Quantos me visitaram ?

27 de fevereiro de 2007

UMA CIDADE DO VALE DO CONTESTADO





Quando entrei na sauna do hotel, não sei por que, percebi que poderia encontrar por lá meu fantasma amigo. Tinha-o deixado em Marcelino Ramos, pequena cidade do Rio Grande do Sul, às margens do rio Uruguai e que faz divisa com Santa Catarina, distante uns vinte quilômetros de Piratuba, onde eu estava confortavelmente hospedado. Cheguei em Marcelino Ramos por uma estrada de terra batida, sempre beirando o rio do Peixe até o mesmo desaguar no rio Uruguai. Passa-se para a outra margem por uma ponte rodoferroviária, trabalhada em ferro rendado, fechada em cima, como um casulo de aço escuro, deixando no ar a admiração do viajante. Fora pela manhã visitar a cidadezinha gaúcha que possui também bonito balneário de águas quentes e minerais. Deixei meu hialino amigo no Cemitério Municipal para tentar encontrar algum conhecido dos tempos dos desbravadores daqueles sítios. Sabia que ele iria gostar de percorrer os corredores sombrios do Seminário de Nossa Senhora de Salete, pois me havia falado, há alguns dias, de uma instituição homônima nos Alpes franceses, com duas casas de vocações sacerdotais, que poderiam perfeitamente estar ligadas, por laços afetivos, à sua vida ou, talvez, à sua morte, não sei bem. Sempre me confundo ao lidar com meu transparente amigo. Disse-lhe que obtivesse o maior número possível de informações sobre o município gaúcho e até uma biografia resumida da pessoa que, atualmente, dá nome à cidade. Voltei para Piratuba. Almocei, tirei uma soneca, fui para as piscinas mornas do Balneário Municipal. Entrei na sauna a vapor do hotel. Não havia viva alma nas salas de repouso. O cano que saia da caldeira lançava vapor branco bem quente pelas brechas da porta de alumínio. Entrei. Senti a presença de meu esbranquiçado amigo e começamos a conversar, convencionalmente, pois se alguém entrasse nada de anormal perceberia, pois o branco do vapor se confundiria com o seu corpo esvoaçante. Ali, fumaças e fantasmas combinavam harmoniosamente e o ambiente úmido mascarava tudo. Ele me disse que conseguira o que lhe pedi, e me entregaria o relatório, à noite, em meu quarto. Pediu licença para se retirar, porque havia se emocionado muito ao rever alguns de seus etéreos parentes, lá no interior da gruta do Mosteiro. Com um chamado, aparentemente mágico, havia conclamado grande parte da família do ramo português do Algarves, para conhecer aquela organização tropical da ordem religiosa francesa. Coisas esquisitas de fantasma, pensei eu. Aceitei sua ponderação e, deixando para trás aquele ambiente enfumaçado, terminei meu delicioso banho, com uma magnífica massagem, aplicada por uma especialista em Ayurveda, o relaxante conhecimento da vida. De madrugada ele apareceu e me entregou o relatório. Um longo pergaminho em estado de palimpsesto, com uma escrita bem cuidada. Estava primoroso. Vamos esperar para ver as histórias que meu amigo conseguiu de Marcelino Ramos, na cidade que o homenageia.
Bem, a cidade de Piratuba tem seu nome preso à língua tupi, pois deriva de “pira”, peixe e “tuba” sufixo que dá a idéia de quantidade. Teve início em 1910, com a construção da estrada-de-ferro São Paulo – Rio Grande do Sul.
Foram dias magníficos os que passei por lá. No fim do sétimo dia de merecido descanso acenei para meu esbranquiçado amigo que pegou carona numa nuvem branquinha e foi se reunir com seus antepassados, alguns deles responsáveis pelas obras de engenharia da empresa “Brazil Railway”, desbravadora daquela linda região, há muitos anos atrás.


ATÉ BREVE

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.