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22 de março de 2007

CAPITÃO-DO-MATO

Mais uma crônica de LUIZ CESAR SARAIVA FEIJÓ, publicada no jornal português


, Porto. Ela também aparece no seu livro UMA FLOR AMARELA.



Viajar pelos Campos Gerais do sudeste paranaense é reencontrar as trilhas dos bandeirantes e tropeiros portugueses que nos deixaram, juntamente com os índios, traços de uma cultura peculiar, cujas marcas podem ser apreciadas, até hoje, nos costumes do povo dessa região, nos nomes de rios, serras, vilarejos e cidades.

Num domingo de sol fraco e muitas nuvens ameaçadoras resolvi, para matar o tempo, visitar a cidade de Castro, distante uns 150 quilômetros de Curitiba. Sabia que num fim de semana com céu cinzento e chuva fina iria encontrar a cidade praticamente vazia. Mas isso seria muito bom para meus propósitos. Indicaram-me o Museu do Tropeiro para satisfazer minha curiosidade sobre a história da antiga Freguesia de Sant’Ana do Iapó, dos idos do século XVIII.

A simplicidade e a simpatia do encarregado do museu foram fundamentais para que eu pudesse perguntar sobre tudo, ficando muito à vontade para passar de um assunto a outro, verificando sempre que o Sr. João Monteiro de Souza estava bem preparado para responder às minhas mais minuciosas perguntas, até sobre as origens da toponímia regional. Aliás, iapó significa pântano, em tupi, justificando os diversos e encantadores recantos da cidade, aproveitados como parques de laser. O rio alaga as margens protegidas pelas matas ciliares, repletas de pássaros e flores coloridos, fazendo nossa imaginação percorrer os séculos. Visualiza-se, então, o relvado da várzea, onde os aventureiros colonos portugueses e capitães-do-mato, com suas capas pretas e arcabuz na mão, contemplam o mar de araucárias e a revoada de garças e gralhas azuis no céu nacarado. Estão prestes a instalar nestas paragens, definitivamente, um paraíso. E todos trabalharam para isso. Mas como doeu! Quantas vidas foram sacrificadas! Como o poder e a natureza mexeram com a mente desses homens! Extensas sesmarias, maiores que muitas cidades européias atuais, foram requeridas à Coroa Portuguesa e doadas a famílias de não muitas pessoas e poucas virtudes. E todos estavam ali. Matas, animais e índios desafiavam os desbravadores. A força das armas de fogo suplantava os óbices. A cruz de Cristo perdoava os pecados. As atividades econômicas do garimpo do ouro, das pedras preciosas e dos rebanhos de gado precipitavam o progresso por aquelas plagas. O amor multiplicou os habitantes livres, mas não conseguiu atingir os miseráveis escravos negros. Contudo, todos eles foram trabalhadores pioneiros de grande valor: homens, mulheres, negros e índios.

O sol se pôs no horizonte, depois de uma trégua articulada com a chuva fina que caía sempre. Tomei o caminho de casa, rumo a Curitiba. Mas olhando pelo vidro semi-aberto vi, claramente, refletido no espelho retrovisor do carro, o aceno de um Tropeiro e de um Capitão-do-mato, saídos de um valão do brejo, em seus trajes de couro cru e lã pesada, desejando-me boa viagem...

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.