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17 de dezembro de 2007

LISBOA, 31 DE DEZEMBRO


O fim do ano está chegando. Lembro-me da primeira vez que estive em Portugal. Foi em dezembro de 88. Fazia muito frio em Lisboa, pelo menos para um carioca que deixara o Rio de Janeiro com 40 graus, à sombra. Eu agasalhava a idéia de passar a virada do ano numa típica casa portuguesa, gozando da hospitalidade lusitana e das delícias das comidas típicas. Talvez, quem sabe, numa grande praça ou num iluminado sítio, como via pela televisão os cenários de rua em Paris, Nova Iorque, Londres ou Copacabana. Não era querer muito, creio, mas onde iria cear, se não tinha nenhum parente ou casa de amigo em Lisboa?


Estávamos hospedados em uma pensão, com todos os apartamentos ocupados. Casa cheia, minha gente! O Sr. Manoel tratava-me com toda gentileza, não fôramos eu e minha esposa indicados por Sílvio Elia, um dos mais ilustres professores de lingüística do Brasil e freqüentador assíduo da boa pensão da rua Castilho.

Lá pelas quinze horas fomos, ansiosos e felizes, para o Rossio, na tentativa de encontrarmos algum recanto gastronômico, à espera da contagem regressiva para a chegada de mais um ano, que bem poderia ser, pelo menos, tão bom quanto o que estava preste a acabar. Mas essa coisa de ver o futuro é com os magos que sempre dizem as maiores bobagens... e muita gente acredita.

Não encontramos nada de especial. Nada, mesmo. As casas do comércio estavam a fechar e todos queriam ir embora para casa. Consegui comprar um champanhe francês, a muito custo, explicando-me com o vendedor, muito mal humorado. Bem, à meia-noite faremos nossa festa particular, pensei. Não havia outro jeito.

Mas eis que avistei um aglomerado à porta de um restaurante, parecendo a entrada de uma festa. Aproximamo-nos, observamos bem, analisamos os prós e os contras, bati no bolso para constatar se tinha mesmo dinheiro e entramos.

Sentamos numa pequena mesa quadrada e pedimos duas sopas de santola.
- O senhor não pode abri o champanhe. São ordens da casa, a não ser que pague três mil escudos.

Escutei estarrecido e seco de raiva, mas como já estava no clima, aceitei a prática, que no Brasil se chama PAGAR ROLHA. Ao lado, um grupo de dinamarqueses festejava tola e ruidosamente o fim de mais um ano. Alemãs, italianos, polacos, todos com bandeirinhas de seus países numa das mãos e na outra antipáticos reco-recos. Conseguiam, ainda, soprar estúpidos apitos, numa barulheira ensurdecedora, achando aquilo tudo muito agradável. Eu estava, obviamente, aborrecidíssimo. Só pensava na cascata de fogos da Avenida Atlântica, os orixás marcando os pontos, todos de branco nas areias de Copacabana. Pensava na contagem regressiva para a inebriante iluminação da maçã de Nova Iorque. Pensava nos baile de máscara, nas avenidas iluminadas e repletas de Paris... E nós ali, naquele cubículo caríssimo, comendo pouco, porque a “grana” era curta, lamentando a infeliz idéia de sairmos para o Rossio.

Apertei, com educado cumprimento, as mãos de muita gente loira, falando línguas completamente diferentes, disse algumas besteiras, paguei a conta e fui.


Na porta da pensão Castilho recebi um efusivo abraço de felicitações pela passagem de ano, dado pelo Sr. Manoel, que estava preocupado com a nossa ausência ao jantar servido a todos os hóspedes, que já tinham se recolhido. Tudo por conta da casa.


O velho Sr. Manoel, percebendo em nosso olhar a grande decepção, pois os restos do banquete ainda faziam água na boca, fez questão de nos levar para a copa, onde nos serviu uma das melhores ceias dos últimos tempos. Com bate-papo, conversa fiada, piadas e tudo que tínhamos direito. Não se fazem mais hoteleiros como antigamente... Soube, há pouco tempo, que a pensão Castilho não existe mais.
Até a próxima!

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.