, por receberem a aprovação editorial, crédito indispensável à sua certificação de coisa boa, uma espécie de ISSO-Século XXI, passam a ter crédito de excelência e são divulgados por canais convencionais, circulando democraticamente também pela rede cibernética dos e-mails, dos sites, dos blogs e dos tweeters. Por tudo isso o saber se desburocratizou e saiu da camisa de força da União, dos Estados e dos Municípios, instâncias administrativas que tratavam a cultura como uma prerrogativa exclusiva do poder. Passou a se articular, tanto em suas manifestações cultas e populares, como na ancestralidade folclórica de seus fatos e também nas formas simples dos mais impressionantes chistes, como afirma André Jolles. As elites intelectualizadas e a vida cultural de toda aquela população privilegiada que fora atingida pelo discurso da escola perderam o privilégio de manipular tudo isso. Não é que a selva tenha superado a escola, como na poética visão antropofágica de Oswald de Andrade e de outros nossos críticos e artistas modernistas, mas o que estamos assistindo hoje é uma escola invadindo a selva, através dos meios eletrônicos de comunicação. Os Estados de Roraima, lar dos yanomamis, acima da linha do Equador, portanto no hemisfério norte e Santa Catarina, o belo Estado de variadíssima etnia, abaixo do trópico de Capricórnio, são regiões distantes, uma da outra, ligadas por um senso comum de participação cultural de seu povo, ávido de conhecimento, criando, em todas as áreas do saber, formas expressivas significativamente estéticas. Tanto lá como aqui prolifera um grande número de associações culturais de toda espécie - o maior número entre todos os Estados brasileiros - principalmente Academias de Letras em seus muitos municípios, quase todas vinculadas ao Conselho Nacional das Academias de Letras. Que ninguém fique, portanto, tímido ao entrar nos salões marmóreos do Olimpo com as botas cheias de barro. O autodidatismo será sempre bem-vindo para se alinhar ao saber institucionalizado, nesse momento em que os menos informados necessitam muito do saber para produzir, desenvolver, criar e acelerar o progresso do Brasil. Se essa discriminação aconteceu no passado, hoje não faz mais nenhum sentido. Preferimos a culturalização consciente das massas à massificação imbecil da cultura.

ATÉ A PRÓXIMA



5 de maio de 2010

SANTA MARIA MADALENA - DE VOLTA AO PASSADO


Não nasci em Santa Maria Madalena. Sou carioca da gema, da Lapa, fim da Rua Riachuelo, próximo aos Arcos. Era a Rua de Mata Cavalos de Bentinho e de Dom Casmurro, de Machado de Assis. As lembranças sempre foram minhas companheiras, vida afora. Confesso que gosto de sentir saudade. Talvez seja porque o que está lá, no passado, bem guardado, estático, seja somente para se contemplar, apreciar, para se refletir somente. Quem sabe se o que foi não poderia ou não deveria ter sido... Seria isso? Quando menino, se me perguntassem para onde gostaria de ir, se pudesse viajar no tempo, sempre respondia que gostaria muito de voltar ao passado. Eu sou do pretérito. Tinha toda a certeza de que se voltasse no tempo poderia corrigir os erros da humanidade, tornando-me um herói, como as figurinhas do Gibi mostravam, queria ser igual ao Super-Homem, que rodava ao contrário em volta da Terra, a toda velocidade e chegava ao passado, para salvar sua amada de um fatídico desastre. Voltava à infância de todos nós terráqueos. Mas quando minha prima Neuza me telefonou, dizendo que escrevera, com um amigo professor, uma história de madalenenses que fizeram história, encomendei logo um exemplar para curtir muita saudade, que efetivamente se concretizou, alguns dias depois, quando li as poucas e objetivas páginas de seu precioso livro FILHOS DO MUNICÍPIO DE SANTA MARIA MADALENA. Já disse que não sou de Santa Maria Madalena, mas sou filho de um madalenense.



Durante minha infância estive por lá nas férias de meu pai. Ficávamos numa chácara adorável, com uma várzea verdejante, um minguado filete de rio a cruzava encantador, uma várzea cheia de estrepolias de crianças, primos entre si, vizinhas bonitas, namoradinhas sazonais. Minha prima Neuza mexeu com os meus mais profundos sentimentos de nostalgia.



Minha vó Tatá no chafariz da praça de cima, a igreja de uma torre só, os jardins da praça de baixo, a venda do gorducho Américo Mansur, as fantásticas operações do Dr. Maneco, fazendo cesariana com gilete, o coreto com a retrete, Eupídio Feijó, o músico, Eurico Feijó, meu tio que fazia de tudo, tia Nialva, a minha tia mais santa de todas, que sempre me protegia das travessuras endiabradas, matança de galinhas indefesas, Tio Antônio do “troytler” alinhadíssimo, dos carnavais em que gente miúda só se mascarava, porque brincar no salão do Clube Montanhês, só com mais de 15 anos. E quando eu tinha 15 anos era muito bobo... Hoje, Neuza, minha prima registradora de vidas passadas, viajei no tempo e senti saudade. E quanto! Seu livro é ótimo.


ATÉ A PROXIMA

22 de abril de 2010

LANÇAMENTO DE LIVRO E A NOVA ORTOGRAFIA


Estou lançando mais um livro sobre a linguagem do futebol. Chama-se FUTEBOL FALADO. A primeira noite de autógrafos será no Auditório Central da UNIVALI, na 5ª Avenida, em Balneário Camboriú, Santa Catarina, no dia 28 de maio, a partir das 18 horas. Na ocasião, haverá uma mesa-redonda, onde vão ser discutidos assuntos interessantíssimos sobre o futebol e seu relacionamento com inúmeros discursos de sabel, como a Sociologia, a Linguística, a Literatura, a Educação Física, o Direito e muito mais. Foram convidados todos os alunos universitários dessas áreas, os setores da sociedade regional, interessados no tema, além da Federação Catarinense de Futebol, cuja sede se encontre nesse Município de Balneário Camboriú.


Participará do evento o Professor Dr. Maurício Murad, Sociólogo e escritor, ligado aos discursos universitários que falam do futebol, tanto na UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UERJ), como na UNIVERSO, além da Fundação Getúlio Vargas.

No Rio de Janeiro, o lançamento se dará na Livraria do Museu da República, no Palácio do Catete, no bairro de mesmo nome, a partir das 18 horas do dia 11 de junho, quando, oficialmente, inicia a Copa do Mundo de Futebol, na África do Sul.


Lembro que a obra a ser lançada brevemente está com a ortografia antiga, isto é, não fizemos ainda as alterações, pois temos até o ano de 2012, segundo a Lei, para isso realizarmos, oficialmente. Vejam uma coisa interessante. O nosso livro tem perto de 400 páginas e, além do trema, que foi totammente abolido, pouquíssimas palavras terão de se adaptar à nova ortografia, dentro de dois anos. Contamos, se não nos falha a memória, 6 palavras. Portanto, as mudanças ortográficas foram muito poucas. Irrelevantes, mesmo.


Mas para lembrarmos, mais uma vez, aos nossos amigos o que terá de ser alterado, reproduzo uma consulta, não muito antiga, feita por um leitor de nosso BLOG.


Perguntaram-me sobre a atual e muito comentada Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa, acertada para entrar em vigor no ano de 2009.

Querem saber se a extinção do trema e dos acentos agudos em ditongos abertos, enfim, se isso tudo representará uma melhora efetiva no idioma ou se terá apenas função unificadora.

Apresento minha visão sobre esse assunto, para que o leitor possa se inteirar do que vai aí pelo mundo das letrinhas...

MELHORA é um conceito subjetivo, pois qualquer língua de cultura, em seu aspecto escrito, representa um acordo entre os componentes de uma comunidade lingüística para representar o que se fala, com símbolos gráficos, que tentam se aproximar, o mais possível, do som que é emitido pelo sujeito falante. A escrita, portanto, é uma forma muito mais ideal do que real. Portanto, a qualquer tempo, haverá pessoas que se sentem confusas em aplicar as regras ortográficas, quando vão escrever em qualquer idioma. Estarão sempre contestando isso ou aquilo, sugerindo uma ou outra coisa para melhorar o desempenho gráfico, etc. Então, lembramos que a língua escrita será eminentemente adquirida, contrária à língua oral, falada, que será eminentemente transmitida. Isto significa que aquela se aprende na escola e esta será a língua que recebemos de nosso meio familiar, que se aprende com nossos pais, nas nossas casas. Mas, haverá um dia em que esses dois tipos de língua se encontrarão na vida do sujeito falante. Então, começa aí a visão crítica do indivíduo que usa a língua escrita e tenta direcionar aquilo que pensa a respeito dela para a vida comunitária. E isso é inevitável, porque escrever é uma pura combinação de sinais, e essa combinação pode se modificar ao longo do tempo. As modificações mais significativas incidem sobre os sinais chamados diacríticos, isto é, aqueles que dão às letras uma expressão mais viva para que elas representem o que vão significar. É o caso dos acentos agudo, grave, circunflexo, trema, hífen, aspas, cedilha, vírgula, ponto, ponto e vírgula, ponto de exclamação, ponto de interrogação etc. Mas a escrita, enquanto tentativa gráfica de representação fonética é mais resistente a alterações, porque ela não é tão volúvel como a acentuação gráfica. A ortografia de uma língua se prende profundamente à etimologia. É claro, que, cientificamente falando, a língua é um código de sinais e um de seus pressupostos básicos, segundo Ferdinand Saussure, é a arbitrariedade do signo lingüístico. Veja um exemplo claro que está presente nessa atual proposta de reforma ortográfica: em Portugal, escreve-se HÚMIDO, com H. No Brasil, é sem H, assim, ÚMIDO. Úmido vem do latim, umidu; espanhol, húmedo; italiano, úmido; francês, humide. Logo, em português deve ser sem H. Contudo, uma forma arcaica fora registrada, em português, como humede, no Livro da Montaria, tratado de monte, a caça maior, compilado sob a direção do rei D. João I, século XV. Talvez venha daí o H, lá em Portugal. Nessa época, século XV, a ortografia de nossa língua era titubeante. Escrevia-se da maneira como se ouvia e se pronunciava. Pouco se preocupava com a origem das palavras. Podemos dizer que isso vem desde o século XII, quando surge a primeira manifestação escrita da língua portuguesa (Canção da Ribeirinha, de Pay Soarez de Taueroos) até, praticamente, o século XVI, quando o português fica mais organizado, sistematizado, tradutor de uma literatura e serve de veículo de expressão de uma cultura em pleno desenvolvimento, recebendo o influxo do Renascimento. A ortografia veste-se, então, de uma aparência latinizante e, às vezes, grega. Tudo, nessa época, respirava latim, inclusive a escrita. Se o primeiro período de nossa ortografia, isto é, do sáculo XII ao século XVI, foi considerado o período arcaico, por apresentar muita oscilação na grafia, principalmente de fonemas novos na língua que não existiam no latim e no grego, como o /g/ com o valor de /guê/ e o /j/ com valor de jê/, alternando-se ora um, ora outro, como em fugo = a fujo, por exemplo, o período seguinte surgirá a partir do século XVI e irá até o início do século XX. Será o período pseudo-etimológico, porque deu-se muito valor à etimologia, até demais, surgindo aberrações incríveis. De todos os estudos que apareceram nesses séculos, sobre a ortografia da língua portuguesa, o embasamento lingüístico não estava presente. E tudo só serviu para complicar ainda mais o sistema ortográfico, levando-o a um verdadeiro caos. Parece que foi nessa época que apareceu, na língua escrita, em Portugal, a grafia HÚMIDO, com H.
Vejamos, agora, resumidamente, os acordos ortográficos que já ocorreram. Embora a Ortografia Nacional de Gonçalves Viana estivesse publicada desde 1904, somente em 1 de setembro de 1911 o Chefe do Executivo português torna obrigatório para Portugal a adoção da ortografia simplificada, que foi orientada por uma comissão de ilustres filólogos e lingüistas da qual faziam parte o próprio Gonçalves Viana, leite de Vasconcelos, Carolina Michaelis, J.J. Nunes, Adolfo Coelho, Epifânio Dias, Júlio Moreira, Cândido de Figueiredo e outros. É importante frisar que nessa reforma foram atendidos somente aspectos fonéticos do português falado só em Portugal, fato que ainda nos deixava diante de um problema a resolver. É bom lembrar que, dessa comissão não participaram filólogos brasileiros e nem por isso eminentes professores filólogos como Mário Barreto, Silva Ramos, Sousa da Silveira, Antenor Nascentes deixaram de apoiar tal medida. É bom lembrar, ainda, que, em 1907, a Academia Brasileira de Letras tentou adotar, nas suas publicações oficiais um sistema de grafia simplificada. Em 1915, a ABL aprova a proposta de Silva Ramos no sentido de harmonizar a reforma de 1907 com a portuguesa de 1911. Em 1931 houve um acordo entre a ABL e a Academia das Ciências de Lisboa e o nosso Governo tornou oficial, em todo o Território Nacional, a reforma portuguesa. Muitas idas e vindas aconteceram até Brasil e Portugal celebrarem mais dois acordos: o de 1943 e o de 1945. Pronunciou-se o Congresso Nacional pelo de 1943 que foi sancionado pelo Presidente da República. Mas a última ocorreu nos anos 70 do século passado, quando no Brasil, em Portugal e nos territórios portugueses praticamente se aboliu o acento grave, tendo o Brasil também abolido o acento diferencial de timbre (oposição entre aberto e fechado), por exemplo, “êste”, com acento, para distinguir de “este”, ponto cardeal. O atual Acordo Ortográfico, de 1990, é um tratado internacional que tem como objetivo criar uma ortografia unificada para o
português, a ser usada por todos os países lusófonos. Foi assinado pelos representantes oficiais de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, em Lisboa, no dia 16 de dezembro de 1990, após longo trabalho desenvolvido pela Academia de Ciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras, desde 1980. Timor-Leste aderiu ao Acordo em 2004. Cabo Verde ratificou o acordo em fevereiro de 2006 e São Tomé e Príncipe, em dezembro do mesmo ano. O acordo teve ainda a adesão da delegação de observadores da Galiza. Esse atual acordo pretende defender a unidade essencial da língua portuguesa e o aumento de seu prestígio internacional, pondo um ponto final na existência de duas normas ortográficas divergentes e ambas oficiais: uma no Brasil e outra nos restantes países de língua portuguesa. Atualmente o Português é a única língua do mundo ocidental falada por mais de duzentos milhões de pessoas com mais de uma ortografia oficial. A unificação ortográfica deverá acarretar alterações na forma de escrita de 1,6% do vocabulário usado em Portugal e de 0,5% no Brasil. O atual acordo deverá entrar em prática em 2008.

Mas o que muda com a atual reforma da língua portuguesa?


HÍFEN


Não se usará mais: 1) quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes ser duplicadas, como em "antirreligioso", "antissemita", "contrarregra", "infrassom". Exceção: será mantido o hífen quando os prefixos terminam com r -ou seja, "hiper-", "inter-" e "super-” como em "hiper-requintado", "inter-resistente" e "super-revista".
2) quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: "extraescolar", "aeroespacial", "autoestrada"


TREMA


Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados.

ACENTO DIFERENCIAL

Não se usará mais para diferenciar: 1) "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição). INTENSIDADE.2) "péla" (flexão do verbo pelar) de "pela" (combinação da preposição com o artigo). TIMBRE.3) "pólo" (substantivo) de "polo" (combinação antiga e popular de "por" e "lo"). TIMBRE.4) "pélo" (flexão do verbo pelar), "pêlo" (substantivo) e "pelo" (combinação da preposição com o artigo). TIMBRE e INTENSIDADE.5) "pêra" (substantivo - fruta), "péra" (substantivo arcaico - pedra) e "pera" (preposição arcaica). TIMBRE e INTENSIDADE.

ALFABETO

Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras "k", "w" e "y”.

ACENTO CIRCUNFLEXO

Não se usará mais: 1) nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem".2) em palavras terminadas em hiato "oo", como "enjôo" ou "vôo" -que se tornam "enjoo" e "voo”.

ACENTO AGUDO

Não se usará mais: 1) nos ditongos decrescentes abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia".2) nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: "feiúra" e "baiúca" passam a ser grafadas "feiura" e "baiuca".3) nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com "u" tônico precedido de "g" ou "q" e seguido de "e" ou "i". Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg[ü/u]ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem.

GRAFIA

No português de Portugal: 1) desaparecerão o "c" e o "p" de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como "acção", "acto", "adopção", "óptimo" -que se tornam "ação", "ato", "adoção" e "ótimo".2) será eliminado o "h" de palavras como "herva" e "húmido", que serão grafadas como no Brasil “erva" e "úmido".

Outra pergunta dizia respeito aos benefícios dessa nova reforma ortográfica. Se ela tornaira a língua portuguesa mais fácil de ser aprendida.

Meus amigos, podemos afirmar que o seu aprendizado, quando implica a apreensão da língua adquirida, aquela que está presente nos currículos escolares oficiais, a que é de responsabilidade da escola como instituição social de transmissão das mais variadas formas de cultura, esse aprendizado, insistimos, deverá ser feito de forma sistemática, obedecendo-se aos mais rigorosos métodos pedagógicos, com uma atuação docente segura dentro do processo ensino-aprendizagem. Isso quer dizer que na instituição escola, a Língua Portuguesa deve ser tratada como disciplina de um currículo contínuo e crescente, à medida que os alunos vão se desenvolvendo biológica, cultural, social e lingüisticamente. A Didática Especial será a diretriz conteudística que norteará o ensino da língua, cientificamente aplicado. Assim, qualquer língua pode se estudada e aprendida, com metodologia específica, de maneira sistemática, continuamente, desde as séries elementares, com sucesso, alegria e objetividade, desde que os professores tenham o devido preparo para tal e estejam engajados num processo educacional comprometido com as modernas práticas educacionais. Isso significa que, ser fácil ou difícil, aprender, na escola, uma determinada língua, vai depender do nível de ensino oferecido ao aluno. Difícil ou fácil será ensinar. Mas como o processo é baseado numa interdependência “Gestaltica”, ele se atualizará como ensino-aprendizagem, como uma avenida de mão dupla, onde professor e aluno se dão, um ao outro. Isso vale para o aprendizado de qualquer língua e de quaisquer outras disciplinas. Então, a língua que se aprende à escola deverá privilegiar o seu aspecto culto. As diferenças entre esses registros, o culto e o familiar, deverão também ser apresentados na escola. Desde cedo, portanto, os alunos vão observando que há níveis ou registros em sua linguagem e vão incorporando os conceitos de certo e errado, sem decorar regras gramaticais e algumas outras bobagens que muitos alunos ainda recebem nas escolas ultrapassadas e julgam, por isso, que a língua portuguesa é difícil. Parece-me que reformas ortográficas têm outros objetivos, como unificação de sistemas para efeitos políticos, comerciais, estéticos etc, mas não influem no aprendizado de qualquer língua. Dentro de pouco tempo todos se acostumarão com as mudanças.

Um outro leitor indaga o que poderia ser mudado no idioma para melhorá-lo. Será que existe alguma coisa, além da ortografia, que ajudaria a se aprender melhor o nosso idioma pátrio?


Ninguém muda um idioma por decreto-lei, por aviso prévio... ou por qualquer meio que seja. A língua é um sistema de signos. Aliás, o mais perfeito sistema sígnico, da sociedade. O sistema lingüístico é perfeito. Não precisa ser melhorado. Melhorado precisa ser, urgentemente, o ensino no Brasil. Os professores, agentes da educação, estão completamente despreparados, com inúmeras dificuldades para se aperfeiçoarem. Eles não têm incentivo por parte do poder público e seu local de trabalho, a escola, está defasada. A atuação docente estrutura-se sobre um tripé: formação específica; condições de trabalho; remuneração adequada. Se um desses sustentáculos falhar, falha todo o processo educativo. Agora, pergunto eu, isso funciona, hoje, no Brasil? O ensino em geral está sem planejamento-macro, nossos políticos são despreparados, sumiram de cena os grandes educadores, a sociedade reclama, mas não age... panem et circences, bolsa família e futebol... Meu caro jornalista, o ensino vai muito mal, principalmente o ensino da Língua Portuguesa, pois ela, como qualquer língua de cultura é a expressão maior de nossa cidadania.


ATÉ BREVE

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.