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2 de setembro de 2015

A CULINÁRIA ESTÁ NA MODA







A culinária já foi tema de minhas crônicas no jornal O PROGRESSO DA FOZ, no qual colaboro há muitos anos e é dirigido pelo meu amigo, o competente jornalista, Joaquim Pinto da Silva. Ultimamente percebi que muitas pessoas conhecidas estão se transformando em gastrônomos amadores, pois nas festinhas, que sempre acontecem lá pelas bandas de Canto Grande, praia de Santa Catarina, o assunto é só comilança. Então, resolvi voltar a falar sobre esse tema que está na moda. Nos bate-papos da última reunião de amigos mostrei aos interessados nas comidas exóticas ou tradicionais que os cuidados com as receitas de iguarias já existiam em Portugal, pelo menos, desde o século XV. Todos ficaram interessados no assunto. É mesmo fascinante. Como sabemos a nacionalidade portuguesa, fundada por D. Afonso Henriques, data do século XII. Logo, o que vou falar aos amigos, apreciadores da boa e farta mesa, foi escrito 300 anos depois da fundação do Condado Portocalense, que se notificou por suas gloriosas histórias de lágrimas, amor e sangue e, porque não dizer, também, de muita banha, bolinhos, assados e crocantes. Portanto, de um documento histórico de seis séculos retirei uma receita.

Vejam o título:

 A impressão inicial é de total confusão. Letras amontoadas, brigando umas com as outras. Não dá para se entender quase nada, mas especialistas em ecdótica, como o Pe. Augusto Magne e A. G. Cunha, entre tantos outros doutos filólogos brasileiros apresentaram-nos leituras diplomáticas e modernas desse e de muitos outros pergaminhos medievais, num trabalho minucioso de crítica textual. Este, cujo título é uma iguaria formidável, chegou até nós e mostra a vida de então pulsando nas cozinhas dos castelos, dos mosteiros, das vilas, das casas simples dos campos e das fazendas, e em muitos sítios daquela época quinhentista, fazendo-nos refletir sobre os momentos de requinte, mas também de aflição e angústia, talvez diante de tempos de escassez. Tempos, meus amigos, talvez vividos gente igual a nós, com os mesmos anseios, tentando encontrar na cozinha a satisfação da degustação, como supremo encantamento de vida. Pode-se acreditar que procuravam a todo instante, entre temperos, caldos, pastas e água fervente, articular o pensamento, porque, segundo afirma Claude Lévi-Strauss, em seu livro Le cru et le cuit, o homem não cozinha para comer e sim para pensar...
Este pedaço de manuscrito é fantástico porque guarda interessante material filológico, como os termos "albarada" e "sartãa" ou "sertãa", que equivalem hoje a saco-de-confeitar (aqueles com bicos para decorar bolos) e frigideira, respectivamente. Mostra, ainda, a vida girando em torno do forno e do fogão, chegando a nós através de desenhos que mais parecem rabiscos em caracteres arábicos ou garranchos feitos por iniciantes na alfabetização. Trata-se de um texto medieval, retirado da obra editada pelo Instituto Nacional do Livro, do MEC, em 1963, intitulada UM TRATADO DA COZINHA PORTUGUESA DO SÉCULO XV, cuja edição foi preparada pelo professor Antônio Gomes Filho. Bem, agora pergunto. Descobriram qual é a receita que o título indica? Acertou quem disse PASTÉIS DE CARNE.
Parabéns para quem acertou, mas eu vou correndo para um barzinho, à beira mar, aproveitar a sugestão e degustar essa iguaria de mais de quinhentos anos, com um chopinho estupidamente gelado, porque ninguém é de ferro!

ATÉ A PRÓXIMA

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.