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31 de janeiro de 2011

LEODEGÁRIO, IN MEMORIAM


Amigos sinceros, ex-alunos, colegas e admiradores do grande mestre começam a se manifestar pelo passamento do grande filólogo, Leodegário A. de Azevedo Filho. De Portugal, recebemos esse belo, verdadeiro e sentido texto, escrito pelo poeta Albano Martins (embaixo, à minha esquerda), amigo de muitos anos.



Éramos amigos desde que, no já remoto ano de 1984, nos encontrámos em Ourense. Realizava-se, então, sob o signo da AGAL (Associação Galega da Língua), o I Congresso Internacional de Língua Galego-Portuguesa na Galiza, para o qual ambos fôramos convidados. No primeiro dia, ao almoço, no decurso do diálogo que entre todos espontaneamente se estabelecera, veio a pergunta, dirigida a minha mulher e a mim, sentados à sua frente: “Já foram ao Brasil?” “Não” – respondi. “Então vou levá-los ao Brasil”. E levou. Não uma vez, logo no ano seguinte, mas muitas, nos anos vindouros. Devo-lhe isso, e muito mais do que isso: uma amizade impoluta, sem mácula, cimentada num respeito e numa admiração recíprocos, e uma cativante amabilidade, próxima da fraternidade e pontuada de ironia, que era um dos traços marcantes da sua personalidade.
Tinha três paixões, todas grandes, avassaladoras, que diuturna e devotadamente alimentava: Ilka (a quem terna e familiarmente tratava por cocota), Camões e os canários – os seus gentis “marfim-satiné” -, que, para incomodidade da Ilka, sua dilecta esposa e nossa querida Amiga, se acantonavam lá ao fundo, na cozinha (havia também alguns exemplares, de mais modesta plumagem e menos refinada coloração, na casa de Cabo Frio) e que constituíam a sua primeira e mais fervorosa preocupação matinal. Era a hora da limpeza e da cuidada alimentação servida ao pormenor aos implumes filhos dos “satiné” e quejandos, acomodados nos improvisados ninhos. Algumas vezes, em viagem para o Rio, levámos connosco, na bagagem, um ou dois (às vezes mais) exemplares que a sua nunca desmentida e nunca satisfeita paixão nos exigia ou reclamava. Só nos últimos anos, jubilado já da UERJ e da UFRJ, esta paixão esmoreceu. De Camões, paixão nunca esmorecida, que herdou de Emanuel Pereira Filho, a quem pediu emprestado, para o ampliar, o critério do duplo testemunho quinhentista para cunhar a autenticidade dos textos que, de forma cega e um tanto anárquica, a tradição acumulou, aumentando assim desmesurada e acriticamente a obra lírica do poeta (obra que, como lembra António Houaiss, chegou a atingir as setecentas unidades), da paixão por Camões, dizia, sobram os oito volumes editados pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda sob o título Lírica de Camões, que, sendo a obra (lamentavelmente interrompida) duma vida, são também a laboriosa tentativa de correcção de erros (fruto, muitas vezes, de exacerbadas paixões) acumulados ao longo dos anos. Fica a obra incompleta. Faltam aqui: o tomo II das “Éclogas”, que, em Julho passado (já visivelmente enfraquecido), me dizia estar entregue na IN-CM, e os volumes com os Tercetos, as Sextinas, as Oitavas e as Redondilhas. E falta o volume final (muitas vezes me falou dele), onde, depois do trabalho crítico desenvolvido ao longo dos diversos volumes, ficariam reunidos os textos de incontestada autenticidade, agora despidos do aparato crítico.
A obra de Leodegário de Azevedo Filho não se cinge, porém, à “epopeia” que foi o seu trabalho (a que assentaria bem o epíteto de ciclópico) de expurgação da obra lírica de Camões. Também Os Lusíadas e o problema da editio princeps do poema mereceram, em anos mais próximos, o seu cuidado e atenção. Mais recentemente, para o dito efeito, ocupava-se da primeira tradução, para o castelhano, do poema camoniano, encontrando nela os argumentos bastantes para a defesa do seu ponto de vista ( consulte-se, a este respeito, o nº 43 deste jornal ). Mas a obra de Leodegário – vasta e singular – vai muito além. Vários outros poetas, de um e outro lado do Atlântico, mereceram a sua atenção e desvelo. Veja-se o trabalho empreendido com a publicação das “Crónicas de viagem” e das “Crónicas de educação” de Cecília Meireles, poeta a quem já dedicara, aliás, em outras ocasiões, demorada atenção (atente-se, por exemplo, no volume Poesia e estilo de Cecília Meireles, de 1970). Atenção que também dedicou, entre outros, a Fernando Pessoa, a Bocage, Pêro Meogo e Anchieta. E importa lembrar os seus trabalhos de natureza didáctica, de promoção e defesa da língua, bem como os de teoria, crítica e estética literária, sem esquecer os consagrados à problemática do verso. Uma obra vasta e singular, dissemos, mas também diversificada.
Morreu às 3h 10m do dia 30 do passado mês de janeiro, com 84 anos (fizera-os dois dias antes), na cidade do Rio de Janeiro. Aqui o deixamos escrito, nesta hora de mágoa pela perda do Amigo, mas também em memória dum homem a quem Portugal deve, desde há muito, prestimosa homenagem e reconhecimento. Além de grande filólogo e camonista militante, de excepção, Leodegário de Azevedo Filho foi também grande amigo do nosso país, que frequentemente visitava e onde tinha numerosos amigos. Lembra-se, aos que o não sabem ou esqueceram, que Leodegário (o Leo, como era conhecido entre os amigos), foi, durante o ano de 1972, professor visitante da Universidade de Coimbra. Também esta, por isso, está de luto. Assim o cremos, ao menos. A exemplaridade e a excelência têm de ser reconhecidas e, mais do que isso, assinaladas e honradas.

Albano Martins

3 comentários:

claudiaazevedo disse...

Lindo demais, Albano querido!! Só não gostei do Camões nem dos canários na minha frente! Ledo engano! :-)
Ass: Claudinha

Luiz Cesar Feijó disse...

Claudinha, querida, seu pai tinha um jeito muito especial de gostar. Ele amava sua família. Fomos amigos confidentes... Ele os amava tanto...
Um beijo. Ele está em paz. Sábado nos abraçaremos.
"Tio" Luiz Cesar

Albano disse...

Querida Claudinha:Claro que sim, mas tinha o meu espaço de jornal limitado, não podia dizer tudo. Mas sei, sim,sabemos que o nosso querido Amigo colocava, antes do Camões e dos canários, a sua filhinha e o seu Mariozinho. Outros, com mais espaço, o dirão certamente.
Temos muitas saudades do nosso Amigo. Mas de todos vós, afinal.
Um beijinho muito sentido e muito amigo da família Martins

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.