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9 de maio de 2018

TROVAS, TROVINHAS E TROVÕES - V - (COMENTÁRIOS LINGUÍSTICO-LITERÁRIOS)



COMENTÁRIOS LINGUÍSTICO-LITERÁRIOS


Já escrevi que hoje em dia, é enorme a produção de trovas de todos os tipos, sejam filosóficas, líricas ou humorísticas. Mas  bons textos, boas crônicas, contos inteligentes e empolgantes, poemas envolventes, belas trovas ou até mesmo escritos como estes de Sérgio Antunes são raros, mas surgem, muitos nas páginas da internet. Sérgio Antunes é poeta e escritor. Dizia ele, uma vez, que um trovador e repentista de Pindamonhangaba vivia fazendo versos que falavam do céu de anil, das moças garbosas, de sinos da igrejas, de tudo, enfim. Um dia, estava esse trovador num bar da cidade, com uns amigos, quando entrou a Rosa. Rosa era a mulher do Lino, o farmacêutico local. Ninguém precisava descrevê-la: era um monumento! Uma gostosona, com o perdão da palavra. Aí os amigos provocaram. "Não vai fazer uns versinhos pra Rosa?" E ele fez:

"Com seu corpo de violino
e seus pudores precários,
Rosa, a mulher do Lino
virou a extra de vários".

Esse tipo de humor não se vê com facilidade. Certamente, Ademar Macedo bateu palmas lá do céu ao lado de seu santo que agora não fica mais de porre! É raro um texto igual a esse, mas é uma delícia! Esse Sérgio Antunes também é muito bom,! Que tal esse seu quarteto, em decassílabos?

“Nervosa? Perguntei o que é que houve
e ela pediu que eu tocasse nela
e eu, obediente, toquei nela,
a quinta sinfonia de Beethoven”.

Mas, para quem gosta de trova reflexiva (será que alguém se "trovará" algum dia? Entenderam, né?), lá vai uma, citada, ainda, por Sérgio Antunes:

"Trova, conto de um canto,
poça d'água sobre o chão,
tão pequenina e entretanto,
reflete toda a amplidão".

E continua esse mesmo autor com seu repertório de “causos” poéticos, envolvendo trovas de preciosíssimas construções. Diz ele: "Na Bahia houve um concurso para fazedores de trovas. Mas era preciso rimar com "lâmpada". A dura regra que afastou os concorrentes teve um ganhador:

"Dizem que certo vigário
encomendou uma lâmpada
para homenagear a estampa da
Virgem Santa do Rosário".

Saída sensacional. O trovador usou a sílaba átona da combinação da preposição  - DE - com o artigo feminino  - A -  como parte integral de um vocábulo fonético proparoxítono, formado por uma palavra paroxítona ESTAMPA, que cedeu sua sílaba tônica TAM para formar o vocábulo fonético proparoxítono “ESTAMPA DA”.  É ou não é criatividade poética? Um caso raríssimo de “anacruse invertida”. Seguem, agora, uma série de trovas e poeminhos muito bem construídos, todos com “raricidades” e alguns “estranhamentos”, quer na semântica, no estilo ou no ineditismo da construção.

          PAULO LEMINSKI:

Todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem.
Só está faltando um pouco
pra eu ser tratado também.    

O jogo semântico do verbo TRATAR é que dá à trova o humor característico da poesia satírica de Paulo Leminski.

ALBA CHRISTINA CAMPOS NETTO:

Brigas de amor têm segredos,
e eu juro que me comovo
ouvindo os nós dos teus dedos
batendo à porta de novo...

 O segredo das brigas de amor é a reconciliação. Ou o arrependimento, que surge por uma poética hipálage.

AMALIA MAX:

Relógio, fique parado!
Não deixe o tempo passar...
Eu quero ser enganado
quando a velhice chegar!

 A teoria da relatividade pode ser também explicada pela poesia.

 CASTRO ALVES:

Na hora em que a terra dorme
enrolada em frios véus,
eu ouço uma reza enorme
enchendo o abismo dos céus...

Todos os sintagmas se entrelaçam em suas constelações semânticas (terra dorme – frios véus – reza enorme – abismo dos céus).

CECÍLIA MEIRELLES:

Sou mais alta que esse morro,
mais vasta que aquele mar.
Há muito que me percorro
sem me poder encontrar.

  Quem tem a consciência da grandeza ou se torna um ser esnobe, ou vira poeta.

  
DENISE CATALDI:

Deu muita sorte a vizinha
pulando o arame farpado,
pois só rasgou a calcinha:
o principal foi poupado!

O humor erótico contempla nosso imaginário lírico, desde os trovadores medievais, e está registrado nos vários Cancioneiros. Natália Corrêa, também, o registra em sua magnífica antologia.  

FERNANDO PESSOA:

Autopsicografia

Fenômeno psicológico por que passa o poeta no ato da criação artística, portanto é a sua Arte Poética.
                                      
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

É o axioma. A poesia não está na dor sentida, mas no fingimento dela. A dor real, para se elevar ao plano da arte, tem de ser fingida, imaginada, tem de ser expressa em linguagem poética, transfigurada.
  
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

 Aqui, o poeta alude à fruição artística da parte do leitor. O leitor não sente a dor real (inicial), que o poeta sentiu, nem a dor imaginária (dor em imagens) que o poeta imaginou, nem a dor que eles (leitores) têm, mas só a que eles não têm. Isto é, o que o leitor sente é uma quarta dor que se liberta do poema, que é interpretado à maneira de cada um. Há, portanto referência a quatro dores: 1ª) - a dor sentida (real); 2ª) -  a dor fingida pelo poeta; 3ª) -  a dor real do leitor; 4ª) -  a dor lida (dor intelectualizada, que provém da interpretação do leitor e que é objeto da sua fruição, na linha do prazer do texto de Roland Barthes e da perversão de Freud.

 E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

É a conclusão: o coração (símbolo da sensibilidade) é um comboio de corda sempre a girar nas calhas da roda (que o destino fatalmente traçou) para entreter a razão. Há aqui uma referência à função lúdica da poesia, que começa na fruição de que o próprio poeta goza, no ato da criação artística. São aqui marcados os dois polos em que se processa a criação do poema: o coração (as sensações donde o poema nasce) e a razão (a imaginação onde o poema é inventado). Fecha-se neste fim do poema como que um círculo cuja linha limite marca uma pista sem fim em que nunca se esgota a dinâmica do jogo sensação-imaginação.

 GUILHERME DE ALMEIDA:

Tudo muda, tudo passa,
neste mundo de ilusão:
vai para o céu a fumaça,
fica na terra o carvão.

A poesia transcendental de G. de A. mostra a antítese entre a vida e a morte. É o “revertere ad locum tuum”.

 J.G.DE ARAÚJO JORGE:

Rosas tolas, tão vaidosas,
que em belas hastes vicejam...
Vem, amor, olha estas rosas,
quero que as rosas te vejam!

 O poeta antecipa ao leitor a beleza maior de sua amada e está nisso a grandeza e o encanto da trova de J.G.
   
 NEWTON VIEIRA:

Ficou mais lento o meu passo?
Caminharei, mesmo assim!
Só temeria o cansaço
se me cansasse de mim...

A repetição do radical presente no deverbal “cansaço”, espelhado no verbo “cansasse”, com a aliteração do fonema / s / nos vocábulos “passo”, “assim”, “só”, “cansaço”, “se”, “cansasse”, dão ao pequeno poema a sensação de um ritmo arrastado, unindo forma e significação a essa sugestiva forma de poesia, a trova. 

 RAUL DE LEONI:

Duas almas deves ter...
é um conselho dos mais sábios:
uma no fundo do ser,
outra boiando nos lábios.

Raul de Leoni é, em geral, um nome desconhecido, porque, parece, não pertence a uma escola de estilo de época definido. Não foi eleito pelo modernismo e foi aplaudido pelo parnasianismo e pelo simbolismo. Raramente é estudado nas escolas de segundo grau e seus textos não caem nos Vestibulares. R. de L. não é parnasiano, não é simbolista, não é modernista. Rodrigo Melo Franco, no prefácio à segunda edição de seu livro Luz Mediterrânea, o caracteriza como ''poeta das ideologias ou das abstrações.'' Sua poesia transfigura a emoção que nasce das ideias e transfigura as ideias que celebram a razão. Raul de Leoni concilia o dionisíaco e o apolíneo, como no ideal nietzschiano. Quem gosta de Alberto Caeiro e de Ricardo Reis (de Fernando Pessoa), tem uma boa chance de apreciar Raul de Leoni.

E fechando esta apresentação, fiquemos com os poemas de Mário Quintana:
 - I -

(Quadra em decassílabos)

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

As rimas preciosas do primeiro verso com o terceiro, e do segundo verso com o quarto dão à quadra, formada por decassílabos, uma formatação primorosa, podendo-se classificá-la como magistral.

- II -

POEMINHO DO CONTRA

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Esse conhecidíssimo poema de Mário Quintana pode ser classificado como um perfeito estranhamento poético. O estranhamento em literatura consiste em ser criado um texto para nos distanciar da forma como apreendemos ver o mundo e a própria arte, fato que só o olhar estético pode visualizar. É uma forma de se desfamiliarizar os objetos e os fatos, reconstruindo-os estruturalmente com mais sofisticadas e trabalhosas formas linguísticas, passíveis de percepção, pois o processo de entendimento estético é um fim em si mesmo e deve ser prolongado. Indicamos a leitura de  Vicktor SHKLOVSKY,  (1893-1984. “A arte como processo”. Para uma tomada rápida a respeito desse assunto, consultar Tzvetan TODOROV, in, "Teoria da Literatura", I, Lisboa: Edições 70, 1999. Desta forma, um estranhamento da linguagem força os indivíduos a reconhecer que existe uma outra linguagem, a artística: ou seja, a que vai eliminar, na tradução simbólica,  o automatismo da percepção. Seu objetivo é o de criar uma visão que resulta de um entendimento (des)automatizado das coisas. O estranhamento tira de cena a familiaridade das coisas com ou sem os componentes linguísticos que constituem a narrativa. Machado de Assis, em Esaú e Jacó, diz que “a ocasião faz o furto, o ladrão já nasce feito”, contrariando o ditado popular de que a ocasião faz o ladrão. Portanto, vê-se que o “texto literário escapa das medidas do previsível, fala do mundo mediante uma imagem do mundo, permitindo a apreensão do real pela imaginação”. É o que faz Mário Quintana, nesta escritura, Poeminho do Contra. O poeta conjuga a forma verbal do verbo PASSAR, “eles passarão”, completando o sentido dos dois primeiros versos e termina com o estranhamento “Eu passarinho”, fundindo os radicais do verbo e do substantivo numa conjugação insólita, improvável, desconstruindo a linearidade do signo linguístico (Saussure), onde o substantivo “passarinho” se torna verbo por deter o radical de PASSAR, porque,  ao mesmo tempo, contém um possível sufixo nominal, diminutivo, INHO, em situação de oposição, por comutação, ao imaginário, também sufixo, aumentativo, ÃO, de “Eles passarão”.

ATÉ A PRÓXIMA

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.