Quantos me visitaram ?

10 de maio de 2018

TABU É A MESMA COISA QUE ESCRITA?








Dedico esse trabalho ao Professor Leodegário A. de Azevedo Filho, mestre e amigo. Minha eterna saudade.

  
Em meu livro, FUTEBOL FALADO (2010), que estuda a linguagem especial do futebol, do ponto de vista da criação verbal, mostrando e analisando os fenômenos de renovação e inovação lexicais, entre outras abordagens linguísticas, sociológicas e históricas, na página 131, apresentamos o verbete ESCRITA, que diz o seguinte: 



126- ESCRITA

“Na linguagem esportiva em geral, significa um determinado fato que, sempre da mesma forma, acontece. Uma rotina. Muito usado nas transmissões de futebol. “Manteve a escrita”; “Olha a escrita aí”; “o Vasco manteve a escrita com o Botafogo”; “O Fluminense manteve a escrita com o Vasco”. Substantivação da forma feminina do particípio do verbo ESCREVER”.



O vocábulo ESCRITA, em linguagem figurada informal, está dicionarizado e é assim que Antônio Houaiss registra esse vocábulo, em seu Dicionário da Língua Portuguesa: “Escrita é o que constitui uma rotina ou aparenta constituir uma rotina”.

Parece que esse termo tem sua origem nos cadernos de anotações que existiam nas antigas vendas, empórios ou armazéns de antigamente, onde o dono do negócio dava crédito aos seus melhores fregueses, anotando, escrevendo no seu caderno os valores devidos, referentes a gastos no estabelecimento, geralmente de secos e molhados. “Está no caderno” ou “ficar na escrita do português da venda” eram expressões que se ouviam e se presentificavam como formas linguísticas vivas, ativas, portanto, num determinado tempo, e perduraram enquanto esse comércio de bairro pode resistir às investidas dos supermercados, que hoje dominam esse segmento do comércio de atacado e varejo, das utilidades e gêneros alimentícios de primeira necessidade. Essas expressões marcaram significativamente a vida de todos os cidadãos modernos e hoje estão recuperadas e se resumem no termo ESCRITA, que, portanto se prende ao campo semântico de rotina, costume e repetição. Em rotina está presente a ideia do hábito de caminhar. Aliás, rotina vem do francês “routine”, que significa propriamente hábito do caminho (route), como nos ensina A. Nascentes.

Então, ESCRITA, sob este aspecto, isto é, como linguagem figurada, surgiu metaforicamente, significando uma forma de crédito numa operação comercial dos pequenos armazéns de antanho. Possivelmente, essa metáfora se estendeu para outras linguagens especiais, mas é na linguagem especial do futebol que é usada ainda hoje, como exemplifica o filólogo Antônio Houaiss. Também, no Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, vamos encontrar o mesmo registro, com um exemplo bem mais significativo, pois cita a fonte do emprego da linguagem figurada que envolve o termo ESCRITA, situado no campo semântico de ROTINA. Assim: “O América conseguiu sua primeira vitória na Taça de Ouro ao derrotar o Bahia por 2 a 0, ontem à noite, na Fonte Nova, confirmando a escrita de que dificilmente perde seus jogos na Bahia” (Jornal do Brasil, 14.2.1985).

Ultimamente, estamos observando que muitos comentaristas de futebol, como também locutores, repórteres e demais profissionais ligados aos esportes de massa, eletrônicos ou não, estão relacionando o termo ESCRITA com o termo TABU, atribuindo a este os significados daquele, numa espécie de expansão de conceitos. Aliás, a EXPANSÃO é um fenômeno linguístico comum e que acontece com alguns termos da linguagem especial do futebol, cujo bom exemplo seria o verbo PENDURAR, que passou também a significar APOSENTAR-SE, na expressão PENDURAR AS CHUTEIRAS. Isso ocorre por similitude das ações, pois quem PENDURA a sua ferramenta de trabalho num prego, em uma parede, está querendo dizer que deixa o trabalho, definitivamente, para se aposentar. O ex-presidente Jânio Quadros pendurou um par de chuteiras no lado externo da porta de seu gabinete de trabalho, quando resolveu não mais se candidatar a nenhum cargo político eletivo. A pressão social do futebol, invadindo a vida social, foi enorme, pois o político se utilizou de um símbolo do futebol, que, semiologicamente, traduziu sua intensão de abandonar a vida política, aposentando-se. Uma metáfora plástica e semiológica, portanto. E, talvez, muito mais. APOSENTA-SE, para viver de outras fontes de renda. Ainda, o verbo PENDURAE, na expressão “estar pendurado” também pode significar estar endividado, estar devendo, surgindo essa ideia, por uma comparação ao que acontece com a materialização da dívida (o papel, a promissória, o papagaio) ficar, na casa ou na loja do credor, espetada num prego, na parede, como acontecia, por exemplo, no antigo comércio de secos e molhados de antigamente. Por metonímia, surge o termo PREGO para representar a dívida, ou o penhor, em expressões muito usadas e ouvidas: “estou no prego”; “botei a joia no prego”.

 Mas entre ESCRITA e TABU não é tão evidente a similitude, isto é, não ocorre uma perfeita equivalência de sentido, a não ser que o conceito de TABU esteja, coletivamente, tomando outro significado, num determinado segmento sociocultural específico, de forma equivocada. Isso também pode acontecer e é um fenômeno linguístico possível de ser explicado, como acontece, por exemplo, com o termo PINGUE, onde seus constituintes fônicos parecem quebrar a arbitrariedade do signo linguístico, dando a falsa impressão de se tratar de alguma coisa que significa POUCO, quando, na realidade etimológica (Lat. Pingue, is), PINGUE significa MUITO, ABUNDANTE, GORDO, NUTRIDO.

Já o termo TABU vem do polinésio tabu, que significa sagrado, invulnerável. "TA" significa marcado e “BU” é uma partícula intensiva. Talvez esteja aí a ligação semântica, através do processo conhecido como etimologia popular (aqui não fonética), pois é forte o sema contido em ESCRITA, relacionado a MARCADO, ANOTADO, ROTINEIRAMENTE ANOTADO, ROTINEIRAMENTE ESCRITO, ROTINEIRAMENTE MARCADO. Mas isso é uma especulação etimológica, uma hipótese diacrônica, num estudo superficial que pode até estar correto, mas é duvidoso e especulativo. Contudo, a nosso juízo crítico e aprofundado, não existe essa ilação e o que ocorre mesmo é que está se dando um novo significado ao significante antigo TABU, quer por desconhecimento dos sentidos primeiros do termo polinésio ou por se querer encontrar no invulnerável, no sagrado de tabu, uma relação qualquer com ROTINA. Não vejo como conciliar isso. A não ser que, através de um tremendo esforço semântico, se imprimisse ao sintagma QUEBRAR UM TABU, o sentido de QUEBRAR UMA ESCRITA e, nesse caso, o termo TABU perderia totalmente o seu significado primeiro. Isso, contudo, poderia ocorrer e não seria nenhuma surpresa, pois é muito difícil, como já dizia Freud (Totem e Tabu, Standard, 1996) encontrar uma tradução final para o TABU polinésio, pois não se possui mais o primitivo conceito que conotava e o definia como um termo que possuía dois sentidos contraditórios: o sagrado e o proibido. Observem os exemplos abaixo. Lá não se encontram os sentidos de sagrado nem de proibido:

a) "O Brasil nunca foi campeão olímpico. Vamos quebrar esse Tabu Essa Escrita , em 2014”;  (Agora já o é)
  
b) “Veja esse Tabu (Essa Escrita) futebolístico(a). O Brasil sempre perde nas Olimpíadas”; (agora já venceu)

c)  “O Brasil possui o título de campeão olímpico. Isso é um Tabu (Uma Escrita) a ser quebrado(a)”. (Agora já o tem)

Portanto, não concordamos com a criação de novos significados para TABU, deixando essa palavra que era conhecida entre os antigos romanos como “sacer”, entre os gregos como “äyos” e entre os hebreus como “kadesh”, todas com o sentido aproximado do termo polinésio. TABU será, portanto, tanto sagrado, consagrado, como misterioso, perigoso, proibido, impuro. Mas, nunca ROTINA, e muito menos ESCRITA.  Mas tudo pode mudar...

  
ATÉ A PRÓXIMA

Nenhum comentário:

Arquivo do blog

Quem sou eu

Minha foto
Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.